insegurança Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

insegurança

Antes tarde do que nunca

Por Wanfil em Segurança

14 de Janeiro de 2019

Os esforços em conjunto feitos pelo governo do Ceará e o governo federal mostram que certas  responsabilidades devem mesmo pairar acima de divergências políticas e até mesmo ideológicas. Crises agudas pedem ações imediatas.

Na Assembleia Legislativa do Ceará, situação e oposição se uniram em sessão extraordinária para aprovar (e ampliar) mensagens do Executivo estadual. Apoio irrestrito.

Tudo isso sinaliza a construção de uma maturidade política que, como toda e qualquer maturidade, leva tempo para ser consolidada, resultante de aprendizados colhidos na observação de erros e acertos no tempo. Por isso, é importante não deixar que grupos políticos tentem reescrever (ou apagar) erros e acertos conforme suas conveniências.

Nos últimos dez anos poucas vozes no parlamento e na imprensa apontaram para os equívocos nas políticas de segurança pública, que apesar de serem evidentes e gritantes, eram solenemente ignorados ou mesmo desprezados pelos governistas, que agora se apresentam como vigilantes infalíveis.

A verdade é que ao longo desses anos, deputados e ex-deputados estaduais como Heitor Férrer, Tomás Filho, Ely Aguiar e Capitão Wagner, que cito de memória, foram duramente criticados por apontarem discrepâncias entre os altos investimentos e a piora nos índices de violência. Foram acusados de alarmismo irresponsável, de torcerem contra os cearenses, de inveja e oportunismo. A maioria preferia aplaudir tudo o que sucessivos governos anunciavam. Deu no que deu.

Se hoje o governo e sua base aliada na Assembleia Legislativa tomam às pressas medidas corretas no enfrentamento ao crime organizado, é porque no passado insistiram teimosamente no que não estava dando certo. Mesmo sem a devida a autocrítica, antes tarde do que nunca.

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Deputados estaduais evitam CPI do Narcotráfico por medo das facções. Mas o salário…

Por Wanfil em Ceará

16 de Fevereiro de 2018

“Assim não, pessoal!”, diria Max Weber

O maior problema hoje no Ceará é a segurança pública, fato comprovado pelos sucessivos recordes de violência. Chegou-se a um ponto em que o próprio líder do governo na Assembleia Legislativa, Evandro Leitão (PDT), ao rebater críticas do  Capitão Wagner (PR), confessou ter medo de assinar a CPI do Narcotráfico: “É muito fácil estar se cobrando nesta Casa a CPI do Narcotráfico. Eu botar minha assinatura, não boto, não. Eu tenho três filhos para criar, eu tenho um neto, eu não ando com segurança 24 horas do meu lado”.

A declaração contradiz o discurso oficial que estaria “tudo sob controle”, mas isso é lá com eles da base aliada. E o deputado não é o único. Silvana Oliveira (MDB) já posicionou em plenário contra a investigação alegando que o assunto é perigoso. Na verdade esse sentimento é partilhado por muitos outros deputados que não se manifestam para preservar o governo, mas que também não assinam o pedido de jeito nenhum.

É compreensível. Em 2016 um carro bomba foi deixado ao lado da Assembleia como recado das facções contra a instalação de bloqueadores de celulares nos presídios. A questão é que deputados são autoridades que encarnam o poder legislativo e que representam os cidadãos do estado. Se não querem, por medo, enfrentar o problema mais urgente dos seus representados – um medo que, repito, é compreensível –, não podem seguir na condição de representantes do povo. É um imperativo moral que renunciem aos cargos aqueles que não desejarem o início da CPI, obrigação imposta pelas circunstâncias e pelos cargos que ocupam.

Antes de continuar, faço um breve desvio: Max Weber observou a tensão entre o que chamou de Ética da Convicção e Ética da Responsabilidade. Para resumir, a primeira diz respeito as decisões individuais, e a segunda, no caso das autoridades, versa sobre decisões que deve ser tomadas para o bem geral. Por exemplo: um pacifista convencido de jamais reagir a uma agressão, uma vez na condição de presidente, estaria obrigado a declarar guerra caso seu país fosse atacado por outra nação, situação em que a ética pessoal estaria vencida pela ética da função que exerce.

Voltando ao Ceará, certamente a CPI não seria a solução mágica da qual os governistas, com impressionante desfaçatez, se dizem injustamente cobrados (quem afinal cobrou isso?), mas seria um esforço a mais em busca de uma política de segurança realmente eficaz. 

Imaginem Vossas Excelências que comunidades inteiras vivem sob a lei do estado paralelo do crime, que diariamente testemunham execuções. Lembrem-se de que existem crianças no Ceará que arriscam a vida para ir a escola. O risco existe, sim. Realmente é um tema perigoso. E por isso mesmo seu enfrentamento é necessário.

Não dá pra ficar escolhendo qual tema é mais confortável discutir, que problema é conveniente ou não, e depois ainda receber no final do mês o generoso salário de parlamentar (com seus penduricalhos), enquanto os cearenses, além de pagar a conta, permanecem expostos a uma taxa de violência que não para de crescer.

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Mistério: o governo só acerta e a segurança só piora

Por Wanfil em Segurança

18 de setembro de 2017

A segurança entre o discurso e a realidade: tapando o sol com a peneira

A ampliação dos Batalhões Raio e a criação das Unidades Integradas de Segurança (Uniseg) no Ceará são apresentadas como medidas eficazes para a melhoria da segurança pública no Ceará. É natural, uma vez que todo e qualquer governo tende a enaltecer as próprias iniciativas. No entanto, soa artificial quando discurso e realidade andam em descompasso. Pior ainda se colidem frontalmente.

Vamos aos fatos. A escalada de violência continua no Ceará. Os homicídios em agosto deste ano cresceram 58% em relação ao mesmo período do ano passado. Os roubos aumentaram 27%. E entre janeiro e agosto 3.235 pessoas foram assassinadas no Ceará. Três mil, duzentas e trinta e cinco! Números de guerra, divulgados na última sexta-feira.

Acuados pelos números, governantes e governistas apontam sistematicamente causas de fora para explicar o problema, como a lentidão do Judiciário, a frouxidão das leis, supostas milícias, hipotéticas sabotagens da oposição, o crime organizado e, mais recentemente, a falta de repasses federais. Só quem nunca erra é o governo estadual. Nunca! E ainda assim, vejam só, ignorando a competência da gestão e desde antes da crise econômica, quando os repasses aconteciam a contento, os índices só pioraram. 

“O problema é nacional”, desculpam-se sem atentar que isso depõe contra eles mesmos, governistas, já que nesse quadro geral de violência a maioria dos outros estados, mesmo no Nordeste, está em situação menos pior do que a do Ceará. E assim continuam entoando a cantiga esquizofrênica, na esperança de mais quatro anos no poder: quando mais o governo acerta, mais a segurança piora.

 

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Crimes recuam, mas o medo não diminui: por isso segurança ainda é tema eleitoral relevante no Ceará

Por Wanfil em Segurança

13 de outubro de 2016

Passa eleição, volta eleição, o medo da violência é um estado permanente. Imagem: O Grito, de Edvar Munch

Passa eleição, volta eleição, o medo como um estado permanente. Imagem: O Grito, de Edvar Munch

O Governo do Ceará divulgou, na última terça-feira (11), redução de 33% de homicídios do mês de setembro no Estado, em comparação com o mesmo período de 2015. Em Fortaleza, o recuo de impressionantes 57%. Diante desses números, intriga como a segurança continua no centro do debate eleitoral na disputa pela prefeitura da Capital.

É que o tema já predomina desde as eleições para o governo estadual em 2006, quando Cid Gomes foi eleito. Em 2014, com Camilo Santana, não foi diferente. A grande novidade foi a inversão nas taxas de homicídios verificada na atual administração, após a explosão de violência registrada na gestão de Cid Gomes. Mesmo assim o medo persiste, como indicam pesquisas de opinião.

Se por um lado merece reconhecimento ações de Camilo na área, como a retomada do diálogo com os policiais , as promoções, os investimentos (apesar da crise) e a transparência na divulgação dos números,  por outro há algo nos dados oficiais que escapa ao sentimento das pessoas.

A resposta pode estar, talvez, nas ações midiáticas do chamado crime organizado. No mesmo dia em que a redução nos índices foram anunciados, homens armados invadiram uma delegacia em Fortaleza, resgataram sete presos, roubaram um policial e quatro pessoas que faziam boletins de ocorrência e ainda levaram uma viatura e armas. Dois dias antes, um grupo já havia resgatado sete presos da carceragem do prédio da Superintendência de Polícia. Da Superintendência!

São ações que pela ousadia e desrespeito ao poder constituído, geram medo e ofuscam os dados oficiais. Sem contar as rebeliões de março em penitenciárias que ensejaram a presença da Guarda Nacional no Ceará para controlar a situação. Hoje o governo comunicou que irá transferir presos das delegacias para esses presídios, para tentar conter as fugas.

Por fim, ainda existe a suspeita, muito comentada nas ruas, de que a redução nos homicídios é fruto, em parte, de acordos entre quadrilhas para organizar melhor o tráfico, negada com veemência pelas autoridades locais. O fato é que a insegurança, apesar dos números (e o próprio governo é o primeiro a reconhecer – isso também é novidade em relação à gestão anterior – que muito ainda precisa ser feito), continua a fazer do tema o grande vetor eleitoral no Ceará.

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O que não dá pra disfarçar é a insegurança

Por Wanfil em Segurança

11 de Abril de 2014

O governo do Estado lançou na quinta-feira (10) o Programa em Defesa da Vida, que já vinha funcionando em “caráter experimental” desde janeiro. É o conjunto de ações implementadas pelo secretário Servilho Paiva, importado de Pernambuco para tentar estancar a sangria nos índices de violência no Ceará, com destaque para divisão do Estado em 18 áreas de segurança e a remuneração extra para policiais que alcançarem as metas estabelecidas.

Na ocasião, o governador Cid Gomes afirmou, em tom de desabafo, que gostaria de andar disfarçado para ver como funciona a criminalidade. Trata-se, claro, de uma figura de linguagem que não deve ser levada ao pé da letra. Na verdade, o desejo aí expressado é uma forma oblíqua de dizer que a complexidade da insegurança ultrapassa a efetividade das ações empreendidas na área até o momento. Indo mais longe um pouco, não deixa de ser um reconhecimento de que a autoridade constituída não sabe o que fazer. Daí a necessidade de um programa em “caráter experimental” lançado no último ano de sua segunda gestão.

A frustração do governador é compreensível. Certamente, ninguém mais do que ele gostaria de acertar o rumo, mas isso não basta, como atestam os números surreais no setor. E com poucos meses restando para o fim do mandato, é praticamente impossível alguma mudança de impacto ainda na a gestão Cid Gomes. Resta tentar estabilizar o quadro e reduzir os danos de imagem aferidos em pesquisas, já que estamos em ano eleitoral.

Consciente disso, o governo busca um novo discurso para amenizar as inevitáveis críticas de opositores de até de aliados. A conversa batida sobre grandes investimentos, apesar de verdadeira, não cola mais, uma vez que os resultados não apareceram. Aliás, soa mesmo como uma confissão de que os recursos não foram bem utilizados. Por isso agora o reforço de argumentação, com o anúncio de novas metodologias baseadas em análises científicas. A prioridade agora é reunir material para os marqueteiros trabalharem.

Só que aí relatórios de organismos internacionais (até a ONU!) teimam em ofuscar o discurso oficial, classificando o Ceará como um do lugares mais perigosos do mundo. Se o governador quisesse mesmo andar disfarçado, isso seria fácil, porém, perigoso. Difícil mesmo é enxergar uma saída até outubro ou até o final da gestão. Se tem algo que não tem como disfarçar de jeito nenhum, é a nossa insegurança.

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O desafio de criar candidaturas contra a insegurança no Ceará

Por Wanfil em Eleições 2014

18 de Março de 2014

O frisson acerca dos nomes que poderão disputar o governo do Ceará nas eleições de outubro próximo acaba encobrindo uma questão elementar: tão importante quanto o nome é saber qual o perfil ideal para esse candidato. É preciso identificar as demandas do “mercado” para depois oferecer o “produto”, ou seja, saber quais são os problemas que mais mobilizam a opinião pública e a partir dessa informação, moldar discursos e personagens.

Não é chute, é cálculo

Por exemplo: em 2006, a vitoriosa campanha de Cid Gomes tinha o seguinte slogan: “Um grande salto. O Ceará merece”. Como principal promessa, brilhou o “Ronda do Quarteirão”. Esses “produtos” não foram chutes, mas propostas elaboradas a partir da constatação, junto ao eleitorado, de uma insatisfação geral com a segurança pública, e do desejo por um gestor com mais capacidade de ação.

Claro que outros componentes atuaram na eleição, como o racha do PSDB e o apoio do PT ao ex-adversário da família Ferreira Gomes, mas o perfil desejado pelos eleitores é um dado que teve considerável peso nessa equação.

Insegurança: fardo para o governo, oportunidade para a oposição

Passados dois mandatos de Cid, temos hoje a seguinte situação: os índices na área de segurança pública se deterioraram vertiginosamente, apesar dos investimentos feitos, com o Ceará figurando entre os estados mais violentos do Brasil.

Não bastasse isso, a autoridade da gestão no setor foi duramente atingida com a greve dos policiais militares em 2011, quando o governador simplesmente sumiu. Para piorar, o fantasma da inoperância diante de uma crise volta a assombrar o cidadão, com a possibilidade de uma paralisação dos policiais civis durante a Copa do Mundo.

Sendo impossível evitar o tema da insegurança, o governo, presumivelmente, tentará conter o dano mudando o foco do debate eleitoral para outras questões ou apresentando uma versão dourada do problema. Se conseguirá convencer, ou se terá adversários capazes de explorar essa fragilidade, aí é outra conversa.

Quem poderá representar uma solução?

Diante desse cenário, pelo andar da carruagem e pelas especulações da hora, dois tipos de candidatura estão sendo preparadas.

Tem o caso o específico do senador Eunício Oliveira (PMDB), aliado do governo estadual que pretende lançar candidatura própria. Em relação a esse tema, sua estratégia deve contemplar o reconhecimento dos investimentos que foram feitos para, em seguida, lamentar a falta de resultados e, por fim, se apresentar como alguém com mais capacidade de diálogo e mobilização para reverter a situação. Eunício, vale lembrar, é empresário do ramo de segurança privada.

Já o candidato oficial, seja quem for, deverá enfatizar esses investimentos, lembrando é preciso tempo para que os resultados apareçam. Outro caminho será associar o aumento da violência a outros fatores. Não por acaso o deputado Zezinho Albuquerque, atual presidente da AL e um dos pré-candidatos do PROS, tem rodado o Estado fazendo uma campanha inócua contra as drogas, colando sua figura no discurso do governo, pelo qual o crescimento tráfico – resultado direto do deslocamento de quadrilhas do Sudeste para o Nordeste – seria o grande motor do aumento da criminalidade no Ceará. Leia mais

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Homicídios no Carnaval do Ceará: desastre anunciado

Por Wanfil em Segurança

05 de Março de 2014

Qualquer festa popular no mundo que acabe com dezenas de pessoas assassinadas é imediatamente classificada, com toda razão, de tragédia, consternando sua população e autoridades. A não ser que isso ocorra em ambientes de degradação da ordem e degeneração quase completa da autoridade constituída, onde o impacto do desastre se dilui no torpor anestesiado de uma sociedade já sem forças para reagir.

No Ceará, a discussão do momento é saber se o número de homicídios no Estado durante o Carnaval foi maior do que o registrado no ano anterior, ou se constitui ou não, uma curva ascendente que destoa dos outros finais de semana. Fala-se em 70 homicídios no período, o governo, reservadamente, nega. O balanço final deve ser divulgado pela Secretaria de Segurança nesta quinta.

Qualquer que sejam esses números, a simples expectativa de que tudo piorou, sentimento que nasce da percepção sensível e da famosa sensação de insegurança, já basta para mostrar que a coisa desandou de vez. Some-se a isso o avanço absurdo dos números da violência no Ceará, para que o quadro pós-carnaval se configure em morticínio anunciado, de certa forma, pela própria dinâmica do crime.

Publico abaixo uma foto que tirei na terça-feira de Carnaval, em Fortaleza, de um outdoor na Avenida Desembargador Gonzaga, no bairro Cidade dos Funcionários, que considero significativa dos dias atuais:

 

Outdoor Sindipol CE - Foto - Wanfil

Outdoor do Sindicato dos Policiais Civis do Ceará. Foto: Wanderley Filho

 

Trata-se de uma campanha movida pelo Sindicato dos Policiais Civis de Carreira do Estado do Ceará, com um retumbante alerta aos cidadãos: CUIDADO! Para dar credibilidade ao recado, a peça se vale do descrédito do governo estadual na área e manda ver: SEIS PESSOAS SÃO ASSALTADAS A CADA HORA NO CEARÁ.

O que esperar de um Estado onde policiais civis e militares vivem a denunciar a violência?

A resposta nos remete ao início do texto: vivemos o ápice de um processo de degeneração. Agora, resta-nos esperar a mórbida contagem oficial dos cadáveres do Carnaval. Restou-nos a contagem fria dos mortos. E resta-nos ainda rezar para que novos gestores apareçam o quanto antes.

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‘Coletivo Seguro’ chega com sete anos e sete ônibus incendiados de atraso

Por Wanfil em Segurança

19 de Fevereiro de 2014

Um dos sete ônibus recentemente incendiados em Fortaleza, onde bandidos atacam secretaria e serviço público de transporte. Imagem: Tribuna do Ceará

Um dos ônibus incendiados em Fortaleza, onde bandidos atacam secretaria estadual e o serviço público de transporte. Imagem: Tribuna do Ceará

Entre o último domingo (16) e a terça-feira (18) criminosos promoveram um ataque a balas contra a sede da Secretaria de Justiça e atearam fogo em sete ônibus na capital do Ceará. Ninguém sabe ao certo ainda o motivo para os atentados. Em resposta, foram presos cinco suspeitos e a Secretaria de Segurança deu início a operação Coletivo Seguro.

Desmoralização

De acordo com o secretário Servilho Paiva, nomeado no final do ano passado, os crimes podem estar relacionados a disputas entre traficantes. O que eles ganhariam com isso é impossível dizer. Fica a impressão de que os bandidos estão enviando recados às autoridades ou a outros grupos criminosos. Ou aos dois. Hipótese tanto mais plausível pelo estado de desmoralização do poder público nessa área.

Um dos ônibus foi incendiado nas proximidades do Fórum Clóvis Beviláqua, símbolo do Judiciário. No ano passado, uma testemunha que acabara de prestar depoimento no Fórum foi executada a tiros, no que parece ter sido um acerto de contas. E os disparos contra a Secretaria de Justiça lembram os constantes ataques a delegacias no interior, feitos por quadrilhas de assaltantes de bancos. Ou seja, o crime não teme a Justiça ou o Executivo. Pelo contrário, afronta-os descaradamente.

Atentado é coisa bem diferente de assalto

Servilho Paiva agiu bem ao mostrar que os atentados contra coletivos serão investigados e combatidos, buscando assim impedir que a moda pegue. Mas é bom deixar claro que esses crimes possuem uma natureza distinta dos tradicionais assaltos a ônibus e vans, que segundo números oficiais apresentados pelo secretário, reduziram 39% em Fortaleza, somente em janeiro, repetindo o milagre da redução dos crimes violentos contra o patrimônio, que teriam caído 45%. Nesse ritmo incrível, faço aqui um breve parêntese, daqui a dois meses os assaltos registrados em coletivos terão acabado, por coincidência, bem no ano eleitoral.

Enquanto isso não acontece, volto ao tema central, é bom diferenciar atentados de crimes comuns. Se até o momento não é certo a motivação desses primeiros, o certo é que eles só acontecem em ambientes em que a segurança pública vive avançado estado corrosão. Antes de causar insegurança, são efeitos dela.

Sete anos depois…

Se traficantes pintam e bordam no Ceará, isso é consequência da falta de uma política de segurança eficiente. A ousadia dos criminosos, pois, aumenta à medida que o poder público não consegue contê-los. E assim, o crime agora tenta acuar instituições e serviços públicos, como já fez no Rio de Janeiro.

Por fim, uma observação. Não deixa de ser autoexplicativa a necessidade de se uma operação batizada com o nome Coletivo Seguro, após setes anos de uma gestão eleita justamente com o discurso de promover mais segurança. Mas, como dizem os otimistas, antes tarde do que nunca.

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A prisão de Tony Félix muda alguma coisa?

Por Wanfil em Segurança

17 de Janeiro de 2014

Anderson Tony Vinicius Weyne Félix – o Tony Félix –, natural de Fortaleza, tem 22 anos de idade e até o início da semana já havia sido preso seis vezes. Em três ocasiões, foi acusado de ser traficante de drogas, em outras duas, de ser assaltante, e uma de ser usuário de drogas.

Apesar da ficha, Tony Félix estava solto. Em um dos casos, foi agraciado com o benefício da pena progressiva. Em outro, a Justiça considerou que o acusado não era traficante porque portava apenas 12 gramas de maconha. Seria então apenas maconheiro. Se fosse traficante, imagino, melhor seria prendê-lo recebendo a droga diretamente (e em maior quantidade) de seus fornecedores. Aí sim, não haveria como alegar mero consumo.

O fato é que a ausência de provas contundentes acaba facilitando a vida de bandidos. Traficante sabe que ser preso com pouca droga não dá em nada. E por isso mesmo tratam de andar com pequenas quantidades. Sabem também que juízes temem ser vistos como reacionários, e que para certas esferas influentes do progressismo, maconheiro é defensor do amor e das liberdades, obrigado a buscar o auxílio de quadrilhas organizadas… Quem haverá de prendê-los? A combinação de incompetência investigativa e ideologização judiciária é o paraíso da bandidagem.

Tony Félix foi preso pela sétima vez, acusado de ser um dos bandidos que assaltaram motoristas na Avenida Padre Antônio Tomás, em Fortaleza, na última terça-feira (14).

É certo que Tony Félix é suspeito em qualquer crimes cometido naquelas imediações porque, com efeito,vive em “conflito com a lei”, como dizem os bacanas. Eu não confio em Tony quando ele alega inocência. Mas também guardo reservas em relação a qualidade de algumas operações policiais, sobretudo quando há pressão da opinião pública.

O caso ganhou as redes sociais e constrangeu as autoridades de Segurança, que buscam desesperadamente reverter os crescentes índices de criminalidade, inédita no Ceará. As vítimas do assalto podem ajudar a identificar se Tony Félix está envolvido nesse episódio.

O problema é que, sendo culpado, alguém acredita que Tony Félix estará solto em breve? Alguém anda pela Avenida Padre Antônio Tomás sem medo e sobressaltos? Tony Félix e um espectro que ronda nossas mentes, não é só um indivíduo, é legião. Salve-se quem puder.

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Era um policial muito engraçado, não tinha arma, não tinha bala…

Por Wanfil em Segurança

04 de novembro de 2013

PMs na Praça Portugal, em Fortaleza, de coldres vazios (no detalhe, em vermelho). Imagem: TV Jangadeiro

PMs na Praça Portugal, em Fortaleza, de coldres vazios (no detalhe vermelho). Imagem: TV Jangadeiro

Reportagem exclusiva da TV Jangadeiro mostra policiais militares patrulhando áreas de Fortaleza sem armas e coletes de proteção. Não é preciso ser especialista para saber que não é assim que se faz.

O flagra foi registrado no sábado, um dia após a formatura de 1057 novos policiais militares, em cerimônia que contou com a presença do governador Cid Gomes e bastante divulgada na imprensa. Os agentes que estavam sem equipamento fazem parte desse grupo.

O caso me fez lembrar de uma música de Vinicius de Moraes: “Era uma casa muito engraçada / não tinha teto, não tinha nada / ninguém podia entrar nela não / porque na casa não tinha chão / … / Mas era feita com muito esmero, na Rua dos bobos, número zero”.

Pois é… Quando o assunto é segurança, o esmero é inegável.

A bandidagem agradece

Oficialmente, por meio da assessoria de comunicação, a Polícia Militar do Ceará afirma desconhecer o problema, evidenciando que não existe nesse caso um eventual conceito diferenciado de patrulhamento ostensivo. Os bandidos, claro, agradecem. E os policiais, como resta evidente, além de prejudicados em seu ofício, ficam expostos ao perigo.

Como eu havia dito no post anterior, investimentos são bem-vindos, mas desde que apresentem resultados, caso contrário, temos apenas a celebração do desperdício. Como a violência só faz crescer no Ceará, é forçoso reconhecer que, independente da vontade e das boas intenções dos gestores públicos, esses recursos não foram bem aplicados.

Não por acaso citei como exemplos a compra das caríssimas Hilux e dos inúteis patinetes para o patrulhamento da Beira Mar (cada um ao custo de um carro popular), duas iniciativas de intensa divulgação midiática que não ajudaram a controlar os índices de criminalidade no Ceará.

Expectativa plantada, frustração colhida

Pressionado pela necessidade de mostrar algum serviço na área, o governo corre para anunciar a boa notícia antes mesmo de vê-la funcionando na prática, já com os devidos ajustes. Assim, planta expectativas e, sem o retorno prometido, colhe frustrações.

É verdade que os casos levantados pela reportagem não podem ser generalizados (embora tenham sido registrados em pelo menos três cruzamentos), mas a falta de uma explicação convincente deixa  a impressão de que falta controle, de que as coisas são feitas no improviso. A imagem dos coldres vazios desses policiais fala mais do que o mais belo discurso.

O esforço para apresentar serviço – ainda que seja pela repetição do surrado argumento de que “nunca se investiu tanto em segurança” –, revela uma preocupação urgente, ainda mais com a aproximação do ano eleitoral. O sentimento de prestação de contas, mesmo vago, é positivo, mas a verdadeira resposta que a sociedade demanda é por resultado efetivo, ou seja, redução da violência.

Diante de uma situação como a que vivemos, qualquer exagero retórico ou autopromocional do governo corre o risco de não resistir 24 horas para ser desmoralizado pelos fatos.

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Era um policial muito engraçado, não tinha arma, não tinha bala…

Por Wanfil em Segurança

04 de novembro de 2013

PMs na Praça Portugal, em Fortaleza, de coldres vazios (no detalhe, em vermelho). Imagem: TV Jangadeiro

PMs na Praça Portugal, em Fortaleza, de coldres vazios (no detalhe vermelho). Imagem: TV Jangadeiro

Reportagem exclusiva da TV Jangadeiro mostra policiais militares patrulhando áreas de Fortaleza sem armas e coletes de proteção. Não é preciso ser especialista para saber que não é assim que se faz.

O flagra foi registrado no sábado, um dia após a formatura de 1057 novos policiais militares, em cerimônia que contou com a presença do governador Cid Gomes e bastante divulgada na imprensa. Os agentes que estavam sem equipamento fazem parte desse grupo.

O caso me fez lembrar de uma música de Vinicius de Moraes: “Era uma casa muito engraçada / não tinha teto, não tinha nada / ninguém podia entrar nela não / porque na casa não tinha chão / … / Mas era feita com muito esmero, na Rua dos bobos, número zero”.

Pois é… Quando o assunto é segurança, o esmero é inegável.

A bandidagem agradece

Oficialmente, por meio da assessoria de comunicação, a Polícia Militar do Ceará afirma desconhecer o problema, evidenciando que não existe nesse caso um eventual conceito diferenciado de patrulhamento ostensivo. Os bandidos, claro, agradecem. E os policiais, como resta evidente, além de prejudicados em seu ofício, ficam expostos ao perigo.

Como eu havia dito no post anterior, investimentos são bem-vindos, mas desde que apresentem resultados, caso contrário, temos apenas a celebração do desperdício. Como a violência só faz crescer no Ceará, é forçoso reconhecer que, independente da vontade e das boas intenções dos gestores públicos, esses recursos não foram bem aplicados.

Não por acaso citei como exemplos a compra das caríssimas Hilux e dos inúteis patinetes para o patrulhamento da Beira Mar (cada um ao custo de um carro popular), duas iniciativas de intensa divulgação midiática que não ajudaram a controlar os índices de criminalidade no Ceará.

Expectativa plantada, frustração colhida

Pressionado pela necessidade de mostrar algum serviço na área, o governo corre para anunciar a boa notícia antes mesmo de vê-la funcionando na prática, já com os devidos ajustes. Assim, planta expectativas e, sem o retorno prometido, colhe frustrações.

É verdade que os casos levantados pela reportagem não podem ser generalizados (embora tenham sido registrados em pelo menos três cruzamentos), mas a falta de uma explicação convincente deixa  a impressão de que falta controle, de que as coisas são feitas no improviso. A imagem dos coldres vazios desses policiais fala mais do que o mais belo discurso.

O esforço para apresentar serviço – ainda que seja pela repetição do surrado argumento de que “nunca se investiu tanto em segurança” –, revela uma preocupação urgente, ainda mais com a aproximação do ano eleitoral. O sentimento de prestação de contas, mesmo vago, é positivo, mas a verdadeira resposta que a sociedade demanda é por resultado efetivo, ou seja, redução da violência.

Diante de uma situação como a que vivemos, qualquer exagero retórico ou autopromocional do governo corre o risco de não resistir 24 horas para ser desmoralizado pelos fatos.