poesia Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

poesia

80 anos do poeta Affonso Romano de Sant’Anna: mais atual, impossível

Por Wanfil em Cultura

27 de Março de 2017

O poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna completou 80 anos neste dia 27. Tenho grande admiração pelo texto dele, preciso na construção, audacioso, harmônico e certeiro. Elegante. Dos vivos, é meu preferido e por isso registro a data. Cito aqui passagens de um de seus poemas inúmeras que brilham na sua obra, por serem atuais, feita no ocaso da ditadura, mas demasiadamente atuais em plena democracia:

A Implosão da Mentira (1980)

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
(…)
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
(…)
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.
E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

Pois é. Mentiras implodiram ontem e hoje, mas os mentirosos buscam insistente/mente negar o inegável, na esperança de escapar à justiça impune/mente.

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Em ato final Dilma cita Maiakósvik, o poeta que se matou decepcionado com a revolução

Por Wanfil em Cultura

01 de setembro de 2016

Vladimir Maiakóvski: o poeta que acreditou nas promessas do "Partido" e depois se decepcionou

Vladimir Maiakóvski: o “Poeta da Revolução” que acreditou nas promessas do “Partido” e seus líderes, para depois morrer de decepção

No pronunciamento que fez logo após a aprovação do impeachment pelo Senado Federal, a ex-presidente Dilma Rousseff encerrou declamando uma poesia:

“Neste momento, não direi adeus a vocês. Tenho certeza de que posso dizer “até daqui a pouco”. Encerro compartilhando com vocês um belíssimo alento do poeta russo Maiakóvski:

Não estamos alegres, é certo,
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,
Rompê-las ao meio,
Cortando-as como uma quilha corta.”

Vladimir Maiakóvski suicidou-se com um tiro, aos 36 anos, em 14 de Abril de 1930, decepcionado com a ditadura do proletariado, da qual foi entusiasta na juventude, especialmente quan­do Stá­lin passa a perseguir os que não se enquadrassem na or­to­do­xia do Partido Comunista.

Poeta de grande envergadura, Maiakóvski até que tentou, mas não conseguiu fugir da depressão por ter que submeter sua arte à degradação da propaganda engajada (foi obrigado a escrever poemas sobre políticas sanitárias). Matou-se, por fim, ao reconhecer que os sonhos anunciados pela Revolução e o anúncio do paraíso igualitarista não se encaixavam com liberdade.

Depois do suicídio, Stálin faz de Maiakóvski o “Poeta da Revolução”. Não há poeta mais apropriado para ilustrar a incompatibilidade entre as promessas de mudanças do petismo e suas práticas em 13 anos no poder.

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Bons textos não envelhecem: Ser Poeta – Florbela Espanca

Por Wanfil em Textos escolhidos

17 de Março de 2014

Flor Bela de Alma da Conceição Espanca. OU simplesmente Florbela Espanca. Para arejar o blog.

Flor Bela de Alma da Conceição Espanca. OU simplesmente Florbela Espanca. Para arejar o blog.

Retomo o blog após uma pausa forçada, com mais um post da série “Bons textos não envelhecem”, com a qual, vez por outra, procuro arejar o blog. Lufadas de inteligência para limpar os miasmas da pesada atmosfera dos vícios da política e dos problemas do cotidiano. A vida é mais do que truques e armadilhas, é paixão, é também entrega, é buscar a nossa própria essência individual.

Abaixo, reproduzo um texto da poetisa Florbela Espanca, cujo nome de batismo já era em si uma poesia: Flor Bela de Alma da Conceição Espanca. Portuguesa de vida e texto audaciosos, marcada pelo temperamento depressivo. Apesar dos infortúnios de Florbela (quem não os tem?), aprendi com meu saudoso pai a admirá-la em seu ofício: as letras. Escritora de técnica precisa, mestre das regras e das métricas poéticas, intensa, sonetista como poucos na língua portuguesa. No domínio de sua lira, a mulher foi maior do que as angústias que lhes abreviou a vida (matou-se aos 36 anos, em 1930).

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
é condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

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Cem anos de Vinicius de Moraes. Poetinha?

Por Wanfil em Cultura

19 de outubro de 2013

Vinicius de Moraes completaria cem anos, se estivesse vivo, neste 19 de outubro sem música nem poesia.

Vinicius de Moraes completaria cem anos, se estivesse vivo, neste 19 de outubro sem música nem poesia.

Sempre que ouço falar de Vinicius de Moraes lembro do boêmio a bebericar uísque rodeado de mulheres (casou-se nove vezes) e tenho calafrios depressivos ao lembrar da chatíssima bossa nova, estilo musical enfadonho ao extremo que adornou algumas de suas letras. Completaria hoje 100 anos se estivesse vivo (morreu aos 66 anos em 1980). Foi mais poeta do que letrista, mas o letrista foi sua persona pública de maior sucesso, o que acabou relegando a um segundo plano sua produção mais visceral. Ficou conhecido pelo carinhoso apelido de “poetinha”, o que, diante de algumas de suas poesias, é uma injustiça.

O Vinicius pop star ofuscou o Vinicius mais profundo, embora alguma de suas letras sejam magníficas, como O Filho que Eu quero Ter (belíssima canção de Toquinho, uma exceção ao tédio da bossa nova). Sua poesia, pelo que li, me parece irregular. Alterna grandes momentos com outros de menor impacto, mas suspeito que isso aconteça ao lermos qualquer poeta de maior estatura. O que nos toca é também um pouco de nós, e o que não comove a gente é aquilo o que nos é alheio ao sentimento pessoal. Ler poesia é buscar um espelho para a alma.

De todo modo, nesses dias de aridez incomparável, seja na poesia ou nas letras das músicas, é possível dizer que a ausência de Vinicius nos remete a um estado melancólico, diante da constatação de que não temos mais a quem recorrer, só aos que já se foram. Dos vivos, arrisco ainda a poesia de um Affonso Romano de Sant’Anna, embora o melhor da sua produção seja do século passado.

Conversava dia desses com um amigo sobre o ocaso da poesia como forma literária no Brasil e talvez no mundo. Onde estão os grandes poetas da atualidade? A superficialidade dos debates, a emergência de um modo de viver acelerado demais, as preocupações com as boas condutas (o que comer, quantas horas dormir, quantos quilômetros correr, quantos check ups fazer, essas coisas), a performance profissional cada vez mais automatizada, tudo isso pode concorrer para o fim da poesia. Não sei. Pode ser apenas o que Gasset chamava de azar, viver um tempo sem talentos, mal que vez por outra atinge algumas gerações.

Arte

Para encerrar, do Vinicius poeta, muito cedo (na adolescência ainda) impressionou-me este poema:

DIALÉTICA

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

E do Vinicius letrista, a canção que citei acima, aqui interpretada por Paulinho da Viola, é memorável:

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Bons textos não envelhecem: Lisbon Revisited (1923) – Álvaro de Campos

Por Wanfil em Textos escolhidos

19 de agosto de 2012

Vamos lá. Domingo é dia de arejar o blog. Reproduzo abaixo um dos textos preferidos de Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935). Faço alguns comentários ao final.

O poeta Fernando Pessoa, retratado em tela do também português Júlio Pomar

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas.
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! Leia mais

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O mensalão e A Implosão da Mentira

Por Wanfil em Textos escolhidos

04 de agosto de 2012

Affonso Romano de Sant’Anna

Nos finais de semana o blog costuma abordar temas ligados à literatura ou ao cinema. Dicas de livros e filmes, citações de pensadores e afins. São como aberturas de ventilação que servem para arejar o ambiente carregado do noticiário.

No entanto, vez por outra, a notícia em evidência de um período casa tão bem com alguma forma de arte, que a associação é impossível de ser ignorada.

Nesta semana, como todos sabem, após sete anos de espera, teve início o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal, o maior caso de corrupção de nossa história. Apresentada a acusação pelo Procurador Geral da República, chega a hora da defesa dos réus se pronunciar. O contraste entre a fartura de indícios e provas com a alegação de inocência dos envolvidos me fizeram lembrar o poema A Implosão da Mentira, de autoria do mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, publicado em jornais no ano de 1980 e posteriormente em livro. Leiam e vejam como o texto – feito como crítica aos governos militares – permanece atual.

A implosão da mentira

Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Leia mais

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O mensalão e A Implosão da Mentira

Por Wanfil em Textos escolhidos

04 de agosto de 2012

Affonso Romano de Sant’Anna

Nos finais de semana o blog costuma abordar temas ligados à literatura ou ao cinema. Dicas de livros e filmes, citações de pensadores e afins. São como aberturas de ventilação que servem para arejar o ambiente carregado do noticiário.

No entanto, vez por outra, a notícia em evidência de um período casa tão bem com alguma forma de arte, que a associação é impossível de ser ignorada.

Nesta semana, como todos sabem, após sete anos de espera, teve início o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal, o maior caso de corrupção de nossa história. Apresentada a acusação pelo Procurador Geral da República, chega a hora da defesa dos réus se pronunciar. O contraste entre a fartura de indícios e provas com a alegação de inocência dos envolvidos me fizeram lembrar o poema A Implosão da Mentira, de autoria do mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, publicado em jornais no ano de 1980 e posteriormente em livro. Leiam e vejam como o texto – feito como crítica aos governos militares – permanece atual.

A implosão da mentira

Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

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