Por que blocos de Carnaval em Fortaleza morrem quando fazem sucesso? Especialistas comentam

TRISTE DESTINO

Por que blocos de Carnaval em Fortaleza morrem quando fazem sucesso? Especialistas comentam

Não é de hoje que o poder público não consegue acompanhar o crescimento das manifestações espontâneas do nosso Carnaval

Por Tribuna do Ceará em Carnaval

10 de Janeiro de 2018 às 07:00

Há 6 meses

Bloco Bode Beat herdou foliões que perderam os blocos que ficaram pelo caminho. (FOTO: Luiz Alves)

Por Crisneive Silveira

Quem é da lira, não pode negar! Se tem uma coisa pela qual o cearense é apaixonado é o Carnaval. E ninguém esconde isso. Está nítido na empolgação, nas festas que já começam no primeiro fim de semana do ano, até antes.
Em 2018, o Bloco Glitter, um dos maiores de Fortaleza, cancelou as atividades com menos de um ano de existência, após relatos de violência no sábado (6), em sua primeira festa do ano, no Mercado dos Pinhões. Blocos como Sanatório Geral e Quem é de Bem Fica também morreram em seu momento de auge. O Tribuna do Ceará ouviu especialistas para saber por que blocos de sucesso no Carnaval de Fortaleza têm esse destino?

O carnaval de rua de Fortaleza, que vinha recuperando a tradição dos bloquinhos, sente o peso de seu crescimento. A falta de estrutura e de segurança, além da lotação com públicos diversos, são alguns dos motivos que recentemente têm posto fim às agremiações que surgem espontaneamente nas ruas. Mas isso não é exclusividade do tempo presente.

Nirez de Azevedo, memorialista e dono de uma das maiores coleções de disco de cera do Brasil, relembra os carnavais da cidade na década de 1960. Ele fala da tradição da orquestra e conta que a influência do samba carioca interferiu na cultura fortalezense em outros carnavais.

“Zombando da Lua e Garotos do Frevo foram blocos forçados a deixar o Carnaval porque a prefeitura passou a transformar tudo em escolas do Rio de Janeiro. Passou a premiar comissão de frente, porta-bandeira, mestre sala. Isso foi na década de 1960. E eles não tinham nada disso, só tinham orquestra. Aí, acabou com os blocos. Esse decreto da prefeitura queria transformar os blocos em escola de samba. E aí, nós ficamos com esse Carnaval falso que tem aí. Porque escola de samba e bateria não é nosso”, analisa Nirez.

O historiador Airton de Farias, autor de diversos livros que tratam da história do Ceará, relembra do Quem É de Bem Fica, nos anos 90, e de como sua história se parece com a do Bloco Glitter.

“O Carnaval de rua o poder público tornou institucional. Como proposta de Carnaval, ainda falta estrutura de apoio maior, ainda tem os casos de violência. Na minha época, isso nos anos 1990, quando ainda fazia faculdade, havia o Quem é de Bem Fica e outros blocos, que acabaram por causa da violência. Também tinha muita gente, carro de som que não era da festa”, relembra Airton. 

Para o crítico musical Luciano Almeida Filho, o poder público local tem dificuldade de acompanhar a espontaneidade das manifestações espontâneas do Carnaval de Fortaleza, o que com o tempo acarreta em falta de estrutura para blocos e brincantes que curtem os grupos de sucesso.

“Não há um apoio necessário para manifestações espontâneas. Só dá certo se for tudo organizadinho, festa privada. Quando há uma manifestação espontânea, há uma dificuldade imensa de resposta do poder público”, indica Luciano.

“Foi mais ou menos o que aconteceu com o Sanatório Geral, um dos blocos mais criativos e espontâneos. Ficou popular demais e não teve condições de oferecer um nível de segurança para os brincantes e moradores. Os blocos querem o congraçamento dos foliões com a comunidade local, não é algo de cima para baixo. Foi o mesmo com o Quem é de Bem Fica”, indica Luciano.

Fundador do bloco Enviados de Alá, um dos sucessos na década de 1970 no Carnaval de Fortaleza, o carnavalesco e contador aposentado Moacir Pamplona Bedê, de 90 anos, reflete que a violência está acabando com a festa.

“Hoje, o Carnaval é diferente. Deixou de ser um prazer. Estou com 90 anos e queria ir ao pré da Mocinha, mas vi a notícia no jornal (o caso de um folião morto ao reagir a um assalto, no primeiro fim de semana de 2018). A violência está tirando esse prazer”, destaca Moacir.

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Não é de hoje que o poder público não consegue acompanhar o crescimento das manifestações espontâneas do nosso Carnaval

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10 de Janeiro de 2018 às 07:00

Há 6 meses

Bloco Bode Beat herdou foliões que perderam os blocos que ficaram pelo caminho. (FOTO: Luiz Alves)

Por Crisneive Silveira

Quem é da lira, não pode negar! Se tem uma coisa pela qual o cearense é apaixonado é o Carnaval. E ninguém esconde isso. Está nítido na empolgação, nas festas que já começam no primeiro fim de semana do ano, até antes.
Em 2018, o Bloco Glitter, um dos maiores de Fortaleza, cancelou as atividades com menos de um ano de existência, após relatos de violência no sábado (6), em sua primeira festa do ano, no Mercado dos Pinhões. Blocos como Sanatório Geral e Quem é de Bem Fica também morreram em seu momento de auge. O Tribuna do Ceará ouviu especialistas para saber por que blocos de sucesso no Carnaval de Fortaleza têm esse destino?

O carnaval de rua de Fortaleza, que vinha recuperando a tradição dos bloquinhos, sente o peso de seu crescimento. A falta de estrutura e de segurança, além da lotação com públicos diversos, são alguns dos motivos que recentemente têm posto fim às agremiações que surgem espontaneamente nas ruas. Mas isso não é exclusividade do tempo presente.

Nirez de Azevedo, memorialista e dono de uma das maiores coleções de disco de cera do Brasil, relembra os carnavais da cidade na década de 1960. Ele fala da tradição da orquestra e conta que a influência do samba carioca interferiu na cultura fortalezense em outros carnavais.

“Zombando da Lua e Garotos do Frevo foram blocos forçados a deixar o Carnaval porque a prefeitura passou a transformar tudo em escolas do Rio de Janeiro. Passou a premiar comissão de frente, porta-bandeira, mestre sala. Isso foi na década de 1960. E eles não tinham nada disso, só tinham orquestra. Aí, acabou com os blocos. Esse decreto da prefeitura queria transformar os blocos em escola de samba. E aí, nós ficamos com esse Carnaval falso que tem aí. Porque escola de samba e bateria não é nosso”, analisa Nirez.

O historiador Airton de Farias, autor de diversos livros que tratam da história do Ceará, relembra do Quem É de Bem Fica, nos anos 90, e de como sua história se parece com a do Bloco Glitter.

“O Carnaval de rua o poder público tornou institucional. Como proposta de Carnaval, ainda falta estrutura de apoio maior, ainda tem os casos de violência. Na minha época, isso nos anos 1990, quando ainda fazia faculdade, havia o Quem é de Bem Fica e outros blocos, que acabaram por causa da violência. Também tinha muita gente, carro de som que não era da festa”, relembra Airton. 

Para o crítico musical Luciano Almeida Filho, o poder público local tem dificuldade de acompanhar a espontaneidade das manifestações espontâneas do Carnaval de Fortaleza, o que com o tempo acarreta em falta de estrutura para blocos e brincantes que curtem os grupos de sucesso.

“Não há um apoio necessário para manifestações espontâneas. Só dá certo se for tudo organizadinho, festa privada. Quando há uma manifestação espontânea, há uma dificuldade imensa de resposta do poder público”, indica Luciano.

“Foi mais ou menos o que aconteceu com o Sanatório Geral, um dos blocos mais criativos e espontâneos. Ficou popular demais e não teve condições de oferecer um nível de segurança para os brincantes e moradores. Os blocos querem o congraçamento dos foliões com a comunidade local, não é algo de cima para baixo. Foi o mesmo com o Quem é de Bem Fica”, indica Luciano.

Fundador do bloco Enviados de Alá, um dos sucessos na década de 1970 no Carnaval de Fortaleza, o carnavalesco e contador aposentado Moacir Pamplona Bedê, de 90 anos, reflete que a violência está acabando com a festa.

“Hoje, o Carnaval é diferente. Deixou de ser um prazer. Estou com 90 anos e queria ir ao pré da Mocinha, mas vi a notícia no jornal (o caso de um folião morto ao reagir a um assalto, no primeiro fim de semana de 2018). A violência está tirando esse prazer”, destaca Moacir.