democracia Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

democracia

Em defesa da antipolítica

Por Wanfil em Crônica

23 de Fevereiro de 2019

Li um dia desses, levado pelas marés da internet (estava no blog do jornalista Edson Silva), um artigo do professor Filomeno de Morais publicado no site Consultor Jurídico sobre crises e democracia. Resolvi mergulhar por ali pois sempre admirei o seu trabalho. Destaco a passagem abaixo, em itálico e com grifo meu:

Evidentemente, identificam-se distorções no funcionamento das instituições políticas brasileiras, cabendo muitas vezes modificá-las para que se evitem consequências negativas, como a difusão da ideia da ‘antipolítica’, que semeia o sentimento de que o exercício da política está associado, sempre, à corrupção, à farsa e à predominância dos interesses egoísticos individuais ou de oligarquias“.

Pois é. De volta à superfície, me pus a refletir sobre o assunto. Realmente vez por outra alguém alerta o público para os perigos da “antipolítica”. Desde eruditos consagrados até comentaristas anônimos nas redes sociais, a maioria ecoando políticos desacreditados e outros ainda respeitados, que compartilham do mesmo receio. É que às vezes nos deixamos levar pela conversa desse pessoal. Cuidado. Não podemos confundir a política com os políticos, ou melhor, com os maus políticos (nessa classe temos os desonestos, os incompetentes, os desonestos competentes, os honestos incompetentes e os desonestos incompetentes).

Vamos em frente. Por mais que uma categoria profissional seja mal vista, isso não significa que seu oficio seja dispensável. Tomemos por exemplo casual – casual, repito – advogados e ministros do STF. Por mais que sejam criticados e que careçam de credibilidade, ninguém é louco de dizer que a Justiça é um supérfluo, muito menos de sair por aí hasteando a bandeira da anti-justiça. Seria a volta à barbárie. Para não parecer implicância, vamos a outro exemplo: jornalistas e veículos de comunicação. Todos esculhambam algum deles – ou vários, ou todos -, mas sabem que a notícia é fundamental para compor um retrato do mundo a partir do qual cada um pode emitir seus juízos. É possível ter ojeriza a uma categoria sem perder o respeito pela atividade que a sustenta.

Políticos matreiros é que gostam de se confundir com o próprio conceito daquilo que deveriam fazer, como se fossem a quintessência das instituições e da noção mediadora da política. Fale mal de um e ele dirá: “a política não pode ser tratada assim, com desprezo e raiva. Onde vamos chegar, meu Deus?” E fará isso com impressionante pose de ofendido ou injustiçado, sendo capaz de enganar o mais desconfiado cidadão por alguns minutos. É um perigo.

Pensei agora em fazer como o meu amigo e colega na Jangadeiro Diego Lage e resumir tudo com uma frase escatológica ou mesmo pornográfica, entanto imitar o seu incrível poder de síntese, mas cá estou eu encompridando a conversa, sendo… político. Palavrões e nomes de bois voltam a rondar esse texto, mas são devidamente contidos pelos pudores do superego e a prudência jurídica (covardia, diria o velho Nelson).

Para encerrar, acho mesmo que os representados (eleitores) querem dos seus representantes (eleitos) o resgate – e não o descarte – da política. A difusão da ideia da antipolítica como negação da politicagem é a única chance da verdadeira política sobreviver.

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Instituições rebaixadas no Ceará: manda quem pode, obedece quem tem medo

Por Wanfil em Ceará

06 de Janeiro de 2017

Na política, peões são descartáveis e sabem disso

O ex-deputado e ex-vice-governador Domingos Filho tomou posse, nesta sexta-feira, na presidência do Tribunal de Contas dos Municípios, em mais um capítulo da briga política com os Ferreira Gomes (ver mais nos posts Ajuste de contasConsequências da extinção do TCM pela AL a mando do governo).

Na solenidade, Domingos criticou a decisão da Assembleia Legislativa de extinguir o TCM por ordem do governo, o que só não aconteceu ainda por causa de uma liminar do STF. Porém, ninguém ouviu as queixas do presidente empossado. É que nem o Executivo nem o Legislativo enviaram representantes para a cerimônia, numa clara demonstração de que as instituições definitivamente subjugadas por interesses particulares, tornadas meros instrumentos de conveniência.

A ausência de muitas autoridades foi observada, o que é sintomático. Sabe como é, quem estivesse presente poderia ser visto com desconfiança por Cid e Ciro Gomes. Não há inocentes nessa história e sobram acusações mútuas, mas ainda que se detestem, seria preciso cumprir as liturgias da democracia. As instituições deveriam estar acima das diferenças pessoais.

A política no Ceará chegou a um ponto que nem as aparências parecem ter mais importância: manda quem pode, obedece quem tem medo. E ai de quem discordar.

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Dilma e o jogo do contente: “Valeu a pena”

Por Wanfil em Brasil

17 de Março de 2015

Pollyanna acredita que os protestos contra o seu governo provam que ela é boa.

Pollyanna acredita que os protestos contra o seu governo provam que ela é boa.

Os últimos dias foram marcados por manifestações a favor e contra o governo federal. As diferenças de tamanho, formato e cores entre as duas correntes são reveladoras do momento político que o país vive.  Pela manutenção do status quo foram às ruas, vestidos de vermelho, cerca de 30 mil pessoas, boa parte militantes de entidades governistas como CUT, UNE e MST, fartamente financiadas com dinheiro público. Já os protestos que cobram mudanças no governo e até o impeachment da presidente reuniram dois milhões e duzentos mil brasileiros, vestidos de verde e amarelo, a maioria convocada pela internet.

A presidente Dilma falou sobre as multidões nas ruas: “Nunca mais no Brasil nós vamos ver pessoas, ao manifestarem sua opinião, seja contra quem quer que seja, inclusive a Presidência da República, sofrerem quaisquer consequências. (…) Valeu a pena lutar pela liberdade. Valeu a pena lutar pela democracia. Este país está mais forte que nunca”.

Pela fala, os protestos esculhambando o governo fizeram Dilma sentir orgulho de seu passado, como se fossem um legado de sua militância na guerrilha. Se Pollyana (a famosa personagem criada por Eleanor H. Porter) fazia o “jogo do contente” para manter o otimismo diante de situações adversas, a presidente exagera na dose para surgir heroicamente alheia à natureza dos acontecimentos. Em vez de autocrítica, elogios a si mesma.

Por último, uma correção: Dilma lutou contra a ditadura, é fato. Sua atuação se deu em organizações revolucionárias como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Comando de Libertação Nacional (COLINA) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Esses grupos pregavam a substituição do regime militar por uma “ditadura do proletariado”. Isso não invalida que depois Dilma tenha aderido aos pressupostos democráticos, o que constitui inegável avanço, porém, naquele período, ela e seus companheiros não lutaram pela democracia. Mas o que é o rigor da História para quem é alheio ao presente?

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Justiça barra tentativa governista de impedir candidatura de oposição no Ceará

Por Wanfil em Eleições 2014

24 de julho de 2014

Eu sei, eu sei. Os ânimos estão aflorados no Ceará e os ressentimentos turvam o bom senso nessas eleições, mas é preciso discernimento para impedir o impulso da intolerância, afinal, política é o espaço das convergências e também das divergências. Na falta de respeito pelos adversários e pela própria imagem, que isso seja feito pelo menos em consideração ao digníssimo eleitor.

Ameaça
Vou explicar onde quero chegar com essa conversa. A Justiça Eleitoral julgou improcedente o pedido de impugnação feito pela coligação do petista Camilo Santana, candidato à sucessão estadual ungido pelo governador Cid Gomes, contra a coligação do peemedebista e ex-aliado Eunício Oliveira.

Nada contra ações judiciais, que isso é natural e civilizado, mas é preciso levar em consideração a intenção do processo. A candidatura governista buscou impedir judicialmente uma candidatura de oposição, aliás, a única que representa ameaça ao seu projeto de manutenção. Como ainda existem juízes no Ceará, a coisa não prosperou e acabou rejeitada por unanimidade no Tribunal Regional Eleitoral.

O caso
Vamos ao caso. Camilo Santana questionava o conteúdo das atas dos partidos que apoiam Eunício Oliveira, alegando que algumas siglas não registraram os nomes dos demais partidos da coligação feita com o PMDB. Segundo a acusação, alguns desses partidos acabaram enganados, pois ao se aliarem com dois partidos, acabaram incluídos numa aliança com outras sete agremiações.

Em seu voto, o juiz Luis Praxedes citou jurisprudência mostrando que só os partidos da própria coligação questionada teriam legitimidade para mover a ação. O relator do processo no Ministério Público Eleitoral, Rômulo Conrado, afirmou que o fato apontado pela acusação não passa de “mero erro formal”, insuficiente para invalidar a candidatura da oposição.

Quem decide é o eleitor
Como eu já disse, é normal candidatos, partidos e coligações acionarem a justiça, especialmente em período eleitoral. Mas uma coisa é questionar adversários juridicamente sobre eventuais erros de conduta ou vantagens indevidas, como propaganda irregular, uso da máquina pública ou abuso de poder político ou econômico; outra bem diferente é tentar impedir que a oposição tenha uma candidatura. Não se trata de ser a favor deste ou daquele, mas de preservar a prerrogativa básica dos eleitores: o direito ao voto livre.

Uma candidatura, claro, pode ser impugnada e o Ministério Público já acionou a justiça nesse sentido em várias ocasiões. Mas no caso em questão, provocado por candidatura oficial com base em argumentos insustentáveis, vale dizer: operou-se tentativa de interditar o processo eleitoral. Ao contrário do que acontece em regimes autoritários, nas democracias, opositores podem apresentar candidaturas contra os governos de plantão, sem risco de sabotagens ou de intimidações de qualquer natureza. Isso faz parte do conceito de alternância: ninguém é dono do poder, que emana do povo.

Má impressão
No final, a marmota acaba prejudicando a imagem da própria coligação governista. Quando um governo não quer compreender ou aceitar a legitimidade de grupos opositores, buscando deixar o eleitor sem qualquer opção que não seja o seu indicado, é sinal, no mínimo, de arrogância e prepotência. Ou então, de insegurança no próprio candidato que escolheu para manter-se no poder. Não fica bem. Que prevaleça o bom senso.

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Carta contra eu mesmo

Por Wanfil em Crônica

27 de setembro de 2013

Ser gentil com quem concorda conosco é fácil. Fica a dica.

Ser gentil com quem concorda conosco é fácil. Fica a dica.

Fiquei surpreso com a repercussão do post Enquanto impasse no Cocó não é resolvido, manifestantes fazem a festa nas redes sociais do Sistema Jangadeiro. O que impressiona nos comentários é a emoção exacerbada, tanto por parte de quem condena a ocupação, como de quem a defende. No entanto, o primeiros são dispersos, agem de modo desordenado; enquanto os outros são mais organizados, atuam com método e em parceria com grupos políticos já constituídos.

Com o fanatismo ferido, alguns “militantes” tentaram me intimidar com xingamentos e rotulações. O problema é que, aos poucos, estamos criando uma cultura de intolerância travestida de humanismo progressista. Por acreditar que lutam por algo justo e belo, esses jovens, boa parte estudantes universitários, imaginam que todos os que não comungam da mesma visão de mundo são essencialmente maus.

Diante dessa reação improdutiva, resolvi mostrar aos meus detratores que é possível discordar de modo decente e civilizado, escrevendo uma carta contra o que eu mesmo escrevi. A primeira regra – atenção galerinha super bacana – é ser educado. Palavrões e clichês ultrapassados podem massagear os egos de quem já é convertido à militância dos manifestantes, porém, assusta e afasta o leitor neutro, como ensina qualquer manual básico de marketing político. É que o radical é mal visto, moçada. Mas vamos ao que interessa. Se eu fosse escrever contra o que eu escrevi, diria algo mais ou menos assim:

“Caro Wanderley, li seu post sobre a festa no acampamento do Cocó e fiquei incomodado com o tom, ora sarcástico, ora irônico, com que os ativistas foram pintados. Escrever em um veículo de grande audiência implica em responsabilidade com os fatos e também com os sentimentos das pessoas. O que para você parece uma brincadeira, para nós acampados e apoiadores da causa, é coisa séria. Seu espaço poderia ser bem mais útil se mostrasse como anda a questão ambiental na cidade. Não custa lembrar que, graças aos protestos, a Prefeitura precisou rever sua forma de atuação, obrigando-se a cumprir a lei e a buscar os devidos licenciamentos ambientais. Você tem o direito de discordar e de ser a favor dos viadutos ou até do desmatamento, mas a contrapartida para isso é justamente respeitar o nosso direito que lutar pelo que acreditamos. Venha até o acampamento e conheça-nos um pouco mais. Aqui a imprensa é sempre bem-vinda”.

Viram, caros críticos? É fácil para quem sabe. Podem copiar, se quiserem. Eu responderia, claro, e poderia até fazer um mea-culpa, quem sabe. Mas poderia ser realmente duro com vocês, mas com toda a educação. Só não venham me xingar, que aí não tem conversa. O destempero interdita o debate. Sei que isso pode parecer-lhes pouco revolucionário, mas é assim que funciona. Boas maneiras para com supostos adversários ainda é sinal de espírito civilizatório. Sejam mais gentis doravante.

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O ecologista universitário

Por Wanfil em Artigo, Movimentos Sociais

14 de agosto de 2013

Descobri recentemente que assim como há o “forró universitário” e o “sertanejo universitário”, existe o “ecologismo universitário”. A classificação é informal, mas compreende grupos de indivíduos, jovens na maioria, alunos de cursos superiores. Em comum, a capacidade de transformar a fonte original de suas inspirações em produtos medíocres, para consumo fácil.

Entrei em contato com os ecologistas universitários em razão do post Qual a diferença entre a polêmica do Parque do Cocó e uma novela?, pelo qual recebi diversas críticas na fanpage do Tribuna do Ceará no Facebook, feitas por universitários indignados com o que entendem ser, digamos, falta de alinhamento com a causa que simpatizam, no caso, o impedimento da construção de dois viadutos nas imediações do local.

Pelas observações lá anotadas, é lícito supor que a maioria se deixou levar por impressões nascidas da mera leitura do título, sem atinar para o teor do artigo, em que sequer entro no mérito de quem tem ou não razão na polêmica, atendo-me somente a uma análise do comportamento das partes em litígio: defensores versus críticos da obra. Alguns que o leram, na ânsia de aderir ao coro das críticas, e em obediência ao espírito de corpo, endossaram os chavões típicos dos grupos doutrinados.

Não vou discutir questões de estilo (“o estilo é o homem”, dizia o Conde de Buffon): frases truncadas, ofensas, erros gramaticais grosseiros. Segundo me disseram, na Internet o erro é a norma. Escrever corretamente, pois, é puro capricho elitista e esnobe. E eu que imaginava que a norma culta ajudava na organização e transmissão do pensamento.

O que me impressionou nos ecologistas universitários, além do fato de muitos não saberem distinguir artigo de reportagem, é a disposição de atacar quem não reze pela cartilha dos preceitos politicamente corretos que, em suas cabecinhas, se passam por pensamento crítico de muita profundidade. A mera desconfiança de que o sujeito não concorde incondicionalmente com a pauta que julgam ser a correta, já lhes basta para que busquem desqualificá-lo pessoalmente. Não há argumentos em suas críticas, mas impropérios vazios e vulgares.

Não percebem que a beleza e a pujança da democracia residem justamente na contraposição de ideias, no debate honesto que não se deixa ofuscar por rótulos preconceituosos, na capacidade de convencer pela razão. Imaginam que ecologia é bandeira anticapitalista e não de aprimoramento no modo de produção.

A diferença entre os sertanejos, forrozeiros e ecologistas universitários é que os dois primeiros não aspiram representar um tipo de arte superior, enquanto os últimos acreditam ser o suprassumo da consciência humana. A indignação que demonstram não é ânsia de justiça, é afetação contra qualquer possibilidade de dissenso.

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A PEC 37 e a moral que nasce do medo das ruas

Por Wanfil em Política

26 de junho de 2013

“O medo é o pai da moralidade”, pregava Friedrich Nietzsche, numa crítica à moral que, segundo o filósofo, oprime o espírito livre. Descontextualizando a frase e invertento o seu sentido original, ou seja, usando-a como elogio à moral, ela bem que pode servir de emblema para a noite de terça-feira (25) no Congresso Nacional, onde parlamentares rejeitaram a PEC 37.

Afinal, foi por medo que os exceletíssimos representantes do povo fizeram o que pedia o povo nas ruas. Medo de arriscar seus projetos eleitorais, medo de ser apontado nos protestos como inimigo do anseio popular por ética na política. Medo de perder privilégios, claro. E por uma esperança: a de que tudo volta a ser como era antes, quando projetos podiam ser votados ao sabor das conveniências particulares e ao preço das barganhas de sempre, longe das incômodas passeatas.

Ter um Congresso que teme a sua gente, que precisa se ver acuado para votar o que interessa, é sintoma de grave apatia, estado no qual tudo se acomoda, especialmente os vícios. Mas a apatia foi quebrada, para o lamento daqueles que antse contavam com ela.

As manifestações atemorizam não por causa de reivindicações por melhores serviços, mas por também sinalizarem um repúdio contra os que aviltam a política. E assim, todos agora se esmeram em agradar, em dizer que estão em sintonia com os movimentos das ruas. De repente, ninguém queria inibir ou retaliar o Ministério Público, para afrouxar o combate à corrupção. Ninguém ali saber nem mesmo explicar como surgiu a PEC 37. É, o medo também pode levar ao ridículo.

Tortura psicológica

No Brasil, virou clichê a expressão “presidencialismo de coalisão”, para definir a relação promíscua entre o Executivo e o Legislativo, o balcão de negócios da política que engedrou o mensalão. “Não tem mais jeito”, vaticinavam os pessimistas; “é do jogo”, diziam os cínicos. Nada como o medo de milhões de pessoas dizendo que desaprova essa prática para fazer tudo funcionar rápidinho. E assim, a polêmica PEC 37, que dividia opiniões, que demandava grande esforço de negociação e diálogo, num instante foi rejeitada. Mas poucos a condenavam abertamente até duas semanas atrás.

O medo pode fazer recuar os covardes, mas não os transforma pelo livre arbítrio. As más consciências continuarão lá, esprando um chance, uma brecha, um descuido, para se locupletarem novamente. Os que estão lá tiveram a sua chance e se hoje fazem o que lhe cobram, é por fingimento. Que sejam devidamente dispensados de tamanha tortura psicológica nas próximas eleições.

Política e Moral

Para Nietzsche, a moral era uma prisão e somente os que não a temam podem ser felizes. De certa forma, essa é a lógica que alimenta o pragmatismo político da classe política brasileira, algo que transita entre a amoralidade e a imoralidade. Para os que se mostraram indignados contra essa, digamos, ética torta, a moralidade que preza pela honestidade é que liberta.

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A democracia brasileira sob ataque: o ovo da serpente

Por Wanfil em Entre poderes, Ideologia

28 de Abril de 2013

O Ovo da Serpente (1977), clássico de Ingmar Bergman. Projetos totalitários nunca se anunciam como tal, mas como forças libertadoras. É preciso um tempo de gestação para que se mostrem na realidade. Os ataques contras as instituições democráticas no Brasil acontecem porque o ambiente já degradou. É quando a serpente quebra a casca do ovo.

O Ovo da Serpente (1977), de Ingmar Bergman. Projetos totalitários sempre se anunciam como forças libertadoras. Só depois se mostram como são na realidade. Os ataques contras as instituições democráticas no Brasil acontecem porque o ambiente já degradou. É quando a serpente quebra a casca do ovo.

O Brasil vive um momento singular: a imprensa, a oposição, o Ministério Público e o Judiciário estão sob ataque cerrado de um grupo político que hoje controla o governo federal, os sindicatos, as principais entidades da sociedade civil organizada (da CUT à Fiesp), as universidades (e consequentemente toda a estrutura educacional do país).

Basta uma rápida leitura sobre a mais recente crise entre os ministros do STF e os presidentes da Câmara e Senado, para perceber que existe um ambiente cuja normalidade está em processo de degradação. O Executivo avança sobre as prerrogativas da Justiça e, usando a maioria comprada no Legislativo, trabalha em leis que tiram do MP o poder de investigar casos de corrupção e dificultam a criação de partidos oposicionistas. A imprensa, vez por outra, é ameaçada com a ideia fixa da “democratização da informação”, um eufemismo para o controle de conteúdo mais conhecido como censura.

A gravidade da situação é tamanha que políticos condenados pelo STF, como os deputados José Genuíno e  João Paulo Cunha, continuam no Congresso, lideram comissões que visam atingir justamente a Suprema Corte, sem que isso os transformem em principais inimigos da sociedade, papel que coube a um bobalhão insignificante como o deputado Marcos Feliciano, que por mais idiota que seja, não oferece risco algum à institucionalidade democrática.

Boa parte da intelectualidade brasileira, desde cedo adestrada nos rigores condicionantes do proselitismo político esquerdista, apoia as aspirações totalitárias do governo, alegando as melhores e mais celestiais intenções, claro. Tudo em nome da reparação social, da justiça igualitarista, da redenção das dívidas históricas e por aí vai. No resto do mundo, intelectuais trabalham para revelar a unidade lógica que liga ações aparentemente desconexas, expondo assim as camadas de motivações profundas que atuam sob a superfície dos acontecimentos, como é o caso de ver instituições basilares da democracia sistematicamente pressionadas a partir de um grupo, para fazer vista grossa aos desmandos do poder. Nem na Venezuela isso acontece. Lá é preciso o uso da força, com o controle do exército. Aqui, tudo é mais sutil, por isso mesmo, mais ardiloso.

E se no Brasil há uma resistência maior na defesa dessas instituições, é por causa da dificuldade de desconstruir todo um arcabouço institucional reconstruído após o fim dos governos militares. A garantia contra os desmandos de uma ditadura ainda depende, na mentalidade geral, da preservação incondicional da imprensa livre, dos órgãos de fiscalização e da independência entre os Poderes da República. Ocorre que, com o tempo, essa assimilação vai ficando cada vez mais distante dos eventos que as criaram e as fortaleceram, representados no processo de redemocratização. Sem a ligação direta com a ideia de perigo, e sem uma educação correta para as novas gerações, esses valores se tornam apenas uma lembrança, conquistas consolidadas que não precisam de proteção constante.

Como as novas ameaças se disfarçam de boas intenções, a defesa das instituições virou tema de segunda importância para o público. Os muros de contenção que as cercam passam então a trincar, infiltrados por anos e anos de doutrinação marxista e gramscista nas escolas, em doses cuidadosamente aplicadas para anestesiar as consciências sem despertá-las contra eventuais riscos à saúde do sistema democrático. Daí que associações de jornalistas, advogados, magistrados e procuradores não se rebelem contra a sanha controladora do governo em relação aos seus campos de atuação: a imprensa, o Judiciário e o MP. Para ser sincero, os procuradores até ensaiam uma reação, mas já não conseguem mobilizar mais do que seus próprios membros, talvez nem todos, movidos pela iminência de terem suas principais prerrogativas cassadas pela tal PEC 37. E mais: não há oposição que massifique o alerta de perigo. Pior ainda: ainda que houvesse oposição, não há sensibilidade no público diante dos riscos de instabilidade institucional patrocinados pelo grupo político que hoje comanda o Brasil. A letargia é generalizada.

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Nas ondas do rádio: Política na Tribuna Bandnews FM

Por Wanfil em Tribuna Band News FM

11 de Março de 2013

A rádio Tribuna Band News FM 101.7 é a mais nova emissoa do Sistema Jangadeiro.

A rádio Tribuna Bandnews FM 101.7 é a mais nova emissoa do Sistema Jangadeiro.

Estreei nesta segunda uma coluna de política na Tribuna Bandnews FM 101.7. em programa com o mesmo nome. De segunda à sexta, a partir das 6 horas da manhã, comento os principais fatos da política cearense, sempre buscando um olhar diferenciado, um novo ângulo, fazendo conexões entre fatos aparentemente desconectados e aleatórios, cujas ligações se disfarçam sob a aparência das coincidências inocentes. É preto no branco, como se diz por aí.

Em grande medida, esse novo espaço nasce do trabalho desenvolvido aqui no blog, junto com vocês. A boa audiência e a qualidade dos leitores mostraram que existe uma grande demanda por debates a respeito dos problemas vividos no Ceará.

Agradeço a companhia, as críticas e os elogios, às vezes postados na área de comentários, às vezes externados nas redes sociais.

Publico abaixo, o áudio com o primeiro comentário político feito na Tribuna Band News FM, sobre a seguinte notícia: Gastos do Poder Legislativo no Ceará chegam a R$ 474 milhões.

Ouça o comentário: O PREÇO DA DEMOCRACIA NO CEARÁ.

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Eleição para a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa do Ceará: Una Pura formalità

Por Wanfil em Ceará, Entre poderes, Política

04 de dezembro de 2012

Nova mesa diretora da Assembleia Legislativa: jogo de cartas marcadas. Foto: Kézya Diniz / Jangadeiro

Carregadas de formalidades e afetações de etiqueta, algumas solenidades oficiais, apesar de chatas e extremamente tediosas, não podem passar despercebidas, tanto pela importância que guardam como pela tradução simbólica que fazem de uma realidade.

Desejo de convergir

Nesta terça-feira, os cearenses testemunham uma ocasião dessas: a eleição da nova Mesa Diretora da Assembleia Legislativa para o biênio 2013/2014. Detalhe: apenas uma chapa concorreu. Tudo está, portanto, arranjado conforme roteiro estabelecido pelo Poder Executivo para ter um subserviente Poder Legislativo sob o seu comando.

Não sou eu quem afirma isso: são os próprios deputados, alguns até em entrevistas. Há no parlamento cearense uma incrível disposição à convergência. Todos devem entender que a relação entre os poderes, do jeito que está, é a melhor possível.

A trivialidade como método

Polanski e Depardieu: Na arte, uma simples formalidade pode evoluir para uma obra de arte. No Ceará, a democracia é que pode ser reduzida a uma mera formalidade.

Ao pensar na enfadonha cerimônia que consiste em dar ares de autonomia ao que na verdade é uma degradante capitulação, lembrei do filme Uma Simples Formalidade (Una Pura formalità, 1994), produção italiana dirigida por Giuseppe Tornatore, com atuações espetaculares de Gérard Depardieu e Roman Polanski. Trata-se de um duelo psicológico entre os personagens e interpretativo entre os atores. Mas o que interessa aqui é o título. O que seria uma simples questão de formalidade, se transforma numa trama complexa de suspense e mistério, constituindo uma evolução narrativa rica e inusitada. Ou seja, parte do aparentemente trivial ao clímax intelectual.

E o que isso tem a ver com Vossas Excelências representantes do povo cearense? Explico. A menção me veio à mente por contraposição. Aqui, no mundo real da política no Ceará, o caminho é inverso ao da arte. Partimos do que deveria ser o clímax da democracia para terminar no trivial. A eleição da Mesa Diretora da AL é uma questão de formalidade que representa um retrocesso pela forma como foi construída. A desvirtuação da natureza política da relação entre os poderes é tomada como método (todos negociam conforme as regras tácitas em vigor, cada partido em busca do seu quinhão), como formalidade banal.

Leia também:
A relação entre Executivo e Legislativo no Ceará: tudo dominado

Confira os nomes da nova Mesa Diretora do Legislativo estadual:

José Albuquerque (PSB) – presidente;
Tin Gomes (PHS) – primeira vice-presidência;
Lucílvio Girão (PMDB) – segunda vice-presidência;
Sérgio Aguiar (PSB) – primeira secretaria;
Manoel Duca (PRB) – segunda secretaria;
João Jaime (PSDB) – terceira secretaria;
Dedé Teixeira (PT) – quarta secretaria;
Ely Aguiar (PSDC) – primeiro vogal;
Ferreira Aragão (PDT) – segundo vogal;
Sineval Roque (PSB) – terceiro vogal.

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Eleição para a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa do Ceará: Una Pura formalità

Por Wanfil em Ceará, Entre poderes, Política

04 de dezembro de 2012

Nova mesa diretora da Assembleia Legislativa: jogo de cartas marcadas. Foto: Kézya Diniz / Jangadeiro

Carregadas de formalidades e afetações de etiqueta, algumas solenidades oficiais, apesar de chatas e extremamente tediosas, não podem passar despercebidas, tanto pela importância que guardam como pela tradução simbólica que fazem de uma realidade.

Desejo de convergir

Nesta terça-feira, os cearenses testemunham uma ocasião dessas: a eleição da nova Mesa Diretora da Assembleia Legislativa para o biênio 2013/2014. Detalhe: apenas uma chapa concorreu. Tudo está, portanto, arranjado conforme roteiro estabelecido pelo Poder Executivo para ter um subserviente Poder Legislativo sob o seu comando.

Não sou eu quem afirma isso: são os próprios deputados, alguns até em entrevistas. Há no parlamento cearense uma incrível disposição à convergência. Todos devem entender que a relação entre os poderes, do jeito que está, é a melhor possível.

A trivialidade como método

Polanski e Depardieu: Na arte, uma simples formalidade pode evoluir para uma obra de arte. No Ceará, a democracia é que pode ser reduzida a uma mera formalidade.

Ao pensar na enfadonha cerimônia que consiste em dar ares de autonomia ao que na verdade é uma degradante capitulação, lembrei do filme Uma Simples Formalidade (Una Pura formalità, 1994), produção italiana dirigida por Giuseppe Tornatore, com atuações espetaculares de Gérard Depardieu e Roman Polanski. Trata-se de um duelo psicológico entre os personagens e interpretativo entre os atores. Mas o que interessa aqui é o título. O que seria uma simples questão de formalidade, se transforma numa trama complexa de suspense e mistério, constituindo uma evolução narrativa rica e inusitada. Ou seja, parte do aparentemente trivial ao clímax intelectual.

E o que isso tem a ver com Vossas Excelências representantes do povo cearense? Explico. A menção me veio à mente por contraposição. Aqui, no mundo real da política no Ceará, o caminho é inverso ao da arte. Partimos do que deveria ser o clímax da democracia para terminar no trivial. A eleição da Mesa Diretora da AL é uma questão de formalidade que representa um retrocesso pela forma como foi construída. A desvirtuação da natureza política da relação entre os poderes é tomada como método (todos negociam conforme as regras tácitas em vigor, cada partido em busca do seu quinhão), como formalidade banal.

Leia também:
A relação entre Executivo e Legislativo no Ceará: tudo dominado

Confira os nomes da nova Mesa Diretora do Legislativo estadual:

José Albuquerque (PSB) – presidente;
Tin Gomes (PHS) – primeira vice-presidência;
Lucílvio Girão (PMDB) – segunda vice-presidência;
Sérgio Aguiar (PSB) – primeira secretaria;
Manoel Duca (PRB) – segunda secretaria;
João Jaime (PSDB) – terceira secretaria;
Dedé Teixeira (PT) – quarta secretaria;
Ely Aguiar (PSDC) – primeiro vogal;
Ferreira Aragão (PDT) – segundo vogal;
Sineval Roque (PSB) – terceiro vogal.