ideologia Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

ideologia

MPF investiga intolerância ideológica na UECE: a pluralidade das ideias não pode ser apenas um discurso

Por Wanfil em Ideologia

01 de dezembro de 2018

Durante as eleições deste ano a professora Catarina Rochamonte, do curso de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará, publicou dois artigos no jornal O Povo: A guinada à direita e O fascismo da esquerda hipócrita, com fortes críticas a agentes de esquerda que atuam na imprensa e nas universidades.

O que deveria ser uma oportunidade para fomentar o debate público de ideias, acabou se transformado em acusações de difamação e ameaças que atingiriam a professora e alunos simpatizantes. Alguns estudantes que participam de grupos de estudos cristãos levaram o caso ao Ministério Público Federal, com material colhido em prints de redes sociais. O descontentamento com o posicionamento dos artigos é natural e até previsível, mas se limites legais foram ultrapassados, é preciso agir logo.

Desse modo, nesta semana o Ministério Público Federal enviou oficio a UECE para apurar “supostos atos de violência e intolerância política e religiosa” e a “organização de polícia ideológica” no Centro de Humanidades da universidade. Em resposta, a UECE divulgou nota:

“A Universidade Estadual do Ceará (UECE) não reconhece a existência de organização de polícia ideológica no seu âmbito. Reitera o respeito democrático, a autonomia assegurada pelas Constituições Federal e Estadual e o livre debate das ideias como base desta autonomia. Sobre a nota encaminhada pelo Ministério Público Federal, a resposta está sendo diligenciada para envio no prazo estabelecido.”

Que o caso seja esclarecido é o que se espera. De todo modo, seguem aqui algumas considerações, sem entrar no mérito jurídico. O termo polícia ideológica remete à ideia de milícias uniformizadas. Isso, de fato, não existe. O mais adequado é falar em policiamento ideológico, com a imposição do espírito de corpo, de pressões institucionais, isolamento e constrangimentos sociais. A hegemonia da esquerda nas universidades brasileiras não é feita de leis ou de documentos oficiais, é uma realidade construída ao longo de um meticuloso processo de trabalho dentro desses espaços. Com o tempo, a influência se transformou em dominação que, de tão natural, deixou de ser percebida como anomalia e passou a ser vivenciada como o estado natural dos cursos de humanas.

A reação agressiva aos artigos decorre de uma espécie de choque diante da possibilidade de alguém não ser de esquerda nesses ambientes. Entretanto, a maciça predominância ideológica do progressismo segue firme no dia a dia dessas instituições, na seletividade dos autores abordados, da limitada bibliografia adotada, nas entrevistas, na escolha dos cargos administrativos, no enfoque das pesquisas, na repetição de discursos políticos e por aí vai.

Nesse sentido, a nota é pura tergiversação. O livre debate de ideias é letra morta nas universidades. Sei disso por experiência própria, aluno que fui de História na própria UECE e na Universidade Federal do Ceará (leia mais aqui). De todo modo, como são novos tempos, faço aqui uma sugestão de boa fé, em nome do “respeito democrático”:

Que tal a UECE promover um seminário de estudos sobre as divergências e convergências entre o pensamento conservador e liberalismo? Uma discussão que abordasse, claro, textos originais dos autores mais conhecidos e respeitados dessas áreas e não apenas dos seus críticos. Seria uma forma inteligente de mostrar que a pluralidade das ideias é um valor caro e estimulado entre estudiosos.

Seria.

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Escola sem Partido ainda é pouco

Por Wanfil em Educação

13 de novembro de 2018

A doutrinação ideológica, seja de esquerda ou de direita, impede o espírito crítico e a liberdade de escolha

Os projetos Escola sem Partido têm sido acusados de censura à liberdade de opinião. Na verdade, é uma reação ideológica corporativa que visa preservar a hegemonia das teorias de esquerda na produção e divulgação do conhecimento no Brasil, e na formação de profissionais para esse fim.

O que o aluno brasileiro em geral sabe sobre o pensamento conservador ou sobre o liberalismo se resume às caricaturas que seus críticos de esquerda desenham. Relato aqui um breve exemplo. Aluno de História na UFC, nos anos 90, apresentei um seminário sobre a influência européia na formação da América Latina, usando entre os livros de referência “O Liberalismo Antigo e Moderno”, de ninguém menos que José Guilherme Merquior. Resultado: fui interrompido e levei uma reprimenda de uns 10 minutos em sala de aula. O professor esconjurou o capitalismo, chorou (literalmente) ao lamentar o genocídio indígena e disse que os agentes de saúde eram uma invenção de Tasso Jereissati para impedir a revolução camponesa. Mandou-me refazer o trabalho seguindo a pregação antiamericana de “Veias Abertas da América Latina”, do uruguaio Eduardo Galeano, obra que anos depois viria a ser renegada pelo próprio autor.

Práticas assim acontecem diariamente, agora mesmo, nas salas de aula. E quanto mais cedo começa a propaganda ideológica, com ênfase no marxismo e sua adaptações, mais facilmente ela é incorporada pelo aluno como um dado da realidade, tão evidente e inegável como a leia da gravidade. Só um louco pode negar a teoria da mais-valia, imaginam os nossos jovens, sem suspeitarem da existência de autores como Raymond Aron (As Etapas do Pensamento Sociológico), e muito menos de que Marx morreu sem explicar como a jornada de trabalho reduziu de 16 para 8 horas diárias na Inglaterra, enquanto o lucro das empresas aumentavam.

O estabelecimento de uma hegemonia cultural, nos moldes de Gramsci, e denunciada creio que primeiro por Olavo de Carvalho, não acontece da noite para o dia. Leva décadas. Por isso, duvido que uma lei possa ter efeito prático sobre esse tipo de estrutura. É como tentar baixar juros por decreto. Não é assim que acontece. Será preciso um trabalho de formação intelectual fora dos espaços acadêmicos para criar um espírito crítico capaz de substituir a pregação ideológica ostensiva pela percepção de que existem correntes diferentes e respeitáveis de estudo.

Na verdade o Escola sem Partido incomoda mais pelo fato de lembrar que a doutrinação ideológica é uma realidade. Não apenas existe como seus efeitos se alastraram por diversas outras áreas, de modo que seria preciso ainda o sindicato sem partido, a igreja sem partido, a arte sem partido, as redações sem partido, as entidades estudantis sem partido, e por aí vai.

Não é proibido ou errado ter um partido de preferência, claro. Mas usar organismos outros para promover agendas partidárias é uma espécie de corrupção. Há o espaço para a atividade partidária, que é diferente da representação em entidades que reúnem pessoas de religiões, credos, cores e partidos diversos. E isso vale para qualquer sinal ideológico. Qualquer doutrinação, seja de esquerda ou de direita, onde existir, é a supressão da criticidade e da liberdade de escolha.

Por fim, uma lei jamais terá o poder de quebrar o monopólio da esquerda na formação intelectual brasileira, pois a educação é um processo que demanda tempo de maturação, mas a consciência de que o proselitismo tomou conta do sistema de ensino nacional desde o fundamental, de que existe uma escola “com” partido, sem dúvida é o primeiro passo para resgatar a pluralidade de ideias no Brasil.

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Eleições: UECE divulga nota aos pupilos do senhor Reitor

Por Wanfil em Eleições 2018

18 de outubro de 2018

A Universidade Estadual do Ceará divulgou nota “em defesa da democracia” e contra a “iminente possibilidade de um profundo retrocesso social, político e econômico”. O texto cita ainda a “assustadora disseminação do ódio contra pessoas em razão das suas diferenças sociais, de gênero, étnico-raciais e ideológicas”, mas não aponta episódios – seja nas suas dependências  ou mesmo fora delas – em que essas ameaças tenham se materializado. Não há menção sobre quem seriam os seus agentes.

A nota, assinada em conjunto pelo reitor José Jackson Coelho Sampaio e o vice-reitor Hidelbrando dos Santos Soares, se resume ao um amontoado de chavões, que apesar de não apontar nomes de grupos ou de lideranças que estariam atuando para agravar os riscos alardeados no texto, se dirige indiretamente, por meio de insinuações, às eleições presidenciais.

A falta de objetividade é compensada por um jogo de associações induzidas, pois o alinhamento com o discurso da candidatura de Fernando Haddad (PT) contra Jair Bolsonaro (PSL). Que professores, alunos, servidores e reitores tenham suas preferências, isso não é da conta de ninguém, mas ao usar o site (pago com dinheiro de impostos) e o nome de uma universidade pública para promover argumentos utilizados por um candidato à Presidência da República, é um desrespeito às instituições e a pluralidade que a mesma nota afirma defender. Se o mesmo artifício fosse usado para espalhar mensagens cifradas de Bolsonaro contra Haddad, estaria errado do mesmo jeito.

Como todos sabem, as universidades, especialmente as públicas, e mais ainda nas áreas de humanas, são espaços dominados por uma – digamos assim – produção acadêmica mais à esquerda. Não por acaso os signatários da nota dizem que estão “sendo convocados a se posicionar”. Quem os convoca? Isso acontece há tanto tempo que, para seus dirigentes, parece não haver vida fora dessa redoma.

A nota que se anuncia como instrumento de resistência “contra a violência, a opressão e todas as formas de preconceito e discriminação”, não passa de pregação aos convertidos, de afago aos pupilos, de panfleto panfleto em “defesa dos bens e serviços públicos”, que curiosamente não se posiciona sobre temas como corrupção e aparelhamento, que tanto prejudicam bens e serviços públicos.

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O Brasil dividido entre o medo e a raiva. O que fazer?

Por Wanfil em Eleições 2018

24 de setembro de 2018

A questão é estar atento para perceber quais emoções prevalecem a cada eleição (FOTO: Lyvia Silva/Tribuna do Ceará)

Não se iluda. Eleições são mais influenciadas pelas emoções do que pela razão, por mais racional que se imagine o eleitor.

É que mesmos os mais escolarizados não conseguem abarcar a complexidade administrativa e multidisciplinar do Estado, sem contar as divergências de interpretação sobre causas e soluções para os problemas. Em algum momento seu voto também será uma aposta.

Por isso é que existem formas de condensar essas discussões sobre política e gestão pública. Uma delas é a ideologia, que se vale de preceitos gerais de avaliação.

Mesmo assim, se debatidas a fundo, as ideologias também são complexas. Aí entra o marketing político e eleitoral para estabelecer novos denominadores comuns a partir de um elemento de compreensão universal: a emoção. Pode ser útil ou perigoso, a depender do uso. Geralmente, o abuso das emoções processa debates complicados como se fossem salsichas, até que se transformarem em senso comum. E o senso comum, por mais ingênuo que pareça, sempre guarda preconceitos.

Otto Von Bismarck já dizia na Alemanha que era melhor as pessoas jamais saberem como são feitas as leis e as salsichas. Isso foi bem antes das eleições modernas, que certamente entrariam nesse grupo. Reduzido a chavões e clichês, a política se esvazia de conteúdo e transborda de emoções.

A questão, portanto, é estar atento para perceber quais emoções prevalecem a cada eleição. Neste ano, duas canalizam as atenções do eleitor: a raiva e o medo. Medo e raiva são importantes vetores de mobilização contra o que é ruim, mas sozinhos são péssimos conselheiros. Basta ver as redes sociais, onde quase todos enxergam más intenções ou ignorância nos que votam em candidatos que não sejam os seus. É que sem respeito pela divergência, sem propósitos claros, as emoções negativas avançam na ausência de delimitações para os seus campos de ação.

O risco disso, no final, é a criação uma espiral destrutiva, com um futuro governo, seja de esquerda ou de direita, utilizando o medo e a raiva como bases para legitimar seu discurso e instrumentalizar a propaganda governamental. Nos últimos anos, o ressentimento de classes (nós contra eles) e o ufanismo sem lastro no mundo real (o nunca antes nesse país) foram largamente manipulados, cultivando as emoções que hoje embalam as eleições, com direito a atentado, prisão como comitê, manifestações preconceituosas e palavrões disparados por candidatos.

Para encerrar, e em defesa do marketing e da propaganda como importantes e indispensáveis atividades nas sociedades de massas, vale lembrar que a política é que determina os fins da comunicação e não o contrário. Se chegamos até esse ponto, é porque a esperança degenerou em corrupção e a confiança em decepção. Recuperá-las será o nosso grande desafio para o futuro.

Pensar um pouco em como equilibrar as emoções que sentimos, parece ser o mais racional a se fazer agora.

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Esquerda e direita nas eleições do Ceará

Por Wanfil em Eleições 2018

17 de setembro de 2018

Nestas eleições o Brasil se divide em dois grandes grupos que ainda podem ser mais ou menos identificados a partir dos conceitos clássicos de esquerda e direita. O fenômeno parece um tanto mais restrito aos centros urbanos, mas seu impacto é inegável.

É verdade que as coisas são um pouco mais complexas, afinal, existem nestes trópicos conservadores liberais e progressistas (liberais nos costumes) que são estatistas na economia. É que por aqui a dualidade antagônica que distingue direita e esquerda guarda importantes diferenças (e distorções) com outros países, sobretudo com os EUA e nações europeias. De todo modo, mesmo simplificadas, essas noções servem para qualificar (ou desqualificar) alguns grupos políticos, além de servir de bússola (com ou sem Norte) para parte do eleitorado.

Entre os candidatos que se destacam nas pesquisas, representam o eleitorado de direita e de centro-direita, os candidatos Bolsonaro, Alckmin, Amoedo, Álvaro Dias e Henrique Meireles; e mais à esquerda, do extremo ao centro, estariam Ciro Gomes, Fernando Haddad e Marina Silva. Sempre há quem conteste essas, digamos assim, rotulações, até mesmo os candidatos, porém, grosso modo, certo ou errado, é assim que são vistos.

No Ceará essas clivagens são diferentes. Os grupos se dividem entre apoiadores ou opositores do governo. E só. A perspectiva de orientação ideológica praticamente desapareceu. É que a liderança apartidária e ideologicamente flutuante dos Ferreira Gomes ao longo dos anos, a omissão dos partidos na construção de identidades e o recente acordão fisiologista que reúne na coligação governistas partidos como o DEM, PT, PR e PCdoB, tornaram essas marcações mais fluidas e imprecisas.

E aí temos candidatos a deputado estadual que estava na oposição mas que agora é da base levantando a bandeira do conservadorismo, afirmando que é contra o aborto, mas apoiando candidato ao governo de partido que não é contra o aborto. Temos entidades empresariais que anunciam apoio a partidos que pregam aumento de impostos. Tem eleitor que vota no Cid, mas não vota no Eunício, porque não aceita a parceria entre PDT e MDB, mas escolhe candidato da oposição ao Camilo, que é alinhado com Cid. Já conversei com eleitor anti-Lula e anti-PT que vota em Camilo, alegando que o governador não é petista de coração.

A confusão é grande, porém, não é acidental. Esquerda e direita ainda existem no Ceará, é claro, mas estas estão ocupadas nas trincheiras das eleições presidenciais. Nas estaduais, quase não aparecem. A lógica do poder pelo poder, o excesso de pragmatismo eleitoreiro, o oportunismo descarado, tudo isso vai apagando as mais básicas linhas divisórias do pensamento político, que poderiam ajudar o eleitor a situar suas escolhas em parâmetros conhecidos. Sem debate de ideias, não há política.

(Texto publicado originalmente no portal Tribuna do Ceará)

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Odebrecht mostra que o PT não inventou a corrupção? Certo. Mas questão não é bem essa…

Por Wanfil em Ideologia

13 de Abril de 2017

Os depoimentos de executivos da Odebrecht e especialmente de seus donos, Emílio e Marcelo, revelam que a corrupção é prática disseminada que atinge instâncias de poder, partidos políticos e ideologias distintas. Uma amiga, pessoa honesta e trabalhadora, me disse que é a comprovação de que a corrupção não começou com o PT, como, segundo ela, insinuam os grandes veículos de comunicação.

Com todo respeito, trata-se, com efeito, de um sofisma, uma vez que não há quem diga que a corrupção tenha começado com o PT. Seria ingenuidade demais até para o mais ferrenho antipetista.

Na verdade, esse argumento é uma fuga para muitos que acreditaram (ou que ainda acreditam) na ideia de que a ética fosse monopólio do PT em particular e da esquerda em geral. Hoje isso parece absurdo, mas basta ver como militantes e políticos do PSOL do do PCdoB falam, embora nunca tenham denunciado coisa alguma.

Muitos esquerdistas comuns, sem filiação, para não dar o braço a torcer ao fatos, com o orgulho ferido, olham para a queda do PT e afirmam que a sigla cedeu a práticas da direita (transferindo o pecado para o adversário) ou que, no máximo, por pragmatismo, lideranças do partido usaram as armas do inimigo para vencer a luta eleitoral e aí poder fazer as mudanças, no que foram impedidos pelas elites e tal.

Para esses, reconhecer que ser de esquerda não significa uma elevação moral, um desprendimento atávico do mundo material, uma condição natural de solidariedade e inteligência ou um estado de pureza ética, corresponde a declarar que estiveram enganados todo esse tempo, que depositaram esperanças num pensamento pueril, e isso é difícil demais para quem se via como refinado crítico da realidade.

Confessar ter acreditado no discurso de que o PT representaria a negação da corrupção por causa de rótulos ideológicos é admitir o próprio erro. Daí que acabem usando a prova de que o sonho era uma frágil ilusão como argumento de superioridade analítica, alardeando: “viram, a corrupção não começou com o PT”, para assim disfarçar o que antes pregavam com a certeza dos profetas: “o PT e a esquerda mudarão tudo isso o que está aí”.

Dizer que o PT não é pior do que os outros é o consolo de quem aceitou a farsa do monopólio da ética por uma ideologia que, não obstante, foi responsável pelos maiores crimes e ditaduras do século XX.

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Corriola petista na rede me acusa de defender Temer porque não defendo Lula. Não adianta: são farinha do mesmo saco!

Por Wanfil em Ideologia

02 de Março de 2017

Pois é… Foto original: R.Stucker/Instituto Lula

O post anterior, em que fiz uma crítica sobre a cobertura que, a meu ver, exageraram os protestos contra o presidente Michel Temer no Carnaval, atiçou militantes e simpatizantes petistas que agora voltam a ficar assanhados na expectativa de uma possível candidatura de Lula em 2018.

Não por acaso, a maioria dos comentários foi de estudantes e professores da UFC, a mais tradicional escolinha de doutrinação do Ceará. O português é sofrível e a argumentação tosca, com xingamentos. Só não me chamaram de ladrão porque essa palavra foi riscada da lista de ofensas usada pela militância, em razão do telhado de vidro.

Estão atiçados por ordem de partidos de esquerda. Grupos de universitários (professores e alunos) formam a massa de manobra especializada que atuam como “agentes de influência”. As redações, também repletas de agentes de influência, captam o movimento e tocam o tambor.

Foi o que apontei. Não se trata de defender Temer, que isso é perda de tempo. O PMDB é o que sempre foi e faz o que sempre fez, todos sabem. Ocorre que, apesar disso, simplesmente não houve um tsunami de revoltas no Carnaval contra Temer. Não significa dizer que ele não mereça ou que tenha apoio da população, nada disso. Sua impopularidade é imensa, mas não existe ainda uma movimentação de rua ou coisa que o valha que corresponda aos índices apontados pelas pesquisas, por razões que não foram objeto do texto anterior, nem desse.

Mas o que interessa ao militante petista – e seu comendo, claro – é apontar para os que não repetirem suas palavras de ordem, gritando que estes atuam a serviço do “governo golpista”. Preparam assim terreno para a próxima palavra de ordem, que é claro, será o “volta Lula”, como se o “companheiro” nunca tivesse tirado proveito dos vícios dos peemedebistas, sendo ele mesmo, e não eu, sócio deles nas falcatruas reveladas pela Lava-Jato.

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Polêmica sobre golpe é cortina de fumaça para governo não falar de corrupção

Por Wanfil em Política

01 de Abril de 2016

A manifestação contra o impeachment em Fortaleza, que contou com a presença do governador Camilo Santana (PT), seguiu o mesmo roteiro de outras cidades, definido a partir de um comando comum, encenado de cima para baixo, e que pode ser resumido pelo bordão “não vai ter golpe”.

Nada disso é espontâneo. Os manuais de marketing eleitoral ensinam que larga na frente na disputa pela opinião pública o candidato que conseguir pautar o debate com temas e termos de seu interesse. Quem define o assunto e a forma de abordá-lo tem vantagem sobre o oponente. Pois bem, não é difícil perceber que essa estratégia foi transportada para as discussões sobre o impeachment, na medida em que o debate sobre corrupção e incompetência (origem dos protestos contra o governo) deslocou-se para o terreno do bate-boca político em torno de um suposto golpe que estaria em curso.

Assim os apoiadores do impeachment, seja no Congresso Nacional ou nas redes sociais, dedicam boa parte de seu tempo para se justificarem, receosos de serem mal interpretados, argumentando que o afastamento de presidentes é previsto na Constituição. Na sequência desse recuo de seus críticos, o governo, embora acuado por acusações diversas e crimes comprovados, flagrado em grampos e exposto por delações, passa a se apresentar como vítima para, junto com seus simpatizantes, dar lições de moral nos que defendem a operação Lava-Jato e que se valem das conclusões do TCU sobre crimes fiscais embasar o impedimento de Dilma.

O cúmulo se dá quando os que rejeitam o impeachment endossam (de modo consciente ou como massa de manobra) a tese segundo a qual ser contra os desmandos do PT no governo não é ser contra a corrupção, mas ser contra, vejam só, a própria democracia. E qualquer tentativa de rebater o sofisma é prontamente rebatida com um sonoro “não vai ter golpe”.

Essa inversão não é simples de ser feita. Resulta do confronto retórico entre uma força política organizada, coesa e experiente, contra grupos apartidários que atuam de forma improvisada, com os quais a oposição tenta pegar carona. Assim, toda vez que defensores do impeachment tentam explicar que não são golpistas apenas reforçam a polêmica sobre um tema de interesse do governo, enquanto este, por sua vez, escapa do fato óbvio de que, diante de tudo o que se sabe, ele é quem deveria dar explicações.

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Xico Graziano lembra que PSDB é de esquerda e que a direita é órfã no Brasil. Mas só falou após a eleição…

Por Wanfil em Ideologia

05 de novembro de 2014

Xico Graziano foi um dos coordenadores da campanha de Aécio Neves à Presidência da República. Ao comentar sobre o protesto em São Paulo no qual 2.500 pessoas pediam o impeachment da presidente Dilma Rousseff – e onde alguns poucos pediam intervenção militar -, Xico disse que não concordava com essas teses. Foi por isso criticado por radicais que existem às pencas nas redes sociais. O tucano então resolveu deixar as coisas claras:

Existe no Brasil uma ideologia própria da direita que se encontra desamparada do sistema representativo, quer dizer, sem partido político. Sua força se mostra na rede da internet. Essa corrente luta para destruir o PT, acusando-o de querer implantar o comunismo por aqui. Defendem as liberdades individuais, combatem tenazmente a corrupção organizada no poder, desprezam totalmente as lutas sociais, mostrando-se intolerante com o direito das minorias.”

É verdade que existe uma direita sem representação. Inclusive, boa parte dessa direita órfã votou em Aécio não por acreditar nele, mas por ser contra o PT. Mas é falso que exista um movimento intolerante que despreze as minorias. Existem divergências de ordem conceitual, o que é bem diferente. Também é falso que exista ação organizada para destruir o PT. Graziano falou de gente intolerante, eu sei, mas tomou a parte pelo todo. É como se eu dissesse que todo esquerdista é defensor da corrupção, uma vez que dirigentes do PT foram presos por esse tipo de crime. Ou que todos os que protestaram em junho de 2013 fossem partidários dos black blocs. Ou que todo torcedor é violento como facções de torcidas organizadas.

Há no texto de Graziano uma mistura entre fatos concretos e interpretações equivocadas, pois colocam o governo contra qual ele mesmo se opõe no papel de vítima de uma truculência que, na prática, não existe. A gestão Dilma não corre o risco de instabilidade política por causa desses gatos pingados que pedem a ditadura, mas por suas próprias ações, a começar pelo estelionato eleitoral relacionado à política fiscal. Vale lembrar: a presidente acusou adversários de planejarem aumento de juros e uma vez eleita, três dias depois, liberou o Banco Central (que não é independente) para anunciar o quê? Aumento de juros! Agora se as pessoas protestam, uns de forma correta, outros apelando a histrionismos, a responsabilidade é somente da Sra. Rouseff. Misturar alhos com bugalhos só beneficia o governo federal nesse momento de descrédito.

Dito isso, é correto afirmar que o PSDB é de esquerda. Quem duvida, basta ler Hélio Jaguaribe. Eu li. A social democracia, a meu ver, é uma esquerda ciente de que o marxismo é uma furada e que reconhece aspectos positivos no liberalismo, mas, ainda assim, uma esquerda genuína. Não é mais aquela social democracia de meados do século passado, mas uma versão, digamos assim, modernizada pelos tons rosas da “Terceira Via” de Anthony Giddens, Tony Blair, Bill Clinton e FHC. Não estou dizendo que PSDB e PT são iguais, nada disso. Existem matizes na esquerda e na direita. Há no PT um visível ranço autoritário típico de quem se considera o imperativo categórico da história, enquanto os tucanos ficam mais ao centro e, portanto, mais palatável ao direitista sem representação. De todo modo, quem diz que o PSDB é de direita é analfabeto político ou deturpa conceitos deliberadamente. E antes que me crucifixem no altar das heresias esquerdistas, cito aqui o maior santo dessa seita no Brasil, Lula da Silva:

“Pela primeira vez não vamos ter um candidato de direita na campanha. Não é fantástico isso? Vocês querem conquista melhor do que numa campanha neste país a gente não ter nenhum candidato de direita?” 

A frase foi dita em 15 de setembro de 2009, durante solenidade no IPEA (confira o vídeo aqui). Lula comentava sobre a eleição do ano seguinte, na qual sua escolhida, Dilma Rousseff, iria enfrentar Serra ou Aécio, pelo PSDB, além de Marina Silva pelo PV. Ciro Gomes corria por fora para tentar ser candidato pelo PSB, mas foi barrado pelo próprio partido.

Xico Graziano e Lula têm razão. A direita não tem partido formalizado. A direita no Brasil não tem candidato. Existem apenas indivíduos de direita. Graziano, como eu disse, toma delírios de radicais como se fossem expressão de um pensamento partidarizado. Lula ressuscita o fantasma dos “trogloditas da direita” quando lhe convém, mas sua opinião mesmo, da qual se orgulha e como vimos acima, é outra.

Por fim, Xico Graziano diz que é normal existirem as alianças eleitorais, e para tal existe o segundo turno. O problema surge quando os militantes da direita exigem que nós, os sociais democratas, encampemos sua ideologia, o que seria um absurdoNada contra. Mas o correto seria dizer isso antes das eleições. Aí, sim, seria bonito. Algo como: “Ei você que é anti-PT e de direita, não vote na gente pois também somos de esquerda. Vote nulo, pois ninguém aqui o representa”.

PS – 1. Sobre intervenção militar, sou absolutamente contra, por convicção. Não apenas aqui no Brasil, mas também em qualquer outro país, como em Cuba, por exemplo, ditadura militar financiada com ajuda do atual governo brasileiro e que é fetiche do esquerdismo nacional;
PS – 2. Pedir impeachment nas ruas não é crime, nem sinal de intolerância. Pelo menos, não era na época do ex-presidente Collor de Mello.

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“Viva o PT” de Genoino e “consciência livre” de Dirceu equivalem a dizer: “Eu não me arrependo e faria de novo”

Por Wanfil em Brasil

15 de novembro de 2013

A prisão dos condenados pelo STF no caso do mensalão deve ser comemorada como uma batalha surpreendentemente vencida na guerra contra a corrupção. Nada de hastear a bandeira da paz, pois os inimigos são muitos e poderosos. Não apenas no PT, como tentam justificar o petismo, é verdade. Mas estando no poder e tendo crescido com a promessa de romper com o que depois aderiu, seu vexame moral é tanto mais ressonante.

Corruptos se alimentem do mesmo expediente, que é o roubo aos cofres públicos. Mas é fundamental discernir as nuances e distinções que separam, por exemplo, José Dirceu e José Genoino de Paulo Maluf e Roberto Jefferson.

Nem todo corrupto é igual

José Genoino, criminoso condenado pelo Supremo a seis anos e 11 meses de cadeia pelos crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa, ao ser entregar para a Polícia Federal, gritou: “Viva o PT”. José Dirceu, condenado pelos mesmo crimes a dez anos e dez meses de cadeia, declarou à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo: “Nenhuma prisão vai prender a minha consciência”.

As declarações são essenciais para uma compreensão acerca da atualidade na política brasileira. O PT tem história, híbrido do sindicalismo de resultados (de onde veio Lula), comunismo (escola de Dirceu) e da Teologia da Libertação (berço de Genoino). Maluf e tantos outros representam a corrupção que tem no enriquecimento ilegal do próprio corrupto seu maior e único fim. O corrupto com pedigree ideológico tem uma causa a justificar-lhe os atos. Esses podem ser mais perigosos justamente por entenderem que agem em nome de algo superior: o partido, que passa a ser o seu ente de razão. Existe aí uma ética torta, mas aos seus olhos, uma ética justa.

Uma ética diferente

O princípio básico dessa ética é moldável de acordo com as circunstâncias. Assaltar bancos, por exemplo, como fazia Dilma Rousseff, pode ser uma atividade edificante desde que seja para financiar sua causa política. Matar alguém, ou uma classe social inteira, é prova de virtude, desde que seja para pavimentar a ascensão do partido. Foi assim na Rússia de Stálin ou na China de Mao. É História.

Portanto, superfaturar uma obra ou falsificar uma operação financeira para comprar a base de sustentação de um governo com o dinheiro roubado é um mal necessário, no entendimento dessa turma.

Ao dizer que sua consciência é livre, Dirceu reafirma essa condição de militante que sabe o que faz e pelo que faz. É uma forma de dizer que não traiu a causa que, por imposição tática, fez uso da corrupção para consolidar um projeto político contra o que eles chamam de elite burguesa. O “Viva o PT” de Genoino é um recado claro: “Não me arrependo do que fiz para o partido”. Esses sujeitos trabalharam para fazer de sua sigla a agremiação mais rica e poderosa do país. Ajudaram a eleger presidentes em campanhas milionárias.  “Não fiquei rico” é o argumento inicial de suas defesas. Isso sim poderia ferir o senso ético deles. Quem não destina os recursos desviados para o partido (pesquisar caso Celso Daniel) merece o desprezo ou algo pior. Roubar para si é pecado. Roubar para o partido é heroísmo.

A “luta” continua

Esse projeto continua em curso, levado pelos companheiros que são a) blindados e b) operam em outras atividades. A turma do financiamento de campanha continua firme, claro. Defende agora o financiamento público de campanha, que é uma forma de deslocar o debate para a esfera da institucionalidade. O crime existe por causa forças externas e não por empenho de convicções internas. É cortina de fumaça.

Os mensaleiros foram presos, mas sua missão, ao final, foi bem sucedida.

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“Viva o PT” de Genoino e “consciência livre” de Dirceu equivalem a dizer: “Eu não me arrependo e faria de novo”

Por Wanfil em Brasil

15 de novembro de 2013

A prisão dos condenados pelo STF no caso do mensalão deve ser comemorada como uma batalha surpreendentemente vencida na guerra contra a corrupção. Nada de hastear a bandeira da paz, pois os inimigos são muitos e poderosos. Não apenas no PT, como tentam justificar o petismo, é verdade. Mas estando no poder e tendo crescido com a promessa de romper com o que depois aderiu, seu vexame moral é tanto mais ressonante.

Corruptos se alimentem do mesmo expediente, que é o roubo aos cofres públicos. Mas é fundamental discernir as nuances e distinções que separam, por exemplo, José Dirceu e José Genoino de Paulo Maluf e Roberto Jefferson.

Nem todo corrupto é igual

José Genoino, criminoso condenado pelo Supremo a seis anos e 11 meses de cadeia pelos crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa, ao ser entregar para a Polícia Federal, gritou: “Viva o PT”. José Dirceu, condenado pelos mesmo crimes a dez anos e dez meses de cadeia, declarou à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo: “Nenhuma prisão vai prender a minha consciência”.

As declarações são essenciais para uma compreensão acerca da atualidade na política brasileira. O PT tem história, híbrido do sindicalismo de resultados (de onde veio Lula), comunismo (escola de Dirceu) e da Teologia da Libertação (berço de Genoino). Maluf e tantos outros representam a corrupção que tem no enriquecimento ilegal do próprio corrupto seu maior e único fim. O corrupto com pedigree ideológico tem uma causa a justificar-lhe os atos. Esses podem ser mais perigosos justamente por entenderem que agem em nome de algo superior: o partido, que passa a ser o seu ente de razão. Existe aí uma ética torta, mas aos seus olhos, uma ética justa.

Uma ética diferente

O princípio básico dessa ética é moldável de acordo com as circunstâncias. Assaltar bancos, por exemplo, como fazia Dilma Rousseff, pode ser uma atividade edificante desde que seja para financiar sua causa política. Matar alguém, ou uma classe social inteira, é prova de virtude, desde que seja para pavimentar a ascensão do partido. Foi assim na Rússia de Stálin ou na China de Mao. É História.

Portanto, superfaturar uma obra ou falsificar uma operação financeira para comprar a base de sustentação de um governo com o dinheiro roubado é um mal necessário, no entendimento dessa turma.

Ao dizer que sua consciência é livre, Dirceu reafirma essa condição de militante que sabe o que faz e pelo que faz. É uma forma de dizer que não traiu a causa que, por imposição tática, fez uso da corrupção para consolidar um projeto político contra o que eles chamam de elite burguesa. O “Viva o PT” de Genoino é um recado claro: “Não me arrependo do que fiz para o partido”. Esses sujeitos trabalharam para fazer de sua sigla a agremiação mais rica e poderosa do país. Ajudaram a eleger presidentes em campanhas milionárias.  “Não fiquei rico” é o argumento inicial de suas defesas. Isso sim poderia ferir o senso ético deles. Quem não destina os recursos desviados para o partido (pesquisar caso Celso Daniel) merece o desprezo ou algo pior. Roubar para si é pecado. Roubar para o partido é heroísmo.

A “luta” continua

Esse projeto continua em curso, levado pelos companheiros que são a) blindados e b) operam em outras atividades. A turma do financiamento de campanha continua firme, claro. Defende agora o financiamento público de campanha, que é uma forma de deslocar o debate para a esfera da institucionalidade. O crime existe por causa forças externas e não por empenho de convicções internas. É cortina de fumaça.

Os mensaleiros foram presos, mas sua missão, ao final, foi bem sucedida.