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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

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O mundo dos fatos e o mundo das crenças nas redes sociais

Por Wanfil em Crônica

12 de Março de 2019

Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust: as crenças que se antecipam aos fatos

Um conhecido meu, jornalista gente boa, disparou à queima roupa nas redes sociais: “Não é normal que alguém diga que o Brasil está melhor!”. Tomei um café e arrisquei: “Ah, meu caro, existe uma multidão de pessoas que se consideram normais e que publicariam a mesma sentença mudando apenas o adjetivo: “Não é possível que alguém diga que o Brasil está pior!”. O resto da conversa perdeu a graça e acabamos trocando gentilezas.

De todo modo, quando o assunto é política, e desde que não viva numa bolha, o sujeito disposto a ouvir sempre encontrará quem ache que a situação geral melhorou ou que piorou – cada qual com suas razões ou interesses, não importa. Tem argumento para todos os gostos. Aliás, hoje em dia é preciso muito pouco para alguém formar opinião definitiva e inabalável sobre um ou todos os assuntos possíveis e impossíveis.

Eventualmente maiorias e minorias se formam para depois inverterem os papéis. Geralmente todos têm razão e se sobressai mesmo os que gritam mais alto. O alarde é a essência da democracia nesses tempos e… Deixa pra lá que já estou desviando o rumo da prosa.

Retomando o caminho, acabei concluindo que tendem a sentir melhoria nas coisas aqueles já achavam que as coisas iriam melhorar por causa dessa ou daquela gestão, da mesma forma que percebem piora os que apostavam desde antes que tudo iria piorar. Isso é na média. Claro que existem os que preferem duvidar das próprias certezas e os que preferem esperar para ver, mas esses não chamam a atenção. Ora, que graça tem a ponderação nesse mundo de “lacrações” e “mitagens”?

Terminei o café e voltei encher o copo. Queria fumar um cigarro para me imaginar numa esfumaçada redação dos anos 70, com o barulho das máquinas de escrever que lembram meu pai. A legislação atual e a asma me proíbem. Desolado, surpreendido por essas reminiscências, lembrei de uma frase de Proust que li uma noite dessas nas páginas iniciais de Em Busca do Tempo Perdido: “Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças”.

Pois é. Imagine isso no mundo em que nossas crenças vivem na fervura histérica das redes sociais. Coitado dos fatos.

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O mundo dos fatos e o mundo das crenças nas redes sociais

Por Wanfil em Crônica

12 de Março de 2019

Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust: as crenças que se antecipam aos fatos

Um conhecido meu, jornalista gente boa, disparou à queima roupa nas redes sociais: “Não é normal que alguém diga que o Brasil está melhor!”. Tomei um café e arrisquei: “Ah, meu caro, existe uma multidão de pessoas que se consideram normais e que publicariam a mesma sentença mudando apenas o adjetivo: “Não é possível que alguém diga que o Brasil está pior!”. O resto da conversa perdeu a graça e acabamos trocando gentilezas.

De todo modo, quando o assunto é política, e desde que não viva numa bolha, o sujeito disposto a ouvir sempre encontrará quem ache que a situação geral melhorou ou que piorou – cada qual com suas razões ou interesses, não importa. Tem argumento para todos os gostos. Aliás, hoje em dia é preciso muito pouco para alguém formar opinião definitiva e inabalável sobre um ou todos os assuntos possíveis e impossíveis.

Eventualmente maiorias e minorias se formam para depois inverterem os papéis. Geralmente todos têm razão e se sobressai mesmo os que gritam mais alto. O alarde é a essência da democracia nesses tempos e… Deixa pra lá que já estou desviando o rumo da prosa.

Retomando o caminho, acabei concluindo que tendem a sentir melhoria nas coisas aqueles já achavam que as coisas iriam melhorar por causa dessa ou daquela gestão, da mesma forma que percebem piora os que apostavam desde antes que tudo iria piorar. Isso é na média. Claro que existem os que preferem duvidar das próprias certezas e os que preferem esperar para ver, mas esses não chamam a atenção. Ora, que graça tem a ponderação nesse mundo de “lacrações” e “mitagens”?

Terminei o café e voltei encher o copo. Queria fumar um cigarro para me imaginar numa esfumaçada redação dos anos 70, com o barulho das máquinas de escrever que lembram meu pai. A legislação atual e a asma me proíbem. Desolado, surpreendido por essas reminiscências, lembrei de uma frase de Proust que li uma noite dessas nas páginas iniciais de Em Busca do Tempo Perdido: “Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças”.

Pois é. Imagine isso no mundo em que nossas crenças vivem na fervura histérica das redes sociais. Coitado dos fatos.