ALN Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

ALN

Comissão da Verdade “esquece” episódio no Ceará

Por Wanfil em História

15 de dezembro de 2014

O relatório final da Comissão da Verdade apresentado na semana passada listou os cearenses Bérgson Gurjão e Custódio Saraiva Neto, executados na Guerrilha do Araguaia, como vítimas do regime militar. De memória, lembro ter lido que Gurjão foi capturado em combate; depois, já sob tutela das Forças Armadas, foi torturado e assassinado a golpes de baioneta. Portanto, registro corretíssimo. Sobre Custódio nada sei, a não ser que foi considerado como desaparecido e posteriormente declarado morto, sem maiores detalhes. Se morreu em combate ou se foi eliminado após ser preso, não posso dizer.

De todo modo, como oficialmente o objetivo declarado da Comissão é o resgate da verdade dos fatos, é preciso registrar que nomes de outros cearenses ficaram de fora do relatório, um como vítima e outros como responsáveis por um episódio ocorrido aqui no Ceará.

Em 29 de agosto de 1970, o empresário José Armando Rodrigues foi sequestrado, torturado e morto a tiros por membros da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização comunista ligada à ditadura cubana e fundada pelo notório Carlos Marighela, dissidente do PCB. O corpo de Rodrigues foi jogado do alto da Serra da Ibiapaba, no município de São Benedito. Parte do grupo foi preso no dia seguinte ao assassinato e o restante foi identificado no decorrer das investigações.

Foram indiciados pelo caso Francisco William Montenegro, Carlos Thimonshenko, Valdemar Rodrigues Meneses (acusado de ser o autor dos disparados contra o empresário), José Sales de Oliveira, GilbertoTelmo Sidnei Marques, Antônio Experidião Neto, João Xavier de Lacerda e José Bento da Silva. Todos foram, assim como os militares, anistiados.

Nesta segunda, José Miguel Vivanco , diretor da ONG Human Rights Watch, disse que o documento erra por não listar crimes cometidos por organizações de esquerda que atuavam contra o regime. “Se houve abusos de grupos armados irregulares, isso deve constar de um informe dessa natureza“, afirmou.

Ao que tudo indica, parece ser esse o caso em relação aos crimes ocorridos no Ceará. Por José Armando Rodrigues ninguém chorou na solenidade de entrega do relatório para a presidente Dilma.

 

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Comissões da Verdade no Ceará e uma verdade incômoda

Por Wanfil em História

27 de Fevereiro de 2013

Revisões da história necessitam de objetividade e transparência, para evitar distorções que embaçam a mente.

Revisões da história necessitam de objetividade e transparência, para evitar distorções que embaçam a mente.

Será instalada nesta quarta-feira (27) a Comissão da Verdade dos Jornalistas do Ceará, com a missão de investigar crimes cometidos contra integrantes da categoria durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985. Já existem comissões semelhantes por todo o Brasil. Aqui mesmo no Ceará temos a Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou. Muito provavelmente, jornalistas já foram indenizados pela comissão mais antiga, sendo desnecessário mais pagamentos feitos pela nova entidade. No entanto, não quero aqui me ater a essas particularidades, mas ao espírito que emana dessas iniciativas como um todo e do risco de distorções históricas.

A anistia

Para que a transição do regime autoritário para o democrático se desse em ambiente de estabilidade política, em 1979 foi promulgada a Lei da Anistia, de caráter geral, amplo e irrestrito, perdoando todos os que “cometeram crimes políticos ou conexo com estes”. No período, muitos crimes comuns e hediondos foram perpetrados em nome de princípios políticos, tanto pelos agentes da ditadura como por guerrilheiros que viam no combate ao governo militar a oportunidade para um novo golpe, com sinal ideológico invertido. Existiam, claro, militares que não cometeram crimes e democratas que combateram o regime de forma pacífica, arriscando apenas a própria vida.

Com o passar do tempo, a anistia passou a ser vista por alguns grupos engajados como sinônimo de impunidade. Uma vez que a lei não foi revogada, a solução para atender o natural pedido de justiça de parentes de vítimas da ditadura foi a criar comissões que pudessem, pelo menos, compensar com indenizações o sofrimento dos que foram perseguidos pelo estado.

Dilema

A questão é que existe um dilema pouco debatido, encoberto por uma fantasia ideológica que intenta a uma construção histórica. Se por um lado o estado é moralmente reconhecido como responsável pelos crimes que cometeu – o que é justo -, por outro, aqueles que pereceram e foram perseguidos pelos grupos revolucionários não têm a quem pedir justiça ou reparação. Oficialmente, são crimes sem reconhecimento, sem autores, só com vítimas.

Temos assim uma revisão capenga, que pende desequilibrada para um lado. Não por acaso, essas comissões estão apinhadas de filiados a partidos de esquerda e de simpatizante de guerrilhas totalitaristas, imbuídos do desejo mal disfarçado de acertar contas com os inimigos do passado.

Tudo seria simples se apenas militares e agentes do governo fossem maus e tivessem cometidos violações em nome de uma causa: a própria ditadura. Acontece que militantes de esquerda também cometeram crimes como roubo, sequestro, tortura e assassinato, só que em nome de outra causa: a revolução comunista para instaurar a ditadura do proletariado. Aliás, o movimento revolucionário armado no Brasil começou antes de 64, e não como reação ao golpe (ver Combate nas Trevas, do marxista-leninista Jacob Gorender).

Esses grupos radicais se inspiravam em ditaduras estrangeiras, como a soviética (alguns eram patrocinados por Moscou – ver Camaradas, de William Waack). Portanto, não é correto imaginar que toda luta contra a ditadura foi uma luta pela democracia. Essa ideia é uma impostura que busca construir mitos e apagar fatos.

Como um dos ideais da democracia é a igualdade de todos perante a lei, não é possível que crimes cometidos por um lado, ainda que seja o mais forte, sejam punidos, enquanto os cometidos pelo outro lado fiquem impunes ou, no mínimo, sem reconhecimento oficial. Essa é uma verdade que incomoda.

Justiça ou revanche?

No Ceará há um caso que bem ilustra essa dificuldade em separar o preto do branco quando tudo é cinza. Em 29 de agosto de 1970, o empresário José Armando Rodrigues foi assaltado, sequestrado, torturado e morto a tiros por membros da Ação Libertadora Nacional (ALN). Seu corpo foi jogado num precipício na serra de Ibiapaba, no município de São Benedito. Seus autores, muitos ainda vivos, assim como os militares da época envolvidos com crimes, foram anistiados.

Evidentemente, esse caso não justifica a ditadura ou invalida as indenizações pagas pelas comissões. Também não se trata de escolher um lado entre os radicais de direita e os radicais de esquerda, pois isso seria incorrer no erro que aqui se aponta. Serve mesmo para ilustrar que o maniqueísmo é inadequado para a investigação histórica desse período, pois limita o processo de revisão. O ideal é que essas comissões sejam compostas por pessoas que não ajam motivadas por paixões ideológicas e que não as usem para reescrever a biografia de gente que, apesar de perseguida pela ditadura, também cometeu crimes imperdoáveis, ignorando o sofrimento de suas vítimas. Se não for assim, a busca pela justiça termina em simples revanche.

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Comissões da Verdade no Ceará e uma verdade incômoda

Por Wanfil em História

27 de Fevereiro de 2013

Revisões da história necessitam de objetividade e transparência, para evitar distorções que embaçam a mente.

Revisões da história necessitam de objetividade e transparência, para evitar distorções que embaçam a mente.

Será instalada nesta quarta-feira (27) a Comissão da Verdade dos Jornalistas do Ceará, com a missão de investigar crimes cometidos contra integrantes da categoria durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985. Já existem comissões semelhantes por todo o Brasil. Aqui mesmo no Ceará temos a Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou. Muito provavelmente, jornalistas já foram indenizados pela comissão mais antiga, sendo desnecessário mais pagamentos feitos pela nova entidade. No entanto, não quero aqui me ater a essas particularidades, mas ao espírito que emana dessas iniciativas como um todo e do risco de distorções históricas.

A anistia

Para que a transição do regime autoritário para o democrático se desse em ambiente de estabilidade política, em 1979 foi promulgada a Lei da Anistia, de caráter geral, amplo e irrestrito, perdoando todos os que “cometeram crimes políticos ou conexo com estes”. No período, muitos crimes comuns e hediondos foram perpetrados em nome de princípios políticos, tanto pelos agentes da ditadura como por guerrilheiros que viam no combate ao governo militar a oportunidade para um novo golpe, com sinal ideológico invertido. Existiam, claro, militares que não cometeram crimes e democratas que combateram o regime de forma pacífica, arriscando apenas a própria vida.

Com o passar do tempo, a anistia passou a ser vista por alguns grupos engajados como sinônimo de impunidade. Uma vez que a lei não foi revogada, a solução para atender o natural pedido de justiça de parentes de vítimas da ditadura foi a criar comissões que pudessem, pelo menos, compensar com indenizações o sofrimento dos que foram perseguidos pelo estado.

Dilema

A questão é que existe um dilema pouco debatido, encoberto por uma fantasia ideológica que intenta a uma construção histórica. Se por um lado o estado é moralmente reconhecido como responsável pelos crimes que cometeu – o que é justo -, por outro, aqueles que pereceram e foram perseguidos pelos grupos revolucionários não têm a quem pedir justiça ou reparação. Oficialmente, são crimes sem reconhecimento, sem autores, só com vítimas.

Temos assim uma revisão capenga, que pende desequilibrada para um lado. Não por acaso, essas comissões estão apinhadas de filiados a partidos de esquerda e de simpatizante de guerrilhas totalitaristas, imbuídos do desejo mal disfarçado de acertar contas com os inimigos do passado.

Tudo seria simples se apenas militares e agentes do governo fossem maus e tivessem cometidos violações em nome de uma causa: a própria ditadura. Acontece que militantes de esquerda também cometeram crimes como roubo, sequestro, tortura e assassinato, só que em nome de outra causa: a revolução comunista para instaurar a ditadura do proletariado. Aliás, o movimento revolucionário armado no Brasil começou antes de 64, e não como reação ao golpe (ver Combate nas Trevas, do marxista-leninista Jacob Gorender).

Esses grupos radicais se inspiravam em ditaduras estrangeiras, como a soviética (alguns eram patrocinados por Moscou – ver Camaradas, de William Waack). Portanto, não é correto imaginar que toda luta contra a ditadura foi uma luta pela democracia. Essa ideia é uma impostura que busca construir mitos e apagar fatos.

Como um dos ideais da democracia é a igualdade de todos perante a lei, não é possível que crimes cometidos por um lado, ainda que seja o mais forte, sejam punidos, enquanto os cometidos pelo outro lado fiquem impunes ou, no mínimo, sem reconhecimento oficial. Essa é uma verdade que incomoda.

Justiça ou revanche?

No Ceará há um caso que bem ilustra essa dificuldade em separar o preto do branco quando tudo é cinza. Em 29 de agosto de 1970, o empresário José Armando Rodrigues foi assaltado, sequestrado, torturado e morto a tiros por membros da Ação Libertadora Nacional (ALN). Seu corpo foi jogado num precipício na serra de Ibiapaba, no município de São Benedito. Seus autores, muitos ainda vivos, assim como os militares da época envolvidos com crimes, foram anistiados.

Evidentemente, esse caso não justifica a ditadura ou invalida as indenizações pagas pelas comissões. Também não se trata de escolher um lado entre os radicais de direita e os radicais de esquerda, pois isso seria incorrer no erro que aqui se aponta. Serve mesmo para ilustrar que o maniqueísmo é inadequado para a investigação histórica desse período, pois limita o processo de revisão. O ideal é que essas comissões sejam compostas por pessoas que não ajam motivadas por paixões ideológicas e que não as usem para reescrever a biografia de gente que, apesar de perseguida pela ditadura, também cometeu crimes imperdoáveis, ignorando o sofrimento de suas vítimas. Se não for assim, a busca pela justiça termina em simples revanche.