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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

reflexão

A abolição no Ceará e as novas formas de escravidão

Por Wanfil em Ceará, História

25 de Março de 2013

Comentário que fiz para a minha coluna na Tribuna BandNews FM 101.7 sobre o dia da abolição no Ceará.

São fortes as correntes do atraso, da miséria, das drogas e da corrução, que escravizam milhões de cearenses, ansiosos pela liberdade celebrada neste 25 de março.

São fortes as correntes do atraso, da miséria, das drogas e da corrupção, que escravizam milhões de cearenses, ansiosos pela liberdade celebrada neste 25 de março.

No dia 25 de março de 1884 o Ceará tornou-se a primeira província brasileira a abolir a escravatura. A importância do feito pode ser medida comparando-o com a própria Lei Áurea, que libertaria os escravos no resto do país somente 4 anos depois, no dia 13 de maio de 1888.

Além de ser feriado estadual, a lembrança deste 25 de março pode ainda servir para reforçar a noção do princípio da igualdade racial na legislação brasileira, que recentemente sofreu um retrocesso por causa da criação de cotas nas universidades federais orientadas, justamente, pelo critério da cor da pele.

A data pode ainda ajudar a lembrar que o Ceará tem uma tradição liberal e pioneira na cultura política nacional, fruto de um certo espírito irrequieto do seu povo. O feriado da abolição no estado abre ainda a oportunidade para refletirmos sobre o nosso presente. Será que realmente estamos livres da escravidão ou será que ela sobrevive entre nós com outros formatos?

Os escravos do presente

Não são escravos os jovens viciados no crack, essa droga que toma de conta de Fortaleza e das cidades do interior?

Não vivem na escravidão aqueles que vivem não conseguem ter trabalho digno para conquistar sua emancipação financeira e sair da lista do Bolsa Família?

Quantos ainda não estão presos, em pleno século 21, ao velho drama da seca, dependentes de carros pipa e da caridade alheia, enquanto verbas para obras de abastecimento d’água são desviadas?

Temos ainda os escravos do medo, que vivem trancados em suas casas cercadas por muros eletrificados e que sonham com carros blindados, acuados pela violência crescente.

Alforria

Assim como no passado, cada escravidão tem seus patrocinadores, ou seja, aqueles que se beneficiam da indigência alheia. Hoje, os senhores de escravos são os corruptos e os chefes do crime organizado, que obviamente não querem mudar nada porque é nesse ambiente que eles prosperam.

Portanto, que a comemoração deste dia possa servir de reflexão e de inspiração para que novos movimentos abolicionistas aconteçam no Ceará. São muitos ainda os que precisam de alforria.

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O lado bom das coisas

Por Wanfil em Crônica

18 de Janeiro de 2013

Polly e Candido

Pollyanna, de Eleanor Porter; e Cândido, de Voltaire: Qual a medida certa para o otimismo?

Uma amiga me faz o gentil alerta:

– Wanfil, escreva sobre algo dignificante. Você só vê o lado negativo das coisas. Procure o que é bom.
– Você acha? Já fiz resenhas elogiosas sobre filmes e livros.
– Não li. Só vejo críticas.
– O que você sugere?.
– Não sei. Pesquise. Tem coisas boas acontecendo. Basta ver com boa vontade.

Preocupado com uma possível perda de sensibilidade para observar o lado bom da vida, resolvi desarmar o espírito e fui ler o noticiário em busca de eventos edificantes. Comentarei a seguir, embuído de insuspeita boa vontade, algumas notícias.

1 – TCE sugere arquivamento de processo que questionava cachê de Ivete Sangalo

Normalmente eu reprovaria o gasto de R$ 650 mil com o show de inauguração de um hospital. Não só por motivos financeiros, mas por entender que hospitais sejam lugares onde a dor e a esperança convivem de forma angustiante, em respeito aos pacientes, seus familiares e aos profissionais de saúde, eu diria que uma festa dessa magnitude é um despropósito e que melhor seria comprar macas e remédios. Mas vendo o lado bom da coisa, fico feliz por ver Ivete Sangalo mais rica. Respiro aliviado por saber que ajudei a custear a festança que trará alguns instantes de felicidade a quem for ao local, mesmo que não esteja doente.

Se ainda fosse o ranzinza de antigamente, eu diria que o Brasil é  país de cultura política personalista, inserido num continente afeito a caudilhos, onde obra pública ganha “dono”, que pode inclusive batizá-las homenageando os próprios parentes. Agora, não. O governo tem mais é que festejar, pois nem só de seca, sede e violência vive o Ceará. Temos as maravilhosas onomatopeias da música baiana para nos alegrar o coração.

2 – Vigilante de escola é assassinado na frente de alunos no Conjunto Ceará

O novo Wanfil, assim como uma Pollyana (de Eleanor H. Porter) ou um Cândido (de Voltaire) do século 21, consegue extrair o bem que vive escondido sobre a sombra do mal, contradizendo assim a filosofia de Santo Agostinho. Vamos em frente.

A educação, muitas vezes, aliena os jovens, que imaginam um mundo idealizado, perdendo contato com a verdade das ruas, conforme aprendi com as letras dos mais notórios rappers da atualidade. O caso da morte do vigilante, antes de mais nada, é um choque de realidadede. Como todos sabem, intelectuais como MV Bill e Marcelo D2 se formaram na escola da vida.

Por causa do violento crime, as aulas na escola foram suspensas. Sugiro que o governo faça um show com Ivete Sangalo na reabertura do colégio. Apesar de tudo, ficaria a lição de que o importante é o pensamento positivo.

3 – Ajudando quem precisa: IJF captou 946 órgãos e tecidos para doação em 2012

Ironias à parte, o alerta de minha amiga foi sincero e me fez refletir sobre muita coisa. A notícia sobre a doação de órgãos é edificante e dignifica seus personagens. Mais do que isso, inspira a solidariedade.

A crítica feita com sinceridade e embasamento é válida como atividade de reflexão em busca do aprimoramento. É depuração, ou como diz o advogado Djalma Pinto, é consultoria gratuita. Mas, às vezes, precisamos mesmo prestar um pouco mais de atenção no que é bom. É difícil, pois o medo nos faz propensos a um constante estado de preservação da vida. Queremos saber onde estão os riscos para evitá-los. Ver, ou procurar, coisas boas, é uma forma de reação que começa com uma avaliação sobre a nossa postura diante do mundo.

Citei acima as personagens Pollyanna e Cândido, caracterizados pelo otimismo. A primeira fazia da boa vontade um ingrediente de determinação. Nada a desanimava. O segundo, de tanto otimismo, perdeu a capacidade de ler a realidade e de indignar-se contra qualquer coisa. Esse é o desafio do cronista: saber quando fechar os olhos e quando abrir o verbo. Não é fácil.

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O lado bom das coisas

Por Wanfil em Crônica

18 de Janeiro de 2013

Polly e Candido

Pollyanna, de Eleanor Porter; e Cândido, de Voltaire: Qual a medida certa para o otimismo?

Uma amiga me faz o gentil alerta:

– Wanfil, escreva sobre algo dignificante. Você só vê o lado negativo das coisas. Procure o que é bom.
– Você acha? Já fiz resenhas elogiosas sobre filmes e livros.
– Não li. Só vejo críticas.
– O que você sugere?.
– Não sei. Pesquise. Tem coisas boas acontecendo. Basta ver com boa vontade.

Preocupado com uma possível perda de sensibilidade para observar o lado bom da vida, resolvi desarmar o espírito e fui ler o noticiário em busca de eventos edificantes. Comentarei a seguir, embuído de insuspeita boa vontade, algumas notícias.

1 – TCE sugere arquivamento de processo que questionava cachê de Ivete Sangalo

Normalmente eu reprovaria o gasto de R$ 650 mil com o show de inauguração de um hospital. Não só por motivos financeiros, mas por entender que hospitais sejam lugares onde a dor e a esperança convivem de forma angustiante, em respeito aos pacientes, seus familiares e aos profissionais de saúde, eu diria que uma festa dessa magnitude é um despropósito e que melhor seria comprar macas e remédios. Mas vendo o lado bom da coisa, fico feliz por ver Ivete Sangalo mais rica. Respiro aliviado por saber que ajudei a custear a festança que trará alguns instantes de felicidade a quem for ao local, mesmo que não esteja doente.

Se ainda fosse o ranzinza de antigamente, eu diria que o Brasil é  país de cultura política personalista, inserido num continente afeito a caudilhos, onde obra pública ganha “dono”, que pode inclusive batizá-las homenageando os próprios parentes. Agora, não. O governo tem mais é que festejar, pois nem só de seca, sede e violência vive o Ceará. Temos as maravilhosas onomatopeias da música baiana para nos alegrar o coração.

2 – Vigilante de escola é assassinado na frente de alunos no Conjunto Ceará

O novo Wanfil, assim como uma Pollyana (de Eleanor H. Porter) ou um Cândido (de Voltaire) do século 21, consegue extrair o bem que vive escondido sobre a sombra do mal, contradizendo assim a filosofia de Santo Agostinho. Vamos em frente.

A educação, muitas vezes, aliena os jovens, que imaginam um mundo idealizado, perdendo contato com a verdade das ruas, conforme aprendi com as letras dos mais notórios rappers da atualidade. O caso da morte do vigilante, antes de mais nada, é um choque de realidadede. Como todos sabem, intelectuais como MV Bill e Marcelo D2 se formaram na escola da vida.

Por causa do violento crime, as aulas na escola foram suspensas. Sugiro que o governo faça um show com Ivete Sangalo na reabertura do colégio. Apesar de tudo, ficaria a lição de que o importante é o pensamento positivo.

3 – Ajudando quem precisa: IJF captou 946 órgãos e tecidos para doação em 2012

Ironias à parte, o alerta de minha amiga foi sincero e me fez refletir sobre muita coisa. A notícia sobre a doação de órgãos é edificante e dignifica seus personagens. Mais do que isso, inspira a solidariedade.

A crítica feita com sinceridade e embasamento é válida como atividade de reflexão em busca do aprimoramento. É depuração, ou como diz o advogado Djalma Pinto, é consultoria gratuita. Mas, às vezes, precisamos mesmo prestar um pouco mais de atenção no que é bom. É difícil, pois o medo nos faz propensos a um constante estado de preservação da vida. Queremos saber onde estão os riscos para evitá-los. Ver, ou procurar, coisas boas, é uma forma de reação que começa com uma avaliação sobre a nossa postura diante do mundo.

Citei acima as personagens Pollyanna e Cândido, caracterizados pelo otimismo. A primeira fazia da boa vontade um ingrediente de determinação. Nada a desanimava. O segundo, de tanto otimismo, perdeu a capacidade de ler a realidade e de indignar-se contra qualquer coisa. Esse é o desafio do cronista: saber quando fechar os olhos e quando abrir o verbo. Não é fácil.