Avenida Brasil Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Avenida Brasil

Avenida Brasil e os finais previsíveis

Por Wanfil em Crônica, Cultura

20 de outubro de 2012

Imagem que fez sucesso na internet por causa da novela Avenida Brasil: O segredo em certos tipos de arte é a previsibilidade.

Dizer que o país parou por causa de uma novela é um exagero. Money never sleeps, já dizia Gordon Grekko. É inegável, porém, que o o folhetim Avenida Brasil monopolizou redes sociais e gerou imensa expectativa na maioria dos brasileiros por ocasião da exibição do seu último capítulo.

Não tenho nada contra novelas. Particularmente, considero-as enfadonhas, mas não as tomo por anestésicos da consciência coletiva como muitos afirmam por aí. Novelas, assim como o futebol, são futilidades que fazem parte da vida porque são necessárias. Mesmo nas sociedades mais avançadas há um bom espaço para o lazer sem compromisso intelectual. E isso, em si, não é ruim, pelo contrário.

Apenas acho que novelas, do ponto de vista formal e estético, são repetitivas ao extremo. O que muda de uma novela para outra são as locações e os atores, mas a liga que amarra a estrutura narrativa de todas elas é sempre a mesma: um grande amor que enfrenta preconceitos e inveja, mocinhos que sempre vencem, pobres cheios de consciência social, um louco, empregados domésticos engraçados e empresários inescrupulosos. No capítulo final, não podem faltar jamais uma festa de casamento, a revelação de um segredo. Pronto. Com esses ingredientes, temos uma novela. Mais recentemente, ao que me consta, briga de mulheres – a heroína contra a vilã – é bom para a audiência.

O poder que essa estrutura quase fixa tem de encantar milhões de pessoas é o que mais considero interessante. Minhas filhas, ainda na primeira infância, costumam a assistir o mesmo filme repetidas vezes e não raro se mostram resistentes em aceitar novidades. Pesquisei um pouco e descobri que, psicologicamente, esse comportamento decorre de algo básico para a criança: necessidade de segurança. No fundo, elas querem o previsível, a história repetida cujo final elas já conhecem, porque isso lhes é confortável. Até os sete anos, se bem me lembro, a criança se vê integralmente nos personagens.

Por isso a arte que incomoda, que provoca o exame mais aprofundado da consciência e das relações sociais, que aborda contradições e foge do senso comum, que demole verdades absolutas ou consensos politicamente corretos, é coisa adulto. Acho que isso explica, em parte, o sucesso de novelas que se esmeram no conceito “vale a pena ver de novo”.

PS. Vou dar um mote: Que tal uma novela sobre um grupo de idealistas que tinham sonhavam com a revolução e que anos depois, uma vez no poder, se transformam naquilo contra o que diziam lutar no passado? Não… Podem pensar isso ou aquilo, vai que alguém se ofende… Melhor fazer uma novela em que um grande amor terá que enfrentar grandes desafios para conseguir vencer.

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Avenida Brasil e os finais previsíveis

Por Wanfil em Crônica, Cultura

20 de outubro de 2012

Imagem que fez sucesso na internet por causa da novela Avenida Brasil: O segredo em certos tipos de arte é a previsibilidade.

Dizer que o país parou por causa de uma novela é um exagero. Money never sleeps, já dizia Gordon Grekko. É inegável, porém, que o o folhetim Avenida Brasil monopolizou redes sociais e gerou imensa expectativa na maioria dos brasileiros por ocasião da exibição do seu último capítulo.

Não tenho nada contra novelas. Particularmente, considero-as enfadonhas, mas não as tomo por anestésicos da consciência coletiva como muitos afirmam por aí. Novelas, assim como o futebol, são futilidades que fazem parte da vida porque são necessárias. Mesmo nas sociedades mais avançadas há um bom espaço para o lazer sem compromisso intelectual. E isso, em si, não é ruim, pelo contrário.

Apenas acho que novelas, do ponto de vista formal e estético, são repetitivas ao extremo. O que muda de uma novela para outra são as locações e os atores, mas a liga que amarra a estrutura narrativa de todas elas é sempre a mesma: um grande amor que enfrenta preconceitos e inveja, mocinhos que sempre vencem, pobres cheios de consciência social, um louco, empregados domésticos engraçados e empresários inescrupulosos. No capítulo final, não podem faltar jamais uma festa de casamento, a revelação de um segredo. Pronto. Com esses ingredientes, temos uma novela. Mais recentemente, ao que me consta, briga de mulheres – a heroína contra a vilã – é bom para a audiência.

O poder que essa estrutura quase fixa tem de encantar milhões de pessoas é o que mais considero interessante. Minhas filhas, ainda na primeira infância, costumam a assistir o mesmo filme repetidas vezes e não raro se mostram resistentes em aceitar novidades. Pesquisei um pouco e descobri que, psicologicamente, esse comportamento decorre de algo básico para a criança: necessidade de segurança. No fundo, elas querem o previsível, a história repetida cujo final elas já conhecem, porque isso lhes é confortável. Até os sete anos, se bem me lembro, a criança se vê integralmente nos personagens.

Por isso a arte que incomoda, que provoca o exame mais aprofundado da consciência e das relações sociais, que aborda contradições e foge do senso comum, que demole verdades absolutas ou consensos politicamente corretos, é coisa adulto. Acho que isso explica, em parte, o sucesso de novelas que se esmeram no conceito “vale a pena ver de novo”.

PS. Vou dar um mote: Que tal uma novela sobre um grupo de idealistas que tinham sonhavam com a revolução e que anos depois, uma vez no poder, se transformam naquilo contra o que diziam lutar no passado? Não… Podem pensar isso ou aquilo, vai que alguém se ofende… Melhor fazer uma novela em que um grande amor terá que enfrentar grandes desafios para conseguir vencer.