Otto Lara Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Otto Lara

Para ver 2014

Por Wanfil em Crônica

31 de dezembro de 2013

Primeiro de janeiro de 2014. Ano Novo. Se no calendário os anos são todos iguais, matematicamente repartidos em porções previsíveis, onde está a novidade? Muitos acreditam que o novo é o renascimento de esperanças que se desgastaram durante o ano que termina. Outros, que há um destino escrito e que desta vez pode ser a hora de a profecia se realizar.

Eu gosto de pensar que o novo está contido no velho, embutido. Explico. As novidades e as mudanças que se revelarão neste ano já estavam entre nós desde o ano passado, mas ninguém foi capaz de vê-las, seja por não ter prestado atenção ou por ter a “vista cansada”. A questão é saber quem as enxergará primeiro. E quando.

Por falar nisso, transcrevo um texto de Otto Lara Resende, escrito no mais ou menos distante 1992, mas que soa como uma novidade sempre. É que o novo surpreende não pelo inusitado, mas pelo óbvio que estava ao alcance de todos e que passou despercebido.

Segue Otto:

Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

(Extraído da crônica Vista Cansada, publicada no jornal Folha de São Paulo, em 23 de fevereiro de 1992).

Em 2014, meu desejo mais profundo é o de não deixar que as vendas da indiferença e do hábito me impeçam de ver o novo que se refaz todo dia diante de nós. Que eu possa ver com o coração o que sou e o que faço, porque ninguém é estático e mudamos sempre. Que possamos nos ver mais e melhor, sempre.

Feliz 2014 a todos!

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Para ver 2014

Por Wanfil em Crônica

31 de dezembro de 2013

Primeiro de janeiro de 2014. Ano Novo. Se no calendário os anos são todos iguais, matematicamente repartidos em porções previsíveis, onde está a novidade? Muitos acreditam que o novo é o renascimento de esperanças que se desgastaram durante o ano que termina. Outros, que há um destino escrito e que desta vez pode ser a hora de a profecia se realizar.

Eu gosto de pensar que o novo está contido no velho, embutido. Explico. As novidades e as mudanças que se revelarão neste ano já estavam entre nós desde o ano passado, mas ninguém foi capaz de vê-las, seja por não ter prestado atenção ou por ter a “vista cansada”. A questão é saber quem as enxergará primeiro. E quando.

Por falar nisso, transcrevo um texto de Otto Lara Resende, escrito no mais ou menos distante 1992, mas que soa como uma novidade sempre. É que o novo surpreende não pelo inusitado, mas pelo óbvio que estava ao alcance de todos e que passou despercebido.

Segue Otto:

Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

(Extraído da crônica Vista Cansada, publicada no jornal Folha de São Paulo, em 23 de fevereiro de 1992).

Em 2014, meu desejo mais profundo é o de não deixar que as vendas da indiferença e do hábito me impeçam de ver o novo que se refaz todo dia diante de nós. Que eu possa ver com o coração o que sou e o que faço, porque ninguém é estático e mudamos sempre. Que possamos nos ver mais e melhor, sempre.

Feliz 2014 a todos!