Fifa Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Fifa

Xingamentos, futebol e política: qual a novidade?

Por Wanfil em Brasil

17 de junho de 2014

palavraoA maior emoção da Copa do Mundo até o momento é a discussão nas redes sociais entre militantes, simpatizantes, assessores e inocentes úteis, sobre a natureza dos xingamentos direcionados à presidente da República, Dilma Rousseff, na abertura do evento. Uns querem fazer da candidata à reeleição uma cândida vítima de um ódio injustificado, outros juram que ela apenas colhe o que planta.

No Brasil, futebol, política, vaias e palavrões convivem sem maiores melindres com aplausos. É do jogo. A novidade fica por conta do clima de aversão contra autoridades em geral e, em particular, contra a maior delas: a presidente.

Existe ainda um componente sociológico sobre a liberação de frustrações e instintos primitivos quando indivíduos estão diluídos no anonimato das massas. Fico pensando quantos ali xingariam a presidente olho no olho. Mas esse papo de indivíduo é coisa da direita raivosa, acusam os que dizem amar as massas, constrangidos com a agressividade do povo contra Dilma. Para fugir da contradição, buscam se apegar a uma clivagem de renda, requentando o discurso de Marilena Chauí, que diz odiar a classe média, como se essa não pudesse se manifestar, como se também não fosse povo.

Quando Lula era o líder da oposição, seus recortes de pesquisa mostravam que os mais instruídos e abastados simpatizavam com ele, enquanto os mais pobres formavam o reduto dos governantes. Na época, isso era mostrado como prova de que os governos não melhoravam a educação justamente para melhor poderem manipular a população mais carente. O que mudou de lá pra cá? Só quem está no poder. Quem tem mais estudo continua mais crítico. Mas agora esse descontentamento seria apenas ressentimento por privilégios perdidos. Retórica barata, sempre.

Eu vejo o fenômeno das vaias e xingamentos com naturalidade. Multidões são imprevisíveis e esperar delas somente o consentimento obsequioso é loucura. Por outro lado, é o tipo de pressão que faz acordar quem vive dos sonhos cantados pelas assessorias servis: “Presidenta, a senhora está certa. Genial, presidenta! Que ideia inteligente, doutora Dilma”. Presa na redoma de vidro das adulações, nada como uma pedrada (simbólica) em forma de vaia para arejar o ambiente e despertar a lucidez: abre o olho, que as pessoas estão insatisfeitas.

No mais, um repórter amigo meu disse assim: “Rapaz, política é coisa que interessa a pouca gente. Agora é futebol”. Pensei comigo: “Sabe de nada, inocente!”. Sem o desejo de capitalizar politicamente em ano eleitoral, não haveria Copa do Mundo no Brasil. Pelo mesmo motivo, pouco se fala em esquemas táticos e afins. O grande debate é saber quem é contra ou a favor das vaias e dos xingamentos contra a presidente. Um falso debate, pois foge ao principal: que sentimento é esse? Por que vaiam agora, na festa, se há pouco tempo a presidente era mais popular do que Lula ou FHC? Minha tese é simples e batida: inflação. Mas isso é somente uma hipótese.

Parafraseando Voltaire, encerro: “Posso não concordar com nenhum dos palavrões que você disser, mas defenderei até a morte o seu direito de xingar governantes”. É que a chance de ser uma injustiça é pequena, quase nula.

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Os black blocs amarelaram e os vermelhos esverdearam

Por Wanfil em Brasil

13 de junho de 2014

A Copa do Mundo do começou e dentro de campo a seleção brasileira fez a sua parte, estreando com vitória. Do lado de fora, a expectativa ficou por conta dos protestos organizados pelos chamados black blocs, radicais que atacam prédios, policiais, jornalistas e interditam ruas, em nome de causas anticapitalistas e anti-sistema, essas coisas. E o que se viu, no entanto, foi o yellow da torcida brasileira ofuscar as cores de grupinhos que andavam se achando.

Fora dos estádios foram registrados alguns protestos violentos, inclusive aqui em Fortaleza, mas com muito menos gente e impacto do que nas manifestações ocorridas durante a Copa das Confederações, no ano passado. O povo deixou os radicais patetas sozinhos nas ruas, brincando de revolução. Sem um movimento alheio para se infiltrarem, os black blocs não passam de um refugo ideológico insignificante. Logo eles, que se imaginavam a vanguarda de um novo tempo. É que nas suas cabeças perturbadas, o rabo é que balança o cachorro.

Aplausos e vaias

Isso não significa que os brasileiros tenham esquecido a desconfiança em relação aos seus representantes políticos, deslumbrados com o torneio. Pelo contrário. Como eu disse no post anterior, para desgosto do governo, a Copa se tornou um potente catalisador das insatisfações populares que ensejam um desejo por mudanças, devidamente captado por recentes pesquisas eleitorais. Assim, no estádio Itaquerão (horrível, se comparado ao Castelão, diga-se), a mesma torcida que cantou o Hino Nacional com paixão emocionante, por diversas vezes ecoou uníssona palavrões contra a Fifa e contra a presidente Dilma Rousseff (PT) que disputará a reeleição em outubro próximo. Há, portanto, discernimento nessas manifestações que demarca claramente uma hora para aplaudir e outra para vaiar.

Quebrando a tradição, a presidente da República não discursou, prevendo, com acerto, a monumental vaia que tomaria. Na partida entre Brasil e Croácia, assim como no pronunciamento que fez à nação na terça, Dilma trocou o vermelho característico dos partidos de esquerda pelo verde. Assim como o preto dos radicais, o vermelho das esquerdas anda desbotando nos dias atuais. Quem não se lembra das bandeiras vermelhas sendo expulsas das manifestações de junho do ano passado? Como a eleição está chegando, ele agora dá lugar ao verde (cor utilizada, veja só, pelo matreiro PMDB).

O modo e a hora

Faço aqui um breve desvio. Alguns amigos, sensíveis que são, desaprovaram as ofensas dirigidas à presidente Dilma, por deselegantes e inoportunas. Para eles, nem o modo, nem a hora, foram adequadas, passando uma má impressão para o exterior. Ocorre que esse é um fenômeno sobre o qual não há muito o que se fazer, pois não existe um centro de irradiação. Antes, é um sentimento difuso e generalizado que se manifesta espontaneamente, sem líderes. Nem a oposição ousa tentar conseguir algum proveito direto, sob pena de serem os seus expoentes também vaiados. No fim, vergonha mesmo é roubar, e isso atualmente tem constrangido pouca gente. Ponto. Volto ao tema inicial.

Mais do que uma cor

Nesse jogo de cores e símbolos, sobressaiu-se o amarelo canário da Seleção e da torcida brasileira. Pelo que se viu na abertura da Copa, muito mais do que os tais black blocs ou os vermelhos sustentados com verba pública (tipo MST), serão os torcedores comuns vestidos de amarelo os mais temidos por aqueles que sabem o peso de uma vaia em ano eleitoral. É mais do que uma cor, é um sentimento em evolução.

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Os black blocs amarelaram e os vermelhos esverdearam

Por Wanfil em Brasil

13 de junho de 2014

A Copa do Mundo do começou e dentro de campo a seleção brasileira fez a sua parte, estreando com vitória. Do lado de fora, a expectativa ficou por conta dos protestos organizados pelos chamados black blocs, radicais que atacam prédios, policiais, jornalistas e interditam ruas, em nome de causas anticapitalistas e anti-sistema, essas coisas. E o que se viu, no entanto, foi o yellow da torcida brasileira ofuscar as cores de grupinhos que andavam se achando.

Fora dos estádios foram registrados alguns protestos violentos, inclusive aqui em Fortaleza, mas com muito menos gente e impacto do que nas manifestações ocorridas durante a Copa das Confederações, no ano passado. O povo deixou os radicais patetas sozinhos nas ruas, brincando de revolução. Sem um movimento alheio para se infiltrarem, os black blocs não passam de um refugo ideológico insignificante. Logo eles, que se imaginavam a vanguarda de um novo tempo. É que nas suas cabeças perturbadas, o rabo é que balança o cachorro.

Aplausos e vaias

Isso não significa que os brasileiros tenham esquecido a desconfiança em relação aos seus representantes políticos, deslumbrados com o torneio. Pelo contrário. Como eu disse no post anterior, para desgosto do governo, a Copa se tornou um potente catalisador das insatisfações populares que ensejam um desejo por mudanças, devidamente captado por recentes pesquisas eleitorais. Assim, no estádio Itaquerão (horrível, se comparado ao Castelão, diga-se), a mesma torcida que cantou o Hino Nacional com paixão emocionante, por diversas vezes ecoou uníssona palavrões contra a Fifa e contra a presidente Dilma Rousseff (PT) que disputará a reeleição em outubro próximo. Há, portanto, discernimento nessas manifestações que demarca claramente uma hora para aplaudir e outra para vaiar.

Quebrando a tradição, a presidente da República não discursou, prevendo, com acerto, a monumental vaia que tomaria. Na partida entre Brasil e Croácia, assim como no pronunciamento que fez à nação na terça, Dilma trocou o vermelho característico dos partidos de esquerda pelo verde. Assim como o preto dos radicais, o vermelho das esquerdas anda desbotando nos dias atuais. Quem não se lembra das bandeiras vermelhas sendo expulsas das manifestações de junho do ano passado? Como a eleição está chegando, ele agora dá lugar ao verde (cor utilizada, veja só, pelo matreiro PMDB).

O modo e a hora

Faço aqui um breve desvio. Alguns amigos, sensíveis que são, desaprovaram as ofensas dirigidas à presidente Dilma, por deselegantes e inoportunas. Para eles, nem o modo, nem a hora, foram adequadas, passando uma má impressão para o exterior. Ocorre que esse é um fenômeno sobre o qual não há muito o que se fazer, pois não existe um centro de irradiação. Antes, é um sentimento difuso e generalizado que se manifesta espontaneamente, sem líderes. Nem a oposição ousa tentar conseguir algum proveito direto, sob pena de serem os seus expoentes também vaiados. No fim, vergonha mesmo é roubar, e isso atualmente tem constrangido pouca gente. Ponto. Volto ao tema inicial.

Mais do que uma cor

Nesse jogo de cores e símbolos, sobressaiu-se o amarelo canário da Seleção e da torcida brasileira. Pelo que se viu na abertura da Copa, muito mais do que os tais black blocs ou os vermelhos sustentados com verba pública (tipo MST), serão os torcedores comuns vestidos de amarelo os mais temidos por aqueles que sabem o peso de uma vaia em ano eleitoral. É mais do que uma cor, é um sentimento em evolução.