doutrinação Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

doutrinação

Escola sem Partido ainda é pouco

Por Wanfil em Educação

13 de novembro de 2018

A doutrinação ideológica, seja de esquerda ou de direita, impede o espírito crítico e a liberdade de escolha

Os projetos Escola sem Partido têm sido acusados de censura à liberdade de opinião. Na verdade, é uma reação ideológica corporativa que visa preservar a hegemonia das teorias de esquerda na produção e divulgação do conhecimento no Brasil, e na formação de profissionais para esse fim.

O que o aluno brasileiro em geral sabe sobre o pensamento conservador ou sobre o liberalismo se resume às caricaturas que seus críticos de esquerda desenham. Relato aqui um breve exemplo. Aluno de História na UFC, nos anos 90, apresentei um seminário sobre a influência européia na formação da América Latina, usando entre os livros de referência “O Liberalismo Antigo e Moderno”, de ninguém menos que José Guilherme Merquior. Resultado: fui interrompido e levei uma reprimenda de uns 10 minutos em sala de aula. O professor esconjurou o capitalismo, chorou (literalmente) ao lamentar o genocídio indígena e disse que os agentes de saúde eram uma invenção de Tasso Jereissati para impedir a revolução camponesa. Mandou-me refazer o trabalho seguindo a pregação antiamericana de “Veias Abertas da América Latina”, do uruguaio Eduardo Galeano, obra que anos depois viria a ser renegada pelo próprio autor.

Práticas assim acontecem diariamente, agora mesmo, nas salas de aula. E quanto mais cedo começa a propaganda ideológica, com ênfase no marxismo e sua adaptações, mais facilmente ela é incorporada pelo aluno como um dado da realidade, tão evidente e inegável como a leia da gravidade. Só um louco pode negar a teoria da mais-valia, imaginam os nossos jovens, sem suspeitarem da existência de autores como Raymond Aron (As Etapas do Pensamento Sociológico), e muito menos de que Marx morreu sem explicar como a jornada de trabalho reduziu de 16 para 8 horas diárias na Inglaterra, enquanto o lucro das empresas aumentavam.

O estabelecimento de uma hegemonia cultural, nos moldes de Gramsci, e denunciada creio que primeiro por Olavo de Carvalho, não acontece da noite para o dia. Leva décadas. Por isso, duvido que uma lei possa ter efeito prático sobre esse tipo de estrutura. É como tentar baixar juros por decreto. Não é assim que acontece. Será preciso um trabalho de formação intelectual fora dos espaços acadêmicos para criar um espírito crítico capaz de substituir a pregação ideológica ostensiva pela percepção de que existem correntes diferentes e respeitáveis de estudo.

Na verdade o Escola sem Partido incomoda mais pelo fato de lembrar que a doutrinação ideológica é uma realidade. Não apenas existe como seus efeitos se alastraram por diversas outras áreas, de modo que seria preciso ainda o sindicato sem partido, a igreja sem partido, a arte sem partido, as redações sem partido, as entidades estudantis sem partido, e por aí vai.

Não é proibido ou errado ter um partido de preferência, claro. Mas usar organismos outros para promover agendas partidárias é uma espécie de corrupção. Há o espaço para a atividade partidária, que é diferente da representação em entidades que reúnem pessoas de religiões, credos, cores e partidos diversos. E isso vale para qualquer sinal ideológico. Qualquer doutrinação, seja de esquerda ou de direita, onde existir, é a supressão da criticidade e da liberdade de escolha.

Por fim, uma lei jamais terá o poder de quebrar o monopólio da esquerda na formação intelectual brasileira, pois a educação é um processo que demanda tempo de maturação, mas a consciência de que o proselitismo tomou conta do sistema de ensino nacional desde o fundamental, de que existe uma escola “com” partido, sem dúvida é o primeiro passo para resgatar a pluralidade de ideias no Brasil.

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Prova do Enade para avaliar estudantes de jornalismo diz que sociedade civil quer regular a imprensa

Por Wanfil em Ideologia

29 de novembro de 2012

Questão discursiva nº 5 do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), do caderno de Comunicação Social – Jornalismo), realizado no último domingo (clique na imagem para ampliá-la):

Indução descarada

O exame se propõe a avaliar a qualidade do ensino superior no Brasil. Em tese, o aluno pode discordar do enunciado da questão; na prática, o conjunto é induz a uma resposta. Se o objetivo fosse incentivar o raciocínio crítico livre, o correto seria a apresentação de uma segunda opinião contrária à primeira para que o aluno, diante dos argumentos confrontados, expusesse o seu pensamento. O velho silogismo da tese, antítese e síntese. Isso é tão óbvio que os próprios autores do exame procuram se eximir de qualquer suspeita avisando que “o texto acima têm caráter unicamente motivador”. O cinismo, às vezes,  equivale a confissão de culpa.

Qual aluno, sendo testado, diria que um texto escolhido como referência para uma questão dissertativa, supostamente escolhido com base nos critérios mais isentos, não passa de um panfleto ideológico? Nesses casos, a tendência é justamente a de buscar alinhamento para agradar. Qual aluno diria que a primeira assertiva do texto é uma cascata e que a sociedade civil nada representa senão interesses localizados e bem particulares? Por que apostariam na polêmica, podendo aderir ao clichês seguros de sempre? Ademais, o texto reproduz a cantilena repetida por doutrinadores de esquerda que aparelham o sistema de educação brasileiro, fazendo propaganda, inclusive, do Fórum Mundial Social, o convescote que nunca criou uma mísera solução para problema algum.

O truque

Vejam como esse terreno é movediço. Quem é a sociedade civil? Você, leitor, já autorizou alguma entidade privada a falar por você? “Sociedade civil organizada”, aliás, é um termo utilizado pelo comunista Antônio Gramsci para designar um conjunto de organizações a serviço de uma agenda proposta por um partido político. Em outras palavras, é o braço civil de um grupo de militância ideológica. São militantes camuflados. Uma boa pista disso é a inútil distinção de gênero “todos e todas” (bastaria todos), que tem DNA bem conhecido nos “coletivos” da vida.

Sempre que alguém falar em “sociedade civil”, troque a expressão por um partido de esquerda e você saberá quais interesses estão em jogo. Por que ninguém lê algo como: “A sociedade civil comemora a prisão de José Dirceu”? Ou: “A luta da sociedade civil agora é provar que o presidente Lula sabia do mensalão”? E que tal: “A sociedade civil parabeniza a imprensa por cobrir os escândalos do governo”?. Simples, porque a sociedade civil – sindicatos e movimento estudantil, entre outros – é instrumento político a serviço de José Dirceu, Lula da Silva e seu partido.

Portanto, quem deseja o marco regulatório para a imprensa não são as pessoas que acordam de manhã para trabalhar, mas o grupo de ativistas mobilizados, nesse caso em particular, pelo Partido dos Trabalhadores, sigla que está no poder e que sofre perda de credibilidade por causa das revelações de suas heterodoxias éticas. A regulamentação, uma vez inserida no contexto de chavões bem conhecidos, é desculpa para atacar um alvo é certo: a liberdade de imprensa. Hugo Chavez, Cristina Kirchner, Fidel Castro e Mahmoud Ahmadinejad, poderiam muito bem assinar o texto indutor da questão 5.

Enade aparelhado

O aparelhamento do Enade como peça de doutrinação é apenas mais um esforço no sentido de pressionar os veículos de comunicação que incomodam o poder. O exame foi repleto de citações outras, sempre de petistas e marxistas como o economista Paul Singer e o geógrafo Milton Santos (clique aqui para ver a prova na íntegra).

Os universitários avaliados provavelmente se sairão bem na prova, uma vez que foram adestrados em marxismo desde a educação infantil. E o governo dirá que a qualidade do ensino está aumentando.

Já vejo as declarações em tom triunfal proferidas pelo ministro Aloísio Mercadante, o mesmo envolvido no escândalo do aloprados, para forjar dossiês contra adversários, o mesmo que toma decisões em caráter irrevogável, para no dia seguinte voltar atrás. O triunfo não será da educação formal, que visa a alta cultura, mas do proselitismo que transforma indivíduos em seres diluídos na figura amorfa da tal “sociedade civil organizada”.

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A verdadeira lição do mensalão

Por Wanfil em Brasil, História, Ideologia

20 de agosto de 2012

José Dirceu liderando o PT em votação no Congresso (2000), quando a sigla gozava de uma espécie de monopólio da ética na política brasileira: tudo não passou de propaganda ideológica.

Se há uma lição em todo esse episódio do mensalão – independente do resultado do julgamento no STF – é a de que a virtude não tem ideologia ou partido político. Sei que isso parece uma tautologia, algo óbvio, mas a ilusão de que certas doutrinas detêm o monopólio da ética e da moral é muito mais presente no imaginário nacional do que podemos suspeitar de relance.

Fé cega 

O Partido dos Trabalhadores, por exemplo, construiu considerável reputação de partido de qualidades telúricas ao longo de duas décadas. Por que ele seria diferente dos demais? Pela origem de classe e pelo pedigree esquerdista. Bastaram-lhe essas credenciais para que seus filiados e prosélitos se apresentassem como antítese de “tudo isso que está aí”, uma variante burguesa e comportada, porém ambiciosa, da revolução proletária. Não eram necessários feitos ou fatos para sustentar a fé dos que ansiavam por uma nova era repleta de criaturas angelicais: o Brasil seria passado a limpo por gente de inspiração socialista. Uma vez no poder, o partido manteve a política econômica que outrora repudiou e assumiu com destemor as parcerias com os corrompidos de sempre, revelando que a insuspeita autoridade moral do passado era a mesma que instituiu o mensalão.

A reação para os que acreditaram e apostaram de boa vontade nesse teatro político foram três: 1) reconhecer que foi tapeado, como fez Chico de Oliveira; 2) negar os fatos e afundar ainda mais no mundo dos sonhos, como Marilena Chauí; 3) sair e começar tudo de novo, apostando no mesmo discurso, como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Simbologia e desconstrução

Agora, em período eleitoral, algumas siglas e candidatos buscam resgatar esse discurso de “venha conosco fazer uma política diferente”. Não interessa saber as intenções dos que professam esse tipo de mensagem. O problema é que ela nasce de um pensamento torto, feito para o consumo dos carentes de utopias ou dos que desacreditaram da política.

A virtude é atributo individual, para o bem e para o mal. Imaginar que determinado partido, ou de forma mais abrangente, que uma ideologia, possa servir de garantia de honestidade, como se fosse um tipo de carimbo de caráter, é presunção que bebe na fonte do voluntarismo totalitarista, que não aceita o contraditório. Filosoficamente, é a tentativa de projetar as culpas interiores do sujeito no anonimato da coletividade .

A importância do mensalão está justamente no que ele representa simbolicamente: a desconstrução de uma mentira histórica. Leia mais

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A verdadeira lição do mensalão

Por Wanfil em Brasil, História, Ideologia

20 de agosto de 2012

José Dirceu liderando o PT em votação no Congresso (2000), quando a sigla gozava de uma espécie de monopólio da ética na política brasileira: tudo não passou de propaganda ideológica.

Se há uma lição em todo esse episódio do mensalão – independente do resultado do julgamento no STF – é a de que a virtude não tem ideologia ou partido político. Sei que isso parece uma tautologia, algo óbvio, mas a ilusão de que certas doutrinas detêm o monopólio da ética e da moral é muito mais presente no imaginário nacional do que podemos suspeitar de relance.

Fé cega 

O Partido dos Trabalhadores, por exemplo, construiu considerável reputação de partido de qualidades telúricas ao longo de duas décadas. Por que ele seria diferente dos demais? Pela origem de classe e pelo pedigree esquerdista. Bastaram-lhe essas credenciais para que seus filiados e prosélitos se apresentassem como antítese de “tudo isso que está aí”, uma variante burguesa e comportada, porém ambiciosa, da revolução proletária. Não eram necessários feitos ou fatos para sustentar a fé dos que ansiavam por uma nova era repleta de criaturas angelicais: o Brasil seria passado a limpo por gente de inspiração socialista. Uma vez no poder, o partido manteve a política econômica que outrora repudiou e assumiu com destemor as parcerias com os corrompidos de sempre, revelando que a insuspeita autoridade moral do passado era a mesma que instituiu o mensalão.

A reação para os que acreditaram e apostaram de boa vontade nesse teatro político foram três: 1) reconhecer que foi tapeado, como fez Chico de Oliveira; 2) negar os fatos e afundar ainda mais no mundo dos sonhos, como Marilena Chauí; 3) sair e começar tudo de novo, apostando no mesmo discurso, como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Simbologia e desconstrução

Agora, em período eleitoral, algumas siglas e candidatos buscam resgatar esse discurso de “venha conosco fazer uma política diferente”. Não interessa saber as intenções dos que professam esse tipo de mensagem. O problema é que ela nasce de um pensamento torto, feito para o consumo dos carentes de utopias ou dos que desacreditaram da política.

A virtude é atributo individual, para o bem e para o mal. Imaginar que determinado partido, ou de forma mais abrangente, que uma ideologia, possa servir de garantia de honestidade, como se fosse um tipo de carimbo de caráter, é presunção que bebe na fonte do voluntarismo totalitarista, que não aceita o contraditório. Filosoficamente, é a tentativa de projetar as culpas interiores do sujeito no anonimato da coletividade .

A importância do mensalão está justamente no que ele representa simbolicamente: a desconstrução de uma mentira histórica. (mais…)