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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

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E o tema da eleição é: ‘milionários X profissionais da política’

Por Wanfil em Eleições 2014

04 de agosto de 2014

“Aqui não tem milionários”, diz Camilo Santana, candidato do PT ao governo do Ceará, que na verdade é um candidato genérico do Pros, partido que hoje comanda o Estado. É uma crítica aos patrimônios dos candidatos Eunício Oliveira, do PMDB, e Tasso Jereissati, do PSDB. Tecnicamente, é uma aposta na clivagem surrada, mas de algum apelo em países de grande desigualdade social, entre ricos e pobres. A mensagem é: somos nós, os pobres, contra eles, os ricos.

Marxismo de botequim como estratégia
Esse apelo ao marxismo de botequim não é à toa e tem função estratégica clara. Foi lançado nessas eleições por Ciro Gomes, outro que se quer humilde despossuído, com seu estilo peculiar. Camilo depois retoma o assunto, de forma mais moderada, para deixá-lo em evidência. De quebra, é uma alusão ao fato de Eunício possuir empresas que tem contratos com governos. Como um de seus clientes é o governo federal, seria bom que Ciro e Camilo alertassem Dilma caso realmente saibam de algo desabonador, não é?

Outro ponto interessante é que, apesar de fazer graça com a história de que não tem milionários na chapa, a coligação tem previsão de gastos de dezenas de milhões de reais. Pode parecer uma contradição, e milhões sem milionários é algo suspeito por natureza, mas como estamos falando de política, o raciocínio lógico nem sempre prevalece.

Notem que se trata de um cálculo. O candidato poderia dizer: “Aqui não tem corrupto”. Mas seu partido é o partido do mensalão. Melhor não ir por aí. Quem sabe um “aqui não tem traidor”, mas aí complicava o pessoal do Pros, aliados de Cid que mudam de partido vez por outra.

Revide
A resposta de Eunício e alguns aliados tem sido mais ou menos esta: “Não vamos baixar o nível e entrar em bate-boca, mas aqui não tem profissional da política”, em referência ao fato de Cid e Ciro Gomes, padrinhos da candidatura de Camilo, não possuírem atividade profissional conhecida fora da política, afinal, desde jovens ocupam cargos públicos.

Ficasse apenas na primeira parte, seria uma boa resposta, mas com o complemento, perde a eficácia, pois acaba servindo ao propósito dos ataques, pois termina dentro do tema proposto pelos adversários. Qualquer resposta que repercuta as acusações e ilações feitas por quem está atrás nas pesquisas tem o poder de colocá-lo no debate em condição estratégica favorável. Tem muito consultor dizendo que não responder é o pior. Nada disso. Responder aquilo o que espera o concorrente é que é o erro. O segredo aí é mudar o eixo da prosa. O revide precisa desmontar a intenção do outro candidato.

Se provocam com o “aqui não tem milionário”, a melhor resposta seria “aqui não tem incompetente”, ou “aqui tem gente indignada com a insegurança, com a seca, com a saúde precária”. Tirar o foco da discussão do patrimônio pessoal dos candidatos, que a rigor não tem nada demais (a não ser que existam provas de crimes), afinal, não é ilegal ser rico ou ter a política como profissão, e trazê-la para as questões administrativas.

Quem define o tema do debate leva vantagem
Aprendi que leva sempre vantagem quem estabelece os temas sobre os quais a campanha irá se desenrolar. Nesse momento, a luta é exatamente essa. Estamos com açudes secando, uma situação calamitosa, violência em alta e saúde desaprovada em pesquisas. Por enquanto, tudo isso aguarda por um debate. Pode ser que estejam esperando a propaganda de televisão. A demora, no entanto, beneficia quem não quer falar desses assuntos.

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O Ceará e o aumento das esmolas do governo federal – Ou: A mentira da erradicação da extrema pobreza

Por Wanfil em Ceará

18 de Março de 2013

Escolha a pílula azul e continue sonhando com um país onde a miséria foi erradicada com algumas canetadas. Opte pela vermelha e veja como a realidade é mais complicada. Foto: Imagem do filme Matrix.

Escolha a pílula azul e continue sonhando com um país onde a miséria foi erradicada com algumas canetadas. Opte pela vermelha e veja como a realidade é mais complicada. Foto: Imagem do filme Matrix.

O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) ampliou a cobertura de mais uma bolsa. Agora, o Benefício para Superação da Extrema Pobreza (BSP) a famílias com renda inferior a 70 reais por pessoa e com filhos com até seis anos, será pago também as que têm filhos com até 15 anos. Só no Ceará 240 mil pessoas receberão ajuda para superar a extrema pobreza, número que faz do estado um dos que mais recebem recursos com esse fim.

A notícia parece ser alvissareira, mas é bom ter cuidado, afinal, a simples existência dessa necessidade nos leva a uma conclusão incontornável: no Ceará, mesmo com os seguidos aumentos na arrecadação de impostos e com o crescimento econômico superior à média nacional, a extrema pobreza não recua, pelo contrário, é preciso apelar ao reforço adicional do governo federal para enfrentá-la.

Dependência

Para definir um parâmetro de referência para a pobreza extrema, o Brasil segue o critério utilizado pelo Banco Mundial, que é o de renda per capita de até U$ 1 por dia. Daí o valor de R$ 70,00.

O problema é que a ampliação do BSP não corresponde a uma redução na quantidade de pessoas atendidas pelo Bolsa Família. A doação de dinheiro aos miseráveis, naturalmente, reduz a miséria, ainda que temporariamente. É bom, mas seria melhor se os beneficiários não ficassem eternamente dependentes do governo.

Ensinar a pescar

No final de 2011, entrevistei o economista Carlos Manso, do Laboratório de Estudos da Pobreza da Universidade Federal do Ceará. Na ocasião, ele foi didático ao explicar os limites desses programas assistencialistas: “A geração de riquezas é como encher um açude com peixes: se as pessoas não souberem ou não tiverem condições de pescar, apenas os que já pescavam antes é que irão se beneficiar, aumentando a desigualdade”. Com efeito, só é possível erradicar pobreza e miséria com a geração e a distribuição eficaz de riqueza. E a chave para a distribuição adequada não são as bolsas, diz Carlos Manso, mas o acesso à educação de qualidade, no que concordo plenamente. É justamente o que não aconte, seja no Brasil ou no Ceará.

Canetada

Com o BSP, o sujeito passa a garantir renda de 70 reais por mês e o governo, numa canetada, altera a classificação econômica desse indivíduo no cadastro do ministério. Será o fim da pobreza extrema sem o fim dos extremamente pobres. Seremos a primeira economia do mundo a acabar com a miséria sem criar riqueza. Um feito que será devidamente explorado pelos marqueteiros da presidente em sua campanha à reeleição.

No entanto, se a extrema pobreza estivesse mesmo diminuindo (não confundir transferência de renda das classes médias para os mais pobres com geração de riqueza), as bolsas não precisariam ser ampliadas. Essa contradição elementar bastaria como antídoto para engodos e truques dessa natureza.

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O Ceará e o aumento das esmolas do governo federal – Ou: A mentira da erradicação da extrema pobreza

Por Wanfil em Ceará

18 de Março de 2013

Escolha a pílula azul e continue sonhando com um país onde a miséria foi erradicada com algumas canetadas. Opte pela vermelha e veja como a realidade é mais complicada. Foto: Imagem do filme Matrix.

Escolha a pílula azul e continue sonhando com um país onde a miséria foi erradicada com algumas canetadas. Opte pela vermelha e veja como a realidade é mais complicada. Foto: Imagem do filme Matrix.

O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) ampliou a cobertura de mais uma bolsa. Agora, o Benefício para Superação da Extrema Pobreza (BSP) a famílias com renda inferior a 70 reais por pessoa e com filhos com até seis anos, será pago também as que têm filhos com até 15 anos. Só no Ceará 240 mil pessoas receberão ajuda para superar a extrema pobreza, número que faz do estado um dos que mais recebem recursos com esse fim.

A notícia parece ser alvissareira, mas é bom ter cuidado, afinal, a simples existência dessa necessidade nos leva a uma conclusão incontornável: no Ceará, mesmo com os seguidos aumentos na arrecadação de impostos e com o crescimento econômico superior à média nacional, a extrema pobreza não recua, pelo contrário, é preciso apelar ao reforço adicional do governo federal para enfrentá-la.

Dependência

Para definir um parâmetro de referência para a pobreza extrema, o Brasil segue o critério utilizado pelo Banco Mundial, que é o de renda per capita de até U$ 1 por dia. Daí o valor de R$ 70,00.

O problema é que a ampliação do BSP não corresponde a uma redução na quantidade de pessoas atendidas pelo Bolsa Família. A doação de dinheiro aos miseráveis, naturalmente, reduz a miséria, ainda que temporariamente. É bom, mas seria melhor se os beneficiários não ficassem eternamente dependentes do governo.

Ensinar a pescar

No final de 2011, entrevistei o economista Carlos Manso, do Laboratório de Estudos da Pobreza da Universidade Federal do Ceará. Na ocasião, ele foi didático ao explicar os limites desses programas assistencialistas: “A geração de riquezas é como encher um açude com peixes: se as pessoas não souberem ou não tiverem condições de pescar, apenas os que já pescavam antes é que irão se beneficiar, aumentando a desigualdade”. Com efeito, só é possível erradicar pobreza e miséria com a geração e a distribuição eficaz de riqueza. E a chave para a distribuição adequada não são as bolsas, diz Carlos Manso, mas o acesso à educação de qualidade, no que concordo plenamente. É justamente o que não aconte, seja no Brasil ou no Ceará.

Canetada

Com o BSP, o sujeito passa a garantir renda de 70 reais por mês e o governo, numa canetada, altera a classificação econômica desse indivíduo no cadastro do ministério. Será o fim da pobreza extrema sem o fim dos extremamente pobres. Seremos a primeira economia do mundo a acabar com a miséria sem criar riqueza. Um feito que será devidamente explorado pelos marqueteiros da presidente em sua campanha à reeleição.

No entanto, se a extrema pobreza estivesse mesmo diminuindo (não confundir transferência de renda das classes médias para os mais pobres com geração de riqueza), as bolsas não precisariam ser ampliadas. Essa contradição elementar bastaria como antídoto para engodos e truques dessa natureza.