Filomeno de Morais Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Filomeno de Morais

Em defesa da antipolítica

Por Wanfil em Crônica

23 de Fevereiro de 2019

Li um dia desses, levado pelas marés da internet (estava no blog do jornalista Edson Silva), um artigo do professor Filomeno de Morais publicado no site Consultor Jurídico sobre crises e democracia. Resolvi mergulhar por ali pois sempre admirei o seu trabalho. Destaco a passagem abaixo, em itálico e com grifo meu:

Evidentemente, identificam-se distorções no funcionamento das instituições políticas brasileiras, cabendo muitas vezes modificá-las para que se evitem consequências negativas, como a difusão da ideia da ‘antipolítica’, que semeia o sentimento de que o exercício da política está associado, sempre, à corrupção, à farsa e à predominância dos interesses egoísticos individuais ou de oligarquias“.

Pois é. De volta à superfície, me pus a refletir sobre o assunto. Realmente vez por outra alguém alerta o público para os perigos da “antipolítica”. Desde eruditos consagrados até comentaristas anônimos nas redes sociais, a maioria ecoando políticos desacreditados e outros ainda respeitados, que compartilham do mesmo receio. É que às vezes nos deixamos levar pela conversa desse pessoal. Cuidado. Não podemos confundir a política com os políticos, ou melhor, com os maus políticos (nessa classe temos os desonestos, os incompetentes, os desonestos competentes, os honestos incompetentes e os desonestos incompetentes).

Vamos em frente. Por mais que uma categoria profissional seja mal vista, isso não significa que seu oficio seja dispensável. Tomemos por exemplo casual – casual, repito – advogados e ministros do STF. Por mais que sejam criticados e que careçam de credibilidade, ninguém é louco de dizer que a Justiça é um supérfluo, muito menos de sair por aí hasteando a bandeira da anti-justiça. Seria a volta à barbárie. Para não parecer implicância, vamos a outro exemplo: jornalistas e veículos de comunicação. Todos esculhambam algum deles – ou vários, ou todos -, mas sabem que a notícia é fundamental para compor um retrato do mundo a partir do qual cada um pode emitir seus juízos. É possível ter ojeriza a uma categoria sem perder o respeito pela atividade que a sustenta.

Políticos matreiros é que gostam de se confundir com o próprio conceito daquilo que deveriam fazer, como se fossem a quintessência das instituições e da noção mediadora da política. Fale mal de um e ele dirá: “a política não pode ser tratada assim, com desprezo e raiva. Onde vamos chegar, meu Deus?” E fará isso com impressionante pose de ofendido ou injustiçado, sendo capaz de enganar o mais desconfiado cidadão por alguns minutos. É um perigo.

Pensei agora em fazer como o meu amigo e colega na Jangadeiro Diego Lage e resumir tudo com uma frase escatológica ou mesmo pornográfica, entanto imitar o seu incrível poder de síntese, mas cá estou eu encompridando a conversa, sendo… político. Palavrões e nomes de bois voltam a rondar esse texto, mas são devidamente contidos pelos pudores do superego e a prudência jurídica (covardia, diria o velho Nelson).

Para encerrar, acho mesmo que os representados (eleitores) querem dos seus representantes (eleitos) o resgate – e não o descarte – da política. A difusão da ideia da antipolítica como negação da politicagem é a única chance da verdadeira política sobreviver.

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Em defesa da antipolítica

Por Wanfil em Crônica

23 de Fevereiro de 2019

Li um dia desses, levado pelas marés da internet (estava no blog do jornalista Edson Silva), um artigo do professor Filomeno de Morais publicado no site Consultor Jurídico sobre crises e democracia. Resolvi mergulhar por ali pois sempre admirei o seu trabalho. Destaco a passagem abaixo, em itálico e com grifo meu:

Evidentemente, identificam-se distorções no funcionamento das instituições políticas brasileiras, cabendo muitas vezes modificá-las para que se evitem consequências negativas, como a difusão da ideia da ‘antipolítica’, que semeia o sentimento de que o exercício da política está associado, sempre, à corrupção, à farsa e à predominância dos interesses egoísticos individuais ou de oligarquias“.

Pois é. De volta à superfície, me pus a refletir sobre o assunto. Realmente vez por outra alguém alerta o público para os perigos da “antipolítica”. Desde eruditos consagrados até comentaristas anônimos nas redes sociais, a maioria ecoando políticos desacreditados e outros ainda respeitados, que compartilham do mesmo receio. É que às vezes nos deixamos levar pela conversa desse pessoal. Cuidado. Não podemos confundir a política com os políticos, ou melhor, com os maus políticos (nessa classe temos os desonestos, os incompetentes, os desonestos competentes, os honestos incompetentes e os desonestos incompetentes).

Vamos em frente. Por mais que uma categoria profissional seja mal vista, isso não significa que seu oficio seja dispensável. Tomemos por exemplo casual – casual, repito – advogados e ministros do STF. Por mais que sejam criticados e que careçam de credibilidade, ninguém é louco de dizer que a Justiça é um supérfluo, muito menos de sair por aí hasteando a bandeira da anti-justiça. Seria a volta à barbárie. Para não parecer implicância, vamos a outro exemplo: jornalistas e veículos de comunicação. Todos esculhambam algum deles – ou vários, ou todos -, mas sabem que a notícia é fundamental para compor um retrato do mundo a partir do qual cada um pode emitir seus juízos. É possível ter ojeriza a uma categoria sem perder o respeito pela atividade que a sustenta.

Políticos matreiros é que gostam de se confundir com o próprio conceito daquilo que deveriam fazer, como se fossem a quintessência das instituições e da noção mediadora da política. Fale mal de um e ele dirá: “a política não pode ser tratada assim, com desprezo e raiva. Onde vamos chegar, meu Deus?” E fará isso com impressionante pose de ofendido ou injustiçado, sendo capaz de enganar o mais desconfiado cidadão por alguns minutos. É um perigo.

Pensei agora em fazer como o meu amigo e colega na Jangadeiro Diego Lage e resumir tudo com uma frase escatológica ou mesmo pornográfica, entanto imitar o seu incrível poder de síntese, mas cá estou eu encompridando a conversa, sendo… político. Palavrões e nomes de bois voltam a rondar esse texto, mas são devidamente contidos pelos pudores do superego e a prudência jurídica (covardia, diria o velho Nelson).

Para encerrar, acho mesmo que os representados (eleitores) querem dos seus representantes (eleitos) o resgate – e não o descarte – da política. A difusão da ideia da antipolítica como negação da politicagem é a única chance da verdadeira política sobreviver.