livro Archives - Blog do Wanfil 
Publicidade

Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

livro

Queremos ser maus, mas não queremos ser ridículos

Por Wanfil em Cultura

21 de junho de 2018

O STF invalidou nesta quinta-feira o trecho da Lei Eleitoral que visava impedir veículos de comunicação de utilizarem sátiras e montagens com candidatos. Opiniões também estariam proibidas.

A regra contra o humor foi aprovada em 2009 e suspensa pelo próprio STF em 2010, até o presente julgamento da ação presentada pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert).

Ao ler essa notícia pitoresca, me lembrei de uma carta escrita por ninguém menos que Molière, no Século 17, para defender a encenação da comédia teatral O Tartufo, que havia sido proibida a pedido da Igreja Católica, e de alguns nobres e burgueses que se sentiram ofendidos com seus personagens.

A peça, que leio agora, faz uma crítica à hipocrisia que se vale da religião para alimentar vaidades. Na carta, Moliére denuncia a motivação daqueles que o censuram:
“É atingir o vício em cheio o expô-lo à zombaria de todos. Não nos causa abalo o sermos criticados; mas não se tolera o escárnio. Queremos ser maus, mas não queremos ser ridículos”.

A comédia, como gênero, foi julgada na França em 1667; no Brasil, em 2018.

Publicidade

Dica de livro: Stoner

Por Wanfil em Livros

17 de junho de 2017

Simplesmente fantástico. Emocionante, pungente, forte e delicado.

Cheguei a Stoner, de John Williams, por indicação de uma amiga, a jornalista Cláudia Albuquerque. Não conhecia a obra (publicada em 1965) nem o autor, mas se ela (que escreve muito bem) recomendava o livro, então valeria a leitura, intuí com acerto. Lá encontrei tudo o que admiro num escritor: elegância, esmero, paciência nos pormenores que sempre se revelam, cedo ou tarde, fundamentais. Williams é ao mesmo tempo simples e sofisticado na construção de imagens, personagens e sentimentos. E isso não é fácil.

Para aumentar ainda mais o brilho da narrativa, o personagem título, William Stoner, não lidera revoltas nem é perseguido por governos opressores, não é porta-voz de causas nem símbolo de lutas contra preconceitos, é somente um professor universitário sem grandes obras, de poucos amigos e limitada conexão com a família. Parece demasiadamente banal, um convite ao tédio, mas mesmo assim, é complicado explicar, temos em Stoner uma baita história. Certamente uma das mais emocionantes que li.

No posfácio, Peter Cameron explica essa singularidade: “Nada disso [as premissas do livro] parece material muito promissor para um romance. No entanto, de alguma forma, quase milagrosamente, John Williams transforma a existência de William Stoner em uma história apaixonante, profunda e pungente”. É isso! Milagre. De onde percebemos como a vida pode ser poderosa em seus detalhes, se a olharmos com atenção.

Poucas vezes um livro despertou em mim, na hora mesmo da leitura, sentimentos tão intensos. Cláudia, minha amiga, e Cameron, do posfácio, comentam reações semelhantes que, a princípio, imaginei exagero. Não é. De algum modo, a história de uma pessoa comum – e assim como as nossas próprias histórias – pode ter muito mais significado do que se imagina.

Um livro fantástico. Experimente.

Publicidade

Dica de leitura: Demian, de Hermann Hesse

Por Wanfil em Livros

31 de julho de 2016

Capa Demian V3 MFDica de livro do Wanfil: Demian, de Hermann Hesse, escritor alemão ganhador do Nobel, publicado em 1916. Fala da amizade entre o narrador, Emil Sinclair, de dez anos, e seu colega de escola Max Demian, crianças buscando descobrir o mundo e que permitem ao autor trabalhar reflexões sobre a natureza humana, num contexto em que a promessa de prosperidade do Século 19 entra em choque com as sombrias mazelas do Século 20, o mais sanguinário da História.

Simbolicamente, essa divisão é magistralmente retratada nas diferenças entre a segurança do lar e a imprevisibilidade das ruas, onde a regra é a luta pela sobrevivência. Daí o nome do primeiro capítulo ser “Dois mundos”. Segue um trecho, retirado ainda do prólogo do livro, em primeira pessoa:

Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir para si mesmos.”

Literatura de qualidade é assim: resulta em exercício de autoavaliação (como indivíduo e como sociedade), com o ritmo instigante das histórias envolventes, distante da superficialidade das lições de autoajuda. Nada mais fundamental nesses tempos, quando as pessoas alardeiam certezas ao sabor de ideologias idiotizantes. Reparem que o trecho destacado acima não elogia os que não mentem para si mesmos, mas os que almejam essa condição. O ponto de inflexão está na vontade do sujeito. Até porque, como sabemos por experiência própria, a disposição de enfrentar nossos erros não é certeza de imunidade aos enganos.

Assim, o tentar, a busca por algo maior, o estado de alerta com os próprios atos e pensamentos e o compromisso com a essas intenções é o que pode distinguir o homem adulto daquele que aceita, passivamente, iludir-se como se fosse criança, porém, sem a inocência da idade.

Publicidade

Você conhece Murilo Rubião?

Por Wanfil em Livros

27 de setembro de 2014

“A princípio foi azul, depois  verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor. Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou”. Trecho do conto O pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, publicado em 1974, sobre a luta de um homem para provar que estava realmente morto.

Murilo Rubião - Obra Completa. Cia. das Letras.   O inexplicável e o mágico como partes da vida.

Murilo Rubião – Obra Completa. Cia. das Letras. O inexplicável e o mágico como partes da vida.

Rubião é assim: elegante na sintaxe, envolvente na prosa, de modo a deixar o leitor sempre ansioso pelo próximo parágrafo; seguro na condução do ritmo e surpreendente nos arremates. O inusitado, o misterioso e o fantástico aparecem em seus contos como algo normal. Em O Pirotécnico…, o personagem assim explica sua condição incomum: “No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença de que aquele era vivo e este, um defunto”. Como pode isso? Não se sabe, apenas pode.

Em outro conto, O ex-mágico da Taberna Minhota, Murilo é alucinante e ao mesmo tempo pungente: “Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores. Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude. Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo”.

É justamente o inexplicável na condição de coisa simples, o elemento que fascina nas histórias de Murilo Eugênio Rubião (1916-1991), um dos nossos poucos representantes do chamado realismo mágico. Entretanto, seus textos foram publicados em meados de 1940, antes, portanto, do sucesso de Gabriel García Marquez e Julio Cortazár, expoentes mais famosos desse estilo. Mas não se trata apenas de buscar o estranhamento do leitor. A prosa fantástica é rica por seu teor metafórico. A de Rubião em particular é relacionada com aspectos da psicologia, sem referências a revoluções, contrastes sociais, lições de moral, essas coisas. Talvez por isso seja menos reconhecido do que deveria.

Rubião também dominou com precisão o suspense, como no conto A armadilha: ” Quis voltar ao corredor, a fim de recomeçar a busca, quando deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no chão, mas um terror súbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante sereno, apontava-lhe um revólver. Conservando a arma na direção do intruso, ordenou-lhe que não se afastasse. Também a Alexandre não interessava fugir, porque jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensação de medo fora passageira e logo substituída por outra mais intensa, ao fitar os olhos do velho”.

Os textos de Murilo Rubião são sedutoras lições de português que refletem seu trabalho minucioso. Um conto poderia ficar anos sob lapidação. Os diálogos também são marcantes, de frases curtas e ferinas, entrecortados com reflexões dos personagens ou do narrador. Pincei uma amostra de Os três nomes de Godofredo:

“Insatisfeito com as dúvida que me ocorriam, indaguei meio constrangido:
– Eu a convidei para o jantar, não?
– Claro! E não havia necessidade de um convite formal para me trazer aqui.
– Como?
– Bolas, desde quando se tornou obrigatório ao marido convidar a esposa para as refeições?
– Você é minha mulher?
– Sim, a segunda. E preciso lhe dizer que a primeira era loura e que você a matou num acesso de ciúmes?
– Não é necessário. (Já ficara bastante abalado em saber do meu casamento e não desejava que me criassem o remorso do qual não tinha a menor lembrança)”.

E para mostrar a versatilidade desse escritor, encerro com um poético trecho de O pirotécnico Zacarias“Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos”.

Publicidade

Dica de livro: A queda – o relato de um amor verdadeiramente incondicional

Por Wanfil em Livros

27 de dezembro de 2012

Lançado em agosto de 2012, A Queda, de Diogo Mainardi, está na 3ª edição no Brasil. Uma experiência que poderia ser deprimente foi transformada em aprendizado enriquecedor.

Ganhei num desses amigos secretos de final de ano, o livro A Queda, do polêmico escritor e jornalista Diogo Mainardi, “as memórias de um pai em 424 passos”. Trata-se de um relato sobre Tito, filho do autor que nasceu com paralisia cerebral devido a um erro médico. Como eu estava no meio de uma outra leitura — Os Demônios, de Dostoiévski –, imaginei deixar A Queda na fila de livros que tenho e ainda não li.

No entanto, manuseando o presente, resolvi conferir as orelhas e a contracapa. Depois, sem maiores pretensões, li o primeiro parágrafo. Fui fisgado. Terminei a leitura das 150 páginas em pouco mais de um dia.

Não há no relato de Mainardi momentos de autocomiseração, lições de como lidar com o infortúnio, mensagens de esperança e de perseverança, lamentos inúteis, homenagens religiosas, confissões de culpas ou apelos sentimentais. Pelo contrário, em muitas passagens, o texto é marcado pela ironia, pelo sarcasmo e pelo estoicismo.

Estilo

A narrativa é uma habilidosa construção onde a experiência pessoal do autor, às voltas com as descobertas e os desafios impostos pela enfermidade do filho, é costurada a uma série de referências culturais (sobretudo a pintura, a escultura e a literatura), históricas (do Renascimento ao nazismo) e do pop (da banda U2 a jogos de videogame), demonstrando uma erudição refinada, porém, agradável, sem afetação. É leitura enriquecedora, com certeza.

Em A Queda, Mainardi consegue adaptar para a literatura o estilo desenvolvido em seus artigos: a capacidade de sintetizar conceitos complexos em frases curtas e diretas. A estrutura narrativa é feita de forma semelhante, com passagens breves sobre variados temas, sempre ligados, de maneira inesperada e bonita, à paralisia cerebral de Tito. A meu ver, o maior desafio de um escritor é ter um estilo próprio. Isso é resultado de leitura, de absorção de outros estilos, de prática, até que se feche a gestalt literária para, então, criar sua marca de identidade.

A mensagem

E ainda assim, com toda a erudição e todo o sarcasmo, o que prevalece do enredo é o amor incondicional de um pai por um filho. Incondicional porque não cobra reconhecimento, não espera retorno, não exige nada em troca. Incondicional porque não lamenta, em momento algum, o destino. Incondicional porque é doação que não se entende por doação. Mainardi revela, de forma indireta, que a gratidão é dele para com o filho enfermiço, que o fez ver como a família é o centro da vida e tudo o mais é passageiro e fugaz.

A Queda é uma referência às tentativas que Tito faz de caminhar sozinho. Ao pai, resta-lhe cuidar para que o tombo não se faça doloroso, sua missão é a de acudi-lo sempre. “Suas quedas recordam-me permanentemente da precariedade e da transitoriedade de tudo o que eu tentei construir”.

Encerro com a transcrição de uma passagem na qual o autor explica o que o motivou a escrever o livro:

“… Marcel Proust pensa em escrever um livro sobre o seu passado, porque para interpretar os sentimentos era necessário, antes de tudo, transformá-lo em ideias, ‘convertendo-os em sem equivalente intelectual’.

O livro que ele pensa em escrever é o próprio Em Busca do Tempo Perdido. (…)

O livro que converte meus sentimentos em seu equivalente intelectual é este aqui”.

Publicidade

Dica de leitura: Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Ou: “Eu detesto política como redenção”

Por Wanfil em Livros

03 de novembro de 2012

Guia Politicamente Correto da Filosofia, Luiz Felipe Pondé, editora LeYa, 2012. Uma contundente crítica à cultura do politicamente correto.

Em ambientes de assimetria ideológica, como é o caso do Brasil, pautados por uma avassaladora adesão aos preceitos  da esquerda (dos moderados aos radicais) e aos melindres do que se convencionou chamar de “politicamente correto”, vozes dissonantes, dessas que não aderem automaticamente aos modismos ou que não assumem discursos pela conveniência de agradar ao status influente do momento, são raras. Especialmente se forem também inteligentes e provocativas.Assim, provocadora e instigante é a leitura do Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Leya; 224 páginas; 39,90 reais), escrito pelo filósofo Luiz Felipe Pondé, professor da PUC-SP e da FAAP, com formação na USP e doutorado em Paris.

Ser a nota dissonante em meio ao coro dos contentes não é fácil. É certo que alguém que abdica do corporativismo seja rejeitado pelos que preferem a proteção do espírito de manada (“A mediocridade anda em bando”, dispara o autor). Sobre esses, Pondé afirma (grifos meus):

O mundo das ciências humanas, em que há pouco dinheiro e se faz pouca coisa, é dominado pela esquerda aguada. Há muito corporativismo, e a tendência geral de excluir, por manobras institucionais, aqueles que não se identificam com a esquerda. Existe ainda a nova esquerda, para a qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da história, como queria Marx. Os novos esquerdistas acreditam que esse papel hoje cabe às mulheres oprimidas, aos índios, aos aborígines, aos imigrantes ilegais. Esses segmentos formariam a nova classe sobre a qual estaria depositada a graça redentora. Eu detesto política como redenção.”

Adorar a política como redenção é a senha para que professores e acadêmicos deixem de lado a missão pedagógica de ensinar os outros a pensar com autonomia para assumir a condição de militantes proselitistas, com a função de doutrinar alunos. Exagero? Não. Basta olhar as bibliografias de qualquer curso desses, em qualquer faculdade. É tiro e queda: esquerdismo e revisionismo esquerdista. Aqui, não se respira nada de novo.

Invasão na UFC: ressentimento

Na semana em que um grupo de “estudantes” liderados por um sujeito maltrapilho invadiu e depredou o prédio da Reitoria da UFC para exigir a implantação imediata de cotas raciais nos termos que eles – os invasores – consideram os melhores, outra passagem do livro ilustra bem como o politicamente correto recobre de pureza sentimentos degradantes, ao mesmo tempo em que reprova conceitos como mérito e competência.

“Como diz o psiquiatra inglês Theodore Dalrymple, o ressentimento é um dos sentimentos mais fortes e duradouros na experiência humana, e o welfare state, ao encher as pessoas com direitos (a quase) tudo, cria uma situação peculiar, que é fazer com que os cidadãos sejam, ao mesmo tempo, ingratos com o que recebem (já que tudo o que recebem é ‘direito inalienável’) e ressentidos quando não recebem seus ‘direitos’. Não há saída para essa equação de geração de preguiça e mau caráter. E esses ‘direitos’ custam caro. Quem paga a conta? Quem trabalha, é claro. A minoria sempre carregou o mundo nas costas. O welfare state nega o fato de que poucos são mais capazes, mais inteligentes, mais esforçados e mais disciplinados e que por isso devem gozar dos resultados das suas virtudes. Dizer isso é politicamente incorreto, mas é verdade. A praga PC ( e seu parceiro, o Estado de bem-estar social europeu, responsável em grande parte pela derrocada da Europa nos últimos meses) estimula o vício e pune a virtude por não a reconhecer e por fazer com que ela pague a conta dos vagabundos”, (pag. 208).

O Guia não é um trabalho científico  e não cansa com afetaçõesdemonstrações complicadas de erudição. São ensaios em que o autor “dialoga” com pensadores que vão desde Sêneca até Nelson Rodrigues. Vale a leitura, que é fácil e acessível a quem não é iniciado nos debates da filosofia.

Publicidade

Dica de leitura: Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Ou: “Eu detesto política como redenção”

Por Wanfil em Livros

03 de novembro de 2012

Guia Politicamente Correto da Filosofia, Luiz Felipe Pondé, editora LeYa, 2012. Uma contundente crítica à cultura do politicamente correto.

Em ambientes de assimetria ideológica, como é o caso do Brasil, pautados por uma avassaladora adesão aos preceitos  da esquerda (dos moderados aos radicais) e aos melindres do que se convencionou chamar de “politicamente correto”, vozes dissonantes, dessas que não aderem automaticamente aos modismos ou que não assumem discursos pela conveniência de agradar ao status influente do momento, são raras. Especialmente se forem também inteligentes e provocativas.Assim, provocadora e instigante é a leitura do Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Leya; 224 páginas; 39,90 reais), escrito pelo filósofo Luiz Felipe Pondé, professor da PUC-SP e da FAAP, com formação na USP e doutorado em Paris.

Ser a nota dissonante em meio ao coro dos contentes não é fácil. É certo que alguém que abdica do corporativismo seja rejeitado pelos que preferem a proteção do espírito de manada (“A mediocridade anda em bando”, dispara o autor). Sobre esses, Pondé afirma (grifos meus):

O mundo das ciências humanas, em que há pouco dinheiro e se faz pouca coisa, é dominado pela esquerda aguada. Há muito corporativismo, e a tendência geral de excluir, por manobras institucionais, aqueles que não se identificam com a esquerda. Existe ainda a nova esquerda, para a qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da história, como queria Marx. Os novos esquerdistas acreditam que esse papel hoje cabe às mulheres oprimidas, aos índios, aos aborígines, aos imigrantes ilegais. Esses segmentos formariam a nova classe sobre a qual estaria depositada a graça redentora. Eu detesto política como redenção.”

Adorar a política como redenção é a senha para que professores e acadêmicos deixem de lado a missão pedagógica de ensinar os outros a pensar com autonomia para assumir a condição de militantes proselitistas, com a função de doutrinar alunos. Exagero? Não. Basta olhar as bibliografias de qualquer curso desses, em qualquer faculdade. É tiro e queda: esquerdismo e revisionismo esquerdista. Aqui, não se respira nada de novo.

Invasão na UFC: ressentimento

Na semana em que um grupo de “estudantes” liderados por um sujeito maltrapilho invadiu e depredou o prédio da Reitoria da UFC para exigir a implantação imediata de cotas raciais nos termos que eles – os invasores – consideram os melhores, outra passagem do livro ilustra bem como o politicamente correto recobre de pureza sentimentos degradantes, ao mesmo tempo em que reprova conceitos como mérito e competência.

“Como diz o psiquiatra inglês Theodore Dalrymple, o ressentimento é um dos sentimentos mais fortes e duradouros na experiência humana, e o welfare state, ao encher as pessoas com direitos (a quase) tudo, cria uma situação peculiar, que é fazer com que os cidadãos sejam, ao mesmo tempo, ingratos com o que recebem (já que tudo o que recebem é ‘direito inalienável’) e ressentidos quando não recebem seus ‘direitos’. Não há saída para essa equação de geração de preguiça e mau caráter. E esses ‘direitos’ custam caro. Quem paga a conta? Quem trabalha, é claro. A minoria sempre carregou o mundo nas costas. O welfare state nega o fato de que poucos são mais capazes, mais inteligentes, mais esforçados e mais disciplinados e que por isso devem gozar dos resultados das suas virtudes. Dizer isso é politicamente incorreto, mas é verdade. A praga PC ( e seu parceiro, o Estado de bem-estar social europeu, responsável em grande parte pela derrocada da Europa nos últimos meses) estimula o vício e pune a virtude por não a reconhecer e por fazer com que ela pague a conta dos vagabundos”, (pag. 208).

O Guia não é um trabalho científico  e não cansa com afetaçõesdemonstrações complicadas de erudição. São ensaios em que o autor “dialoga” com pensadores que vão desde Sêneca até Nelson Rodrigues. Vale a leitura, que é fácil e acessível a quem não é iniciado nos debates da filosofia.