Textos escolhidos Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Textos escolhidos

No Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, uma reflexão sobre a deficiência na política

Por Wanfil em Textos escolhidos

03 de dezembro de 2018

Aproveito este dia 3 de dezembro, Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, para indicar o site Eficiência e Superação. Em particular, um o texto do jornalista Edson Gomes, com um pertinente levantamento sobre a participação de pessoas com deficiência nas eleições do Ceará em 2018:

Por que nenhuma das seis pessoas com deficiência que se candidataram no Ceará foram eleitas?

Vale a reflexão. É um assunto muito abordado nas campanhas, mas que depois se perdem em meio a outras questões colocadas como prioridades. Para uma pessoa comum entender um pouco o que significam políticas de acessibilidade, por exemplo, basta um rápido período com uma perna imobilizada, ou mesmo outro incidente que a coloque em cadeira de rodas. Ir ao banheiro se transforma em pesadelo. Entrar em prédios ou subir andares pode ser impedimento para importantes obrigações e tarefas.

Segundo a matéria, “o Ceará tem cerca de 1,4 milhão de PcDs (incluídas deficiências físicas e intelectuais), das quais cerca de 300 mil só em Fortaleza“. Mesmo assim, nenhum candidato ligado a esse tema conseguiu ir bem. No texto, alguns deles falam sobre isolamento, desconfiança, falta de estrutura e apoio.

Os depoimentos são reveladores:

“O partido optou por não visibilizar a nossa pauta, desconhecendo, também, nosso potencial eleitoral.”

“Havia uma rejeição enorme de todos os grupos de cadeirantes da cidade e virtuais, os quais procurei ajuda”

“Difícil romper esse atual sistema, é quase uma muralha intransponível, principalmente no interior, onde famílias tradicionais tornaram a política um negócio, e vêm se alternando no poder ao longo de muitas gerações.”

Uma boa dica para os candidatos com deficiência é unir forças e desde logo procurar atuar junto a entidades ligadas a sua causa. A política, feita longe dos arranjos de gabinete, requer mais do que vontade individual, mas capacidade de envolvimento e disposição para escolher bons nomes que possam ser competitivos nas eleições.

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Bons textos não envelhecem: Ser Poeta – Florbela Espanca

Por Wanfil em Textos escolhidos

17 de Março de 2014

Flor Bela de Alma da Conceição Espanca. OU simplesmente Florbela Espanca. Para arejar o blog.

Flor Bela de Alma da Conceição Espanca. OU simplesmente Florbela Espanca. Para arejar o blog.

Retomo o blog após uma pausa forçada, com mais um post da série “Bons textos não envelhecem”, com a qual, vez por outra, procuro arejar o blog. Lufadas de inteligência para limpar os miasmas da pesada atmosfera dos vícios da política e dos problemas do cotidiano. A vida é mais do que truques e armadilhas, é paixão, é também entrega, é buscar a nossa própria essência individual.

Abaixo, reproduzo um texto da poetisa Florbela Espanca, cujo nome de batismo já era em si uma poesia: Flor Bela de Alma da Conceição Espanca. Portuguesa de vida e texto audaciosos, marcada pelo temperamento depressivo. Apesar dos infortúnios de Florbela (quem não os tem?), aprendi com meu saudoso pai a admirá-la em seu ofício: as letras. Escritora de técnica precisa, mestre das regras e das métricas poéticas, intensa, sonetista como poucos na língua portuguesa. No domínio de sua lira, a mulher foi maior do que as angústias que lhes abreviou a vida (matou-se aos 36 anos, em 1930).

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
é condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

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Bons textos não envelhecem: Lisbon Revisited (1923) – Álvaro de Campos

Por Wanfil em Textos escolhidos

19 de agosto de 2012

Vamos lá. Domingo é dia de arejar o blog. Reproduzo abaixo um dos textos preferidos de Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935). Faço alguns comentários ao final.

O poeta Fernando Pessoa, retratado em tela do também português Júlio Pomar

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas.
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! Leia mais

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O mensalão e A Implosão da Mentira

Por Wanfil em Textos escolhidos

04 de agosto de 2012

Affonso Romano de Sant’Anna

Nos finais de semana o blog costuma abordar temas ligados à literatura ou ao cinema. Dicas de livros e filmes, citações de pensadores e afins. São como aberturas de ventilação que servem para arejar o ambiente carregado do noticiário.

No entanto, vez por outra, a notícia em evidência de um período casa tão bem com alguma forma de arte, que a associação é impossível de ser ignorada.

Nesta semana, como todos sabem, após sete anos de espera, teve início o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal, o maior caso de corrupção de nossa história. Apresentada a acusação pelo Procurador Geral da República, chega a hora da defesa dos réus se pronunciar. O contraste entre a fartura de indícios e provas com a alegação de inocência dos envolvidos me fizeram lembrar o poema A Implosão da Mentira, de autoria do mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, publicado em jornais no ano de 1980 e posteriormente em livro. Leiam e vejam como o texto – feito como crítica aos governos militares – permanece atual.

A implosão da mentira

Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Leia mais

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O mensalão e A Implosão da Mentira

Por Wanfil em Textos escolhidos

04 de agosto de 2012

Affonso Romano de Sant’Anna

Nos finais de semana o blog costuma abordar temas ligados à literatura ou ao cinema. Dicas de livros e filmes, citações de pensadores e afins. São como aberturas de ventilação que servem para arejar o ambiente carregado do noticiário.

No entanto, vez por outra, a notícia em evidência de um período casa tão bem com alguma forma de arte, que a associação é impossível de ser ignorada.

Nesta semana, como todos sabem, após sete anos de espera, teve início o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal, o maior caso de corrupção de nossa história. Apresentada a acusação pelo Procurador Geral da República, chega a hora da defesa dos réus se pronunciar. O contraste entre a fartura de indícios e provas com a alegação de inocência dos envolvidos me fizeram lembrar o poema A Implosão da Mentira, de autoria do mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, publicado em jornais no ano de 1980 e posteriormente em livro. Leiam e vejam como o texto – feito como crítica aos governos militares – permanece atual.

A implosão da mentira

Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

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