música Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

música

Mais safadão sou eu!

Por Wanfil em Cultura

03 de Março de 2016

Wesley Safadão. Não sei a razão do adjetivo usado no nome artístico, mas o fato é que amigos e colegas só falam nele. Nas redes sociais e nos noticiários, sua presença é garantida. Não há como escapar. Cercado, decidi me render ao sucesso do artista e fui pesquisar um pouco a seu respeito.

Comecei pelo aspecto que sempre considero mais revelador: as letras. No Google fui em busca da, digamos assim, mensagem que o cantor propaga, ciente, desde sempre, que se trata de produto musical para consumo de massa, provavelmente de celebração pela vida ou pelos prazeres da vida, essas coisas.  Eis o que encontrei, aleatoriamente:

Camarote
Agora assista aí de camarote
Eu bebendo gela, tomando Ciroc
Curtindo na balada, só dando virote
E você de bobeira sem ninguém na geladeira
Pra aprender que amor não é brincadeira!

Não entendi bem. Nunca bebi Ciroc, mas parece que isso confere status aos “baladeiros”. Outra coisa: quem não tem alguém na geladeira, fica de bobeira? Então, tá. Segui adiante:

Novinha Vai no Chão
Novinha vai no chão
Novinha vai no chão
Novinha vai no chão
Chão, chão, chão, chão

É… Posso parecer um tanto ultrapassado, mas essa conversa me pareceu chula. Se o conteúdo de Wesley é moderno, isso eu não sei, mas a sintaxe com certeza é conservadora e não arrisca: chão rima com chão.

Parei por aí. É mais do mesmo. Não me surpreendo com mais nada na cena cultural brasileira desde o sucesso de “Minha Eguinha Pocotó”; na verdade, a única conclusão que consigo elaborar nesse instante é que mais safadão sou eu, que perdi meu tempo.

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Súplica cearense

Por Wanfil em Ceará

02 de Abril de 2014

Três dias de chuva em Fortaleza bastaram para expor a fragilidade de ações preventivas no Ceará diante de seu clima semiárido. De um lado, a seca em todo o Estado, com a população cada vez mais dependente do Bolsa-Família. De outro, uma precipitação de 170 milímetros na capital (considerável, mas nenhum dilúvio, diga-se) fez desmancharem hospitais e alagar túneis.

No Ceará, no ano de 2014, um coro silencioso que vai do mais simples sertanejo até as mais graduadas e imponentes autoridades, remete à sina dos antigos retirantes nordestinos que na fé religiosa depositavam a esperança de uma graça ou o perdão dos pecados, como na famosa canção Súplica Cearense, gravada em 1960:

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Questão de fé

Passados 54 anos, os cearenses voltaram à mesma condição, obrigados a olhar para o céu e rezar, esperando por Deus. Não estou aqui desmerecendo o valor da fé, de jeito nenhum! Na verdade, recorro a uma passagem de Jesus para colocar as coisas em seus devidos lugares: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Com o conhecimento adquirido pelo homem, no uso da inteligência e do livre arbítrio com os quais Deus o presenteou, os fenômenos da chuva e da estiagem não podem mais ser vistos como bênção ou castigo, meros caprichos ou acidentes que fogem à divina perfeição das leis naturais. Cabe a César, ou aos homens, especialmente aos governantes, conduzir o esforço necessário para convivermos bem com as condições e especificidades da natureza em nossa região.

Isso já é possível. O Ceará possui boas reservas hídricas, mas ainda não conseguiu concluir a interligação desses pontos. A transposição do Rio São Francisco, que deveria ter ficado pronta em 2010, se arrasta aos trancos e barrancos, com apenas metade pronta, pelo dobro do preço previsto inicialmente. Existe tecnologia e recursos, falta competência.

Parece agilidade, mas não é

Recentemente o governador Cid Gomes anunciou que adutoras emergenciais serão feitas para evitar o colapso no abastecimento d’água de alguns municípios. E agora, por causa das chuvas em Fortaleza, a secretaria estadual da Saúde providenciou, em menos de 36 horas, o reparo do teto do HGF, que desabou sobre leitos de pacientes em estado grave. Já o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, criou um comitê para especial para acompanhar tudo.

São iniciativas importantes, sem dúvida, que até dão a impressão de agilidade, mas que devem ser vistas pelo que são: paliativos, remédios que aliviam os sintomas, mas que não curam a doença.

Nova súplica

Esses casos são apenas mais algumas amostras de uma concepção administrativa que está na moda no Brasil e no Ceará: as gestões esperam os desastres acontecerem e os problemas se agravarem, para só depois e às pressas (o que implica maiores custos), fazerem o que deveria ter sido feito antes, com calma e mais critério. Atrasadas, agem de uma hora para a outra, sem que nada as impeça. Na bonança, reclamam da burocracia, dos órgãos de fiscalização, do orçamento ou da Lei de Licitações. Na desgraça, sabem agir rápido para conter danos de imagem, especialmente em ano eleitoral.

No fim, a súplica cearense do Século 21 não pode ser a mesma dos anos 60 do século passado. Agora, o que falta mesmo é política pública de qualidade.

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“Cafajeste Music”: mais do que forró ruim, um estilo de vida

Por Wanfil em Cultura

10 de Janeiro de 2014

Forró Real - Reprodução: Facebook. Homens e mulheres reduzidos a estereótipos desprezíveis.

Forró Real – Reprodução: Facebook. Homens e mulheres reduzidos a estereótipos desprezíveis.

O cantor e compositor David Duarte cunhou a expressão “Cafajeste Music” para definir o forró pasteurizado da atualidade, carregado de exaltações ao consumo de álcool, à misoginia, ao sexo irresponsável e à egolatria. Segundo Duarte, não se trata de uma questão restrita ao campo musical, mas de um fenômeno de amplitude muito maior, que permeia as relações sociais do cotidiano.

Essas considerações foram feitas em dois vídeos onde o cantor, autor de músicas como a belíssima Bússola (uma das minhas preferidas, com participação de Manassés), aborda o tema: “Idiotas Orgânicos” (Hegemonia do Mau Gosto) e “Cafajeste Music” (Muito mais que uma mera disfunção estética). Com efeito, é uma das melhores leituras que já vi sobre a nossa realidade cultural.

A partir dela, cheguei à seguinte pergunta: Como chegamos a tal estado de indigência? Afinal, do Ceará brotaram talentos como Fagner, Belchior, Ednardo, Amelinha, Fausto Nilo e Humberto Teixeira (parceiro de Luiz Gonzaga), autores e intérpretes de canções belíssimas.

Desde o final dos anos 70 e início dos 80 do século passado, portanto, desde a redemocratização do país, os grandes talentos sumiram. Talvez só o sanfoneiro Waldonys, na condição de instrumentista. Depois quase tudo se dissipou na padronização de um modelo que promove a exaltação de uma falsa alegria que tem um quê de histeria. Com o tempo, essa música descartável feita para consumo imediato tornou-se o padrão.

Mesmo os grupos mais famosos desse meio, repaginados com roupas de grife, não escapam da pobreza estética, técnica e moral da “Cafajeste Music”. Exagero? Não, nada disso. Que dizer de uma sociedade que tem referência de sucesso artístico e comercial, e ainda com ares de celebridade fina, algo assim:

Dá um arrepio quando ela sai pedalando
Mas tem uma mão na frente que tá sempre atrapalhando
Acho que ela tem medo do periquito voar
Por isso que ela não para de tampar
(Bicicletinha – Aviões do Forró )

E de mulheres – muitas com formação de nível superior – que vibram de emoção ao ouvir o ídolo dizer isso:

Hoje eu pego uma fulera
Em cima da mesa faço ela dançar
Eu tiro tiro a calcinha da boneca
Faço como peteca jogo pra lá e pra cá
(Levante o dedo quem gosta de rapariga- Garota Safada )

Ou de rapazes que têm por modelo de masculinidade quem fala assim:

Sou cabra raparigueiro, gosto de raparigar,
Raparigar é minha sina, nasci pra raparigar.
A festa só fica boa quando chega a rapariga,
E no forró da rapariga todo mundo vai dançar!
(Trenzinho da sacanagem – Forró Real)

Vítimas

Esses foram exemplos colhidos aleatoriamente. Evito o quanto posso essas produções, porque sou atento ao que ouço. Mas não vai aqui nenhum recalque moralista. Pelo contrário. A rebeldia, a sensualidade e o erotismo são estímulos que podem ser encontrados em criações de grande valor na arte, sem vulgaridade ou depreciação de gênero.

Como disse David Duarte em seu vídeo, a questão é que a má qualidade dessas produções (gosto se discute, defende o cantor, no que concordo plenamente) reflete um ambiente social degradado, focado na satisfação pessoal superficial, na arrogância e no desprezo às mulheres. Seu conteúdo não tem nada que sugira alguma elevação espiritual. Nelas, a dor não ensina e o amor não constrói, ficando tudo resumido a álcool e sexo vazio.

Acima, pergunto o que esperar de pessoas que consomem esse material sem filtros. A resposta é simples: não espero nada. Nem cobro. São, em boa medida, vítimas de um cartel de produção musical que aposta nos baixos instintos para ganhar dinheiro. De artistas e intelectuais que se omitem, que evitam debater cultura, em dizer que isso ou aquilo é ruim, por receio de não parecer relativista. E de pais que evitam (ou não querem, ou não sabem) conhecer e conversar sobre o que seus filhos andam vendo, ouvindo e assimilando. A deseducação acaba em noções como as ideias de que a “fuleira” trai por vingança e o “cachaceiro” não perdoa as “raparigas”.

Não é o caso de pregar a censura, que isso é mascarar o problema em vez de enfrentá-lo. Nem de ser contra o forró, ritmo que nos toca por fazer parte da nossa história. Aliás, é uma defesa do forró. Esse modelo que critico aqui me parece algo importado do RAP americano e do Funk carioca, com seus ressentimentos, ostentação e misoginia. Mas isso fica para outro texto.

Também não é nada contra a diversão despretensiosa. Nem tudo pode ser arte de alto nível.  Mas essa condição não pode servir de justificativa para que o culto ao chulo e a hegemonia da mediocridade ocupem todos os espaços da produção cultural, a ponto de matar, por inanição, as manifestações de valor construtivo.

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Cem anos de Vinicius de Moraes. Poetinha?

Por Wanfil em Cultura

19 de outubro de 2013

Vinicius de Moraes completaria cem anos, se estivesse vivo, neste 19 de outubro sem música nem poesia.

Vinicius de Moraes completaria cem anos, se estivesse vivo, neste 19 de outubro sem música nem poesia.

Sempre que ouço falar de Vinicius de Moraes lembro do boêmio a bebericar uísque rodeado de mulheres (casou-se nove vezes) e tenho calafrios depressivos ao lembrar da chatíssima bossa nova, estilo musical enfadonho ao extremo que adornou algumas de suas letras. Completaria hoje 100 anos se estivesse vivo (morreu aos 66 anos em 1980). Foi mais poeta do que letrista, mas o letrista foi sua persona pública de maior sucesso, o que acabou relegando a um segundo plano sua produção mais visceral. Ficou conhecido pelo carinhoso apelido de “poetinha”, o que, diante de algumas de suas poesias, é uma injustiça.

O Vinicius pop star ofuscou o Vinicius mais profundo, embora alguma de suas letras sejam magníficas, como O Filho que Eu quero Ter (belíssima canção de Toquinho, uma exceção ao tédio da bossa nova). Sua poesia, pelo que li, me parece irregular. Alterna grandes momentos com outros de menor impacto, mas suspeito que isso aconteça ao lermos qualquer poeta de maior estatura. O que nos toca é também um pouco de nós, e o que não comove a gente é aquilo o que nos é alheio ao sentimento pessoal. Ler poesia é buscar um espelho para a alma.

De todo modo, nesses dias de aridez incomparável, seja na poesia ou nas letras das músicas, é possível dizer que a ausência de Vinicius nos remete a um estado melancólico, diante da constatação de que não temos mais a quem recorrer, só aos que já se foram. Dos vivos, arrisco ainda a poesia de um Affonso Romano de Sant’Anna, embora o melhor da sua produção seja do século passado.

Conversava dia desses com um amigo sobre o ocaso da poesia como forma literária no Brasil e talvez no mundo. Onde estão os grandes poetas da atualidade? A superficialidade dos debates, a emergência de um modo de viver acelerado demais, as preocupações com as boas condutas (o que comer, quantas horas dormir, quantos quilômetros correr, quantos check ups fazer, essas coisas), a performance profissional cada vez mais automatizada, tudo isso pode concorrer para o fim da poesia. Não sei. Pode ser apenas o que Gasset chamava de azar, viver um tempo sem talentos, mal que vez por outra atinge algumas gerações.

Arte

Para encerrar, do Vinicius poeta, muito cedo (na adolescência ainda) impressionou-me este poema:

DIALÉTICA

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

E do Vinicius letrista, a canção que citei acima, aqui interpretada por Paulinho da Viola, é memorável:

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Cem anos de Vinicius de Moraes. Poetinha?

Por Wanfil em Cultura

19 de outubro de 2013

Vinicius de Moraes completaria cem anos, se estivesse vivo, neste 19 de outubro sem música nem poesia.

Vinicius de Moraes completaria cem anos, se estivesse vivo, neste 19 de outubro sem música nem poesia.

Sempre que ouço falar de Vinicius de Moraes lembro do boêmio a bebericar uísque rodeado de mulheres (casou-se nove vezes) e tenho calafrios depressivos ao lembrar da chatíssima bossa nova, estilo musical enfadonho ao extremo que adornou algumas de suas letras. Completaria hoje 100 anos se estivesse vivo (morreu aos 66 anos em 1980). Foi mais poeta do que letrista, mas o letrista foi sua persona pública de maior sucesso, o que acabou relegando a um segundo plano sua produção mais visceral. Ficou conhecido pelo carinhoso apelido de “poetinha”, o que, diante de algumas de suas poesias, é uma injustiça.

O Vinicius pop star ofuscou o Vinicius mais profundo, embora alguma de suas letras sejam magníficas, como O Filho que Eu quero Ter (belíssima canção de Toquinho, uma exceção ao tédio da bossa nova). Sua poesia, pelo que li, me parece irregular. Alterna grandes momentos com outros de menor impacto, mas suspeito que isso aconteça ao lermos qualquer poeta de maior estatura. O que nos toca é também um pouco de nós, e o que não comove a gente é aquilo o que nos é alheio ao sentimento pessoal. Ler poesia é buscar um espelho para a alma.

De todo modo, nesses dias de aridez incomparável, seja na poesia ou nas letras das músicas, é possível dizer que a ausência de Vinicius nos remete a um estado melancólico, diante da constatação de que não temos mais a quem recorrer, só aos que já se foram. Dos vivos, arrisco ainda a poesia de um Affonso Romano de Sant’Anna, embora o melhor da sua produção seja do século passado.

Conversava dia desses com um amigo sobre o ocaso da poesia como forma literária no Brasil e talvez no mundo. Onde estão os grandes poetas da atualidade? A superficialidade dos debates, a emergência de um modo de viver acelerado demais, as preocupações com as boas condutas (o que comer, quantas horas dormir, quantos quilômetros correr, quantos check ups fazer, essas coisas), a performance profissional cada vez mais automatizada, tudo isso pode concorrer para o fim da poesia. Não sei. Pode ser apenas o que Gasset chamava de azar, viver um tempo sem talentos, mal que vez por outra atinge algumas gerações.

Arte

Para encerrar, do Vinicius poeta, muito cedo (na adolescência ainda) impressionou-me este poema:

DIALÉTICA

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

E do Vinicius letrista, a canção que citei acima, aqui interpretada por Paulinho da Viola, é memorável: