comunismo Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

comunismo

Hegemonia moral do PDT é verniz ideológico para acordos eleitoreiros. Só isso!

Por Wanfil em Ideologia

13 de junho de 2018

Ciro Gomes disse na semana passada, em Buenos Aires, que a prioridade de sua pré-campanha à Presidência da República é coligar com PSB e PCdoB. Só depois pensaria sobre uma eventual aliança com DEM e PP, quando “a hegemonia moral e intelectual do rumo estaria afirmada”.

Não é a primeira vez que Ciro cita o conceito de hegemonia moral para justificar coligações inusitadas. Em 2013, se não me falha a memória, entrevistei-o na Tribuna Band News. Quis saber como o ex-governador, já então crítico do PMDB, via a aliança de Cid Gomes com Eunício Oliveira, que ainda não tinham rompido. Ciro explicou que seu irmão tinha a hegemonia moral desse processo, contendo assim a natureza política dos parceiros, se é que vocês me entendem.

Embora Ciro não cite a fonte, a ideia tem semelhança com o pensamento do filósofo marxista italiano Antonio Gramsci. Percebendo que o estabelecimento de ditaduras por meio da revolução armada causava ressentimento na população por causa da violência, Gramsci pregava outro tipo de estratégia, a partir do controle da produção do conhecimento, ocupando espaços em jornais, escolas e universidades, entre outros, de modo a firmar a hegemonia moral e intelectual do partido comunista.

Adaptado aos costumes políticos brasileiros, o conceito passou a dar um verniz ideológico ao clientelismo velho de guerra. O partido de esquerda pode até tapar o nariz e andar com aqueles de quem não gostam, desde que seja para usá-lo como instrumento a serviço de um projeto “moralmente” superior. Por moral, em Gramsci, entenda-se os interesses do partido (seu “imperativo categórico”) na luta pelo poder, e não os preceito judaico-cristãos, tipo não roubar, classificados pejorativamente de moralismo. Coisa que o PT já fez ao unir-se em passado recente, por exemplo, ao mesmo PP do Petrolão.

A ideia de subordinar outras forças políticas acenando com cargos de menor importância na máquina pública tem dado certo no Ceará, onde a maioria dos partidos já se acostumou mesmo ao papel de serviçais, como podemos perceber com o acordão deste ano. No Congresso, porém, o jogo é outro. PP e DEM se afastaram após a declaração de Ciro, que agora corre o risco de perder um precioso tempo de propagada eleitoral.

Por isso agora o PDT corre para dizer que não o que foi dito não foi o que se quis dizer.

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Os Demônios

Por Wanfil em Livros

13 de setembro de 2014

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) - Editora 34

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) – Editora 34

Os Demônios, obra de Fiodor Dostoiévski inspirada no noticiário sobre o assassinato de um estudante por membros de um grupo político clandestino e niilista chamado Justiça Sumária do Povo, em 1869, liderado por Sergei Nietcháiev, autor do tenebroso e fanático O Catecismo de um Revolucionário, de onde podemos extrais ilustrativas amostras de uma natureza política e moral influente até os dias de hoje: “Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a da destruição”. De algo assim, nada de bom pode sair mesmo.

Pois bem, ao esboçar uma crítica a esse tipo de radicalismo, o autor de Crime e Castigo denunciou ali o germe da manipulação da intolerância e da baixa autoestima como instrumentos políticos para arregimentar e insuflar pessoas dispostas a tudo por um ideal. Esse idealismo é denunciado, com toda razão, como mero pretexto para o uso supostamente racional da violência.

De modo brilhante, quase sobrenatural, Dostoiévski antecipa aos seus contemporâneos, em Os Demônios, escrito em 1872, as bases de um processo de degradação social que terminaria, quase cinco décadas depois, na eclosão da  Revolução Russa e seu legado de horror: 30 milhões de vítimas do comunismo, somente naquele país. Mais do isso, o escritor revela a gênese de qualquer movimento radical que tenha no ímpeto destruidor sua razão de existir, delineando um perfil que pode identificar desde agentes do nazismo até os terroristas islâmicos do nosso presente, no que eles têm em comum: o ódio e a intolerância com o contraditório. Mudam nas formas externas, mas a essência é a mesma.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Basicamente, o livro narra o início e o desenvolvimento das atividades do que poderíamos chamar de célula política com função desestabilizadora. No começo, parecem patéticos, pois são poucos, embora saibam que outras células existam por aí (eles não devem manter contato entre si, para em caso de fracasso, não delatar as demais). Seus membros se imiscuem em vários órgãos do Estado e sua missão é criar problemas, de forma a excitar o descontentamento geral. No entanto, esses indivíduos atuam sobre a tessitura de uma sociedade onde a elite (no caso, a aristocracia russa), vive alienada da realidade, perdida em bailes, salamaleques, viagens à Europa e solenidades de condecorações, enquanto a população sofre com a pobreza e a ignorância. É o ambiente perfeito para prosperar as teses racistas ou de luta de classes, que objetivam personificar culpados em determinados grupos sociais.

Quando governos estão dissociados dos anseios de um povo, o ressentimento pode ser facilmente manipulado. Daí que o título de Os Demônios seja uma referência ao evangelho de Lucas (8, 32-36): ” Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos; rogaram-lhe, pois que lhes permitisse entrar neles, e lho permitiu. E tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos; e a manada precipitou-se pelo despenhadeiro no lago, e afogou-se. Quando os pastores viram o que acontecera, fugiram, e foram anunciá-lo na cidade e nos campos. Saíram, pois, a ver o que tinha acontecido, e foram ter com Jesus, a cujos pés acharam sentado, vestido e em perfeito juízo, o homem de quem havia saído os demônios; e se atemorizaram. Os que tinham visto aquilo contaram-lhes como fora curado o endemoninhado”.

A alegoria é clara: os demônios estão soltos à procura de porcos, de desavisados que caminham sem perceber para a própria desgraça. Na política, ela pode se manifestar assim, como nessa profética passagem destacada na orelha da edição que li: “No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se à calúnia e assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e do talento. O nível elevado das ciências e das aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis. Os talentos superiores sempre tomaram o poder e foram déspotas. Os talentos superiores não podem deixar de ser déspotas, e sempre trouxeram mais depravação que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas – eis o chigaliovismo”.

No Brasil de hoje, o descompasso entre as aspirações da população e governantes hipnotizados pelos jogo do poder pelo poder já mostrou suas feições mais impulsivas nos protestos de junho de 2013. É nesse descontentamento com a corrupção e a ineficiência administrativa que apostam os defensores de uma reforma política que, ao final, será útil a grupos que repudiam o mérito como força construtiva e celebram o controle do Estado como realização máxima. Gente que vê nas leis, no Congresso e nas instituições democráticas, entraves para a evolução de seus projetos. Basta ficar atento, que tudo está acontecendo agora, neste instante.

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Os Demônios

Por Wanfil em Livros

13 de setembro de 2014

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) - Editora 34

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) – Editora 34

Os Demônios, obra de Fiodor Dostoiévski inspirada no noticiário sobre o assassinato de um estudante por membros de um grupo político clandestino e niilista chamado Justiça Sumária do Povo, em 1869, liderado por Sergei Nietcháiev, autor do tenebroso e fanático O Catecismo de um Revolucionário, de onde podemos extrais ilustrativas amostras de uma natureza política e moral influente até os dias de hoje: “Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a da destruição”. De algo assim, nada de bom pode sair mesmo.

Pois bem, ao esboçar uma crítica a esse tipo de radicalismo, o autor de Crime e Castigo denunciou ali o germe da manipulação da intolerância e da baixa autoestima como instrumentos políticos para arregimentar e insuflar pessoas dispostas a tudo por um ideal. Esse idealismo é denunciado, com toda razão, como mero pretexto para o uso supostamente racional da violência.

De modo brilhante, quase sobrenatural, Dostoiévski antecipa aos seus contemporâneos, em Os Demônios, escrito em 1872, as bases de um processo de degradação social que terminaria, quase cinco décadas depois, na eclosão da  Revolução Russa e seu legado de horror: 30 milhões de vítimas do comunismo, somente naquele país. Mais do isso, o escritor revela a gênese de qualquer movimento radical que tenha no ímpeto destruidor sua razão de existir, delineando um perfil que pode identificar desde agentes do nazismo até os terroristas islâmicos do nosso presente, no que eles têm em comum: o ódio e a intolerância com o contraditório. Mudam nas formas externas, mas a essência é a mesma.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Basicamente, o livro narra o início e o desenvolvimento das atividades do que poderíamos chamar de célula política com função desestabilizadora. No começo, parecem patéticos, pois são poucos, embora saibam que outras células existam por aí (eles não devem manter contato entre si, para em caso de fracasso, não delatar as demais). Seus membros se imiscuem em vários órgãos do Estado e sua missão é criar problemas, de forma a excitar o descontentamento geral. No entanto, esses indivíduos atuam sobre a tessitura de uma sociedade onde a elite (no caso, a aristocracia russa), vive alienada da realidade, perdida em bailes, salamaleques, viagens à Europa e solenidades de condecorações, enquanto a população sofre com a pobreza e a ignorância. É o ambiente perfeito para prosperar as teses racistas ou de luta de classes, que objetivam personificar culpados em determinados grupos sociais.

Quando governos estão dissociados dos anseios de um povo, o ressentimento pode ser facilmente manipulado. Daí que o título de Os Demônios seja uma referência ao evangelho de Lucas (8, 32-36): ” Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos; rogaram-lhe, pois que lhes permitisse entrar neles, e lho permitiu. E tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos; e a manada precipitou-se pelo despenhadeiro no lago, e afogou-se. Quando os pastores viram o que acontecera, fugiram, e foram anunciá-lo na cidade e nos campos. Saíram, pois, a ver o que tinha acontecido, e foram ter com Jesus, a cujos pés acharam sentado, vestido e em perfeito juízo, o homem de quem havia saído os demônios; e se atemorizaram. Os que tinham visto aquilo contaram-lhes como fora curado o endemoninhado”.

A alegoria é clara: os demônios estão soltos à procura de porcos, de desavisados que caminham sem perceber para a própria desgraça. Na política, ela pode se manifestar assim, como nessa profética passagem destacada na orelha da edição que li: “No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se à calúnia e assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e do talento. O nível elevado das ciências e das aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis. Os talentos superiores sempre tomaram o poder e foram déspotas. Os talentos superiores não podem deixar de ser déspotas, e sempre trouxeram mais depravação que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas – eis o chigaliovismo”.

No Brasil de hoje, o descompasso entre as aspirações da população e governantes hipnotizados pelos jogo do poder pelo poder já mostrou suas feições mais impulsivas nos protestos de junho de 2013. É nesse descontentamento com a corrupção e a ineficiência administrativa que apostam os defensores de uma reforma política que, ao final, será útil a grupos que repudiam o mérito como força construtiva e celebram o controle do Estado como realização máxima. Gente que vê nas leis, no Congresso e nas instituições democráticas, entraves para a evolução de seus projetos. Basta ficar atento, que tudo está acontecendo agora, neste instante.