resenha Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

resenha

Leitura: O velho e o mar

Por Wanfil em Livros

13 de novembro de 2016

ernest-hemingway-o-velho-e-o-marComo falar de heroísmo, no sentido universal, a partir de um personagem que não salva ninguém além de si mesmo e cujo maior feito não é testemunhado por ninguém? De que forma um livro escrito por uma autor que viria a cometer suicídio pode deixar uma mensagem de esperança e amor à vida? Essas foram contradições, ou aparentes contradições, que fervilharam no meu pensamento após ler O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Especialmente quando o heroísmo, o estoicismo e a esperança são tratados de modo tocante como poucas vezes se viu em qualquer obra.

Santiago, um velho pescador cubano, sai para o mar com o espírito abatido por quase três meses sem conseguir fisgar um peixe grande. Mas ele não desiste. Sozinho, mantém firme o compromisso íntimo consigo mesmo e com o seu ofício. Pescar é sua vida, sua missão. Nesse dia, porém, a sorte parece virar e Santiago consegue fisgar um descomunal espadarte. A luta e a técnica, a espera, a paciência, o jogo entre presa e homem, se desenrolam enquanto o pequeno barco se distancia da costa.

velho-e-o-mar-gravuraPor mais de dois dias Santiago trava uma batalha com um imenso espadarte. Há respeito entre o pescador e o animal. Existem também perigos: a fome, a exaustão, a idade, as feridas nas mãos e os tubarões. E Santiago não entrega os pontos. Nem ele nem o mar.

Sem ninguém com quem falar, Santiago conversa consigo mesmo, às vezes em voz alta. A certa altura diz para si: “Um homem pode ser destruído, mas não derrotado”. É o tipo de esperança capaz de resistir a tudo. O pescador tem um compromisso com o estar no mundo e a ele se aferra com dignidade heroica. Homem simples, de formação limitada, o velho sabe que é parte de um todo imenso, cuja parcela que ele representa tem sua importância.

Num mundo onde todos se expõem nas redes sociais com notável imprudência, onde a busca pelo reconhecimento supera a noção de servir e onde a intolerância se disfarça de preocupação humanista, onde todos querem mudar todos, a leitura de O velho e o mar ganha relevância de alerta: as lutas mais difíceis, as fundamentais, são solitárias e não rendem glórias e aplausos, apenas silêncio. São internas. Hemingway ganhou o Nobel de Literatura com um livro simples e curto, de impactante beleza em sua sintaxe direta e desprovida de floreios, escrito com dignidade, como missão.

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Afinal, o que você quer da vida? – resenha de Vozes da Rua, de Philip K. Dick

Por Wanfil em Livros

07 de junho de 2014

Philip K. Dick: Em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

Philip K. Dick: em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

O escritor norte-americano Philip K. Dick (1928 – 1982) é referência mundial em ficção científica. Seus livros deram origem a grandes sucessos do cinema como Blade Runner, Minority Report, Total Recall (que no Brasil é ficou conhecido com o tosco nome de O Vingador do Futuro), O Homem Duplo, Os Agentes do Destino, entre outros.

O que poucos sabem é que os primeiros livros de Dick não eram sobre ficção científica, gênero que, assim como o policial, não tem grande reconhecimento na crítica literária, salvo algumas exceções, claro. Estudante de filosofia, Philip aspirava a algo mais, digamos, clássico.

Dizem seus biógrafos que seu início de carreira é marcado por um pendor autobiográfico, mas nunca procurei saber mais. Assim como a maioria, o que me interessava mais eram seus escritos famosos. Até que um dia, não faz muito tempo, esbarrei numa livraria com Vozes da Rua, oferecido numa promoção por R$10,00, dessa fase pré-ficção científica de Dick. Não resisti, arrisquei e consegui uma bela surpresa ao conhecer a história de Stuart Hadley, um jovem bonito, bem casado e com um filho recém nascido, com carreira promissora no comércio, morador de um bairro típico de classe média dos EUA nos anos 1950. Mas algo o angustiava e nada preenchia sua busca por um sentido para a vida. Stuart encarna à perfeição o lamento de Vinícius de Morais: “É claro que te amo/E tenho tudo para ser feliz/Mas acontece que eu sou triste…”.

Em busca de uma razão maior, aspirando a grandes feitos, o personagem procura dar vazão às suas frustrações na bebida, em outra mulher, na religião e no trabalho. Nada o satisfaz como deveria. Fica claro que a doença da moda no século XXI, a depressão, cercava o Stuart de meados do século XX.

Vozes-da-Rua-Philip-K-DickA narrativa alterna momentos intensos com outros mais arrastados. Provavelmente a intenção do autor foi contrastar o tédio de uma existência programada com o desejo por novidades. A linguagem é direta e os personagens são poucos. O final, adianto sem prejuízo a leitura, não é feliz, mas também não é trágico. Não há grandes lições de moral, muito menos a pretensão arrogante de deixar ao leitor um ensinamento edificante, no estilo autoajuda. Nada. A mensagem é seca, dura, e nos faz pensar sobre nossa relação com o cotidiano, com o que somos e o que queremos. Convida o leitor a um exercício de autopercepção, o que não é nada fácil para quem deseja ouvir apenas elogios ou conselhos baratos.

A meu ver – e isso é uma impressão particular, depreendida da leitura e adaptada às minhas vicissitudes -, Vozes da Rua fala sobre o desencontro entre vocação e trabalho, entre a realidade e os devaneios que podemos alimentar. Principalmente, um desequilíbrio profundo entre altruísmo e egoísmo. Você faz o gosta ou apenas busca a segurança de um trabalho sem sentido para você? Sabe pelo menos o que deseja fazer? Vive com quem lhe faz bem ou procura companhias que podem levá-lo a um espiral de autodestruição? Se conforma com tudo por vontade própria ou por sugestão/imposição das “vozes da rua”? Pensar nos outros lhe parece um fardo ou um alívio? As respostas para essas indagações podem ser fáceis de dizer em público, quando todos procuram se mostrar felizes e adaptados. Mas no íntimo de cada um, são questões que se colocam diariamente e sobre as quais podemos mudar de opinião, dependendo do período.

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O Homem que Ri

Por Wanfil em Cinema

08 de Maio de 2013

Compartilho com vocês uma resenha que fiz para o site Tribuna do Ceará, por ocasião da cobertura do ‘Festival de Cinema Francês’ que acontece em Fortaleza.

O Homem que RiO Homem que Ri (L’homme qui rit, 2012) de Jean-Pierre Améris. Elenco: Gérard Depardieu, Marc-André Grondin e Emmanuelle Seigner.

*Por Wanderley Filho

Adaptação do romance homônimo de Victor Hugo, a obra, ambientada no Século XVII com uma produção esmerada, apresenta boa reconstituição de época e um belo jogo de luzes e sombras. O livro já havia sido levado para o cinema em 1928, num filme mudo americano dirigido pelo expressionista alemão Paul Leni.

O Homem que Ri Conta a história de Gwynplaine (Marc-André Grondin), que ainda criança é sequestrado durante uma rebelião comandada por seu pai, um poderoso nobre, e tem o rosto desfigurado a mando do rei. Como resultado da trágica ação, o menino tem a face talhada com duas enormes cicatrizes nos cantos da boca que lhe conferem um eterno e sombrio sorriso. Pois é, quem imagina que o rosto do vilão Coringa, arqui-rival de Batman, foi uma criação original, fica sabendo que ele se inspirou no doce e meigo personagem de Victor Hugo. Leia mais

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O Homem que Ri

Por Wanfil em Cinema

08 de Maio de 2013

Compartilho com vocês uma resenha que fiz para o site Tribuna do Ceará, por ocasião da cobertura do ‘Festival de Cinema Francês’ que acontece em Fortaleza.

O Homem que RiO Homem que Ri (L’homme qui rit, 2012) de Jean-Pierre Améris. Elenco: Gérard Depardieu, Marc-André Grondin e Emmanuelle Seigner.

*Por Wanderley Filho

Adaptação do romance homônimo de Victor Hugo, a obra, ambientada no Século XVII com uma produção esmerada, apresenta boa reconstituição de época e um belo jogo de luzes e sombras. O livro já havia sido levado para o cinema em 1928, num filme mudo americano dirigido pelo expressionista alemão Paul Leni.

O Homem que Ri Conta a história de Gwynplaine (Marc-André Grondin), que ainda criança é sequestrado durante uma rebelião comandada por seu pai, um poderoso nobre, e tem o rosto desfigurado a mando do rei. Como resultado da trágica ação, o menino tem a face talhada com duas enormes cicatrizes nos cantos da boca que lhe conferem um eterno e sombrio sorriso. Pois é, quem imagina que o rosto do vilão Coringa, arqui-rival de Batman, foi uma criação original, fica sabendo que ele se inspirou no doce e meigo personagem de Victor Hugo. (mais…)