radicalismo Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

radicalismo

Nem mimimi, nem oba-oba: um conselho a vencidos e vencedores na eleição

Por Wanfil em Eleições 2018

29 de outubro de 2018

(IMAGEM: Esdras Nogueira/Tribuna do Ceará)

Clichês são sínteses superficiais que procuram contornar qualquer aprofundamento sobre o objeto em análise. Agora mesmo todos falam em unificação do Brasil. O momento é de amenizar o clima, de pacificar os ânimos, de darmos as mãos e por aí vai. É um apelo bonito em nome da paz, mas que evita encarar a cisão de valores que separa apoiadores do presidente eleito Jair Bolsonaro, de eleitores do candidato escolhido por Lula, Fernando Haddad.

De todo modo, em certas circunstâncias, o clichê pode ter lá seus minutos de sabedoria. Se por um lado a concordância entre vencedores e derrotados sobre temas como política econômica e segurança pública é impossível, por outro lado o chamado à tolerância é importante alerta para a necessidade de dar tempo ao tempo, para assimilar os novos acontecimentos.

Pedir cautela agora não significa abdicar de convicções e diferenças, mas de entender que nas democracias representativas liberais, a alternância de poder é um pressuposto fundamental. Não é hora para o mimimi de quem não aceita a vontade da maioria dos eleitores que compareceram as urnas, nem de oba-oba dos que venceram a disputa, assumindo desafios monumentais para lá de preocupantes, como a redução nas taxas de homicídios e a volta do crescimento da economia.

A alternância no poder, com respeito aos espaços políticos da oposição, é uma das principais características da democracia. Aceitar a importância disso não impede o debate aberto sobre os graves problemas da nação, mas ajuda a encaminhá-los de forma racional, compreendendo que os ciclos de poder são naturais e que uma nova etapa se inicia. A eleição de Bolsonaro encerra um ciclo no governo federal iniciado em 2002 com a eleição de Lula, que por sua vez interrompeu outro ciclo comandado por Fernando Henrique Cardoso. É assim que funciona.

O momento agora, de parte a parte – perdão pelo clichê – é de amenizar os discursos eleitorais, de modo que as forças políticas possam  e organizar o planejamento para o próximo ciclo.

(Texto escrito originalmente para a cobertura especial do portal Tribuna do Ceará)

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Os Demônios

Por Wanfil em Livros

13 de setembro de 2014

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) - Editora 34

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) – Editora 34

Os Demônios, obra de Fiodor Dostoiévski inspirada no noticiário sobre o assassinato de um estudante por membros de um grupo político clandestino e niilista chamado Justiça Sumária do Povo, em 1869, liderado por Sergei Nietcháiev, autor do tenebroso e fanático O Catecismo de um Revolucionário, de onde podemos extrais ilustrativas amostras de uma natureza política e moral influente até os dias de hoje: “Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a da destruição”. De algo assim, nada de bom pode sair mesmo.

Pois bem, ao esboçar uma crítica a esse tipo de radicalismo, o autor de Crime e Castigo denunciou ali o germe da manipulação da intolerância e da baixa autoestima como instrumentos políticos para arregimentar e insuflar pessoas dispostas a tudo por um ideal. Esse idealismo é denunciado, com toda razão, como mero pretexto para o uso supostamente racional da violência.

De modo brilhante, quase sobrenatural, Dostoiévski antecipa aos seus contemporâneos, em Os Demônios, escrito em 1872, as bases de um processo de degradação social que terminaria, quase cinco décadas depois, na eclosão da  Revolução Russa e seu legado de horror: 30 milhões de vítimas do comunismo, somente naquele país. Mais do isso, o escritor revela a gênese de qualquer movimento radical que tenha no ímpeto destruidor sua razão de existir, delineando um perfil que pode identificar desde agentes do nazismo até os terroristas islâmicos do nosso presente, no que eles têm em comum: o ódio e a intolerância com o contraditório. Mudam nas formas externas, mas a essência é a mesma.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Basicamente, o livro narra o início e o desenvolvimento das atividades do que poderíamos chamar de célula política com função desestabilizadora. No começo, parecem patéticos, pois são poucos, embora saibam que outras células existam por aí (eles não devem manter contato entre si, para em caso de fracasso, não delatar as demais). Seus membros se imiscuem em vários órgãos do Estado e sua missão é criar problemas, de forma a excitar o descontentamento geral. No entanto, esses indivíduos atuam sobre a tessitura de uma sociedade onde a elite (no caso, a aristocracia russa), vive alienada da realidade, perdida em bailes, salamaleques, viagens à Europa e solenidades de condecorações, enquanto a população sofre com a pobreza e a ignorância. É o ambiente perfeito para prosperar as teses racistas ou de luta de classes, que objetivam personificar culpados em determinados grupos sociais.

Quando governos estão dissociados dos anseios de um povo, o ressentimento pode ser facilmente manipulado. Daí que o título de Os Demônios seja uma referência ao evangelho de Lucas (8, 32-36): ” Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos; rogaram-lhe, pois que lhes permitisse entrar neles, e lho permitiu. E tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos; e a manada precipitou-se pelo despenhadeiro no lago, e afogou-se. Quando os pastores viram o que acontecera, fugiram, e foram anunciá-lo na cidade e nos campos. Saíram, pois, a ver o que tinha acontecido, e foram ter com Jesus, a cujos pés acharam sentado, vestido e em perfeito juízo, o homem de quem havia saído os demônios; e se atemorizaram. Os que tinham visto aquilo contaram-lhes como fora curado o endemoninhado”.

A alegoria é clara: os demônios estão soltos à procura de porcos, de desavisados que caminham sem perceber para a própria desgraça. Na política, ela pode se manifestar assim, como nessa profética passagem destacada na orelha da edição que li: “No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se à calúnia e assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e do talento. O nível elevado das ciências e das aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis. Os talentos superiores sempre tomaram o poder e foram déspotas. Os talentos superiores não podem deixar de ser déspotas, e sempre trouxeram mais depravação que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas – eis o chigaliovismo”.

No Brasil de hoje, o descompasso entre as aspirações da população e governantes hipnotizados pelos jogo do poder pelo poder já mostrou suas feições mais impulsivas nos protestos de junho de 2013. É nesse descontentamento com a corrupção e a ineficiência administrativa que apostam os defensores de uma reforma política que, ao final, será útil a grupos que repudiam o mérito como força construtiva e celebram o controle do Estado como realização máxima. Gente que vê nas leis, no Congresso e nas instituições democráticas, entraves para a evolução de seus projetos. Basta ficar atento, que tudo está acontecendo agora, neste instante.

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Os Demônios

Por Wanfil em Livros

13 de setembro de 2014

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) - Editora 34

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) – Editora 34

Os Demônios, obra de Fiodor Dostoiévski inspirada no noticiário sobre o assassinato de um estudante por membros de um grupo político clandestino e niilista chamado Justiça Sumária do Povo, em 1869, liderado por Sergei Nietcháiev, autor do tenebroso e fanático O Catecismo de um Revolucionário, de onde podemos extrais ilustrativas amostras de uma natureza política e moral influente até os dias de hoje: “Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a da destruição”. De algo assim, nada de bom pode sair mesmo.

Pois bem, ao esboçar uma crítica a esse tipo de radicalismo, o autor de Crime e Castigo denunciou ali o germe da manipulação da intolerância e da baixa autoestima como instrumentos políticos para arregimentar e insuflar pessoas dispostas a tudo por um ideal. Esse idealismo é denunciado, com toda razão, como mero pretexto para o uso supostamente racional da violência.

De modo brilhante, quase sobrenatural, Dostoiévski antecipa aos seus contemporâneos, em Os Demônios, escrito em 1872, as bases de um processo de degradação social que terminaria, quase cinco décadas depois, na eclosão da  Revolução Russa e seu legado de horror: 30 milhões de vítimas do comunismo, somente naquele país. Mais do isso, o escritor revela a gênese de qualquer movimento radical que tenha no ímpeto destruidor sua razão de existir, delineando um perfil que pode identificar desde agentes do nazismo até os terroristas islâmicos do nosso presente, no que eles têm em comum: o ódio e a intolerância com o contraditório. Mudam nas formas externas, mas a essência é a mesma.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Basicamente, o livro narra o início e o desenvolvimento das atividades do que poderíamos chamar de célula política com função desestabilizadora. No começo, parecem patéticos, pois são poucos, embora saibam que outras células existam por aí (eles não devem manter contato entre si, para em caso de fracasso, não delatar as demais). Seus membros se imiscuem em vários órgãos do Estado e sua missão é criar problemas, de forma a excitar o descontentamento geral. No entanto, esses indivíduos atuam sobre a tessitura de uma sociedade onde a elite (no caso, a aristocracia russa), vive alienada da realidade, perdida em bailes, salamaleques, viagens à Europa e solenidades de condecorações, enquanto a população sofre com a pobreza e a ignorância. É o ambiente perfeito para prosperar as teses racistas ou de luta de classes, que objetivam personificar culpados em determinados grupos sociais.

Quando governos estão dissociados dos anseios de um povo, o ressentimento pode ser facilmente manipulado. Daí que o título de Os Demônios seja uma referência ao evangelho de Lucas (8, 32-36): ” Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos; rogaram-lhe, pois que lhes permitisse entrar neles, e lho permitiu. E tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos; e a manada precipitou-se pelo despenhadeiro no lago, e afogou-se. Quando os pastores viram o que acontecera, fugiram, e foram anunciá-lo na cidade e nos campos. Saíram, pois, a ver o que tinha acontecido, e foram ter com Jesus, a cujos pés acharam sentado, vestido e em perfeito juízo, o homem de quem havia saído os demônios; e se atemorizaram. Os que tinham visto aquilo contaram-lhes como fora curado o endemoninhado”.

A alegoria é clara: os demônios estão soltos à procura de porcos, de desavisados que caminham sem perceber para a própria desgraça. Na política, ela pode se manifestar assim, como nessa profética passagem destacada na orelha da edição que li: “No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se à calúnia e assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e do talento. O nível elevado das ciências e das aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis. Os talentos superiores sempre tomaram o poder e foram déspotas. Os talentos superiores não podem deixar de ser déspotas, e sempre trouxeram mais depravação que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas – eis o chigaliovismo”.

No Brasil de hoje, o descompasso entre as aspirações da população e governantes hipnotizados pelos jogo do poder pelo poder já mostrou suas feições mais impulsivas nos protestos de junho de 2013. É nesse descontentamento com a corrupção e a ineficiência administrativa que apostam os defensores de uma reforma política que, ao final, será útil a grupos que repudiam o mérito como força construtiva e celebram o controle do Estado como realização máxima. Gente que vê nas leis, no Congresso e nas instituições democráticas, entraves para a evolução de seus projetos. Basta ficar atento, que tudo está acontecendo agora, neste instante.