pobreza Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

pobreza

Bolsa Família: o eterno ativo eleitoral

Por Wanfil em Política

15 de agosto de 2017

O governador cerense Camilo Santana, do PT, classificou de “crime” o recente anúncio de cortes no programa Bolsa Família. Segundo o petista, “quem deve pagar a conta da má administração do país não são os mais pobres, mais humildes”.

Quem há de discordar? A questão, porém, é outra: quem pode realmente cobrar em nomes dos mais humildes? Durante os anos de crescimento da economia brasileira (impulsionada por commodities e sempre abaixo da média dos países emergentes, festivamente embalada como verdadeiro milagre para consumo local), o conceito de política compensatória que inspirou o  Bolsa Família foi pervertido ativo eleitoreiro paternalista, a comprar gratidão em troca de votos.

E como deu certo, não obstante a contradição entre o aumento na distribuição dos benefícios e os anúncios sobre a maior redução de pobreza do mundo. Ora, com menos pobres, o programa deveria progressivamente reduzir, como reflexo da emancipação dos assistidos ou de seus filhos, a geração que teria condições de ir à escola. Se cresceu é porque a pobreza aumentou, não é lógico?

Sim, o programa é importante e necessita de maior controle, mas é evidente que o combate à pobreza pela mera via da transferência de recursos da classe média para os miseráveis é limitado, pois a base material não muda.

O problema é que a gestão Temer não inspira confiança em ninguém. Politicamente, é óbvio que a oposição tentará tirar, mais uma vez, proveito eleitoral da situação. Os governistas, cuja maioria até outro dia era parceira do petismo, que se expliquem agora. Isso, todavia, não autoriza o oportunismo dos responsáveis pela crise. Se hoje o mais humilde “paga pela má administração do país”, é preciso lembrar que essa incompetência administrativa diz respeito sobretudo a gestão da ex-presidente Dilma Rouseff, com a maior recessão da história, juros e inflação nas alturas, corroendo renda e ceifando vagas de trabalho, sem que nenhum dos seus aliados jamais reclamasse de nada.

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Redução da desigualdade no Ceará coincide com aumento de famílias dependentes do Bolsa Família entre 2004 e 2014

Por Wanfil em Ceará

18 de novembro de 2015

Informa o site do Governo do Ceará:

“Nos últimos 10 anos, a desigualdade social e a pobreza foram reduzidas de forma drástica no Ceará. (…) Os 10% mais pobres, por exemplo, apresentaram um crescimento médio de 85,1% na renda, entre 2004 e 2014. O percentual de pessoas abaixo da linha da pobreza no Ceará reduziu de 47,5%, em 2004, para 17,3%, em 2014.”

Os dados são do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece). Nesses 10 anos avaliados, dois pontos merecem atenção:

1) o período foi marcado por um ambiente econômico favorável nacionalmente, marcado por crescimento econômico razoável, inflação sob controle, oferta de crédito, demanda por commodities, e câmbio barato. Condições que agora deixaram de existir;

2) o papel dos programas de transferência de renda nessa equação, cuja importância é reconhecida pelo próprio diretor do Ipece, Flávio Ataliba. Em certa medida, as pessoas deixaram de ser pobres porque recebem dinheiro desses programas. Se deixarem de receber, voltam a ser pobres. Basta conferir a Matriz de Informação Social do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome: em 2004, no Ceará, 572.730 famílias eram assistidas pelo Bolsa Família. Dez anos depois, o número de famílias beneficiárias do programa subiu para 1.089.813. Qualquer relação de causa e efeito não é mera coincidência.

Conclusão: cenário econômico de crescimento baseado em oferta de crédito e estímulo ao consumo, somada à programas de transferência, especialmente o Bolsa Família, ajudaram a reduzir, momentaneamente, a pobreza. Na verdade, há nisso tudo uma enorme contradição. Se a pobreza e a desigualdade diminuíram, como explicar o aumento de famílias necessitadas dos programas de transferência?

Não houve, por exemplo, grandes saltos na educação, esperança de emancipação econômica para os filhos dessas famílias beneficiárias. De acordo com o mesmo Ipece, em 2004, apenas 5,5% dos cearenses com mais de 25 anos tinham ensino superior completo, contra 7,4% em 2014. Um avanço muito tímido.

Infelizmente, a redução da desigualdade ainda depende muito, demais, do assistencialismo oficial que vem de fora.

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O grande salto: Ceará é o 3º mais violento e o 4º mais dependente do Bolsa Família

Por Wanfil em Ceará

06 de novembro de 2013

Seguem os dados puxados de dois levantamento publicados nos últimos dias, feitos com base em informações oficiais:

Violência – Relatório do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na terça-feira (6):

– O Ceará é o estado em que a violência mais cresceu em 2012, com 32% de aumento nas mortes violentas;
– O Ceará é o 3º estado mais violento do Brasil, com taxa de 42,5 homicídios por grupo de 100 mil habitantes.

Pobreza – Pesquisa do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), divulgada na última sexta (1º):

– O Ceará é o 4º no ranking dos estados com mais pessoas assistidas pelo programa Bolsa Família;
– São 3,8 milhões de cearenses dependentes do Bolsa Família, cerca de 44,6% da população.

Desafios

Não é questão de ser otimista ou pessimista, nem de fechar os olhos para as qualidades da sociedade cearense ou de valorizar apenas problemas: são os números que atestam a situação crítica em que vivemos. É certo que as experiências pessoais e as paixões políticas podem nos pregar peças, porque acabam expostas a uma boa dose de subjetividade. Mas os números, ainda que possam carecer de interpretação, são objetivos.

De qualquer modo, essas informações devem pautar a campanha eleitoral do ano que vem, pelo fato de serem os desafios do momento. A insegurança e a pobreza (que pode ser associada ao desastre da seca), são realidades inegáveis no Ceará. O problema é que geralmente a dinâmica eleitoral distorce os números com interpretações confusas e simplistas. É aguardar para ver como esses temas serão tratados.

Segurança

Sobre a violência, embora o fenômeno seja percebido por todos no dia a dia, a pesquisa dimensiona o quadro demonstrando em seu histórico uma evolução assustadora dos crimes. Disso, o que mais desanima é justamente essa tendência de forte crescimento. Alagoas, por exemplo, lidera o ranking dos homicídios, mas registra um recuo de 14% em sua taxa. No Ceará, tudo indica, teremos um 2013 pior que 2012, ano base para o relatório. E olha que esses são números oficiais. A chance de haver subnotificação é grande.

Bolsa Família

Resta claro que tanta gente pendurada em um programa assistencialista (concebido originalmente para ser um programa compensatório) evidencia uma situação de indigência crônica. Essas pessoas não conseguem renda própria para se emancipar da ajuda governamental. Trata-se de um programa importante e, ao meu ver, bem mais barato que a grana fácil que o BNDES distribui para grupos econômicos como, por exemplo, o de Eike Batista. Mas a essa altura, com o Bolsa Família já está incorporado à cultura econômica dos mais pobres, como prometer essa emancipação sem ser acusado de planejar o fim do programa? Enquanto isso, continuamos assim, entregues as migalhas.

No mais, fica explicado o pouco empenho do governo federal para cumprir promessas como a refinaria e a transposição do São Francisco. Se metade da população precisa de assistência financeira, o segredo é entregar esse dinheirinho direto para o distinto público, sem atravessadores. Como dizia o jornalista Themístocles de Castro, quem dá dinheiro nunca é impopular.

Contexto

Não se trata também de dizer que antes éramos uma maravilha e que agora degringolamos de vez. A violência é grande em todo o país, classificado em 7º lugar entre os mais perigosos, com 50 mil homicídios por ano. Executivos americanos ou europeus de grandes multinacionais só aceitam trabalhar no Brasil se receberem um pacote de segurança para eles e seus familiares.

Vivemos ainda no Nordeste, região pobre como um todo, com baixos índices de desenvolvimento social. Sucessivos governos falharam no planejamento de uma ação contra as desigualdades regionais nesse país continental que é o Brasil.

No entanto, se comparados com nossos vizinhos, que experimentam a mesma conjuntura, atravessamos sim um momento de piora nesses setores. Se a economia cearense cresce mais do que a Brasileira, isso não tem servido para os mais pobres como deveria. Se a violência é questão nacional, nossa decadência nesse sentido é mais intensa. O nível de investimento é alto, mas os resultados são esses que vemos. Na campanha, pode esperar, será dito que os resultados estão aí chegando já, já, na esquina do porvir.

A questão é que não é possível cobrar governos passados. Aliás, alguns até chegaram a reduzir pobreza e violência, que agora voltam a crescer. Só é possível cobrar, ainda que com as devidas ressalvas, quem hoje está no poder.

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A eterna dependência dos ‘viciados’ no Bolsa Família

Por Wanfil em Brasil

20 de Maio de 2013

"Mas doutô uma esmola a um homem qui é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão". Luís Gonzaga - Vozes da Seca

“Mas doutô uma esmola a um homem qui é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Luíz Gonzaga – Vozes da Seca

Assim como viciados que temem perder os psicotrópicos dos quais dependem entram em estado de pânico, miseráveis cadastrados no programa Bolsa Família se desesperaram com os boatos de que os repasses desses recursos seriam suspensos. A analogia com as drogas não é literal e possui limites: não se trata da dependência química que escraviza o corpo, mas da sujeição psicológica que limita a autonomia dos indivíduos.

A reação dos beneficiários do programa (foram registrados tumultos em 34 agências somente no Ceará) revela o nível de subordinação desses grupos em relação ao Estado brasileiro. Sem a benesse, o desespero vigora, não sem razão, especialmente no Nordeste, onde a pobreza é maior e a seca castiga a região.

Se a pobreza diminui, por que o Bolsa Família cresce tanto?

Mas por que tanto receio, se uma sucessão de governos, desde Fernando Henrique, passando por Lula e chegando à Dilma, não cansa de comemorar recordes na geração de empregos e na redução da pobreza? Se tudo melhorou, como explicar que o número de pessoas assistidas pelo Bolsa Família não para de crescer? Em 2013, serão 50 milhões de pessoas. Vamos às respostas.

Em primeiro lugar, se por um lado o Bolsa Família é indiscutivelmente importante para mitigar o estado de pobreza de milhões de famílias, por outro é um poderoso instrumento eleitoreiro. Voltando à analogia com as drogas, assim como um traficante oferece seu produto gratuitamente no início para viciar seu cliente e só então lhe impor preços cada vez maiores, os governantes oferecem dinheiro de graça para as pessoas para depois cobrar-lhes a ‘caridade’ com pedidos de votos, sob a insinuação de que sem isso a ajuda acaba. Para completar, como dizia o jornalista Themístocles de Castro, quem distribui dinheiro será sempre popular. Nessa equação, o medo e a gratidão se convertem em votos.

Deriva disso, em segundo lugar, que se essa relação de dependência é benéfica aos governos, interessa pois mantê-la pelo maior tempo possível. É melhor um eleitor grato e temeroso de perder a ajuda oficial do que um que consiga viver do próprio trabalho. Em resumo, o que vendem como solução para a pobreza não passa de um paliativo que ameniza os seus efeitos mais imediatos, sem atingir-lhe as causas principais.

Cultura paternalista

Teoricamente, o Bolsa Família e outros programas de mesma inspiração deveriam servir como compensação para as vítimas de uma exclusão social histórica, enquanto as gerações seguintes são preparadas para ter, finalmente, a sonhada autonomia financeira. Mas no Brasil essa lógica foi invertida e criamos uma legião de dependentes da ajuda do papai-estado que já acredita serem credora de um direito natural e não beneficiária de uma ajuda temporária. E uma vez eliminada a gratidão das primeiras gerações, seus descendentes, estagnados na condição de pedintes reféns dos governos, cultivarão ressentimentos profundos que podem muito bem ser canalizados em espasmos de violência gratuita. Aliás, já estamos observando esse fenômeno, basta ver o crescimento da criminalidade juvenil.

Essa condição avilta o espírito porque, como eu disse, escraviza a vontade. O governo rapidamente veio a público garantir que os benefícios estão mantidos, com aquele tom de benfeitor infalível típico de uma cultura política paternalista como a brasileira.

O Bolsa Família não vai acabar porque é instrumento útil nas eleições. Porque é solução simples e barata. Porque vicia o cidadão e os governantes. Os efeitos dessa adulteração podem ser camuflados por um tempo, mas não para sempre.

PS. O governo afirmar que investigará de onde partiram os boatos. Muitas são as possibilidades. Nesses casos, sempre me pergunto: quem se beneficia com o medo que se espalhou? E depois completo: Quem aparece como fiador da estabilidade?

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Pesquisa comprova: Bolsa Família é alívio e não solução para a pobreza

Por Wanfil em Brasil

12 de Janeiro de 2013

Programas de transferência de renda foram distorcidos no Brasil: uma boa ideia que degenerou em moeda eleitoral.

O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) divulgou um estudo sobre os resultados dos programas de transferência de renda nos governos Lula e Dilma. Em síntese, a conclusão é que o Bolsa Família (que já foi Fome Zero) conseguiu reduzir a desigualdade entre ricos e pobres (que continua grande), mas não aumentou as oportunidades de inclusão dos mais necessitados no mercado de trabalho.

A pesquisa revela ainda que, sem medidas adequadas, o nível de emprego elevado não constitui melhoria sustentável. De acordo com reportagem do jornal O Estado de São Paulo, o documento mostra que “de cada dez postos de trabalho que surgem no mercado formal, nove têm remuneração inferior a três salários mínimos”.

De acordo com o texto do Cebrap, os avanços verificados até agora “não terão sustentabilidade se não forem acompanhados de uma política industrial capaz de absorver trabalhadores mais qualificados e propiciar elevações reais da renda.

Distorções

A solução é acabar o Bolsa Família? Não, é claro. Ainda existe uma carência tão profunda que essa possibilidade faz tremer os mais humildes. Na verdade, eles se tornaram reféns dessa falta de mobilidade social.

Programas de transferência de renda como o Bolsa Família, em tese, deveriam ser uma etapa passageira dentro de um planejamento de longo prazo para reduzir a pobreza, distribuir renda e gerar riqueza. Leia mais

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As revelações da seca que castiga o Ceará. Ou: Sem água, não adianta ter aquário

Por Wanfil em Ceará

25 de Maio de 2012

Retirantes (1944), de Cândido Portinari. Sina nordestina?

O Nordeste sofre mais uma vez com a seca. Mais precisamente, a gente humilde do sertão sofre com a estiagem. Para socorrê-las, o governo do Ceará lançou uma campanha de arrecadação de água potável e de alimentos não perecíveis para distribuir entre as famílias atingidas, batizada de Força Solidária. Ninguém em sã consciência é contra uma iniciativa dessas. Nessa hora de necessidade, qualquer ajuda é preciosa. No entanto, é preciso estar atento para não se deixar enganar pelas aparências. O que parece agilidade governamental na verdade é disfarce para a própria imprevidência da gestão pública. Vejamos.

Fenômeno cíclico

Primeiro, não estamos diante de uma catástrofe inesperada. Secas são fenômenos perfeitamente esperados no semi-árido por uma série de razões, como pode atestar qualquer climatologista. Não constituem, portanto, nenhuma novidade ambiental resultante de eventuais desequilíbrios. Via de regra, é algo com que temos que conviver.

Segundo, quando governos lançam campanhas de solidariedade, é justamente a condição de emergência – o inesperado – que as justificam. Dificuldades de acesso ao locais a serem atendidos, destruição dos estoques ou grande número de desabrigados em função de alguma tragédia, demandam esforços adicionais que não estavam previstos. Agora, se o caso é crônico – “histórico”, como bem lembrou o secretário Nelson Martins, do Desenvolvimento Agrário – ou cíclico, políticas públicas de prevenção ou de convivência deveriam ter sido ser estipuladas pelo governo. Se ao longo dos anos as ações de vários governos contribuíram para reduzir os impactos de secas menores, fica claro que ainda não conseguimos conviver com uma seca maior. Leia mais

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As revelações da seca que castiga o Ceará. Ou: Sem água, não adianta ter aquário

Por Wanfil em Ceará

25 de Maio de 2012

Retirantes (1944), de Cândido Portinari. Sina nordestina?

O Nordeste sofre mais uma vez com a seca. Mais precisamente, a gente humilde do sertão sofre com a estiagem. Para socorrê-las, o governo do Ceará lançou uma campanha de arrecadação de água potável e de alimentos não perecíveis para distribuir entre as famílias atingidas, batizada de Força Solidária. Ninguém em sã consciência é contra uma iniciativa dessas. Nessa hora de necessidade, qualquer ajuda é preciosa. No entanto, é preciso estar atento para não se deixar enganar pelas aparências. O que parece agilidade governamental na verdade é disfarce para a própria imprevidência da gestão pública. Vejamos.

Fenômeno cíclico

Primeiro, não estamos diante de uma catástrofe inesperada. Secas são fenômenos perfeitamente esperados no semi-árido por uma série de razões, como pode atestar qualquer climatologista. Não constituem, portanto, nenhuma novidade ambiental resultante de eventuais desequilíbrios. Via de regra, é algo com que temos que conviver.

Segundo, quando governos lançam campanhas de solidariedade, é justamente a condição de emergência – o inesperado – que as justificam. Dificuldades de acesso ao locais a serem atendidos, destruição dos estoques ou grande número de desabrigados em função de alguma tragédia, demandam esforços adicionais que não estavam previstos. Agora, se o caso é crônico – “histórico”, como bem lembrou o secretário Nelson Martins, do Desenvolvimento Agrário – ou cíclico, políticas públicas de prevenção ou de convivência deveriam ter sido ser estipuladas pelo governo. Se ao longo dos anos as ações de vários governos contribuíram para reduzir os impactos de secas menores, fica claro que ainda não conseguimos conviver com uma seca maior. (mais…)