postura Archives - Blog do Wanfil 
Publicidade

Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

postura

O lado bom das coisas

Por Wanfil em Crônica

18 de Janeiro de 2013

Polly e Candido

Pollyanna, de Eleanor Porter; e Cândido, de Voltaire: Qual a medida certa para o otimismo?

Uma amiga me faz o gentil alerta:

– Wanfil, escreva sobre algo dignificante. Você só vê o lado negativo das coisas. Procure o que é bom.
– Você acha? Já fiz resenhas elogiosas sobre filmes e livros.
– Não li. Só vejo críticas.
– O que você sugere?.
– Não sei. Pesquise. Tem coisas boas acontecendo. Basta ver com boa vontade.

Preocupado com uma possível perda de sensibilidade para observar o lado bom da vida, resolvi desarmar o espírito e fui ler o noticiário em busca de eventos edificantes. Comentarei a seguir, embuído de insuspeita boa vontade, algumas notícias.

1 – TCE sugere arquivamento de processo que questionava cachê de Ivete Sangalo

Normalmente eu reprovaria o gasto de R$ 650 mil com o show de inauguração de um hospital. Não só por motivos financeiros, mas por entender que hospitais sejam lugares onde a dor e a esperança convivem de forma angustiante, em respeito aos pacientes, seus familiares e aos profissionais de saúde, eu diria que uma festa dessa magnitude é um despropósito e que melhor seria comprar macas e remédios. Mas vendo o lado bom da coisa, fico feliz por ver Ivete Sangalo mais rica. Respiro aliviado por saber que ajudei a custear a festança que trará alguns instantes de felicidade a quem for ao local, mesmo que não esteja doente.

Se ainda fosse o ranzinza de antigamente, eu diria que o Brasil é  país de cultura política personalista, inserido num continente afeito a caudilhos, onde obra pública ganha “dono”, que pode inclusive batizá-las homenageando os próprios parentes. Agora, não. O governo tem mais é que festejar, pois nem só de seca, sede e violência vive o Ceará. Temos as maravilhosas onomatopeias da música baiana para nos alegrar o coração.

2 – Vigilante de escola é assassinado na frente de alunos no Conjunto Ceará

O novo Wanfil, assim como uma Pollyana (de Eleanor H. Porter) ou um Cândido (de Voltaire) do século 21, consegue extrair o bem que vive escondido sobre a sombra do mal, contradizendo assim a filosofia de Santo Agostinho. Vamos em frente.

A educação, muitas vezes, aliena os jovens, que imaginam um mundo idealizado, perdendo contato com a verdade das ruas, conforme aprendi com as letras dos mais notórios rappers da atualidade. O caso da morte do vigilante, antes de mais nada, é um choque de realidadede. Como todos sabem, intelectuais como MV Bill e Marcelo D2 se formaram na escola da vida.

Por causa do violento crime, as aulas na escola foram suspensas. Sugiro que o governo faça um show com Ivete Sangalo na reabertura do colégio. Apesar de tudo, ficaria a lição de que o importante é o pensamento positivo.

3 – Ajudando quem precisa: IJF captou 946 órgãos e tecidos para doação em 2012

Ironias à parte, o alerta de minha amiga foi sincero e me fez refletir sobre muita coisa. A notícia sobre a doação de órgãos é edificante e dignifica seus personagens. Mais do que isso, inspira a solidariedade.

A crítica feita com sinceridade e embasamento é válida como atividade de reflexão em busca do aprimoramento. É depuração, ou como diz o advogado Djalma Pinto, é consultoria gratuita. Mas, às vezes, precisamos mesmo prestar um pouco mais de atenção no que é bom. É difícil, pois o medo nos faz propensos a um constante estado de preservação da vida. Queremos saber onde estão os riscos para evitá-los. Ver, ou procurar, coisas boas, é uma forma de reação que começa com uma avaliação sobre a nossa postura diante do mundo.

Citei acima as personagens Pollyanna e Cândido, caracterizados pelo otimismo. A primeira fazia da boa vontade um ingrediente de determinação. Nada a desanimava. O segundo, de tanto otimismo, perdeu a capacidade de ler a realidade e de indignar-se contra qualquer coisa. Esse é o desafio do cronista: saber quando fechar os olhos e quando abrir o verbo. Não é fácil.

Publicidade

O lado bom das coisas

Por Wanfil em Crônica

18 de Janeiro de 2013

Polly e Candido

Pollyanna, de Eleanor Porter; e Cândido, de Voltaire: Qual a medida certa para o otimismo?

Uma amiga me faz o gentil alerta:

– Wanfil, escreva sobre algo dignificante. Você só vê o lado negativo das coisas. Procure o que é bom.
– Você acha? Já fiz resenhas elogiosas sobre filmes e livros.
– Não li. Só vejo críticas.
– O que você sugere?.
– Não sei. Pesquise. Tem coisas boas acontecendo. Basta ver com boa vontade.

Preocupado com uma possível perda de sensibilidade para observar o lado bom da vida, resolvi desarmar o espírito e fui ler o noticiário em busca de eventos edificantes. Comentarei a seguir, embuído de insuspeita boa vontade, algumas notícias.

1 – TCE sugere arquivamento de processo que questionava cachê de Ivete Sangalo

Normalmente eu reprovaria o gasto de R$ 650 mil com o show de inauguração de um hospital. Não só por motivos financeiros, mas por entender que hospitais sejam lugares onde a dor e a esperança convivem de forma angustiante, em respeito aos pacientes, seus familiares e aos profissionais de saúde, eu diria que uma festa dessa magnitude é um despropósito e que melhor seria comprar macas e remédios. Mas vendo o lado bom da coisa, fico feliz por ver Ivete Sangalo mais rica. Respiro aliviado por saber que ajudei a custear a festança que trará alguns instantes de felicidade a quem for ao local, mesmo que não esteja doente.

Se ainda fosse o ranzinza de antigamente, eu diria que o Brasil é  país de cultura política personalista, inserido num continente afeito a caudilhos, onde obra pública ganha “dono”, que pode inclusive batizá-las homenageando os próprios parentes. Agora, não. O governo tem mais é que festejar, pois nem só de seca, sede e violência vive o Ceará. Temos as maravilhosas onomatopeias da música baiana para nos alegrar o coração.

2 – Vigilante de escola é assassinado na frente de alunos no Conjunto Ceará

O novo Wanfil, assim como uma Pollyana (de Eleanor H. Porter) ou um Cândido (de Voltaire) do século 21, consegue extrair o bem que vive escondido sobre a sombra do mal, contradizendo assim a filosofia de Santo Agostinho. Vamos em frente.

A educação, muitas vezes, aliena os jovens, que imaginam um mundo idealizado, perdendo contato com a verdade das ruas, conforme aprendi com as letras dos mais notórios rappers da atualidade. O caso da morte do vigilante, antes de mais nada, é um choque de realidadede. Como todos sabem, intelectuais como MV Bill e Marcelo D2 se formaram na escola da vida.

Por causa do violento crime, as aulas na escola foram suspensas. Sugiro que o governo faça um show com Ivete Sangalo na reabertura do colégio. Apesar de tudo, ficaria a lição de que o importante é o pensamento positivo.

3 – Ajudando quem precisa: IJF captou 946 órgãos e tecidos para doação em 2012

Ironias à parte, o alerta de minha amiga foi sincero e me fez refletir sobre muita coisa. A notícia sobre a doação de órgãos é edificante e dignifica seus personagens. Mais do que isso, inspira a solidariedade.

A crítica feita com sinceridade e embasamento é válida como atividade de reflexão em busca do aprimoramento. É depuração, ou como diz o advogado Djalma Pinto, é consultoria gratuita. Mas, às vezes, precisamos mesmo prestar um pouco mais de atenção no que é bom. É difícil, pois o medo nos faz propensos a um constante estado de preservação da vida. Queremos saber onde estão os riscos para evitá-los. Ver, ou procurar, coisas boas, é uma forma de reação que começa com uma avaliação sobre a nossa postura diante do mundo.

Citei acima as personagens Pollyanna e Cândido, caracterizados pelo otimismo. A primeira fazia da boa vontade um ingrediente de determinação. Nada a desanimava. O segundo, de tanto otimismo, perdeu a capacidade de ler a realidade e de indignar-se contra qualquer coisa. Esse é o desafio do cronista: saber quando fechar os olhos e quando abrir o verbo. Não é fácil.