religião Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

religião

Igrejas devem pagar impostos? Congresso pode rever isenção

Por Wanfil em Política

26 de dezembro de 2016

"Dinheiro de César", por Rubens, Século XVII - Jesus já pregava a separação entre Estado e religião

“Dinheiro de César”, por Rubens. Jesus já pregava a separação entre Estado e religião

Recessão prolongada e contas públicas no buraco por causa da irresponsabilidade fiscal da última década forçaram o País a encarar temas graves e sempre adiados, como a reforma da Previdência. É a hora das chamadas “medidas impopulares”, que por sua natureza, causam urticária em políticos. Mas agora, com a ameaça de colapso geral, quando sacrifícios são impostos à população na tentativa de equilibrar a relação entre despesa e receita, não há saída. Nesse ambiente, isenções concedidas a igrejas e suas instituições de ensino devem ser reavaliadas pelo Congresso Nacional, como informa o jornal O Estado de São Paulo desta segunda-feira.

Parece muito justo, afinal, existem igrejas – de vários credos – notadamente ricas, com braços empresariais, negócios imobiliários e diversos outros investimentos. Aliás, o judiciário debate faz algum tempo o uso de igrejas para a prática de crimes como lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e sonegação fiscal.

Uma das alegações para a isenção é o trabalho de assistência que elas fazem, no lugar do estado, embora ninguém saiba ao certo qual a porcentagem dos gastos “caridade” em relação aos investimentos, digamos, mundanos. O cidadão comum, que trabalha para pagar colégio e plano de saúde, atividades que deveriam ser oferecidas com qualidade pelo estado, é cobrado na fonte.

Parece ser o momento adequado para rever essas e outras isenções. Evidentemente, as bancadas religiosas deverão mobilizar-se contra o fim desses privilégios, alegando agir em nome de Deus.

Para refletir sobre o tema, lembro de uma passagem bíblica na qual fariseus mostram a Jesus um moeda e perguntam-lhe maliciosamente, com a intenção de comprometê-lo: “É lícito pagar o tributo a César, ou não?”. Era uma cilada para indispor Jesus diante dos romanos ou dos judeus que protestavam contra os impostos. Este, percebendo-lhes a malícia, habilmente pede uma moeda e pergunta ao grupo: “De quem é esta efígie e esta inscrição? “De César”, respondem. Conclui o Cristo: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

A cada um segundo suas ocupações. César (ou os governos) com seus impostos que servem ao mundo físico, a religião com as questões do espírito.

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O papa e os políticos papões: todos querem faturar com a visita de Francisco

Por Wanfil em Brasil

22 de julho de 2013

A visita do papa Francisco ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude tem causado grande expectativa não somente entre os fiéis católicos, mas também entre políticos de diferentes orientações religiosos e credos ideológicos, que se mostram ansiosos para aproveitar a ocasião para reciclar as imagens desgastadas, intenção disfarçada pela alegação das mais angelicais intenções.

É a procissão que reúne oportunistas que buscam lavar as próprias biografias encardidas com o prestígio do novo papa, reconhecido por sua simplicidade e pelo desapego aos bens materiais.

Até Cristina Kirchner, presidente da Argentina que tinha o religioso como desafeto, vai na onda. Irá com Dilma, ex-militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo revolucionário de orientação marxista-leninista, ou seja, anticristã, falar com o pontífice.

A brasileira irá propor uma “ação articulada contra a pobreza”, associando a opção de Francisco pelos pobres aos projetos assistencialistas do governo. Do ponto de vista intelectual, ligar a formação jesuíta do papa ao surrado discurso de luta de classes é uma fraude, mas no jogo de aparências da política, o compromisso com o conhecimento ou a verdade não é levado em consideração. Pior ainda é tentar associá-la a uma administração com intuito de obter dividendos políticos.

Padre Cícero

Na agenda de reuniões do papa está um encontro com o deputado federal pelo Ceará José Guimarães, líder do PT na Câmara Federal, marcado com o apoio da Presidência da República, no qual o parlamentar fará um apelo em favor do processo de reabilitação do Padre Cícero Romão Batista, expulso da Igreja Católica em 1916.

É evidente que a Igreja Católica não necessita da consultoria teológica de políticos brasileiros, mas uma vez que a intenção é mesmo a de criar factoides, isso pouco importa. Se Padre Cícero for redimido, Guimarães poderá usar a foto do encontro com o papa para reivindicar para eleitores a autoria do feito, na esperança de ofuscar o famoso escândalo da cueca em sua biografia, operando o milagre da redenção política.

Recado preventivo aos políticos

É claro que a Igreja sabe das artimanhas dos políticos. E por isso, preventivamente, o porta-voz do Vaticano, Frederico Lombardi, adiantou ao jornal Folha de São Paulo: “O papa fala sempre que a boa nova do Evangelho é para todos. Não toma partido, fala à consciência de cada um na construção da sociedade. São fortes mensagens de responsabilidade, com acentos sobre a solidariedade e o respeito aos direitos individuais.”

Pois é, para a doutrina católica, a salvação é individual, não de classes. É para o rico e para o pobre, segundo a consciência individual de cada um, independente de posições políticas.

Num país com grande número de católicos, o apelo da visita de um novo papa de perfil popular e carismático é uma tentação irresistível ao pecado da vaidade que seduz tantos políticos. Para Francisco, isso deve ser algo comum, próprio da condição que assumiu, afinal, o papa também é um chefe de Estado. Portanto, receber autoridades seculares com interesses que não são os do espírito, não passa de ossos do ofício.

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Sobre Judas e o preço da traição nos dias de hoje

Por Wanfil em Crônica

30 de Março de 2013

A captura de Cristo - por Caravaggio (1602). O Beijo de Judas durante a Prisão de Jesus. No passado, a traição como crime imperdoável, no presente da política nacional, é garantia de sucesso.

A captura de Cristo – pintura de Caravaggio (1602). O beijo de Judas durante a prisão de Jesus. No passado, a traição vista como crime imperdoável, no presente da política nacional, é garantia de sucesso.

A Semana Santa é uma celebração que, a exemplo do Natal, tem Jesus Cristo por figura principal. No entanto, nesse feriado, o protagonismo do enredo religioso é dividido, por contraste, com o vilão Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Cristo por 30 dinheiros e que por isso há dois mil anos é queimado pelos cristãos.

Desvio rápido

Faço aqui um breve desvio. Na perspectiva formal da técnica narrativa da história de Jesus, Judas cumpre uma missão singular e fundamental, que é a de conferir uma carga dramática adicional e um sentido aos eventos finais da vida do Salvador.  Sem a fraqueza de Judas não haveria o a paixão e o sacrifício de Cristo, peças fundamentais para a estruturação da liturgia e teologia católica. Sem o episódio da traição, Jesus não teria como oferecer a Deus o seu martírio pela salvação dos homens.

Judas poderia ter escolhido a lealdade e o caminho da fé? Pelo princípio do livre arbítrio, sim. Mas se o fizesse, como ficaria a previsão de Jesus, pela qual um dos seus que ali estavam o entregaria aos romanos? De qualquer forma, coube a Judas realizar a profecia, para depois então, atormentado, cometer o suicídio. No fim, não deixa de ser paradoxal: sem Judas não haveria Semana Santa.

A simbologia da traição

Deixando essas ponderações de lado e voltando ao roteiro inicial do raciocínio que me fez escrever este post, fico a pensar no valor simbólico de Judas em nossa cultura atual, especialmente no campo da política, onde a traição é quase uma regra.

Se no plano religioso Judas encarna o repúdio ao que é vil e desonesto, no plano material da vida secular essa aversão não se incorporou, pelo menos entre nós brasileiros, como um valor moral de amplo espectro, capaz de atuar ativamente sobre outras esferas da vida comum. Na verdade, costumamos a ser bem tolerantes com certos vícios, alguns dos quais apelidamos carinhosamente de “jeitinho”.

Quantos traidores não estão por aí alegres e faceiros, muito bem colocados nos mais altos postos da República e do Estado, vendendo diariamente a confiança que lhes fora depositada pelos eleitores? Na Assembleia Legislativa do Ceará, por exemplo, deputados diretamente envolvidos em escândalos de fraudes e desvios de verbas destinadas à população mais pobre não apenas continuam a ser eleitos e reeleitos, mas gozam de prestígio incomum. Em Brasília, uma figura basta para personalizar, como síntese, a apoteose de crimes que prospera na vida pública nacional: Renan Calheiros. Não é o único, mas é o mais bem sucedido.

Existem ainda as traições de valor intelectual e ideológico, perfeitamente representadas na pessoa do ex-presidente Lula da Silva, o socialista (construção forçada) que, uma vez eleito, aderiu a tudo quanto criticava, de questões econômicas a condutas éticas. Ao contrário da saga cristã, a traição faz bem aos políticos brasileiros

Judas e os traidores do presente

Não podemos generalizar, claro, mas são muitos os que agem assim sem que nada façamos para queimá-los na fogueira do repúdio ao que é imoral. Pelo contrário, não é incomum a crucificação dos mais honestos, nessa terra de traidores, romanos e os fariseus.

Comentei na rádio Tribuna BandNews sobre os muitos Judas que atuam no presente. Mas agora, ao traçar estas linhas, mudei de ideia. A comparação entre o apóstolo caído e os farsantes de hoje é uma injustiça com o primeiro. É que com seu ato deplorável, Judas Iscariotes acabou por contribuir, ainda que por caminhos tortos, com a consolidação da doutrina cristã, e uma vez arrependido do mal que praticou, penitenciou a si mesmo com a mais dura das penas. Já da roubalheira de verbas públicas que se fez cultura nacional, nada de positivo se aproveita ou se levanta, nem mesmo a indignação de quem é roubado. Não há arrependimentos e muito menos punições exemplares. Entre nós, não há redentores.

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Ação quer impedir construção de estátua de santa no Crato. Sou contra.

Por Wanfil em Ceará

01 de Março de 2013

Parece fácil traçar uma linha separando completamente Estado e religião. A moral religiosa está inserida até nas leis, e isso não é ruim.

Parece fácil traçar uma linha separando completamente Estado e religião, mas isso é uma ilusão. É que não existe sociedade laica.

Pelo Twitter perguntam o que penso da seguinte notícia: Ministério Público tenta impedir construção de monumento religioso com dinheiro público no Crato. Para quem é de fora, Crato fica na região sul do Ceará, conhecida como Cariri, e é vizinha à cidade de Juazeiro do Norte, conhecida pela romaria de devotos do padre Cícero, que nem santo é, mas que tem uma estátua de grande estatura.

Religião X Estado laico

Não vou me ater a questões de cunho jurídico ou administrativo eventualmente presentes no caso. Se existem pendências ou desconfianças sobre a lisura do empreendimento, que se faça rigorosa investigação. No entanto, a Procuradoria de Justiça, de acordo com notícia publicada no blog Polítika, entende que “o fato de ser utilizado recurso público para a construção de monumento com cunho religioso ‘lesa frontalmente’ o Estado Democrático de Direito”. Esse é o ponto que me interessa: a interpretação sobre o caráter do Estado laico. É uma questão delicada. Não faz muito tempo, quando um procurador quis retirar a expressão “Deus seja louvado” das cédulas de real, escrevi o post Estado laico é diferente de ateísmo oficial, cujo trecho reproduzo:

Com efeito, Estado laico é aquele que não permite que perseguições sejam feitas em nome de uma religião ou de uma crença. Essa concepção não corresponde a um suposto Estado ateu ou agnóstico, que nega, prescinde ou mesmo despreza a dimensão espiritual de seu povo. (…)  Sim, o Estado brasileiro é laico, não tem religião oficial, mas não renega a importância da religiosidade como traço inerente à cultura nacional.

Indo um pouco mais além, o Estado nem sequer obriga que as pessoas tenham religião, como já aconteceu no passado ou como acontece hoje em algumas teocracias orientais. A rigor, é impossível imaginar uma separação completa entre religião e o aparelho secular, pois estes estão umbilicalmente ligados. Praticamente todos os preceitos morais que norteiam a legislação possuem gênese nos códigos religiosos. Seria o caso de revogar a pretensão igualitária, conceito de inspiração cristã, de nossa Constituição?

Aspectos históricos, sócio-culturais e econômicos

Mas Wanfil, você está exagerando. Uma coisa é o aspecto filosófico de uma lei, outra é gastar dinheiro público com uma estátua de Nossa Senhora de Fátima. Certo, Vamos lá. Ninguém gosta de ver seus impostos aplicados em obras cujas justificativas que não lhes dizem respeito. Eu, por exemplo, não concordo com a realização da Copa no Brasil e não ando em estádios, mas mesmo assim patrocinei a construção do novo Castelão, em Fortaleza. Prevaleceram a vontade da maioria, o interesse econômico, incluindo aí o incremento do  fluxo turístico, e a questão cultural: futebol é a maior religião pagã do Brasil.

No Carnaval (festa da qual não gosto), dinheiro público financia desfiles que celebram personagens e crenças de religiões de origem africana. Seria o caso de vigiar o conteúdo dos enredos? O mesmo se dá com o Natal, quando as cidades se enfeitam. O que parece simples, como vemos, vai se complicando. O que vale, nessas ocasiões, é fazer do evento algo que seja de interesse geral, dentro das melhores práticas econômicas, sociais e administrativas. Leia mais

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Estado laico é diferente de ateísmo oficial

Por Wanfil em Brasil

17 de novembro de 2012

Polêmica sobre expressão ‘Deus seja louvado’ nas cédulas de real busca a negação da incorporação de valores religiosos como valores culturais de um povo. Algo impossível de ser feito.

As divergências sobre expressões de natureza religiosa em instituições ou bens públicos vez por outra geram polêmicas na imprensa e nos tribunais. Agora foi um procurador da República em São Paulo, que na última semana solicitou à Justiça Federal a retirada da expressão ”Deus seja louvado” das cédulas de real. O principal argumento para o pedido, como sempre acontece nesses casos, é a preservação do caráter laico do Estado brasileiro. Parece uma formulação lógica, e no entanto, trata-se de mais um episódio a evidenciar a confusão que prevalece na hora de pensar a relação entre religião e o poder secular.

Evolução

Na Idade Média, durante o período da Inquisição, os Tribunais do Santo Ofício criados pela Igreja Católica julgavam e geralmente condenavam pessoas acusadas de heresia, para que depois o Estado os punisse até com a morte. Nessa época, a simbiose entre religião e Estado criou uma cultura de intolerância que culminou na legalização da perseguição em nome de um credo.

Assim, o grande avanço nas democracias ocidentais, obtido no rastro das transformações iluministas, foi justamente a ideia de Estado laico, ou seja, independente da religião. Mas é preciso observar que essa divisão – do ponto de vista filosófico que a permitiu ser formulada – não significa a negação da religião como elemento constitutivo de uma nação. O argumento estritamente religioso, a partir de então, deixou de ser a base da legislação, como acontece nos estados teocráticos. Para os laicos, a Constituição garante a igualdade de todos perante as instituições do Estado. Para os teocráticos, são os textos sagrados que prevalecem, em detrimento dos que não comungam da fé professada pelo Estado.

Religião e cultura

Com efeito, Estado laico é aquele que não permite que perseguições sejam feitas em nome de uma religião ou de uma crença, como o ateísmo. Essa concepção não corresponde a um suposto estado ateu ou agnóstico, que nega, prescinde ou mesmo despreza a dimensão espiritual de seu povo. Pelo contrário, cabe ao laicismo garantir que diferentes religiões coexistam pacificamente, com plena liberdade de expressão, sem ignorar que as religiões são a base da civilização. O Direito à vida, ou mesmo o conceito de igualdade, não são verdades naturais, ou seja, expressas por ciências exatas. São valores morais nascidos justamente de preceitos religiosos incorporados à cultura geral. Assim como a ideia de Deus.

Portanto, nada mais natural que o nome de Deus esteja impresso nas cédulas de um país onde a maioria crê em Deus desde o momento, ou até antes, em que essa sociedade passou a se reconhecer como nação. O Estado brasileiro é laico, não tem religião oficial, mas não renega a importância da religiosidade como traço inerente da cultura nacional. Na verdade, não existe e nunca existiu em nenhum tempo ou lugar, sociedades laicas. O Estado laico é o Estado da harmonia entre as crenças. Por isso, não temos um Estado que imponha o ateísmo como norma.

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Aborto é o que é, mesmo se praticado contra anencéfalos

Por Wanfil em Judiciário

12 de Abril de 2012

Mesmo se praticado contra anencéfalos, aborto consiste na destruição de fetos

O Supremo Tribunal Federal (STF) adiou para esta quinta  o julgamento da ação que pede a descriminalização do aborto no caso de gravidez de feto anencéfalo. Dos 11 ministros, seis já votaram, sendo cinco a favor da mulher ter a opção de interromper a gestação de fetos sem cérebro. Trata-se agora de uma formalidade, pois os demais ministros devem acompanhar a liberação do aborto de crianças sem cérebro.

Naturalmente, o episódio gera discussões entre os que desejam estabelecer normas científicas para definir quando e como começa (ou termina) a vida, e os que acreditam na inviolabilidade do corpo e de toda forma de vida, crença que é uma das principais conquistas da civilização cristã ocidental. Argumentações de ordem religiosa estão, no debate público, praticamente interditadas, acusadas de crendice. Hoje, como sabemos, a fé mais elegante é aquela professada em nome da ciência.

O fato é que aborto consiste em interrupção de uma vida. O assunto, incontornável, é sobre a possibilidade de matar um ser vivo. Palavras podem ser duras, mas não mudam a essência do que se discute. O anencéfalo raramente tem sobrevida longa. Em 2007 houve um caso de uma menina, Marcela de Jesus Galante Ferreira, que sobreviveu um ano e oito meses, devido ao tronco encefálico. Anencéfalos são seres desprovidos de vida? O que é vida? Para além dessas dúvidas, para os pais, a falta de perspectiva de desenvolvimento de uma vida normal é um drama indescritível. A decisão do STF não obriga ninguém a abortar. A rigor, essa será sempre uma decisão de foro íntimo, como já é na prática. Mas o peso da lei confere uma aparência de que não existe dilema na questão. Mas ele existe e sempre existirá.

Caso real
Sei o que é ter entes queridos envolvidos com gestação de anencéfalo. Em 2006, minha cunhada, grávida de 3 meses, descobriu que a filha que esperava era anencéfala. A orientação do médico obstetra, profissional conhecido, foi o aborto – mesmo sendo crime. Ele indicou, inclusive, endereços onde o medicamento abortivo Citotec poderia ser comprado. Não faltaram pessoas bem intencionadas que também acreditaram que o melhor a fazer era por fim a tudo imediatamente, pois aquele seria um sofrimento desnecessário.

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Aborto é o que é, mesmo se praticado contra anencéfalos

Por Wanfil em Judiciário

12 de Abril de 2012

Mesmo se praticado contra anencéfalos, aborto consiste na destruição de fetos

O Supremo Tribunal Federal (STF) adiou para esta quinta  o julgamento da ação que pede a descriminalização do aborto no caso de gravidez de feto anencéfalo. Dos 11 ministros, seis já votaram, sendo cinco a favor da mulher ter a opção de interromper a gestação de fetos sem cérebro. Trata-se agora de uma formalidade, pois os demais ministros devem acompanhar a liberação do aborto de crianças sem cérebro.

Naturalmente, o episódio gera discussões entre os que desejam estabelecer normas científicas para definir quando e como começa (ou termina) a vida, e os que acreditam na inviolabilidade do corpo e de toda forma de vida, crença que é uma das principais conquistas da civilização cristã ocidental. Argumentações de ordem religiosa estão, no debate público, praticamente interditadas, acusadas de crendice. Hoje, como sabemos, a fé mais elegante é aquela professada em nome da ciência.

O fato é que aborto consiste em interrupção de uma vida. O assunto, incontornável, é sobre a possibilidade de matar um ser vivo. Palavras podem ser duras, mas não mudam a essência do que se discute. O anencéfalo raramente tem sobrevida longa. Em 2007 houve um caso de uma menina, Marcela de Jesus Galante Ferreira, que sobreviveu um ano e oito meses, devido ao tronco encefálico. Anencéfalos são seres desprovidos de vida? O que é vida? Para além dessas dúvidas, para os pais, a falta de perspectiva de desenvolvimento de uma vida normal é um drama indescritível. A decisão do STF não obriga ninguém a abortar. A rigor, essa será sempre uma decisão de foro íntimo, como já é na prática. Mas o peso da lei confere uma aparência de que não existe dilema na questão. Mas ele existe e sempre existirá.

Caso real
Sei o que é ter entes queridos envolvidos com gestação de anencéfalo. Em 2006, minha cunhada, grávida de 3 meses, descobriu que a filha que esperava era anencéfala. A orientação do médico obstetra, profissional conhecido, foi o aborto – mesmo sendo crime. Ele indicou, inclusive, endereços onde o medicamento abortivo Citotec poderia ser comprado. Não faltaram pessoas bem intencionadas que também acreditaram que o melhor a fazer era por fim a tudo imediatamente, pois aquele seria um sofrimento desnecessário.

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