Anthony Giddens Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Anthony Giddens

Mas afinal, o que seria essa terceira via de Marina?

Por Wanfil em Ideologia

18 de agosto de 2014

A terceira via, de Anthony Giddens, foi a base de um novo pensamento de esquerda. Não basta criar um slogan, é preciso ter substância.

Não basta criar um slogan, é preciso ter substância.

Com a morte de Eduardo Campos, a vice da chapa, Marina Silva, deve mesmo ser confirmada como candidata à Presidência da República pelo PSB. Em pesquisa do instituto  Datafolha, encomendada pelo jornal Folha de São Paulo, ela aparece empatada com Aécio Neves (PSDB) em simulação de primeiro e com Dilma Rousseff (PT) no segundo. Naturalmente, a comoção com a tragédia ajudou a candidata, já bem conhecida do eleitor. O que não falta é análise sobre esses números.

Todavia, o que interessa aqui é uma questão tida como acessória por muitos, mas que vejo como essencial: o conteúdo. Marina assume agora a imagem de ‘terceira via’ pregada por Eduardo Campos, apresentada como alternativa à polarização entre PT e PSDB. Mas qual a substância desse posicionamento? O que seria essa ‘terceira via’ , fora a condição óbvia de uma opção a mais nas urnas?

A expressão ‘terceira via’ não é novidade. Nasceu com o Partido Trabalhista da Inglaterra no final dos anos 80 e início dos 90 do século passado. Basicamente, foi a reformulação de teses de esquerda pela social-democracia europeia, para enfrentar o domínio filosófico e eleitoral dos liberais, que dominava o cenário político com os republicanos liderados por Ronald Reagan nos EUA e os conservadores de Margareth Thatcher na Inglaterra. A reação foi o surgimento da esquerda ‘ligth’, ou ‘soft’, ou ainda ‘rosa’, que procurava conjugar progressismo com economia de mercado, sem reduzir o poder do Estado.

Li há muitos anos o livrinho A terceira via, do sociólogo Anthony Giddens, um dos principais nomes dessa corrente, ministro do premiê britânico Tony Blair, seu maior expoente ao lado de Bill Clinton nos EUA, seguido por Nelson Mandela na África do Sul e Fernando Henrique Cardoso no Brasil. (Carlos Menem tentou surfar nessa onda, mas a dolarização da Argentina expôs seu caudilhismo). Era a nova esquerda procurando se reinventar. Para isso, precisou incorporar (e explicar teoricamente, com fundamentação) preceitos do liberalismo. A esquerda jurássica protestou, vendo na terceira via, com razão, a capitulação das fracassadas economias planificadas. Adeus, Marx! A meu ver, a tese de Giddens foi uma forma envergonhada que esquerdistas moderados encontraram para dizer que existe valor social no capitalismo, sem precisar se converter ao liberalismo.

Resumindo, a terceira via defende o Estado Justaposto (ou Estado Necessário), em contraposição ao Estado Máximo (de esquerda) e ao Estado Mínimo (de direita). Seria a combinação de ortodoxia fiscal com assistência social. Tudo, como sempre é no caso das ideias abstratas, muito bonito. Foi desse papo que nasceu, por exemplo, as políticas compensatórias na Inglaterra, que aplicadas no Brasil deram luz às famosas bolsas assistenciais, que se tornariam depois assistencialistas. A terceira via foi o embrião do Bolsa Família, importado pelo PSDB e copiado pelo PT.

Pois é. Boa parte da galera que bate palmas para Marina vendo ali um ideal consistente, nem sabe que “terceira via”, para ela, é sinônimo de “neoliberalismo”, pois nessa época a candidata do PSB, que na verdade luta para criar um novo partido, a Rede Sustentabilidade, era filiada ao PT.

Como a “terceira via” de Marina pretende enfrentar o dilema de uma economia com baixo crescimento, repique inflacionário, baixa poupança e desequilíbrio fiscal? O que ela propõe de diferente de PT e PSDB? Provavelmente nem a candidata saiba responder essas questões. É preciso apresentar algum estofo teórico para sustentar o discurso. Sem isso, a “terceira via” do PSB não passa de um mote vazio de sentido.

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Mas afinal, o que seria essa terceira via de Marina?

Por Wanfil em Ideologia

18 de agosto de 2014

A terceira via, de Anthony Giddens, foi a base de um novo pensamento de esquerda. Não basta criar um slogan, é preciso ter substância.

Não basta criar um slogan, é preciso ter substância.

Com a morte de Eduardo Campos, a vice da chapa, Marina Silva, deve mesmo ser confirmada como candidata à Presidência da República pelo PSB. Em pesquisa do instituto  Datafolha, encomendada pelo jornal Folha de São Paulo, ela aparece empatada com Aécio Neves (PSDB) em simulação de primeiro e com Dilma Rousseff (PT) no segundo. Naturalmente, a comoção com a tragédia ajudou a candidata, já bem conhecida do eleitor. O que não falta é análise sobre esses números.

Todavia, o que interessa aqui é uma questão tida como acessória por muitos, mas que vejo como essencial: o conteúdo. Marina assume agora a imagem de ‘terceira via’ pregada por Eduardo Campos, apresentada como alternativa à polarização entre PT e PSDB. Mas qual a substância desse posicionamento? O que seria essa ‘terceira via’ , fora a condição óbvia de uma opção a mais nas urnas?

A expressão ‘terceira via’ não é novidade. Nasceu com o Partido Trabalhista da Inglaterra no final dos anos 80 e início dos 90 do século passado. Basicamente, foi a reformulação de teses de esquerda pela social-democracia europeia, para enfrentar o domínio filosófico e eleitoral dos liberais, que dominava o cenário político com os republicanos liderados por Ronald Reagan nos EUA e os conservadores de Margareth Thatcher na Inglaterra. A reação foi o surgimento da esquerda ‘ligth’, ou ‘soft’, ou ainda ‘rosa’, que procurava conjugar progressismo com economia de mercado, sem reduzir o poder do Estado.

Li há muitos anos o livrinho A terceira via, do sociólogo Anthony Giddens, um dos principais nomes dessa corrente, ministro do premiê britânico Tony Blair, seu maior expoente ao lado de Bill Clinton nos EUA, seguido por Nelson Mandela na África do Sul e Fernando Henrique Cardoso no Brasil. (Carlos Menem tentou surfar nessa onda, mas a dolarização da Argentina expôs seu caudilhismo). Era a nova esquerda procurando se reinventar. Para isso, precisou incorporar (e explicar teoricamente, com fundamentação) preceitos do liberalismo. A esquerda jurássica protestou, vendo na terceira via, com razão, a capitulação das fracassadas economias planificadas. Adeus, Marx! A meu ver, a tese de Giddens foi uma forma envergonhada que esquerdistas moderados encontraram para dizer que existe valor social no capitalismo, sem precisar se converter ao liberalismo.

Resumindo, a terceira via defende o Estado Justaposto (ou Estado Necessário), em contraposição ao Estado Máximo (de esquerda) e ao Estado Mínimo (de direita). Seria a combinação de ortodoxia fiscal com assistência social. Tudo, como sempre é no caso das ideias abstratas, muito bonito. Foi desse papo que nasceu, por exemplo, as políticas compensatórias na Inglaterra, que aplicadas no Brasil deram luz às famosas bolsas assistenciais, que se tornariam depois assistencialistas. A terceira via foi o embrião do Bolsa Família, importado pelo PSDB e copiado pelo PT.

Pois é. Boa parte da galera que bate palmas para Marina vendo ali um ideal consistente, nem sabe que “terceira via”, para ela, é sinônimo de “neoliberalismo”, pois nessa época a candidata do PSB, que na verdade luta para criar um novo partido, a Rede Sustentabilidade, era filiada ao PT.

Como a “terceira via” de Marina pretende enfrentar o dilema de uma economia com baixo crescimento, repique inflacionário, baixa poupança e desequilíbrio fiscal? O que ela propõe de diferente de PT e PSDB? Provavelmente nem a candidata saiba responder essas questões. É preciso apresentar algum estofo teórico para sustentar o discurso. Sem isso, a “terceira via” do PSB não passa de um mote vazio de sentido.