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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

literatura

Carta a meu pai

Por Wanfil em Livros

11 de agosto de 2013

Minha edição de Carta a Meu Pai.

Minha edição de Carta a Meu Pai

O escritor Franz Kafka é autor de clássicos como A Metamorfose e O Processo. De sua obra, eu ainda não havia lido apenas o pequenino Carta a Meu Pai. Eu já sabia, por sua biografia, que a carta era um relato doloroso da relação entre o escritor e seu pai, Hermann Kafka, comerciante de sucesso. Conclui neste domingo, Dia dos Pais, a leitura de Carta a Meu Pai.

É impressionante como as marcas dessa relação influenciaram a obra de Kafka, como indica essa passagem:

“Quanto mais te afastas do comércio e da família, tanto mais cordial, condescendente, amável, considerado, compreensivo (refiro-me à exteriorização) és; mais ou menos como por exemplo um autocrata que, quando está fora dos limites do seu país, não tem motivo para continuar sendo tirânico e pode mostrar-se bondoso em relação as pessoas da mais baixa condição social”.

Literatura

Qualquer romance de Kafka é isso, um mundo de aparência harmoniosa e organizada, mas que no fundo é feito de opressão, autoritarismo e medo (em A Metamorfose, fica evidente que o homem transformado em inseto é uma representação dessa condição: o filho que se vê diminuto, humilhado e impotente diante da figura paterna opressiva).

Hermann e Franz Kafka

Hermann e Franz Kafka

Havia ainda o contraste de personalidades. Hermann era expansivo, falante e rico, porquanto Franz era tímido e recluso. Kafka acaba por creditar o pai grande influência na conformação de seu espírito acanhado.

Evitei por um tempo Carta a Meu Pai por entender, equivocadamente, que revelações dessa natureza não teriam grande importância, pelo caráter pessoal e amargo do texto. Mas a literatura de qualidade é sempre imprevisível e nunca trivial. Como gênio que foi, Kafka fez de uma experiência particular, o ponto de partida para reflexões universais, pertinentes a qualquer tempo e lugar.

Papéis trocados

No meu caso, ao contrário do que imaginei, o livro me fez repensar menos a minha condição de filho na relação com meu próprio pai e mais no meu papel de pai de duas meninas. Até que ponto minha influência pode ajudá-las ou prejudicá-las? E aí, nesse ponto, vejo algo que escapou a Kafka em sua carta: a impressão natural para a criança de que o pais tudo sabem esconde a verdade de que somos todos aprendizes. Leia mais

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Que é plebiscito?, perguntou Manduca ao senhor Rodrigues

Por Wanfil em Crônica

01 de julho de 2013

O conto Plebiscito, de Arthur Azevedo, vai no cerne da questão: a fusão de inépcia e política.

O conto Plebiscito, de Arthur Azevedo, vai no cerne da questão: a fusão de inépcia e política.

O escritor Artur Azevedo é o autor de um pequeno conto, publicado no final do século 19, que  ilustra perfeitamente o espírito com o qual o governo brasileiro propõe, nesta segunda década do século 21, um plebiscito para saber da população (não existe definição a respeito) algo sobre a necessidade de uma reforma política no país.

A ideia é uma forma de tentar mostrar que as autoridades, depois de inúmeros protestos, agora querem ouvir as massas. Mas, como sempre, onde deveria haver rigor, tem-se o improviso; no lugar do senso de responsabilidade, surge o oportunismo; e fazendo o papel de estadista, a irresponsabilidade.

O título do texto — Plebiscito — é mais do que uma coincidência semântica entre ficção e realidade. Se o leitor comparar os personagens da obra com figuras do presente, verá o retrato de um modo de ver as formalidades institucionais no Brasil, que perdura no tempo.

No lugar do menino Manduca, o povo brasileiro; no do Sr. Rodrigues, a presidente Dilma Rousseff; no de Dona Bernadina, a imprensa. Pronto, teremos atualizada, uma bela alegoria sobre a pantomima do plebiscito nos dias que correm.

— ∫ —

PLEBISCITO / Arthur Azevedo

A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

— Papai, que é plebiscito?

O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

— Papai?

Pausa:

— Papai?

Dona Bernardina intervém:

— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

— Que é? que desejam vocês?

— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito? Leia mais

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Dica de livro: A queda – o relato de um amor verdadeiramente incondicional

Por Wanfil em Livros

27 de dezembro de 2012

Lançado em agosto de 2012, A Queda, de Diogo Mainardi, está na 3ª edição no Brasil. Uma experiência que poderia ser deprimente foi transformada em aprendizado enriquecedor.

Ganhei num desses amigos secretos de final de ano, o livro A Queda, do polêmico escritor e jornalista Diogo Mainardi, “as memórias de um pai em 424 passos”. Trata-se de um relato sobre Tito, filho do autor que nasceu com paralisia cerebral devido a um erro médico. Como eu estava no meio de uma outra leitura — Os Demônios, de Dostoiévski –, imaginei deixar A Queda na fila de livros que tenho e ainda não li.

No entanto, manuseando o presente, resolvi conferir as orelhas e a contracapa. Depois, sem maiores pretensões, li o primeiro parágrafo. Fui fisgado. Terminei a leitura das 150 páginas em pouco mais de um dia.

Não há no relato de Mainardi momentos de autocomiseração, lições de como lidar com o infortúnio, mensagens de esperança e de perseverança, lamentos inúteis, homenagens religiosas, confissões de culpas ou apelos sentimentais. Pelo contrário, em muitas passagens, o texto é marcado pela ironia, pelo sarcasmo e pelo estoicismo.

Estilo

A narrativa é uma habilidosa construção onde a experiência pessoal do autor, às voltas com as descobertas e os desafios impostos pela enfermidade do filho, é costurada a uma série de referências culturais (sobretudo a pintura, a escultura e a literatura), históricas (do Renascimento ao nazismo) e do pop (da banda U2 a jogos de videogame), demonstrando uma erudição refinada, porém, agradável, sem afetação. É leitura enriquecedora, com certeza.

Em A Queda, Mainardi consegue adaptar para a literatura o estilo desenvolvido em seus artigos: a capacidade de sintetizar conceitos complexos em frases curtas e diretas. A estrutura narrativa é feita de forma semelhante, com passagens breves sobre variados temas, sempre ligados, de maneira inesperada e bonita, à paralisia cerebral de Tito. A meu ver, o maior desafio de um escritor é ter um estilo próprio. Isso é resultado de leitura, de absorção de outros estilos, de prática, até que se feche a gestalt literária para, então, criar sua marca de identidade.

A mensagem

E ainda assim, com toda a erudição e todo o sarcasmo, o que prevalece do enredo é o amor incondicional de um pai por um filho. Incondicional porque não cobra reconhecimento, não espera retorno, não exige nada em troca. Incondicional porque não lamenta, em momento algum, o destino. Incondicional porque é doação que não se entende por doação. Mainardi revela, de forma indireta, que a gratidão é dele para com o filho enfermiço, que o fez ver como a família é o centro da vida e tudo o mais é passageiro e fugaz.

A Queda é uma referência às tentativas que Tito faz de caminhar sozinho. Ao pai, resta-lhe cuidar para que o tombo não se faça doloroso, sua missão é a de acudi-lo sempre. “Suas quedas recordam-me permanentemente da precariedade e da transitoriedade de tudo o que eu tentei construir”.

Encerro com a transcrição de uma passagem na qual o autor explica o que o motivou a escrever o livro:

“… Marcel Proust pensa em escrever um livro sobre o seu passado, porque para interpretar os sentimentos era necessário, antes de tudo, transformá-lo em ideias, ‘convertendo-os em sem equivalente intelectual’.

O livro que ele pensa em escrever é o próprio Em Busca do Tempo Perdido. (…)

O livro que converte meus sentimentos em seu equivalente intelectual é este aqui”.

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Dica de livro: A queda – o relato de um amor verdadeiramente incondicional

Por Wanfil em Livros

27 de dezembro de 2012

Lançado em agosto de 2012, A Queda, de Diogo Mainardi, está na 3ª edição no Brasil. Uma experiência que poderia ser deprimente foi transformada em aprendizado enriquecedor.

Ganhei num desses amigos secretos de final de ano, o livro A Queda, do polêmico escritor e jornalista Diogo Mainardi, “as memórias de um pai em 424 passos”. Trata-se de um relato sobre Tito, filho do autor que nasceu com paralisia cerebral devido a um erro médico. Como eu estava no meio de uma outra leitura — Os Demônios, de Dostoiévski –, imaginei deixar A Queda na fila de livros que tenho e ainda não li.

No entanto, manuseando o presente, resolvi conferir as orelhas e a contracapa. Depois, sem maiores pretensões, li o primeiro parágrafo. Fui fisgado. Terminei a leitura das 150 páginas em pouco mais de um dia.

Não há no relato de Mainardi momentos de autocomiseração, lições de como lidar com o infortúnio, mensagens de esperança e de perseverança, lamentos inúteis, homenagens religiosas, confissões de culpas ou apelos sentimentais. Pelo contrário, em muitas passagens, o texto é marcado pela ironia, pelo sarcasmo e pelo estoicismo.

Estilo

A narrativa é uma habilidosa construção onde a experiência pessoal do autor, às voltas com as descobertas e os desafios impostos pela enfermidade do filho, é costurada a uma série de referências culturais (sobretudo a pintura, a escultura e a literatura), históricas (do Renascimento ao nazismo) e do pop (da banda U2 a jogos de videogame), demonstrando uma erudição refinada, porém, agradável, sem afetação. É leitura enriquecedora, com certeza.

Em A Queda, Mainardi consegue adaptar para a literatura o estilo desenvolvido em seus artigos: a capacidade de sintetizar conceitos complexos em frases curtas e diretas. A estrutura narrativa é feita de forma semelhante, com passagens breves sobre variados temas, sempre ligados, de maneira inesperada e bonita, à paralisia cerebral de Tito. A meu ver, o maior desafio de um escritor é ter um estilo próprio. Isso é resultado de leitura, de absorção de outros estilos, de prática, até que se feche a gestalt literária para, então, criar sua marca de identidade.

A mensagem

E ainda assim, com toda a erudição e todo o sarcasmo, o que prevalece do enredo é o amor incondicional de um pai por um filho. Incondicional porque não cobra reconhecimento, não espera retorno, não exige nada em troca. Incondicional porque não lamenta, em momento algum, o destino. Incondicional porque é doação que não se entende por doação. Mainardi revela, de forma indireta, que a gratidão é dele para com o filho enfermiço, que o fez ver como a família é o centro da vida e tudo o mais é passageiro e fugaz.

A Queda é uma referência às tentativas que Tito faz de caminhar sozinho. Ao pai, resta-lhe cuidar para que o tombo não se faça doloroso, sua missão é a de acudi-lo sempre. “Suas quedas recordam-me permanentemente da precariedade e da transitoriedade de tudo o que eu tentei construir”.

Encerro com a transcrição de uma passagem na qual o autor explica o que o motivou a escrever o livro:

“… Marcel Proust pensa em escrever um livro sobre o seu passado, porque para interpretar os sentimentos era necessário, antes de tudo, transformá-lo em ideias, ‘convertendo-os em sem equivalente intelectual’.

O livro que ele pensa em escrever é o próprio Em Busca do Tempo Perdido. (…)

O livro que converte meus sentimentos em seu equivalente intelectual é este aqui”.