intolerância Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

intolerância

MPF investiga intolerância ideológica na UECE: a pluralidade das ideias não pode ser apenas um discurso

Por Wanfil em Ideologia

01 de dezembro de 2018

Durante as eleições deste ano a professora Catarina Rochamonte, do curso de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará, publicou dois artigos no jornal O Povo: A guinada à direita e O fascismo da esquerda hipócrita, com fortes críticas a agentes de esquerda que atuam na imprensa e nas universidades.

O que deveria ser uma oportunidade para fomentar o debate público de ideias, acabou se transformado em acusações de difamação e ameaças que atingiriam a professora e alunos simpatizantes. Alguns estudantes que participam de grupos de estudos cristãos levaram o caso ao Ministério Público Federal, com material colhido em prints de redes sociais. O descontentamento com o posicionamento dos artigos é natural e até previsível, mas se limites legais foram ultrapassados, é preciso agir logo.

Desse modo, nesta semana o Ministério Público Federal enviou oficio a UECE para apurar “supostos atos de violência e intolerância política e religiosa” e a “organização de polícia ideológica” no Centro de Humanidades da universidade. Em resposta, a UECE divulgou nota:

“A Universidade Estadual do Ceará (UECE) não reconhece a existência de organização de polícia ideológica no seu âmbito. Reitera o respeito democrático, a autonomia assegurada pelas Constituições Federal e Estadual e o livre debate das ideias como base desta autonomia. Sobre a nota encaminhada pelo Ministério Público Federal, a resposta está sendo diligenciada para envio no prazo estabelecido.”

Que o caso seja esclarecido é o que se espera. De todo modo, seguem aqui algumas considerações, sem entrar no mérito jurídico. O termo polícia ideológica remete à ideia de milícias uniformizadas. Isso, de fato, não existe. O mais adequado é falar em policiamento ideológico, com a imposição do espírito de corpo, de pressões institucionais, isolamento e constrangimentos sociais. A hegemonia da esquerda nas universidades brasileiras não é feita de leis ou de documentos oficiais, é uma realidade construída ao longo de um meticuloso processo de trabalho dentro desses espaços. Com o tempo, a influência se transformou em dominação que, de tão natural, deixou de ser percebida como anomalia e passou a ser vivenciada como o estado natural dos cursos de humanas.

A reação agressiva aos artigos decorre de uma espécie de choque diante da possibilidade de alguém não ser de esquerda nesses ambientes. Entretanto, a maciça predominância ideológica do progressismo segue firme no dia a dia dessas instituições, na seletividade dos autores abordados, da limitada bibliografia adotada, nas entrevistas, na escolha dos cargos administrativos, no enfoque das pesquisas, na repetição de discursos políticos e por aí vai.

Nesse sentido, a nota é pura tergiversação. O livre debate de ideias é letra morta nas universidades. Sei disso por experiência própria, aluno que fui de História na própria UECE e na Universidade Federal do Ceará (leia mais aqui). De todo modo, como são novos tempos, faço aqui uma sugestão de boa fé, em nome do “respeito democrático”:

Que tal a UECE promover um seminário de estudos sobre as divergências e convergências entre o pensamento conservador e liberalismo? Uma discussão que abordasse, claro, textos originais dos autores mais conhecidos e respeitados dessas áreas e não apenas dos seus críticos. Seria uma forma inteligente de mostrar que a pluralidade das ideias é um valor caro e estimulado entre estudiosos.

Seria.

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Dandara e a intolerância que há em nós

Por Wanfil em Crônica

07 de Março de 2017

O brutal assassinato da travesti Dandara, em Fortaleza, chocou pela violência gratuita e covarde expressa em imagens compartilhadas nas redes sociais: um grupo de cinco homens atacando uma pessoa indefesa. O motivo foi ódio à condição homossexual da vítima; a oportunidade se deu com a circunstancial diferença numérica entre agressores e agredido: eram muitos contra um.

A reação de autoridades e entidades civis, bem como a repercussão na imprensa e a rápida resposta com a prisão de suspeitos condiz com a gravidade dos fatos. Que sejam todos devidamente punidos como exemplo pedagógico de que a dignidade humana não tem sexo.

Embora a questão de gênero seja naturalmente colocada no caso em questão, existe outro aspecto, um pouco mais de fundo, a ser observado nesse caso: a cultura de exaltação à intolerância, que tem nas redes sociais seus veículos mais eficientes, e que pode atingir os mais diversos grupos e indivíduos. Negros, mulheres e nordestinos, por exemplo, costumam ser alvos de manifestações racistas, misóginas e xenofóbicas nesses ambientes. Isso é fato. Mas não para por aí. Esportes, política, religião e ideologia, tudo pode ser motivos para a intolerância, para o desprezo à pluralidade, à diferença.

Especialistas dizem que as sensações de anonimato, de distância e de grupo estimulam a agressividade em certas pessoas. Há nisso ressentimentos, frustrações, covardia e medo. Parece algo distante, exclusivamente virtual, até que uma pessoa como Dandara ou algum torcedor de time de futebol acabem assassinados por nada.

Qual a solução para a cultura da intolerância? É fácil ver o mal nos outros, em nós mesmos é que é difícil. Uma cultura, porém, é algo que se enraíza por todo o corpo social, por mais que lavemos as mãos. Correntes de difamações, compartilhamento de informações falsas, disseminação de rótulos degradantes e apelidos pueris fazem parte das nossas timelines, como se diz na internet.

Até que ponto consentimos com isso? Até que ponto somos veículos, voluntários ou involuntários, desses conteúdos carregados de desprezo pelo que nos é diferente? Isso vale especialmente para nós, formadores de opinião. Não significa deixar de discordar com sobriedade, de abdicar da divergência de ideias ou de aceitar tudo, mas de compreender que até entre as pessoas que gostamos, amigos e parentes, existem opiniões diferentes e que isso nãos as torna inimigas nossas. Quanto mais, quem não conhecemos.

É claro que a culpa e a responsabilidade pela morte de Dandara recai sobre os seus assassinos, indivíduos que decidiram agir, em última instância, de acordo com o livre arbítrio que todos possuímos. Que sejam, repito, punidos. No entanto, o homem é produto do seu tempo. E como mostrou Hannah Arendt, sem um exame de consciência de cada um sobre seus atos, indivíduos podem, ainda que por omissão, ajudar a construir uma sociedade em que o mal passa a ser uma banalidade. Que sejamos vigilantes com o que fazemos em relação à tolerância e o respeitos aos outros.

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Não perca uma amizade por causa de eleições

Por Wanfil em Crônica

04 de setembro de 2014

Vivemos um momento de extremos: de um lado, a desconfiança generalizada com o sistema político brasileiro alimenta a indiferença do público com o dia a dia das administrações; de outro, a emotividade das campanhas eleitorais faz aflorar intensas manifestações de apoio ou repulsa a candidatos e partidos, especialmente nas redes sociais. Em tempos normais, o primeiro grupo tende a prevalecer, mas em contextos eleitorais, o segundo ganha espaço. Acontece que essa transição do “não estou nem aí” para o “eu tenho uma opinião” anda contaminada por demonstrações de imaturidade e intolerância em níveis preocupantes. Vejo nas minhas time lines – para usar um estrangeirismo em voga – crescente exacerbação desses, digamos, militantes digitais.

Todos dizem conviver bem com opiniões diferentes, mas o exercício da tolerância é bem mais difícil do que parece. Um truque comum de manifestar o desconforto com a pluralidade de ideias, nesse período de eleições, é repassar tudo o que pareça desabonador contra o adversário. Vale qualquer conteúdo: rotulações degradantes, ofensas, mentiras, distorções da realidade, informações de origem duvidosa, boatos e montagens. O problema não está na divergência em si, mas na forma que ela toma. “O estilo é o homem”, já dizia o Conde de Buffon. Assim, essa postura combativa, passional, porém descuidada, diz mais sobre a raiva de quem propaga material dessa natureza do que algo de relevante sobre o candidato tomado como alvo.

Outro recurso comum de intolerância disfarçada é o uso de indiretas. Por exemplo: o sujeito diz, com ar de superioridade, que votar em determinado candidato é prova de burrice, ingratidão, má fé, radicalismo ou irresponsabilidade, sem atentar para o fato de que isso – divergir – é algo absolutamente legítimo.

Li recentemente algo assim de um conhecido: “não sei como alguém escolarizado pode deixar de reconhecer as virtudes deste candidato e ignorar a natureza ruim daquele outro”. É um jeito de tentar desqualificar as escolhas de quem, como eu, pensa diferente dele. Esse meu conhecido talvez nem perceba que sua afirmação no fundo expressa o seguinte: “não sei como alguém do meu nível pode fazer opções diferentes da minha”. Isso é de uma arrogância impressionante. Decidi não responder para evitar que a antipatia momentânea se agravasse até o grau da repulsa. Tirando essas questões eleitorais, se trata de pessoa bacana e divertida. Outra pessoa, conhecida na área cultural do Ceará, disse que determinada candidatura presidencial “aprofundou o fundamentalismo religioso”. Seus partidários, deduz-se, seriam pois fundamentalistas. Parece um alerta, mas não passa de uma contradição desrespeitosa, afinal, o uso político da religião como arma de campanha é obra de concorrentes dessa candidatura. O ridículo anda de mãos dadas com a insensatez. Casos assim se repetem e nós mesmos podemos cair nessas armadilhas se não estivermos atentos. Por isso, e esse é o ponto central deste texto, é preciso cuidado.

Não estou pregando aqui a apatia, a falta de compromisso ou de empenho com nossas convicções. É claro que podemos criticar candidatos, ideias e projetos, compartilhar denúncias verossímeis e fatos históricos, pois isso faz parte dos embates eleitorais. Apenas lembro não devemos esquecer que existem amigos nossos, parentes, que de boa fé acreditam em outros caminhos. Muitas pessoas acabam aborrecidas e chegam a cortar relações sociais por causa de eleição. Sentem-se ofendidas como se fossem elas mesmas candidatas a algo. Mais adiante, não é raro isso acontecer, os adversários que hoje se enfrentam nas urnas podem ser os aliados de amanhã. Definitivamente, não vale a pena perder uma amizade ou guardar mágoa de quem quer que seja por causa de eleições.

Sei que a emoção e o conflito fazem parte desses momentos, quando interesses e ideologias entram em choque aberto. Administrar isso começa A qualidade desse processo depende muito mais de nós, cidadãos, do que deles, políticos. Os debates podem ser construtivos quando estamos dispostos a respeitar os outros. Do contrário, impera a baixaria, que se estabelece como método de campanha e depois, de governo.

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Não perca uma amizade por causa de eleições

Por Wanfil em Crônica

04 de setembro de 2014

Vivemos um momento de extremos: de um lado, a desconfiança generalizada com o sistema político brasileiro alimenta a indiferença do público com o dia a dia das administrações; de outro, a emotividade das campanhas eleitorais faz aflorar intensas manifestações de apoio ou repulsa a candidatos e partidos, especialmente nas redes sociais. Em tempos normais, o primeiro grupo tende a prevalecer, mas em contextos eleitorais, o segundo ganha espaço. Acontece que essa transição do “não estou nem aí” para o “eu tenho uma opinião” anda contaminada por demonstrações de imaturidade e intolerância em níveis preocupantes. Vejo nas minhas time lines – para usar um estrangeirismo em voga – crescente exacerbação desses, digamos, militantes digitais.

Todos dizem conviver bem com opiniões diferentes, mas o exercício da tolerância é bem mais difícil do que parece. Um truque comum de manifestar o desconforto com a pluralidade de ideias, nesse período de eleições, é repassar tudo o que pareça desabonador contra o adversário. Vale qualquer conteúdo: rotulações degradantes, ofensas, mentiras, distorções da realidade, informações de origem duvidosa, boatos e montagens. O problema não está na divergência em si, mas na forma que ela toma. “O estilo é o homem”, já dizia o Conde de Buffon. Assim, essa postura combativa, passional, porém descuidada, diz mais sobre a raiva de quem propaga material dessa natureza do que algo de relevante sobre o candidato tomado como alvo.

Outro recurso comum de intolerância disfarçada é o uso de indiretas. Por exemplo: o sujeito diz, com ar de superioridade, que votar em determinado candidato é prova de burrice, ingratidão, má fé, radicalismo ou irresponsabilidade, sem atentar para o fato de que isso – divergir – é algo absolutamente legítimo.

Li recentemente algo assim de um conhecido: “não sei como alguém escolarizado pode deixar de reconhecer as virtudes deste candidato e ignorar a natureza ruim daquele outro”. É um jeito de tentar desqualificar as escolhas de quem, como eu, pensa diferente dele. Esse meu conhecido talvez nem perceba que sua afirmação no fundo expressa o seguinte: “não sei como alguém do meu nível pode fazer opções diferentes da minha”. Isso é de uma arrogância impressionante. Decidi não responder para evitar que a antipatia momentânea se agravasse até o grau da repulsa. Tirando essas questões eleitorais, se trata de pessoa bacana e divertida. Outra pessoa, conhecida na área cultural do Ceará, disse que determinada candidatura presidencial “aprofundou o fundamentalismo religioso”. Seus partidários, deduz-se, seriam pois fundamentalistas. Parece um alerta, mas não passa de uma contradição desrespeitosa, afinal, o uso político da religião como arma de campanha é obra de concorrentes dessa candidatura. O ridículo anda de mãos dadas com a insensatez. Casos assim se repetem e nós mesmos podemos cair nessas armadilhas se não estivermos atentos. Por isso, e esse é o ponto central deste texto, é preciso cuidado.

Não estou pregando aqui a apatia, a falta de compromisso ou de empenho com nossas convicções. É claro que podemos criticar candidatos, ideias e projetos, compartilhar denúncias verossímeis e fatos históricos, pois isso faz parte dos embates eleitorais. Apenas lembro não devemos esquecer que existem amigos nossos, parentes, que de boa fé acreditam em outros caminhos. Muitas pessoas acabam aborrecidas e chegam a cortar relações sociais por causa de eleição. Sentem-se ofendidas como se fossem elas mesmas candidatas a algo. Mais adiante, não é raro isso acontecer, os adversários que hoje se enfrentam nas urnas podem ser os aliados de amanhã. Definitivamente, não vale a pena perder uma amizade ou guardar mágoa de quem quer que seja por causa de eleições.

Sei que a emoção e o conflito fazem parte desses momentos, quando interesses e ideologias entram em choque aberto. Administrar isso começa A qualidade desse processo depende muito mais de nós, cidadãos, do que deles, políticos. Os debates podem ser construtivos quando estamos dispostos a respeitar os outros. Do contrário, impera a baixaria, que se estabelece como método de campanha e depois, de governo.