direita Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

direita

Pornografia política explícita

Por Wanfil em Crônica

07 de Março de 2019

Muito debate, pouca serventia

A polêmica sobre o vídeo compartilhado pelo presidente Jair Bolsonaro, com três pessoas expondo nudez e mau gosto estético em via pública, com direito a um escatológico e grotesco banho de urina, mostra que até a pornografia na política brasileira também está a degenerar. O governo soltou nota com explicações, lideranças da oposição afetaram indignação.

Antes, desde tempos imemoriais, a variante política da pornografia na política era produzida como segredo como instrumento de chantagem, sedução, intriga, aliança ou manipulação. Agora é objeto de debates abertos. O que digo aqui é que pelo menos o distinto público era, no passado, poupado do conteúdo explícito desses espetáculos. A pornografia na política se limitava, para os de fora, ao seu caráter metafórico, aquela licenciosidade grupal de políticos e apaniguados com as indecências do poder.

Pois bem, obsessões que deveriam estar confinadas a espaços reservados, secretos, íntimos, agora estão nas ruas e nas redes sociais. “Tanto melhor”, dirão alguns, “que sejam desmascaradas”. Não sei, não. Algo me diz que tanta exposição pode atiçar os piores instintos da política nacional. Receio ter pesadelos com o Brasil inundado por uma ininterrupta e degradante golden shower.

Nada contra criticar ou defender certas práticas. O que impressiona é a dimensão que o assunto – convenhamos, sem importância real – tomou. E mais: no vídeo que agora centraliza o debate público no Brasil, curiosamente, há uma sintomática inversão de papéis. A direita cuidou de divulgar a imoralidade abjeta que condena e a esquerda se pôs a criticar algo que fere os bons costumes. Os reacionários não resistem a um vídeo pornográfico e nossos progressistas, que adoram cantar as glórias das liberdades sexuais e denunciam a suposta hipocrisia dos padrões normativos celebrados pelo conservadorismo, pedem o impeachment do presidente por quebra de decoro. Decoro!

Antes que me apedrejem, não generalizo direita e esquerda, mas é impossível particularizar, uma vez que os mais engajados na discussão formam verdadeiras legiões cuja ansiedade de expor o adversário é capaz de agredir até mesmo a lógica dos princípios que juram, cada uma, defender.

Há nisso boa dose de alucinação de parte a parte, afinal, se pensarmos bem, quem é que ainda se escandaliza com o uso da pornografia ou da nudez com a intenção de chocar o espírito conservador do brasileiro? De tão comuns de serem expostos, o escândalo, o sexo, a corrupção (variante pornográfica muito praticada ainda) e a sujeira política perderam o impacto no Brasil.

Por isso tudo é que o obsceno esforço de governistas e opositores, na falta de ideias melhores e de intimidade com soluções para os problemas reais e urgentes da nação, não passa de uma espécie de orgia acusatória onde os participantes se esbaldam com a voracidade típica das taras mais arraigadas.

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Esquerda e direita nas eleições do Ceará

Por Wanfil em Eleições 2018

17 de setembro de 2018

Nestas eleições o Brasil se divide em dois grandes grupos que ainda podem ser mais ou menos identificados a partir dos conceitos clássicos de esquerda e direita. O fenômeno parece um tanto mais restrito aos centros urbanos, mas seu impacto é inegável.

É verdade que as coisas são um pouco mais complexas, afinal, existem nestes trópicos conservadores liberais e progressistas (liberais nos costumes) que são estatistas na economia. É que por aqui a dualidade antagônica que distingue direita e esquerda guarda importantes diferenças (e distorções) com outros países, sobretudo com os EUA e nações europeias. De todo modo, mesmo simplificadas, essas noções servem para qualificar (ou desqualificar) alguns grupos políticos, além de servir de bússola (com ou sem Norte) para parte do eleitorado.

Entre os candidatos que se destacam nas pesquisas, representam o eleitorado de direita e de centro-direita, os candidatos Bolsonaro, Alckmin, Amoedo, Álvaro Dias e Henrique Meireles; e mais à esquerda, do extremo ao centro, estariam Ciro Gomes, Fernando Haddad e Marina Silva. Sempre há quem conteste essas, digamos assim, rotulações, até mesmo os candidatos, porém, grosso modo, certo ou errado, é assim que são vistos.

No Ceará essas clivagens são diferentes. Os grupos se dividem entre apoiadores ou opositores do governo. E só. A perspectiva de orientação ideológica praticamente desapareceu. É que a liderança apartidária e ideologicamente flutuante dos Ferreira Gomes ao longo dos anos, a omissão dos partidos na construção de identidades e o recente acordão fisiologista que reúne na coligação governistas partidos como o DEM, PT, PR e PCdoB, tornaram essas marcações mais fluidas e imprecisas.

E aí temos candidatos a deputado estadual que estava na oposição mas que agora é da base levantando a bandeira do conservadorismo, afirmando que é contra o aborto, mas apoiando candidato ao governo de partido que não é contra o aborto. Temos entidades empresariais que anunciam apoio a partidos que pregam aumento de impostos. Tem eleitor que vota no Cid, mas não vota no Eunício, porque não aceita a parceria entre PDT e MDB, mas escolhe candidato da oposição ao Camilo, que é alinhado com Cid. Já conversei com eleitor anti-Lula e anti-PT que vota em Camilo, alegando que o governador não é petista de coração.

A confusão é grande, porém, não é acidental. Esquerda e direita ainda existem no Ceará, é claro, mas estas estão ocupadas nas trincheiras das eleições presidenciais. Nas estaduais, quase não aparecem. A lógica do poder pelo poder, o excesso de pragmatismo eleitoreiro, o oportunismo descarado, tudo isso vai apagando as mais básicas linhas divisórias do pensamento político, que poderiam ajudar o eleitor a situar suas escolhas em parâmetros conhecidos. Sem debate de ideias, não há política.

(Texto publicado originalmente no portal Tribuna do Ceará)

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Governo e oposição disputam para ver quem tem menos credibilidade

Por Wanfil em Ideologia

29 de junho de 2017

O governo Temer conseguiu aprovar o relatório da reforma trabalhista na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Em breve deverá ser votada em plenário. A oposição cerrou fileiras contra o projeto.

O tema é de relevância indiscutível, mas acaba servindo, ao final, pelo menos para a maioria, de pretexto. Governistas buscando sobrevida com uma agenda que fuja dos escândalos, opositores de olho nas eleições do ano que vem. Um fala de futuro, mas vive assombrado pelo passado; o outro convoca greves que são solenemente ignoradas pelos trabalhadores de verdade. Sem poder confiar em ninguém, o cidadão espera para ver como é que fica.

Uma coisa é certa, a história recente mostra: caso a não seja aprovada agora, a reforma voltará como prioridade em breve, não importa quem estiver no poder, mesmo partidos de esquerda. Foi assim com a privatização. Basta ver a alegria com que essas forças comemoram no Ceará o fato de uma empresa privada europeia ter arrematado as operações no Aeroporto Pinto Martins, embora fizessem da pregação contra as privatizações um ato de fé e convicção inabaláveis.

O PMDB é de direita? Não. O PSDB é de direita? Claro que não. São de centro esquerda. E onde está a direita? Um pouco no mercado, um pouco nas tais equipes econômicas que rearrumam a casa de tempos em tempos. Mas só um pouco, que nossa direita adora juros subsidiados.

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Xico Graziano lembra que PSDB é de esquerda e que a direita é órfã no Brasil. Mas só falou após a eleição…

Por Wanfil em Ideologia

05 de novembro de 2014

Xico Graziano foi um dos coordenadores da campanha de Aécio Neves à Presidência da República. Ao comentar sobre o protesto em São Paulo no qual 2.500 pessoas pediam o impeachment da presidente Dilma Rousseff – e onde alguns poucos pediam intervenção militar -, Xico disse que não concordava com essas teses. Foi por isso criticado por radicais que existem às pencas nas redes sociais. O tucano então resolveu deixar as coisas claras:

Existe no Brasil uma ideologia própria da direita que se encontra desamparada do sistema representativo, quer dizer, sem partido político. Sua força se mostra na rede da internet. Essa corrente luta para destruir o PT, acusando-o de querer implantar o comunismo por aqui. Defendem as liberdades individuais, combatem tenazmente a corrupção organizada no poder, desprezam totalmente as lutas sociais, mostrando-se intolerante com o direito das minorias.”

É verdade que existe uma direita sem representação. Inclusive, boa parte dessa direita órfã votou em Aécio não por acreditar nele, mas por ser contra o PT. Mas é falso que exista um movimento intolerante que despreze as minorias. Existem divergências de ordem conceitual, o que é bem diferente. Também é falso que exista ação organizada para destruir o PT. Graziano falou de gente intolerante, eu sei, mas tomou a parte pelo todo. É como se eu dissesse que todo esquerdista é defensor da corrupção, uma vez que dirigentes do PT foram presos por esse tipo de crime. Ou que todos os que protestaram em junho de 2013 fossem partidários dos black blocs. Ou que todo torcedor é violento como facções de torcidas organizadas.

Há no texto de Graziano uma mistura entre fatos concretos e interpretações equivocadas, pois colocam o governo contra qual ele mesmo se opõe no papel de vítima de uma truculência que, na prática, não existe. A gestão Dilma não corre o risco de instabilidade política por causa desses gatos pingados que pedem a ditadura, mas por suas próprias ações, a começar pelo estelionato eleitoral relacionado à política fiscal. Vale lembrar: a presidente acusou adversários de planejarem aumento de juros e uma vez eleita, três dias depois, liberou o Banco Central (que não é independente) para anunciar o quê? Aumento de juros! Agora se as pessoas protestam, uns de forma correta, outros apelando a histrionismos, a responsabilidade é somente da Sra. Rouseff. Misturar alhos com bugalhos só beneficia o governo federal nesse momento de descrédito.

Dito isso, é correto afirmar que o PSDB é de esquerda. Quem duvida, basta ler Hélio Jaguaribe. Eu li. A social democracia, a meu ver, é uma esquerda ciente de que o marxismo é uma furada e que reconhece aspectos positivos no liberalismo, mas, ainda assim, uma esquerda genuína. Não é mais aquela social democracia de meados do século passado, mas uma versão, digamos assim, modernizada pelos tons rosas da “Terceira Via” de Anthony Giddens, Tony Blair, Bill Clinton e FHC. Não estou dizendo que PSDB e PT são iguais, nada disso. Existem matizes na esquerda e na direita. Há no PT um visível ranço autoritário típico de quem se considera o imperativo categórico da história, enquanto os tucanos ficam mais ao centro e, portanto, mais palatável ao direitista sem representação. De todo modo, quem diz que o PSDB é de direita é analfabeto político ou deturpa conceitos deliberadamente. E antes que me crucifixem no altar das heresias esquerdistas, cito aqui o maior santo dessa seita no Brasil, Lula da Silva:

“Pela primeira vez não vamos ter um candidato de direita na campanha. Não é fantástico isso? Vocês querem conquista melhor do que numa campanha neste país a gente não ter nenhum candidato de direita?” 

A frase foi dita em 15 de setembro de 2009, durante solenidade no IPEA (confira o vídeo aqui). Lula comentava sobre a eleição do ano seguinte, na qual sua escolhida, Dilma Rousseff, iria enfrentar Serra ou Aécio, pelo PSDB, além de Marina Silva pelo PV. Ciro Gomes corria por fora para tentar ser candidato pelo PSB, mas foi barrado pelo próprio partido.

Xico Graziano e Lula têm razão. A direita não tem partido formalizado. A direita no Brasil não tem candidato. Existem apenas indivíduos de direita. Graziano, como eu disse, toma delírios de radicais como se fossem expressão de um pensamento partidarizado. Lula ressuscita o fantasma dos “trogloditas da direita” quando lhe convém, mas sua opinião mesmo, da qual se orgulha e como vimos acima, é outra.

Por fim, Xico Graziano diz que é normal existirem as alianças eleitorais, e para tal existe o segundo turno. O problema surge quando os militantes da direita exigem que nós, os sociais democratas, encampemos sua ideologia, o que seria um absurdoNada contra. Mas o correto seria dizer isso antes das eleições. Aí, sim, seria bonito. Algo como: “Ei você que é anti-PT e de direita, não vote na gente pois também somos de esquerda. Vote nulo, pois ninguém aqui o representa”.

PS – 1. Sobre intervenção militar, sou absolutamente contra, por convicção. Não apenas aqui no Brasil, mas também em qualquer outro país, como em Cuba, por exemplo, ditadura militar financiada com ajuda do atual governo brasileiro e que é fetiche do esquerdismo nacional;
PS – 2. Pedir impeachment nas ruas não é crime, nem sinal de intolerância. Pelo menos, não era na época do ex-presidente Collor de Mello.

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Faça você também justiça com as próprias mãos: nas urnas!

Por Wanfil em Brasil

07 de Fevereiro de 2014

De uns tempos pra cá, no Brasil, diante da falta de resposta dos poderes públicos para inúmeros problemas, a moda agora é a do protesto violento, eufemisticamente chamado por aí de ativismo. Se um grupo é contra pesquisas com animais, que se quebrem laboratórios; se é contra os transgênicos, que se destruam plantações. E se o sujeito achar que a reforma agrária ainda não foi feita? Ora, é só invadir uma propriedade privada e coitado de quem for obrigado a cumprir uma reintegração de posse. O caseiro fez uma denúncia contra o ministro? É só violar o sigilo bancário dele. Os exemplos são muitos. Basta ter uma causa apresentada em linguagem politicamente correta.

Na verdade, não há diferença conceitual entre grupos de extermínio, Black Blocs, MST, ou a professora de filosofia da UECE que desacatou policiais no Cocó e agora foi indiciada por participação no incêndio criminoso na Prefeitura de Fortaleza: todos querem e agem nome de uma nova ordem, que aos seus olhos, é a mais justa. Variam apenas no grau das ilegalidades que praticam, e ai de quem não concordar.

A ordem e os justiçamentos
Agora assistimos a um debate sobre a ação de “justiceiros” que teriam capturado, espancado e deixado nu, preso a um poste, um adolescente acusado de praticar crimes no Rio de Janeiro. A jornalista Rachel Sherazade, do SBT, fez um comentário dizendo que a ação pode ser compreendida como “legítima defesa” de uma sociedade imersa em inacreditáveis índices de criminalidade. Por ser identificada como uma das porta-vozes da direita brasileira, os progressistas, carentes de alvos agora que são governo, aproveitaram a oportunidade e passaram a criticá-la, não sem razão. Ela pesou o tom. Sherazade é uma espécie de Jair Bolsonaro do jornalismo. Em vez de promover o que deveria ser um pensamento direitista, acaba queimando ainda mais o filme desse ideário pelo exagero com que às vezes aborda temas. Fosse um “rapper” a falar sobre a justiça das ruas, todos deitariam teses sociológicas sobre o negócio.

O fato é que um conservador ou um liberal de verdade se distinguem de ideais revolucionários justamente pela defesa intransigente da legalidade. Apostam em reformas, enquanto os demais acreditam em rupturas violentas. Justiça com as próprias mãos, no sentido de uso da força e da ilegalidade, é o pesadelo do direitista consciente. Só os radicais, por óbvia falta de sensatez e conhecimento de causa, advogam a derrocada da institucionalidade e da autoridade constituída.

Um vídeo divulgado pelo jornal Extra nesta quinta-feira (6) mostrando a execução, em via pública e à luz do dia, de um jovem na Baixada Fluminense, também no Rio, reforçou o alerta contra os chamados “justiçamentos”.

Em defesa do Estado de Direito
Nas redes sociais e portais da internet, os debates opõem a defesa dos direitos humanos contra a necessidade de se fazer algo contra a bandidagem. Poucos falam da ética intrínseca à legalidade, contrária aos julgamentos sumários e arbítrios passionais, por entender que pela própria natureza voluntarista que os anima, esses métodos acabam virando instrumento de perseguição sem distinção. Quem decide o que é crime ou quem é criminoso? Quem determina a pena? Se duas pessoas discordarem sobre algum ponto, quem fará a mediação? Para o legalista, é o Estado de Direito. Se ele é falho, cabe lutar pelo seu aprimoramento, dentro das regras estabelecidas. O parlamento existe para isso. Os tribunais superiores também.

Justiçamentos não são novidade, principalmente em áreas mais pobres das grandes cidades. Na falta de lei, a lei se faz assim, capenga, brutal. Conversava recentemente com um amigo jornalista aqui de Fortaleza, que me revelou o seguinte: sua esposa tem um comércio situado em bairro de periferia. Foi assaltada duas vezes. Depois um traficante da área “ofereceu” serviço de proteção. Evidentemente é caso de extorsão. Mas que vai denunciar algo assim? Os assaltos acabaram… Bandido que ataca comércio protegido por quadrilhas se dá mal. Rotina.

Nas nossas mãos
Os casos que agora chocam a classe média são mais um passo no processo de desmoralização das instituições. Quem ganha com isso? Quem enxerga nelas um obstáculo para o exercício poder. Sempre foi assim. Simples assim. Quem está no poder não se sente impelido a resolver a questão porque conta com esse clima de tensão para vender suas ideias. Em seus discursos, quem atrapalha a vida dos brasileiros é o STF, a imprensa, o Ministério Público, os órgãos de fiscalização e por aí vai.

A única forma real de justiça que um indivíduo pode exercer é justamente a que mais assusta quem tem a obrigação de preservar o aparato legal e institucional da nação: o voto. Esse é o melhor “justiçamento” a ser feito. É lá que esse descontentamento tem força. De resto, qualquer um que defenda ações violentas como forma legítima de reivindicar algo flerta com o perigo e não sabe.

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Pesquisa diz que brasileiro é de direita – Cadê esse povo?

Por Wanfil em Ideologia

15 de outubro de 2013

Um texto um pouco maior, mas que considero importante por tratar de um dos temas mais vilipendiados por palpiteiros em geral.

Uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada ontem mostrou que a maioria dos brasileiros simpatiza com valores tidos como de direita. Algumas das premissas utilizadas para definir o que viria a ser esquerda e direita são bastante questionáveis, mas esse não é o objeto deste texto.

O fato que interessa aqui é a leitura pela qual, segundo essa e outras pesquisas, o brasileiro médio teria um perfil mais conservador. Isso explicaria, por exemplo, o não ao referendo sobre a proibição da venda de armas em 2005 e a famosa Carta aos Brasileiros assinada por Lula nas eleições de 2002, quando o então candidato aderiu ao que antes chamava de neoliberalismo, para agradar ao eleitorado.

É por instinto, não por consciência

Faz algum sentido, mas essa propensão não deve ser superestimada, pois se fosse assim, a esquerda não estaria no poder, sem a direita conseguir ter pelo menos uma candidatura genuinamente de direita. O brasileiro tem sim certo perfil mais sintonizado com alguns pontos do que poderia ser chamado de direita conservadora, mas não por escolha consciente, mas antes por um compreensível instinto de sobrevivência. Como nossa história é marcada sobretudo pelas rupturas, com sucessivos governos autoritários agindo entre breves intervalos democráticos, o desejo de ter alguma estabilidade se consolidou na população. Mudanças, só por reformas, não mais por golpes ou revoluções.

No livro Esquerda e direita no eleitorado brasileiro: a identificação ideológica nas disputas presidenciais de 1989 e 1994, de 2002, o jornalista e cientista político André Singer, ex-porta-voz de Lula e sujeito que considero inteligente, afirma, em linhas gerais, que a massa  não domina conceitualmente as distinções entre os conceitos de direita e esquerda, mas que, entretanto, é capaz de subentendê-los por expressões colocadas nos discursos políticos. “Mudar tudo isso que está aí”, por exemplo, é identificado com a esquerda e com a ideia de alteração abrupta da ordem social, algo que a assusta. Já “melhorar o que precisa ser melhorado”, por sua vez, identificado como postura de centro-direita, agrada mais por sugerir um processo sem sobressaltos. Daí, segundo Singer, o sucesso dos adversários do PT naqueles anos.

Sem distinção de classe

O problema da tese de Singer é atribuir essa limitação aos estratos mais pobres da população. Na verdade, os setores com formação universitária, no Brasil, também não possui mais do que uma ideia vaga e rudimentar sobre o que venha a ser direita. Aprendem nas escolas e no ensino superior apenas o que a esquerda diz o que a direita é. Na verdade, a maioria dos esquerdistas que conheço é incapaz de dizer porque Marx não conseguiu concluir a tempo o terceiro volume de O Capital antes de morrer (v. As Etapas do Pensamento Sociológico, de Raymond Aron). Que dirá ter estudado – entenda-se aí ler as obras originais – de conservadores e direitistas.

Pior ainda quando falamos de professores e jornalistas. Esses aí, doutrinados desde o momento em que pisam no colégio pela primeira vez e acompanhados de perto em seus cursos, com raríssimas exceções (até conheço dois jornalistas cujos nomes não cito para evitar isolá-los socialmente por serem simpatizantes da – oh, Deus! – direita!), nunca leram na fonte Toynbee, Hayek, Gasset, Bastiat, Mises ou Tocqueville.  Gustavo Corção, José Guilherme Merquior e Paulo Mercadante então… Que o resto não saiba quem sejam, vá lá, mas quando essa deficiência é verificada em formadores de opinião, aí a coisa complica. Leia mais

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Pesquisa diz que brasileiro é de direita – Cadê esse povo?

Por Wanfil em Ideologia

15 de outubro de 2013

Um texto um pouco maior, mas que considero importante por tratar de um dos temas mais vilipendiados por palpiteiros em geral.

Uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada ontem mostrou que a maioria dos brasileiros simpatiza com valores tidos como de direita. Algumas das premissas utilizadas para definir o que viria a ser esquerda e direita são bastante questionáveis, mas esse não é o objeto deste texto.

O fato que interessa aqui é a leitura pela qual, segundo essa e outras pesquisas, o brasileiro médio teria um perfil mais conservador. Isso explicaria, por exemplo, o não ao referendo sobre a proibição da venda de armas em 2005 e a famosa Carta aos Brasileiros assinada por Lula nas eleições de 2002, quando o então candidato aderiu ao que antes chamava de neoliberalismo, para agradar ao eleitorado.

É por instinto, não por consciência

Faz algum sentido, mas essa propensão não deve ser superestimada, pois se fosse assim, a esquerda não estaria no poder, sem a direita conseguir ter pelo menos uma candidatura genuinamente de direita. O brasileiro tem sim certo perfil mais sintonizado com alguns pontos do que poderia ser chamado de direita conservadora, mas não por escolha consciente, mas antes por um compreensível instinto de sobrevivência. Como nossa história é marcada sobretudo pelas rupturas, com sucessivos governos autoritários agindo entre breves intervalos democráticos, o desejo de ter alguma estabilidade se consolidou na população. Mudanças, só por reformas, não mais por golpes ou revoluções.

No livro Esquerda e direita no eleitorado brasileiro: a identificação ideológica nas disputas presidenciais de 1989 e 1994, de 2002, o jornalista e cientista político André Singer, ex-porta-voz de Lula e sujeito que considero inteligente, afirma, em linhas gerais, que a massa  não domina conceitualmente as distinções entre os conceitos de direita e esquerda, mas que, entretanto, é capaz de subentendê-los por expressões colocadas nos discursos políticos. “Mudar tudo isso que está aí”, por exemplo, é identificado com a esquerda e com a ideia de alteração abrupta da ordem social, algo que a assusta. Já “melhorar o que precisa ser melhorado”, por sua vez, identificado como postura de centro-direita, agrada mais por sugerir um processo sem sobressaltos. Daí, segundo Singer, o sucesso dos adversários do PT naqueles anos.

Sem distinção de classe

O problema da tese de Singer é atribuir essa limitação aos estratos mais pobres da população. Na verdade, os setores com formação universitária, no Brasil, também não possui mais do que uma ideia vaga e rudimentar sobre o que venha a ser direita. Aprendem nas escolas e no ensino superior apenas o que a esquerda diz o que a direita é. Na verdade, a maioria dos esquerdistas que conheço é incapaz de dizer porque Marx não conseguiu concluir a tempo o terceiro volume de O Capital antes de morrer (v. As Etapas do Pensamento Sociológico, de Raymond Aron). Que dirá ter estudado – entenda-se aí ler as obras originais – de conservadores e direitistas.

Pior ainda quando falamos de professores e jornalistas. Esses aí, doutrinados desde o momento em que pisam no colégio pela primeira vez e acompanhados de perto em seus cursos, com raríssimas exceções (até conheço dois jornalistas cujos nomes não cito para evitar isolá-los socialmente por serem simpatizantes da – oh, Deus! – direita!), nunca leram na fonte Toynbee, Hayek, Gasset, Bastiat, Mises ou Tocqueville.  Gustavo Corção, José Guilherme Merquior e Paulo Mercadante então… Que o resto não saiba quem sejam, vá lá, mas quando essa deficiência é verificada em formadores de opinião, aí a coisa complica. (mais…)