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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

contos

Você conhece Murilo Rubião?

Por Wanfil em Livros

27 de setembro de 2014

“A princípio foi azul, depois  verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor. Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou”. Trecho do conto O pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, publicado em 1974, sobre a luta de um homem para provar que estava realmente morto.

Murilo Rubião - Obra Completa. Cia. das Letras.   O inexplicável e o mágico como partes da vida.

Murilo Rubião – Obra Completa. Cia. das Letras. O inexplicável e o mágico como partes da vida.

Rubião é assim: elegante na sintaxe, envolvente na prosa, de modo a deixar o leitor sempre ansioso pelo próximo parágrafo; seguro na condução do ritmo e surpreendente nos arremates. O inusitado, o misterioso e o fantástico aparecem em seus contos como algo normal. Em O Pirotécnico…, o personagem assim explica sua condição incomum: “No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença de que aquele era vivo e este, um defunto”. Como pode isso? Não se sabe, apenas pode.

Em outro conto, O ex-mágico da Taberna Minhota, Murilo é alucinante e ao mesmo tempo pungente: “Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores. Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude. Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo”.

É justamente o inexplicável na condição de coisa simples, o elemento que fascina nas histórias de Murilo Eugênio Rubião (1916-1991), um dos nossos poucos representantes do chamado realismo mágico. Entretanto, seus textos foram publicados em meados de 1940, antes, portanto, do sucesso de Gabriel García Marquez e Julio Cortazár, expoentes mais famosos desse estilo. Mas não se trata apenas de buscar o estranhamento do leitor. A prosa fantástica é rica por seu teor metafórico. A de Rubião em particular é relacionada com aspectos da psicologia, sem referências a revoluções, contrastes sociais, lições de moral, essas coisas. Talvez por isso seja menos reconhecido do que deveria.

Rubião também dominou com precisão o suspense, como no conto A armadilha: ” Quis voltar ao corredor, a fim de recomeçar a busca, quando deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no chão, mas um terror súbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante sereno, apontava-lhe um revólver. Conservando a arma na direção do intruso, ordenou-lhe que não se afastasse. Também a Alexandre não interessava fugir, porque jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensação de medo fora passageira e logo substituída por outra mais intensa, ao fitar os olhos do velho”.

Os textos de Murilo Rubião são sedutoras lições de português que refletem seu trabalho minucioso. Um conto poderia ficar anos sob lapidação. Os diálogos também são marcantes, de frases curtas e ferinas, entrecortados com reflexões dos personagens ou do narrador. Pincei uma amostra de Os três nomes de Godofredo:

“Insatisfeito com as dúvida que me ocorriam, indaguei meio constrangido:
– Eu a convidei para o jantar, não?
– Claro! E não havia necessidade de um convite formal para me trazer aqui.
– Como?
– Bolas, desde quando se tornou obrigatório ao marido convidar a esposa para as refeições?
– Você é minha mulher?
– Sim, a segunda. E preciso lhe dizer que a primeira era loura e que você a matou num acesso de ciúmes?
– Não é necessário. (Já ficara bastante abalado em saber do meu casamento e não desejava que me criassem o remorso do qual não tinha a menor lembrança)”.

E para mostrar a versatilidade desse escritor, encerro com um poético trecho de O pirotécnico Zacarias“Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos”.

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Você conhece Murilo Rubião?

Por Wanfil em Livros

27 de setembro de 2014

“A princípio foi azul, depois  verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor. Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou”. Trecho do conto O pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, publicado em 1974, sobre a luta de um homem para provar que estava realmente morto.

Murilo Rubião - Obra Completa. Cia. das Letras.   O inexplicável e o mágico como partes da vida.

Murilo Rubião – Obra Completa. Cia. das Letras. O inexplicável e o mágico como partes da vida.

Rubião é assim: elegante na sintaxe, envolvente na prosa, de modo a deixar o leitor sempre ansioso pelo próximo parágrafo; seguro na condução do ritmo e surpreendente nos arremates. O inusitado, o misterioso e o fantástico aparecem em seus contos como algo normal. Em O Pirotécnico…, o personagem assim explica sua condição incomum: “No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença de que aquele era vivo e este, um defunto”. Como pode isso? Não se sabe, apenas pode.

Em outro conto, O ex-mágico da Taberna Minhota, Murilo é alucinante e ao mesmo tempo pungente: “Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores. Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude. Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo”.

É justamente o inexplicável na condição de coisa simples, o elemento que fascina nas histórias de Murilo Eugênio Rubião (1916-1991), um dos nossos poucos representantes do chamado realismo mágico. Entretanto, seus textos foram publicados em meados de 1940, antes, portanto, do sucesso de Gabriel García Marquez e Julio Cortazár, expoentes mais famosos desse estilo. Mas não se trata apenas de buscar o estranhamento do leitor. A prosa fantástica é rica por seu teor metafórico. A de Rubião em particular é relacionada com aspectos da psicologia, sem referências a revoluções, contrastes sociais, lições de moral, essas coisas. Talvez por isso seja menos reconhecido do que deveria.

Rubião também dominou com precisão o suspense, como no conto A armadilha: ” Quis voltar ao corredor, a fim de recomeçar a busca, quando deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no chão, mas um terror súbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante sereno, apontava-lhe um revólver. Conservando a arma na direção do intruso, ordenou-lhe que não se afastasse. Também a Alexandre não interessava fugir, porque jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensação de medo fora passageira e logo substituída por outra mais intensa, ao fitar os olhos do velho”.

Os textos de Murilo Rubião são sedutoras lições de português que refletem seu trabalho minucioso. Um conto poderia ficar anos sob lapidação. Os diálogos também são marcantes, de frases curtas e ferinas, entrecortados com reflexões dos personagens ou do narrador. Pincei uma amostra de Os três nomes de Godofredo:

“Insatisfeito com as dúvida que me ocorriam, indaguei meio constrangido:
– Eu a convidei para o jantar, não?
– Claro! E não havia necessidade de um convite formal para me trazer aqui.
– Como?
– Bolas, desde quando se tornou obrigatório ao marido convidar a esposa para as refeições?
– Você é minha mulher?
– Sim, a segunda. E preciso lhe dizer que a primeira era loura e que você a matou num acesso de ciúmes?
– Não é necessário. (Já ficara bastante abalado em saber do meu casamento e não desejava que me criassem o remorso do qual não tinha a menor lembrança)”.

E para mostrar a versatilidade desse escritor, encerro com um poético trecho de O pirotécnico Zacarias“Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos”.