plebiscito Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

plebiscito

A moda plebiscitária chegou ao Ceará

Por Wanfil em Ceará, Fortaleza, Legislação

03 de julho de 2013

A multidão diz aos políticos que não se sente representada por eles, nem por seus partidos e entidades pelegas. Os políticos, profissionais na arte da dissimulação e da sobrevivência, fingem que o negócio não é com eles e se mostram solidários às reivindicações das massas, como se não fossem eles mesmos o alvo dos protestos.

A presidente Dilma acenou de forma atrapalhada com um plebiscito para uma reforma política. No Ceará, a moda das proposições plebiscitárias já pegou e o governador Cid Gomes já fala em plebiscito a respeito da construção de um aquário em Fortaleza.

O vereador João Alfredo aproveitou a onda (o PSOL procura desesperadamente colar suas pautas nas mobilizações apartidárias) e pediu urgência na tramitação de uma proposta nesse sentido. Seu colega Capitão Wagner (PR) pegou carona e sugere um plebiscito para a Ponte Estaiada, no Cocó.

O momento de comoção, a pressão das ruas, a procura em oferecer respostas, tudo somado, descamba para um voluntarismo incensado pelo improviso. Essas discussões lembram a famosa máxima de Mencken: “For every complex problem there is an answer that is clear, simple, and wrong.” Leia mais

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Que é plebiscito?, perguntou Manduca ao senhor Rodrigues

Por Wanfil em Crônica

01 de julho de 2013

O conto Plebiscito, de Arthur Azevedo, vai no cerne da questão: a fusão de inépcia e política.

O conto Plebiscito, de Arthur Azevedo, vai no cerne da questão: a fusão de inépcia e política.

O escritor Artur Azevedo é o autor de um pequeno conto, publicado no final do século 19, que  ilustra perfeitamente o espírito com o qual o governo brasileiro propõe, nesta segunda década do século 21, um plebiscito para saber da população (não existe definição a respeito) algo sobre a necessidade de uma reforma política no país.

A ideia é uma forma de tentar mostrar que as autoridades, depois de inúmeros protestos, agora querem ouvir as massas. Mas, como sempre, onde deveria haver rigor, tem-se o improviso; no lugar do senso de responsabilidade, surge o oportunismo; e fazendo o papel de estadista, a irresponsabilidade.

O título do texto — Plebiscito — é mais do que uma coincidência semântica entre ficção e realidade. Se o leitor comparar os personagens da obra com figuras do presente, verá o retrato de um modo de ver as formalidades institucionais no Brasil, que perdura no tempo.

No lugar do menino Manduca, o povo brasileiro; no do Sr. Rodrigues, a presidente Dilma Rousseff; no de Dona Bernadina, a imprensa. Pronto, teremos atualizada, uma bela alegoria sobre a pantomima do plebiscito nos dias que correm.

— ∫ —

PLEBISCITO / Arthur Azevedo

A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

— Papai, que é plebiscito?

O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

— Papai?

Pausa:

— Papai?

Dona Bernardina intervém:

— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

— Que é? que desejam vocês?

— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito? Leia mais

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Que é plebiscito?, perguntou Manduca ao senhor Rodrigues

Por Wanfil em Crônica

01 de julho de 2013

O conto Plebiscito, de Arthur Azevedo, vai no cerne da questão: a fusão de inépcia e política.

O conto Plebiscito, de Arthur Azevedo, vai no cerne da questão: a fusão de inépcia e política.

O escritor Artur Azevedo é o autor de um pequeno conto, publicado no final do século 19, que  ilustra perfeitamente o espírito com o qual o governo brasileiro propõe, nesta segunda década do século 21, um plebiscito para saber da população (não existe definição a respeito) algo sobre a necessidade de uma reforma política no país.

A ideia é uma forma de tentar mostrar que as autoridades, depois de inúmeros protestos, agora querem ouvir as massas. Mas, como sempre, onde deveria haver rigor, tem-se o improviso; no lugar do senso de responsabilidade, surge o oportunismo; e fazendo o papel de estadista, a irresponsabilidade.

O título do texto — Plebiscito — é mais do que uma coincidência semântica entre ficção e realidade. Se o leitor comparar os personagens da obra com figuras do presente, verá o retrato de um modo de ver as formalidades institucionais no Brasil, que perdura no tempo.

No lugar do menino Manduca, o povo brasileiro; no do Sr. Rodrigues, a presidente Dilma Rousseff; no de Dona Bernadina, a imprensa. Pronto, teremos atualizada, uma bela alegoria sobre a pantomima do plebiscito nos dias que correm.

— ∫ —

PLEBISCITO / Arthur Azevedo

A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

— Papai, que é plebiscito?

O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

— Papai?

Pausa:

— Papai?

Dona Bernardina intervém:

— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

— Que é? que desejam vocês?

— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito? (mais…)