Crítica Radical Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Crítica Radical

Os Gatos-Pingados

Por Wanfil em Fortaleza, História

02 de agosto de 2013

São várias as explicações para a expressão gatos-pingados, especialmente nesses tempos de Internet e Wikipédia. Eu fico com a do poeta e memorialista cearense Otacílio de Azevedo, nascido em Redenção em 1892 e autor de Fortaleza Descalça, livro de crônicas sobre a capital cearense no início do Século 20.

A propósito, lembrei-me da expressão ao ver a atuação dos manifestantes (palavra vazia, a meu ver) que tentam impedir o corte de árvores no Parque do Cocó, no trecho de sete metros onde parte de um viaduto será construído (porque o projeto não evitou isso, eu não sei). Volto ao tema mais adiante.

Otacílio conta que “um dos aspectos mais curiosos da Fortaleza antiga era, sem dúvida, aquele apresentado pelos chamados Gatos-Pingados. Eram contratados para levar o defunto ao cemitério. Trajavam longas casacas pretas espartilhadas, calças com listras vermelhas, cartolas altas, de abas enroladas” (pág. 149).

De acordo com o historiador Sebastião Rogério, meu professor na Universidade Federal do Ceará, a expressão era associada aos detalhes nas roupas desses carregadores, com faixas amarelas nos braços, além das listras vermelhas já mencionadas, que originaram, com o humor típico do cearense, o adjetivo pingado.

E foi desses cortejos fúnebres surgiu ainda a derivação depreciativa “quatro gatos-pingados” (ou a variante numérica “meia-dúzia de gatos pingados”). Para o público que morava nas proximidades do cemitério São João Batista e que gostava de assistir aos enterros, um sinal de que o defunto não gozava de prestígio ou era pessoa detestada era justamente a quantidade de acompanhantes junto ao caixão. Quanto pior, menos gente, até o limite dos “quatro gatos-pingados”.

Crítica radical? Não, prefiro a crítica sarcástica…

E dessa forma, poética e mordaz, a expressão passou a definir causas ou grupos que não conseguem contagiar, que carecem de adesão. O cartunista Henfil criou o personagem Gato Pingado para representar a torcida do América do Rio, mas essa é outra história. Ao ver os tais manifestantes no Cocó, lembrei-me de Otacílio de Azevedo. Em seguida, por uma sequência de associações, pensei nas companheiras Rosa da Fonseca e Maria Luiza Fontenele, neoecologistas que comandam o cortejo fúnebre do anticapitalismo anarquista com os quatro gatos-pingados do movimento Critica Radical.

Depois, ainda no embalo dessas associações livres, passei a imaginar quem (oh, santo Marx!) financia o grupo, cujos integrantes, vez por outra, participam de eventos no exterior e que consegue sustentar seus abnegados militantes que, sem trabalhar, não arredam o pé do acampamento no Parque do Cocó. Mas, no fundo, quem se importa?

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Os Gatos-Pingados

Por Wanfil em Fortaleza, História

02 de agosto de 2013

São várias as explicações para a expressão gatos-pingados, especialmente nesses tempos de Internet e Wikipédia. Eu fico com a do poeta e memorialista cearense Otacílio de Azevedo, nascido em Redenção em 1892 e autor de Fortaleza Descalça, livro de crônicas sobre a capital cearense no início do Século 20.

A propósito, lembrei-me da expressão ao ver a atuação dos manifestantes (palavra vazia, a meu ver) que tentam impedir o corte de árvores no Parque do Cocó, no trecho de sete metros onde parte de um viaduto será construído (porque o projeto não evitou isso, eu não sei). Volto ao tema mais adiante.

Otacílio conta que “um dos aspectos mais curiosos da Fortaleza antiga era, sem dúvida, aquele apresentado pelos chamados Gatos-Pingados. Eram contratados para levar o defunto ao cemitério. Trajavam longas casacas pretas espartilhadas, calças com listras vermelhas, cartolas altas, de abas enroladas” (pág. 149).

De acordo com o historiador Sebastião Rogério, meu professor na Universidade Federal do Ceará, a expressão era associada aos detalhes nas roupas desses carregadores, com faixas amarelas nos braços, além das listras vermelhas já mencionadas, que originaram, com o humor típico do cearense, o adjetivo pingado.

E foi desses cortejos fúnebres surgiu ainda a derivação depreciativa “quatro gatos-pingados” (ou a variante numérica “meia-dúzia de gatos pingados”). Para o público que morava nas proximidades do cemitério São João Batista e que gostava de assistir aos enterros, um sinal de que o defunto não gozava de prestígio ou era pessoa detestada era justamente a quantidade de acompanhantes junto ao caixão. Quanto pior, menos gente, até o limite dos “quatro gatos-pingados”.

Crítica radical? Não, prefiro a crítica sarcástica…

E dessa forma, poética e mordaz, a expressão passou a definir causas ou grupos que não conseguem contagiar, que carecem de adesão. O cartunista Henfil criou o personagem Gato Pingado para representar a torcida do América do Rio, mas essa é outra história. Ao ver os tais manifestantes no Cocó, lembrei-me de Otacílio de Azevedo. Em seguida, por uma sequência de associações, pensei nas companheiras Rosa da Fonseca e Maria Luiza Fontenele, neoecologistas que comandam o cortejo fúnebre do anticapitalismo anarquista com os quatro gatos-pingados do movimento Critica Radical.

Depois, ainda no embalo dessas associações livres, passei a imaginar quem (oh, santo Marx!) financia o grupo, cujos integrantes, vez por outra, participam de eventos no exterior e que consegue sustentar seus abnegados militantes que, sem trabalhar, não arredam o pé do acampamento no Parque do Cocó. Mas, no fundo, quem se importa?