História Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

História

Destaque cearense na derrota de Renan

Por Wanfil em Política

04 de Fevereiro de 2019

Eduardo Girão, Tasso Jereissati e Davi Alcolumbre – Foto: Agência Senado.

A ruidosa derrota de Renan Calheiros (MDB-AL) na disputa pela presidência do Senado, em sessão marcada por polêmicas, foi a ilustração perfeita do choque entre o “velho que não quer passar” e o novo que tenta chegar (adaptando uma célebre frase de Ernest Bloch).

Mais do que a vitória do desconhecido Davi Alcolumbre (DEM-AP), o que marcou essa eleição foi mesmo a repulsa da opinião pública contra a chamada “velha política”, da qual Renan – com sua extensa ficha de acusações, processos e escândalos – é um dos expoentes.

A ideia de renovação permeou os discursos e enfrentamentos em sessão acompanhada (e comentada nas redes) ao vivo por milhões de eleitores. E talvez nenhuma bancada tenha representado melhor esse momento do que a do Ceará.

Por mais uma vez, o novo presidente do Senado agradeceu a Tasso Jereissati (PSDB) pelos conselhos e pela articulação política que mudou a correlação de forças na Casa. Aliás, o próprio Renan, de dedo em riste, apontou Tasso como um dos responsáveis pela mudança: “A culpa é sua!”, gritou ainda na sexta-feira.

Eduardo girão (de saída do PROS para o Podemos) foi decisivo para manter viva a campanha pelo voto aberto, que prevaleceu até ser proibida por Dias Toffoli, do STF. Responsável pela coleta de assinaturas pela transparência na eleição, Girão não recuou. E se os senadores contrários a Renan não mostrassem o voto para as câmeras, a pressão do público, via redes sociais, não surtiria o mesmo efeito.

Cid Gomes foi mais comedido durante a votação e destoou ao não defender o voto aberto. Tasso e Girão mostraram o voto em Davi Alcolumbre. De todo modo, ainda no início do processo eleitoral Cid trabalhou para montar um grupo independente que foi importante para mostrar que a disputa era possível.

É certo que o Senado, assim como o Brasil, ainda será palco para o enfrentamento entre práticas antigas e novas ideias. A história mostra que grandes mudanças não acontecem por obra de rupturas repentinas, mas por derivarem de processos lentos que se desenvolvem ao longo dos anos até culminarem em eventos marcantes. Nesse caminho, erros e acertos, avanços e retrocessos podem acontecer. Porém, mesmo lentas, é certo que estão em curso neste instante. E a maior característica dessa onda de mudanças é o peso da cobrança dos representados, sobre seus representantes.

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A História do “golpe”

Por Wanfil em Ideologia

02 de Março de 2018

Os jornais informam que o curso de História da Universidade Federal do Ceará brindará a ciência e seus alunos com aulas sobre o “Golpe de 2016 e a Futuro da Democracia no Brasil”, ofertadas na disciplina “Tópicos Especiais em História 4”.

Não surpreende. Quando cursei História na UFC, nos idos dos 90, testemunhei o professor Eurípedes Funes explicando, em sala de aula, que a criação dos agentes de saúde pelo governo do Ceará não passava de uma estratégia da elite para impedir a revolução camponesa.

Lembro também que a professora Adelaide Gonçalves convidou os alunos do primeiro semestre, já no final da aula mas ainda em horário de expediente (pago pelo contribuinte), para uma reunião que teria o objetivo de ajudar na construção do plano de governo do então candidato Lula. Esse alinhamento não é casual ou aleatório. É padrão.

A obsessão pela hegemonia cultural, o proselitismo ideológico e partidário explícito nas universidades brasileiras, a militância travestida de isenção científica é uma velha História.

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A Espada de Dâmocles e a Operação Lava Jato

Por Wanfil em História

07 de julho de 2017

A Espada de Dâmocles, de Richard Westall. A cabeça por um fio

As incertezas quanto à permanência de Michel Temer na Presidência da República jogam sobre sobre Rodrigo Maia, presidente da Câmara, primeiro na linha sucessória na ausência de um vice-presidente, a famosa expectativa de poder.

Ocupando assim o centro das atenções, Maia (codinome Botafogo) passou a ilustrar reportagens que resgataram a citação de seu nome na delação da Odebrecht. Pois é. A condição para assumir o cargo é ter a atuação política submetida ao minucioso exame de investigadores e da imprensa. Aceita se quiser.

Esse concerto político me fez lembrar da Espada de Dêmocles, história da Grécia antiga. Resumindo, Dâmocles, conselheiro e bajulador de Dionísio, disse certa feita que o tirano de Siracusa, na Sicília, era afortunado pela glória e poder que desfrutava.

Em resposta, o rei propôs que trocassem de lugar por um dia, no que foi prontamente atendido. O cortesão foi então cercado de todo o luxo, ouro e belas companhias. Mas depois Dionísio mandou pendurar sobre a cabeça de seu substituto temporário uma espada presa apenas por um fio de rabo de cavalo. A tensão da ameaça constante fez com que Dâmocles perdesse o interesse pelos encantos do cargo e desistisse da troca.

Estar no poder, portanto, é conviver com perigos. No Brasil dos dias que correm, o risco eminente para candidatos a rei é bem específico: é a Operação Lava Jato pendendo como a Espada de Dâmocles sobre a cabeça de quem ocupe o Palácio do Planalto.

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O significado da morte de Fidel Castro

Por Wanfil em História

26 de novembro de 2016

Morreu Fidel Castro, aos 90 anos. Em 1957, pouco antes de assumir o poder com a revolução em Cuba, Fidel declarou, em entrevista ao jornalista Herbert Matthews, do New York Times: “O poder não me interessa. Depois da vitória, quero regressar à minha cidade e retomar minha profissão de advogado”. Acabou desmentido pelo apego ao poder, do qual só abriu mão quando a idade o impediu de governar.

A morte de Fidel significa um ditador a menos no mundo. A utopia sangrenta do Século 20, que incensou Lênin, Stálin e Mao, morre com seu último garoto propaganda. Há quem considere haver ditadores do bem e ditadores do mal. Há quem defenda a ideia de que as ditaduras podem ser divididas entre as bem intencionadas e as pervertidas por interesses econômicos. E ainda existem os que consentem com ditaduras por simpatizarem com o sinal ideológico que estas representam (quando à esquerda) e por seus supostos bons frutos.

A História mostra que não existem ditaduras do bem. Fidel morreu e temos um ditador a menos no mundo, porém, Cuba permanece uma ditadura, governada por Raul Castro. Não por acaso, irmão daquele abnegado comunista que dizia não ter interesse pelo poder.

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‘Ceará de Atitude’ resgata histórias de torturados na ditadura, mas alguns continuam esquecidos

Por Wanfil em História

26 de agosto de 2016

O Governo do Ceará lançou neste mês de agosto a série de documentários Ceará de Atitude, que relembra “a história de quatro cearenses que sobreviveram à prisão e à tortura durante a ditadura militar”.  A Lei da Anistia foi promulgada em 28 de agosto de 1979.

Foram exibidas as histórias de Valter Pinheiro e Beliza Guedes. Valter participou da luta armada junto ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), que combatia a ditadura militar para instaurar a “ditadura do proletariado”. Foi brutalmente torturado na “Casa dos Horrores”, em Maranguape. Beliza também militou no PCBR. Foi sequestrada por militares para ser interrogada em sessões de tortura psicológica.

Vítimas de arbitrariedades covardes e desumanas, suas histórias merecem ser contadas como exemplos contra os regimes de exceção. Por isso, aproveitando a oportunidade, deixo aqui sugestões de outras vítimas de violência nesse período aqui no Ceará, para outros documentários que eventualmente venham a ser produzidos:

Waldemar Carneiro de Brito – PM de apenas 19 anos assassinado com três tiros no dia 4 de janeiro de 1969, na Avenida Bezerra de Menezes, por integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização revolucionária de esquerda, durante assalto em busca de armas.

José Armando Rodrigues – Comerciante assaltado, sequestrado, torturado e morto a tiros na serra de Ibiapaba, em São Benedito, por José Sales de Oliveira, Antônio Espiridião Neto, Carlos de Montenegro Medeiros, Gilberto Telmo Sidney Marques, Timochenko Soares de Sales, Francisco William e Waldemar Rodrigues Menezes (autor dos disparos), membros da Ação Libertadora Nacional.

Esses casos mostram que também existem vítimas de ações perpetradas por organizações revolucionárias. Fato que não justifica a ditadura, muito menos os seus crimes, mas que são importantes para, como dizem os idealizadores do Ceará de Atitude, “resgatar a memória política brasileira, preservando conhecimento para as futuras gerações”.

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Catilinárias – nome perfeito para a nova operação da PF na Lava Jato

Por Wanfil em Corrupção

15 de dezembro de 2015

No site da Polícia Federal:

“A Polícia Federal, em conjunto com o Ministério Público Federal, deflagrou hoje, 15, a Operação Catilinárias que tem como objetivo o cumprimento de 53 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, referentes a sete processos instaurados a partir de provas obtidas na Operação Lava Jato.”

“* Catilinárias são uma série de quatro discursos célebres do cônsul romano Cícero contra o senador Catilina.”

Os nomes das operações da Polícia Federal são fantásticos. Na investigação do roubo de verbas na Transposição do São Francisco, na semana passada, foi a Vidas Secas – Sinhá Vitória, em alusão à personagem criada  por Graciliano Ramos, que denunciava a exploração de fazendeiros inescrupulosos contra sertanejos.

Agora é a Operação Catilinárias, que mira figurões do PMDB, entre os quais Eduardo Cunha e Henrique Alves, além de nomes menores, como os cearenses Sérgio Machado e Aníbal Ferreira Gomes. O nome, mais uma vez, é perfeito.

Cícero discursou contra Catilina porque este tencionava dissolver o Senado Romano e com desfaçatez assombrosa, insistia em frequentar o local como se ninguém soubesse de sua intenção. Logo no primeiro discurso, Cícero, que viveu entre 106 e 43 a.C, e foi um dos maiores oradores da História, disparou:

“Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?”

Depois mandou ver ainda:

“Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?”

É um recado direto para Eduardo Cunha, o presidente da Câmara dos Deputados enrolados com denúncias de corrupção e que usa suas prerrogativas e manobras para obstruir investigações no Conselho de Ética, além de reduzir o robusto pedido de impeachment feito por Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaína Paschoal contra Dilma Rousseff, a mero instrumento de retaliação contra o governo, também ele enrolado com a lei.

A quem Cunha imagina enganar? Após o discurso de Cícero exortando seus colegas a tomar uma iniciativa, Catilina deixou Roma.

No Brasil de hoje, a diferença é que nos falta um Cícero, papel que não pode ser exercido pela PF. E que em Roma Catilina era apenas um, enquanto por aqui, é uma legião. Lula, Renan, Dilma, Edinho Silva, José Guimarães, Carlos Lupi, Romero Jucá, Jacques Wagner e tantos outros, já sentem que seus planos estão à vista de todos, mas fingem que não.

Na falta de um Cícero, para esses que tramam contra o interesse público, fica a dica: cuidado com o japonês da Polícia Federal.

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Muito além dos protestos

Por Wanfil em Política

17 de agosto de 2015

Mais uma vez centenas de milhares de pessoas protestaram contra o governo Dilma em todo o país. Não obstante as polêmicas sobre o tamanho da mobilização – se maiores, iguais ou menores do que as anteriores –, o que importa para os agentes políticos no Brasil é o fato de que essas multidões que saíram às ruas são uma pequena amostra da insatisfação geral registrada por pesquisas de opinião, e que mostra que o problema, para o governo, vai muito além do tamanho ou das camadas sociais ali representadas, notadamente de classe média, chegando a dois pontos elementares: a quebra na relação de confiança entre sociedade e governo e a persistência com que os protestos se repetem, que indica um estado de ânimo disposto a se prolongar no tempo.

Processo
Como esta foi a terceira manifestação somente em 2015 – sempre com boa presença de público –, fica cada vez mais evidente que não se trata de um fenômeno pontual ou restrito, mas de um sentimento constante que se irradia por todo o país, um processo contínuo que se desenvolve sem contrapontos capazes de contê-lo.

O máximo que o governo conseguiu até aqui para mostrar alguma reação foi o apoio provisório do senador Renan Calheiros (PMDB), conchavo que fez do alagoano um dos alvos nos protestos de domingo. Quando o apoio a uma gestão é prejudicial à imagem de alguém como Renan, é sinal de que se chegou ao fundo do poço.

Instinto de sobrevivência
Em ambientes assim, com o governo desacreditado, o instinto de autopreservação de políticos em geral é buscar distância dele e evitar críticas aos movimentos de contestação, ou até mesmo apoiá-los. No que diz respeito a aliados, não se trata de um movimento brusco, feito às pressas, pois o governo ainda tem as suas armas, especialmente no que diz respeito a cargos e verbas.

Por isso, tudo é feito por etapas. As declarações de apoio começam a ficar mais raras, depois críticas começam a aparecer, entremeadas com sugestões ambíguas, e por fim o silêncio passa a predominar.

Em meados de julho passado, governadores do Nordeste em busca de verbas para amenizar os efeitos do ajuste fiscal, assinaram uma carta contra o impeachment de Dilma. O que dizem agora? O tema definitivamente se consolidou como pauta dos manifestantes. Até o momento, nenhum dos signatários veio a público repudiar os protestos. Inteligentes, não darão murro em ponta de faca. Pelo menos, não de graça.

Collor
As primeiras denúncias de corrupção contra o governo do ex-presidente Collor surgiram no início de seu mandato, em junho de 1990. O impeachment foi aprovado em setembro de 1992. Não quer dizer que a história irá se repetir (os protestos naquele período começaram mais tarde), mas é o parâmetro mais próximo que se tem a servir de referência para comprar com a situação política atual. E isso, por si só, diz muito.

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Os Gatos-Pingados

Por Wanfil em Fortaleza, História

02 de agosto de 2013

São várias as explicações para a expressão gatos-pingados, especialmente nesses tempos de Internet e Wikipédia. Eu fico com a do poeta e memorialista cearense Otacílio de Azevedo, nascido em Redenção em 1892 e autor de Fortaleza Descalça, livro de crônicas sobre a capital cearense no início do Século 20.

A propósito, lembrei-me da expressão ao ver a atuação dos manifestantes (palavra vazia, a meu ver) que tentam impedir o corte de árvores no Parque do Cocó, no trecho de sete metros onde parte de um viaduto será construído (porque o projeto não evitou isso, eu não sei). Volto ao tema mais adiante.

Otacílio conta que “um dos aspectos mais curiosos da Fortaleza antiga era, sem dúvida, aquele apresentado pelos chamados Gatos-Pingados. Eram contratados para levar o defunto ao cemitério. Trajavam longas casacas pretas espartilhadas, calças com listras vermelhas, cartolas altas, de abas enroladas” (pág. 149).

De acordo com o historiador Sebastião Rogério, meu professor na Universidade Federal do Ceará, a expressão era associada aos detalhes nas roupas desses carregadores, com faixas amarelas nos braços, além das listras vermelhas já mencionadas, que originaram, com o humor típico do cearense, o adjetivo pingado.

E foi desses cortejos fúnebres surgiu ainda a derivação depreciativa “quatro gatos-pingados” (ou a variante numérica “meia-dúzia de gatos pingados”). Para o público que morava nas proximidades do cemitério São João Batista e que gostava de assistir aos enterros, um sinal de que o defunto não gozava de prestígio ou era pessoa detestada era justamente a quantidade de acompanhantes junto ao caixão. Quanto pior, menos gente, até o limite dos “quatro gatos-pingados”.

Crítica radical? Não, prefiro a crítica sarcástica…

E dessa forma, poética e mordaz, a expressão passou a definir causas ou grupos que não conseguem contagiar, que carecem de adesão. O cartunista Henfil criou o personagem Gato Pingado para representar a torcida do América do Rio, mas essa é outra história. Ao ver os tais manifestantes no Cocó, lembrei-me de Otacílio de Azevedo. Em seguida, por uma sequência de associações, pensei nas companheiras Rosa da Fonseca e Maria Luiza Fontenele, neoecologistas que comandam o cortejo fúnebre do anticapitalismo anarquista com os quatro gatos-pingados do movimento Critica Radical.

Depois, ainda no embalo dessas associações livres, passei a imaginar quem (oh, santo Marx!) financia o grupo, cujos integrantes, vez por outra, participam de eventos no exterior e que consegue sustentar seus abnegados militantes que, sem trabalhar, não arredam o pé do acampamento no Parque do Cocó. Mas, no fundo, quem se importa?

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Comissões da Verdade no Ceará e uma verdade incômoda

Por Wanfil em História

27 de Fevereiro de 2013

Revisões da história necessitam de objetividade e transparência, para evitar distorções que embaçam a mente.

Revisões da história necessitam de objetividade e transparência, para evitar distorções que embaçam a mente.

Será instalada nesta quarta-feira (27) a Comissão da Verdade dos Jornalistas do Ceará, com a missão de investigar crimes cometidos contra integrantes da categoria durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985. Já existem comissões semelhantes por todo o Brasil. Aqui mesmo no Ceará temos a Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou. Muito provavelmente, jornalistas já foram indenizados pela comissão mais antiga, sendo desnecessário mais pagamentos feitos pela nova entidade. No entanto, não quero aqui me ater a essas particularidades, mas ao espírito que emana dessas iniciativas como um todo e do risco de distorções históricas.

A anistia

Para que a transição do regime autoritário para o democrático se desse em ambiente de estabilidade política, em 1979 foi promulgada a Lei da Anistia, de caráter geral, amplo e irrestrito, perdoando todos os que “cometeram crimes políticos ou conexo com estes”. No período, muitos crimes comuns e hediondos foram perpetrados em nome de princípios políticos, tanto pelos agentes da ditadura como por guerrilheiros que viam no combate ao governo militar a oportunidade para um novo golpe, com sinal ideológico invertido. Existiam, claro, militares que não cometeram crimes e democratas que combateram o regime de forma pacífica, arriscando apenas a própria vida.

Com o passar do tempo, a anistia passou a ser vista por alguns grupos engajados como sinônimo de impunidade. Uma vez que a lei não foi revogada, a solução para atender o natural pedido de justiça de parentes de vítimas da ditadura foi a criar comissões que pudessem, pelo menos, compensar com indenizações o sofrimento dos que foram perseguidos pelo estado.

Dilema

A questão é que existe um dilema pouco debatido, encoberto por uma fantasia ideológica que intenta a uma construção histórica. Se por um lado o estado é moralmente reconhecido como responsável pelos crimes que cometeu – o que é justo -, por outro, aqueles que pereceram e foram perseguidos pelos grupos revolucionários não têm a quem pedir justiça ou reparação. Oficialmente, são crimes sem reconhecimento, sem autores, só com vítimas.

Temos assim uma revisão capenga, que pende desequilibrada para um lado. Não por acaso, essas comissões estão apinhadas de filiados a partidos de esquerda e de simpatizante de guerrilhas totalitaristas, imbuídos do desejo mal disfarçado de acertar contas com os inimigos do passado.

Tudo seria simples se apenas militares e agentes do governo fossem maus e tivessem cometidos violações em nome de uma causa: a própria ditadura. Acontece que militantes de esquerda também cometeram crimes como roubo, sequestro, tortura e assassinato, só que em nome de outra causa: a revolução comunista para instaurar a ditadura do proletariado. Aliás, o movimento revolucionário armado no Brasil começou antes de 64, e não como reação ao golpe (ver Combate nas Trevas, do marxista-leninista Jacob Gorender).

Esses grupos radicais se inspiravam em ditaduras estrangeiras, como a soviética (alguns eram patrocinados por Moscou – ver Camaradas, de William Waack). Portanto, não é correto imaginar que toda luta contra a ditadura foi uma luta pela democracia. Essa ideia é uma impostura que busca construir mitos e apagar fatos.

Como um dos ideais da democracia é a igualdade de todos perante a lei, não é possível que crimes cometidos por um lado, ainda que seja o mais forte, sejam punidos, enquanto os cometidos pelo outro lado fiquem impunes ou, no mínimo, sem reconhecimento oficial. Essa é uma verdade que incomoda.

Justiça ou revanche?

No Ceará há um caso que bem ilustra essa dificuldade em separar o preto do branco quando tudo é cinza. Em 29 de agosto de 1970, o empresário José Armando Rodrigues foi assaltado, sequestrado, torturado e morto a tiros por membros da Ação Libertadora Nacional (ALN). Seu corpo foi jogado num precipício na serra de Ibiapaba, no município de São Benedito. Seus autores, muitos ainda vivos, assim como os militares da época envolvidos com crimes, foram anistiados.

Evidentemente, esse caso não justifica a ditadura ou invalida as indenizações pagas pelas comissões. Também não se trata de escolher um lado entre os radicais de direita e os radicais de esquerda, pois isso seria incorrer no erro que aqui se aponta. Serve mesmo para ilustrar que o maniqueísmo é inadequado para a investigação histórica desse período, pois limita o processo de revisão. O ideal é que essas comissões sejam compostas por pessoas que não ajam motivadas por paixões ideológicas e que não as usem para reescrever a biografia de gente que, apesar de perseguida pela ditadura, também cometeu crimes imperdoáveis, ignorando o sofrimento de suas vítimas. Se não for assim, a busca pela justiça termina em simples revanche.

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A verdadeira lição do mensalão

Por Wanfil em Brasil, História, Ideologia

20 de agosto de 2012

José Dirceu liderando o PT em votação no Congresso (2000), quando a sigla gozava de uma espécie de monopólio da ética na política brasileira: tudo não passou de propaganda ideológica.

Se há uma lição em todo esse episódio do mensalão – independente do resultado do julgamento no STF – é a de que a virtude não tem ideologia ou partido político. Sei que isso parece uma tautologia, algo óbvio, mas a ilusão de que certas doutrinas detêm o monopólio da ética e da moral é muito mais presente no imaginário nacional do que podemos suspeitar de relance.

Fé cega 

O Partido dos Trabalhadores, por exemplo, construiu considerável reputação de partido de qualidades telúricas ao longo de duas décadas. Por que ele seria diferente dos demais? Pela origem de classe e pelo pedigree esquerdista. Bastaram-lhe essas credenciais para que seus filiados e prosélitos se apresentassem como antítese de “tudo isso que está aí”, uma variante burguesa e comportada, porém ambiciosa, da revolução proletária. Não eram necessários feitos ou fatos para sustentar a fé dos que ansiavam por uma nova era repleta de criaturas angelicais: o Brasil seria passado a limpo por gente de inspiração socialista. Uma vez no poder, o partido manteve a política econômica que outrora repudiou e assumiu com destemor as parcerias com os corrompidos de sempre, revelando que a insuspeita autoridade moral do passado era a mesma que instituiu o mensalão.

A reação para os que acreditaram e apostaram de boa vontade nesse teatro político foram três: 1) reconhecer que foi tapeado, como fez Chico de Oliveira; 2) negar os fatos e afundar ainda mais no mundo dos sonhos, como Marilena Chauí; 3) sair e começar tudo de novo, apostando no mesmo discurso, como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Simbologia e desconstrução

Agora, em período eleitoral, algumas siglas e candidatos buscam resgatar esse discurso de “venha conosco fazer uma política diferente”. Não interessa saber as intenções dos que professam esse tipo de mensagem. O problema é que ela nasce de um pensamento torto, feito para o consumo dos carentes de utopias ou dos que desacreditaram da política.

A virtude é atributo individual, para o bem e para o mal. Imaginar que determinado partido, ou de forma mais abrangente, que uma ideologia, possa servir de garantia de honestidade, como se fosse um tipo de carimbo de caráter, é presunção que bebe na fonte do voluntarismo totalitarista, que não aceita o contraditório. Filosoficamente, é a tentativa de projetar as culpas interiores do sujeito no anonimato da coletividade .

A importância do mensalão está justamente no que ele representa simbolicamente: a desconstrução de uma mentira histórica. Leia mais

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A verdadeira lição do mensalão

Por Wanfil em Brasil, História, Ideologia

20 de agosto de 2012

José Dirceu liderando o PT em votação no Congresso (2000), quando a sigla gozava de uma espécie de monopólio da ética na política brasileira: tudo não passou de propaganda ideológica.

Se há uma lição em todo esse episódio do mensalão – independente do resultado do julgamento no STF – é a de que a virtude não tem ideologia ou partido político. Sei que isso parece uma tautologia, algo óbvio, mas a ilusão de que certas doutrinas detêm o monopólio da ética e da moral é muito mais presente no imaginário nacional do que podemos suspeitar de relance.

Fé cega 

O Partido dos Trabalhadores, por exemplo, construiu considerável reputação de partido de qualidades telúricas ao longo de duas décadas. Por que ele seria diferente dos demais? Pela origem de classe e pelo pedigree esquerdista. Bastaram-lhe essas credenciais para que seus filiados e prosélitos se apresentassem como antítese de “tudo isso que está aí”, uma variante burguesa e comportada, porém ambiciosa, da revolução proletária. Não eram necessários feitos ou fatos para sustentar a fé dos que ansiavam por uma nova era repleta de criaturas angelicais: o Brasil seria passado a limpo por gente de inspiração socialista. Uma vez no poder, o partido manteve a política econômica que outrora repudiou e assumiu com destemor as parcerias com os corrompidos de sempre, revelando que a insuspeita autoridade moral do passado era a mesma que instituiu o mensalão.

A reação para os que acreditaram e apostaram de boa vontade nesse teatro político foram três: 1) reconhecer que foi tapeado, como fez Chico de Oliveira; 2) negar os fatos e afundar ainda mais no mundo dos sonhos, como Marilena Chauí; 3) sair e começar tudo de novo, apostando no mesmo discurso, como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Simbologia e desconstrução

Agora, em período eleitoral, algumas siglas e candidatos buscam resgatar esse discurso de “venha conosco fazer uma política diferente”. Não interessa saber as intenções dos que professam esse tipo de mensagem. O problema é que ela nasce de um pensamento torto, feito para o consumo dos carentes de utopias ou dos que desacreditaram da política.

A virtude é atributo individual, para o bem e para o mal. Imaginar que determinado partido, ou de forma mais abrangente, que uma ideologia, possa servir de garantia de honestidade, como se fosse um tipo de carimbo de caráter, é presunção que bebe na fonte do voluntarismo totalitarista, que não aceita o contraditório. Filosoficamente, é a tentativa de projetar as culpas interiores do sujeito no anonimato da coletividade .

A importância do mensalão está justamente no que ele representa simbolicamente: a desconstrução de uma mentira histórica. (mais…)