Segurança Archives - Página 5 de 9 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Segurança

Crise na Segurança? Já?! – Ou: “De onde menos se espera…”

Por Wanfil em Segurança

25 de Fevereiro de 2015

No que diz respeito à segurança pública, os cearenses estão como São Tomé: não adianta mais prometer-lhes resultados, eles só acreditam vendo. Imagem: A Incredulidade de São Tomé, de Caravaggio (1599)

No que diz respeito à segurança pública, os cearenses estão como São Tomé: só acreditam vendo.
Imagem: A Incredulidade de São Tomé, de Caravaggio (1599)

Boatos sobre uma crise na Secretaria de Segurança do Ceará se alastraram como fogo na palha nos últimos dias, especialmente com o mistério em torno da demissão do secretário executivo da pasta, Odécio Carneiro. Versões e dúvidas se multiplicam. Seguem algumas:

1) Odécio teria descoberto um esquema de desvio de recursos feito na gestão passada e por isso teria perdido o cargo. Hipótese reforçada pela falta de explicações sobre a sua saída. Foi demitido ou pediu demissão? Qual o motivo?

2) Delci Teixeira, titular da secretaria, teria discutido com o governador Camilo Santana, reclamando de falta de autonomia, chegando a colocar o cargo à disposição;

3) O governo já estaria com o nome de um possível substituto para Delci, enfraquecido pelo aumento da violência já no início do governo. Em dois meses de gestão Camilo (que prometeu cuidar pessoalmente da área), foram registrados mais de 700 homicídios no Ceará;

4) A crise na segurança não estaria restrita a conflitos com a tropa, mas instalada em seu próprio comando.

Desconfiança
Diante disso, em entrevista, o governador disse que o secretário tem total autonomia para nomear e demitir quem quiser. Nada mais. Assim fica tudo muito incerto e sujeito a especulações. O governo precisa abrir o olho, pois boatos só prosperam onde existem dúvidas. E por que essas dúvidas existem? Simples. É que há uma desconfiança generalizada da população no que diz respeito a segurança pública. Primeiro, porque sente na pele a violência; segundo, porque está cansada de discursos.

Trata-se, com efeito, da área mais complicada e com os piores resultados durante a gestão do ex-governador Cid Gomes. E como a atual administração é de continuidade, ou seja, como não está disposta a passar a limpo questões que possam causar constrangimentos ao antecessor, fica a expectativa. É uma desconfiança natural que faz lembrar aquela máxima de Apparício Torelly, o Barão de Itararé:

De onde menos se espera, daí é que não sai nada.

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Quem diria: agora o Capitão Wagner é gente boa

Por Wanfil em Segurança

09 de Janeiro de 2015

As voltas que o mundo dá… Há menos de um mês o Capitão Wagner, liderança entre policiais do Ceará, era apontado pelo agora ex-governador Cid Gomes e seu irmão Ciro Gomes como causa principal dos problemas de segurança no Ceará nos últimos anos, sendo acusado de liderar uma suposta milícia e de agir com interesses meramente eleitorais. Pois agora o governador Camilo Santana (PT) fez o que parecia inimaginável: recebeu Wagner no Palácio da Abolição, na condição de deputado estadual eleito pelo PR e interlocutor legítimo para assuntos de segurança.

A conversa foi mais uma entre os vários encontros individuais que o governador tem feito com deputados estaduais, mas, de todas, a audiência com Wagner, policial militar que liderou uma paralisação da categoria entre o final de 2011 e início de 2012, era a que gerava mais expectativas.

É simplesmente o mais inteligente a ser feito. Se de um lado realmente é preocupante a existência de movimentos que ameacem o sentido de hierarquia nas corporações militares, de outro é inegável que a relação da gestão Cid com os policiais se desgastou até se transformar numa crise de autoridade que degenerou para uma crise institucional, que por fim agravou ainda mais a insegurança no estado, já cambaleante, com índices obscenos de criminalidade, políticas públicas equivocadas e investimentos caros sem retorno. Assim, ao tentar personalizar esse processo na figura de uma única pessoa para fazê-la de bode expiatório da violência, a gestão Cid acabou catapultando a liderança do Capitão – em que pese eventuais críticas ao seu discurso -, para além dos limites da militância corporativa. A reação intempestiva e inábil das autoridades fez com que parte considerável do eleitorado passasse a ver nele o contraponto de protesto contra a situação precária da segurança e o elegesse com votações recordes para vereador e deputado estadual.

Por tudo isso, a nova gestão, ao contrário da anterior, não pretende, ao que tudo indica, enveredar pelo caminho da confrontação. Seria burrice. Os militares também acenam com uma postura mais amistosa. Para não ficar apenas nas palavras, no mesmo dia do encontro o governo anunciou a troca no comando da PM. O novo secretário de Segurança, Delci Teixeira, já trocou elogios públicos com o Wagner. Ficou decidido ainda que o deputado será recebido pelo chefe de gabinete Hélcio Batista e pela vice-governadora Isolda Cela, para tratar sobre reivindicações dos policiais e questões de segurança pública. Como dizem os mais jovens: bufo!

Ao ver essa mudança, fico aqui pensando nos comissionados e terceirizados pendurados nas repartições públicas (herança que lamentavelmente não entrou, por questões políticas, no corte dos gastos de custeio da nova administração), bem como em alguns secretários, assessores e deputados que saíram pelas redes sociais esculhambando o Capitão Wagner na campanha eleitoral. E agora? Poderiam ficar indignados e pedir para saírem, ou romperem com o governo acusando traição, mas algo me diz que ficarão caladinhos. São lindos, eles.

Se esse movimento de diálogo e aproximação vai render dividendos, eu não sei. Espero, pelo bem geral, que sim. Agora é possível dizer apenas que os primeiros passos rumo a uma solução estão sendo dados. Governo e policiais parecem ter consciência de que a intransigência é o pior caminho para quem deseja realmente negociar. Enquanto isso, resta esperar e torcer para que tudo se desenrole de maneira positiva e que enfim os responsáveis pela segurança pública – autoridades, oficiais e tropa -, possam finalmente focar sua atenções no combate ao crime e na redução dos índices de violência. Isso é o que realmente interessa.

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O crime cresce no Ceará e o que fazem o Executivo e o Legislativo? Reduzem penas para os criminosos!

Por Wanfil em Segurança

06 de dezembro de 2014

Nesta semana a Assembleia Legislativa do Ceará aprovou o projeto de lei, de iniciativa do Executivo, que prevê a redução de pena para detentos que lerem obras literárias. Para cada livro, quatro dias a menos de cadeia, podendo chegar a 48 dias por ano. Por que um livro vale quatro dias e não três ou cinco? Não sei e acredito que nenhum parlamentar saiba. No entanto, vale aqui refletir sobre a essência da matéria.

A ideia de ajudar presos a voltarem ao convívio social é válida como princípio humanista. Isso não se questiona. Se reduzir penas contribui para isso, aí é discutível. Especialistas têm posições diversas a respeito. José Dirceu leu um monte de livros na Papuda. Se hoje é uma pessoa melhor, é um mistério. A questão, nesse caso do Ceará em particular, é o modo e a hora. O “quando” e o “como”, sem esquecer ainda o “quem”. Vou explicar melhor o raciocínio.

Vamos começar pelo “quem”. A política de segurança pública da gestão Cid Gomes, idealizadora do projeto, é um retumbante fracasso, não obstante acertos e méritos em outras áreas. Nunca o crime cresceu tanto como nos últimos oito anos. Segundo o  Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2014, o Ceará tem a segunda maior taxa de homicídios do Brasil. Em 2006 o Estado era o 15º nesse ranking. Pois bem, a pedido dessa gestão, a proposta foi endossada pela base aliada na Assembleia Legislativa. Somente os deputados Heitor Férrer (PDT) e Daniel Oliveira (PMDB) foram contra. Trata-se da mesma base que fechou os olhos para a degradação dos índices de segurança durante esse tempo e que acusou de “pessimistas” os críticos da política em vigor. Faltam-lhes, pois, condições de liderança para agir nesse sentido.

De qualquer jeito, são esses que aparecem agora no último mês do último ano de mandato (olha o “quando”), no apagar das luzes da atual legislatura, para posarem de autoridades ciosas e operantes, preocupadas com a reinserção de presos. No fundo, estão a repetir a cantilena de que tudo não passa de uma questão social, de compreender a psicologia e a sociologia do crime, de ser menos ostensivo e mais compreensivo, de modo que a presente situação possa ser imputada aos limites da condição humana e não à incompetência administrativa e política dessas mesmas autoridades. Como se isso fosse a prioridade do momento. Ora, ajudem a melhorar, senhores, as condições de trabalho da polícia e dos presídios! Seria bem mais útil.

Agora vamos ao “como”. Eu já disse que o debate sobre a ressocialização de presos é legítima. Ocorre que, diante de uma crise de segurança como a que vivemos é preciso antes discutir como reduzir a criminalidade. É tautológico, mas é isso. O italiano Cesare Beccaria já dizia no clássico Das Penas e dos Delitos (1746), que “o rigor das penas deve ser relativo ao estado atual da nação”. Com efeito, o atual estado no Ceará é de conflagração aberta, com vantagem para os criminosos. Beccaria também acreditava que a melhor forma de prevenir os crimes “é a certeza do castigo”. Ou seja, a impunidade estimula o criminoso. No Ceará, existem quase 60 mil mandados de prisão em aberto, segundo o Ministério Público. Boa parte da onda de violência nasce dessa incapacidade de punir bandidos. Mas para o Executivo e o Legislativo no Ceará, a solução é abrandar as penas daqueles que, eventualmente, foram presos. Depois ficam surpresos como tanto investimento em segurança não gerou resultados.

PS. Não estou pregando aqui a violência contra detentos, maus tratos, essas coisas. A prisão deve refletir o sentido de Justiça para proteger, acima de tudo, as pessoas de bem. Se der para recuperar, ótimo, se não der, que o indivíduo seja segregado do convívio com os demais. O momento é de mostrar rigor na aplicação da lei. “Tolerância Zero”. E isso vale também para o Judiciário na hora de ajudar a debelar essa crise. Pedir com jeitinho não vai assustar bandido. É preciso a certeza da punição, da prisão que não seja chamada de “engorda” ou que seja vista como mero contratempo, para intimidar a criminalidade. 

 

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Camilo diz que governo sabe quando e onde os crimes acontecem. Ótimo! Se é assim, só falta agir!

Por Wanfil em Segurança

21 de novembro de 2014

Atenção para a fala do governador eleito Camilo Santana (PT), em entrevista concedida após reunião com a equipe de transição, na quinta-feira (20), para avaliar a situação da segurança pública.

“Hoje o nível de tecnologia, o nível de organização da polícia hoje no Ceará na segurança evoluiu tanto, que hoje a gente sabe onde é que são as áreas mais críticas, os horários que acontecem o maior número de homicídios ou de crimes.”

Repare que o novo governador enfatiza bem o tempo presente com a repetição do advérbio “hoje”. É um tributo ao ainda governador Cid Gomes (Pros), seu padrinho político. Não há o antes, só o agora dotado de qualidades inéditas. Se é assim, é uma boa notícia, uma vez que sabendo onde e quando os crimes acontecem, basta agora partir para a ação. Fica até difícil explicar por qual razão os índices de criminalidade não caíram vertiginosamente. Por incrível que pareça ao governador eleito, o Ceará hoje é o segundo estado mais violento do Brasil, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em 2006, o Estado ocupava a 15ª posição.

O problema desse excesso de zelo para não ferir suscetibilidades é deixar de ver a realidade. Isso não implica em falta de reconhecimento a respeito desses investimentos, mas se não houver a aceitação de que o modelo adotado hoje falou, não será possível fazer as devidas correções para o próximo ano, para o amanhã.

A experiência dos últimos oito anos mostra que esse investimento em equipamentos e tecnologia não foi o bastante. Evidentemente Camilo não precisa sair criticando a gestão Cid, que isso seria deselegante, mas é importante ter em vista que o desastre – e a palavra é essa mesmo – na segurança pública do Ceará é político. Na verdade, faltam rumo e liderança. E isso não pode ser comprado.

É preciso deixar claro desde o início que a política da nova gestão é de tolerância zero, que polícia e governo são parceiros, que a máquina está realmente organizada para atuar de forma coordenada. A crise de segurança, repito quantas vezes for necessário, é antes uma crise de autoridade que só pode ser debelada com pulso firme e sem tergiversações.

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Mapa da Violência 2014 mostra desastre na segurança: é assim que a gente faz, um novo Ceará…

Por Wanfil em Segurança

28 de Maio de 2014

Ceará-mapaUma prévia do Mapa da Violência 2014 divulgada nesta terça-feira (27) mostrou o Ceará como o segundo estado brasileiro com maior crescimento em números de homicídios, com uma alta de 37,7% entre 2011 e 2012. Ficou ainda na terceira posição no índice de assassinatos, com uma taxa de 44,6 por grupo de 100 mil habitantes. Ao ler isso, imediatamente me veio à mente aquela canção da propaganda: “é assim que a gente faz, um novo Ceará…” É… O marketing realmente toca fundo nos labirintos da mente.

O estudo foi realizado pela Faculdade Latino-America de Ciências Sociais, a partir de dados consolidados pelo Ministério da Saúde em todo o país, relativos ao ano de 2012. Como em 2013 o quadro degenerou ainda mais no Ceará, conforme estatísticas da própria Secretaria de Segurança, a situação tende a piorar na edição de 2015. Mas o que temos já basta para comprovar a realidade que o cearense vive.

O todo e as partes
De modo geral, a violência cresceu no Brasil como um todo. Pulou de 49 mil homicídios em 2002 para 56 homicídios em 2012. São números estarrecedores, de guerra civil, que servem ainda para dar verossimilhança ao argumento defendido pelo governador Cid Gomes e seus liderados, para explicar a onda de crimes no Ceará. Para as nossas autoridades locais, como o fenômeno é nacional, com especial gravidade no Nordeste, a responsabilidade dos governos estaduais nesses resultados acabaria reduzida. Ocorre que o quadro geral esconde a heterogeneidade da distribuição desses crimes  no território nacional.

Ceará é o pior do NE
O aspecto mais interessante do Mapa da Violência é a oportunidade de comparar dados entre os estados. Assim, enquanto no Ceará a Taxa de Homicídios cresceu 36,5% entre 2011 e 2012, em Pernambuco esse índice caiu 5,1%, na Paraíba recuou 6,2% e em Alagoas despencou 10,4%! Nos demais estados do Nordeste que registraram alta nos assassinatos, todos ficaram abaixo do Ceará. Na região, a segunda maior taxa é de Sergipe, com 18,3%, metade da cearense! Ou seja, se a situação é ruim no Brasil como um todo e no Nordeste em particular, no Ceará é pior ainda. A diferença, nesses casos, é preciso dizer, tem nome: gestão!

Segurança e eleições
O tema segurança pública é o assunto das eleições estaduais neste ano. O governo tem buscado ações de curto prazo, um esforço na comunicação institucional e no campo político, vem procurando rebater com mais energia críticas de adversários.

Recentemente, o próprio governador Cid Gomes acusou de eleitoreiras as propagandas partidárias da oposição que tocaram no tema. O problema é que contra fatos, não há argumentos. Dizer que fez tudo o que era possível não cola mais, pois basta comparar nossa situação com a dos vizinhos. Pior ainda é insistir na conversa de que nunca tantos recursos foram investidos na área. É verdade, mas olhando os resultados obtidos, isso aos mais como uma confissão de incompetência. Pedir mais tempo é ridículo, afinal, lá se vão sete anos e meio de gestão (entre 2002 e 2012, os homicídios no Ceará cresceram 166%).

Eu poderia dar sugestões de como abordar o tema de outra forma. Mas aí seria pretensão demais. Afinal, o que não faltam no governo são equipes de assessores e de consultores de segurança, comunicação e marketing (“é assim que gente faz…”) muito bem pagos para orientar a gestão Cid Gomes como explicar a situação. Sabe como é: sem resultados concretos para apresentar, a saída é apostar na velha e boa lábia.

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O que não dá pra disfarçar é a insegurança

Por Wanfil em Segurança

11 de Abril de 2014

O governo do Estado lançou na quinta-feira (10) o Programa em Defesa da Vida, que já vinha funcionando em “caráter experimental” desde janeiro. É o conjunto de ações implementadas pelo secretário Servilho Paiva, importado de Pernambuco para tentar estancar a sangria nos índices de violência no Ceará, com destaque para divisão do Estado em 18 áreas de segurança e a remuneração extra para policiais que alcançarem as metas estabelecidas.

Na ocasião, o governador Cid Gomes afirmou, em tom de desabafo, que gostaria de andar disfarçado para ver como funciona a criminalidade. Trata-se, claro, de uma figura de linguagem que não deve ser levada ao pé da letra. Na verdade, o desejo aí expressado é uma forma oblíqua de dizer que a complexidade da insegurança ultrapassa a efetividade das ações empreendidas na área até o momento. Indo mais longe um pouco, não deixa de ser um reconhecimento de que a autoridade constituída não sabe o que fazer. Daí a necessidade de um programa em “caráter experimental” lançado no último ano de sua segunda gestão.

A frustração do governador é compreensível. Certamente, ninguém mais do que ele gostaria de acertar o rumo, mas isso não basta, como atestam os números surreais no setor. E com poucos meses restando para o fim do mandato, é praticamente impossível alguma mudança de impacto ainda na a gestão Cid Gomes. Resta tentar estabilizar o quadro e reduzir os danos de imagem aferidos em pesquisas, já que estamos em ano eleitoral.

Consciente disso, o governo busca um novo discurso para amenizar as inevitáveis críticas de opositores de até de aliados. A conversa batida sobre grandes investimentos, apesar de verdadeira, não cola mais, uma vez que os resultados não apareceram. Aliás, soa mesmo como uma confissão de que os recursos não foram bem utilizados. Por isso agora o reforço de argumentação, com o anúncio de novas metodologias baseadas em análises científicas. A prioridade agora é reunir material para os marqueteiros trabalharem.

Só que aí relatórios de organismos internacionais (até a ONU!) teimam em ofuscar o discurso oficial, classificando o Ceará como um do lugares mais perigosos do mundo. Se o governador quisesse mesmo andar disfarçado, isso seria fácil, porém, perigoso. Difícil mesmo é enxergar uma saída até outubro ou até o final da gestão. Se tem algo que não tem como disfarçar de jeito nenhum, é a nossa insegurança.

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Terra sem lei: morticínio no Ceará ultrapassa muito tragédias da Malaysia Airlines e Boate Kiss

Por Wanfil em Segurança

25 de Março de 2014

O Ceará está de joelhos, rendido, humilhado, sem forças, pasmo, frouxo, lerdo, atônito e inerte diante da brutal escalada do crime em seu território. Somente em 2014, já foram registrados algo em torno de 800 assassinatos em Fortaleza e região metropolitana. Isso equivale aproximadamente a 3,3 incêndios da Boate Kiss (242 mortos), que causou comoção e indignação nacional no início de 2013; ou ao mesmo número de acidentes como o do avião da Malaysia Airlines (239 passageiros), que desde o início de março deste ano mobiliza atenções do mundo inteiro.

Outro caso de grande repercussão nacional foi a onda de execuções de detentos que em um ano fez 62 vítimas no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no Maranhão, entre 2013 e 2014. A Procuradoria Geral da República cogitou pedir intervenção federal lá, como já havia feito em Rondônia, em 2008, por violação dos direitos humanos. No entanto, a governadora Roseana Sarney (PMDB), com a proteção política do Planalto, conseguiu contornar a situação ao apresentar um plano emergencial.

O morticínio verificado nas ruas da Grande Fortaleza nos três primeiros meses deste ano corresponde a 12,5 anos de execuções em Pedrinhas. Trata-se, com efeito, de um grave atentado contra os direitos humanos, principalmente por ser ação rotineira e de grande escala.

Tragédias do cotidiano

Existem as tragédias que chocam por quebrarem a rotina e existem as tragédias que estão inseridas na rotina. Esse é o caso da insegurança no Ceará. O desastre no Ceará não causa clamor nacional porque é diluída no dia a dia. Sem barreiras, a violência cresceu de modo que não pode mais ser disfarçada ou negada. Seja qual for a fonte escolhida, boletins da Secretaria de Segurança do Ceará, o Mapa da Violência do Instituto Sangari ou o relatório da ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal (que aponta Fortaleza como a 7ª cidade mais violenta do mundo), a realidade incontornável é que os homicídios cresceram e avançam assustadoramente no Ceará.

Urgência

Já não se trata mais de discutir as causas desse fenômeno ou de procurar culpados. Isso é importante, mas a situação se degradou de tal forma, que a questão agora é saber como debelar essa onda no curto prazo, estancar a sangria. É preciso ser objetivo. Dizer que a gestão Cid Gomes fracassou nessa área, a ponto de ofuscar eventuais méritos em outros setores, não é fazer juízo de valor, é apenas a constatação empírica de uma situação. Nem o governo nega o problema, sob o risco de parecer esquizofrênico. Mais do que isso, na atual administração, seja pelo motivo que for, a coisa desandou de vez.

Do jeito que está, cada dia a mais corresponde a dezenas de vidas perdidas para o crime. Mas, o que fazer? Ainda que Cid renunciasse por conveniências eleitorais, o que prevaleceria é a sua, digamos assim, concepção particular de política pública para a segurança, com investimentos que não geram resultados.

Alternativas

Uma possibilidade é a fazer como no Maranhão: pressão. Muita pressão. Lá, pelo menos, as mortes reduziram de ritmo. Olha a que ponto chegamos. Assim, por que não uma intervenção federal no Ceará? Exagero? Não, senhores, exagero são os índices da criminalidade na Terra do Sol, já chamada por internautas de Terra do Sangue. O Art. 34 do Capítulo VI da Constituição Federal diz:

Art. 34. A União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para:
III – pôr termo a grave comprometimento da ordem pública;
VII – assegurar a observância dos seguintes princípios constitucionais:
b) direitos da pessoa humana.

A ordem pública não está comprometida? Ir ao banco é operação de risco elevadíssimo. Andar de ônibus também. Viver na periferia é quase uma condenação à morte. E viver em paz, ou com uma sensação mínima de paz, não é direito da pessoa humana?

Especialista

Não sou especialista em segurança. Se eles existem no Ceará, estão calados. Ninguém cobra o governo. Todos falam genericamente do problema, como se fosse um fenômeno meteorológico e não obra dos homens. Arrisco falar, portanto, na condição de refém da violência. Minha família (mulher e duas crianças) já foi atacada por bandidos no bairro Cidade dos Funcionários, na capital. Fugi recentemente de um arrastão na Igreja das Dunas ao sair de uma missa (crianças deitadas no piso do carro). Vou para o trabalho pelo caminho mais longo, pois o outro é ponto de bandidos. Tenho, como todo morador do Ceará, uma penca de amigos e colegas que foram assaltados. Portanto, sou especialista em andar assustado, vendo perigo em cada esquina, em cada evento, todos os dias.

Que chamem o Exército e a Força de Segurança Nacional, que alguém possa intermediar um acordo entre policiais e o comando da segurança, que mobilizem instituições de fora para cobrar soluções (os fiscalizadores locais parecem indispostos com a possibilidade de melindrar o Executivo estadual), que façam seja lá o que for. O que não dá mais é fingir que não estamos em guerra civil aberta, abandonados, enquanto nossas autoridades se ocupam de conchavos políticos pensando nas próximas eleições.

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Homicídios no Carnaval do Ceará: desastre anunciado

Por Wanfil em Segurança

05 de Março de 2014

Qualquer festa popular no mundo que acabe com dezenas de pessoas assassinadas é imediatamente classificada, com toda razão, de tragédia, consternando sua população e autoridades. A não ser que isso ocorra em ambientes de degradação da ordem e degeneração quase completa da autoridade constituída, onde o impacto do desastre se dilui no torpor anestesiado de uma sociedade já sem forças para reagir.

No Ceará, a discussão do momento é saber se o número de homicídios no Estado durante o Carnaval foi maior do que o registrado no ano anterior, ou se constitui ou não, uma curva ascendente que destoa dos outros finais de semana. Fala-se em 70 homicídios no período, o governo, reservadamente, nega. O balanço final deve ser divulgado pela Secretaria de Segurança nesta quinta.

Qualquer que sejam esses números, a simples expectativa de que tudo piorou, sentimento que nasce da percepção sensível e da famosa sensação de insegurança, já basta para mostrar que a coisa desandou de vez. Some-se a isso o avanço absurdo dos números da violência no Ceará, para que o quadro pós-carnaval se configure em morticínio anunciado, de certa forma, pela própria dinâmica do crime.

Publico abaixo uma foto que tirei na terça-feira de Carnaval, em Fortaleza, de um outdoor na Avenida Desembargador Gonzaga, no bairro Cidade dos Funcionários, que considero significativa dos dias atuais:

 

Outdoor Sindipol CE - Foto - Wanfil

Outdoor do Sindicato dos Policiais Civis do Ceará. Foto: Wanderley Filho

 

Trata-se de uma campanha movida pelo Sindicato dos Policiais Civis de Carreira do Estado do Ceará, com um retumbante alerta aos cidadãos: CUIDADO! Para dar credibilidade ao recado, a peça se vale do descrédito do governo estadual na área e manda ver: SEIS PESSOAS SÃO ASSALTADAS A CADA HORA NO CEARÁ.

O que esperar de um Estado onde policiais civis e militares vivem a denunciar a violência?

A resposta nos remete ao início do texto: vivemos o ápice de um processo de degeneração. Agora, resta-nos esperar a mórbida contagem oficial dos cadáveres do Carnaval. Restou-nos a contagem fria dos mortos. E resta-nos ainda rezar para que novos gestores apareçam o quanto antes.

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Eles votaram contra a redução da maioridade penal

Por Wanfil em Segurança

21 de Fevereiro de 2014

Senadores José Pimentel (PT-CE)) e Inácio Arruda (PCdoB - CE). Fotos: Agência Senado.

Senadores José Pimentel (PT-CE)) e Inácio Arruda (PCdoB – CE). Fotos: Agência Senado.

Por onze votos a oito, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) rejeitou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 33/2012, que reduz de 18 para 16 anos a maioridade penal em casos de crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas e terrorismo. Para os demais crimes continuaria valendo a inimputabilidade penal do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

A decisão foi comemorada por militantes dos direitos humanos.

Bancada cearense
Entre os membros da comissão que foram CONTRA a redução, estão os representantes do Ceará José Pimentel (PT) e Inácio Arruda (PC do B). Para os Excelentíssimos, fica tudo como está: o marmanjo que possui discernimento entre o certo e o errado, que pode votar, estudar e trabalhar, caso cometa um crime e depois ainda o repita reiteradas vezes, será tratado como vítima da sociedade, merecedor das brandas e breves restrições previstas no ECA.

Ônus
Certamente os onze que rejeitaram a proposta o fizeram por convicção. No entanto, ter posição significa, para o bem e para o mal, agradar a uns e desagradar a outros.  Nesse caso, diante da violência que avança e da convocação de adolescentes para o crime (justamente por causa das brechas legais), o risco é grande.

Por aqui, sempre que eleitores cearenses bem informados souberem de um crime hediondo cometido por um sociopata de 16 ou 17 anos, certamente lembrarão que, graças à contribuição de Pimentel e Inácio, os bandidos estarão de volta às ruas em breve, com a certeza de que passarão apenas alguns meses cumprindo medidas socioeducativas ou, como eles mesmos dizem no jargão da malandragem, na “engorda”. Menor não é preso, é apreendido.

Segurança na Copa, insegurança cozinha
Um dia depois da votação da PEC 33/2012, na quinta-feira (20), o governo federal anunciou um corte de 22,5% nos orçamentos de segurança em 2014. Entretanto, manteve a previsão de gastar 1,9 bilhão de reais com segurança destinada à Copa do Mundo, especialmente contra os prováveis protestos que acontecerão.

Fortaleza já é conhecida como uma das cidades mais violentas do mundo. O interior, notadamente nas regiões do Norte e do Nordeste, está entregue à própria sorte. Os presídios se transformaram em centrais de planejamento do crime. Oficialmente, são registrados  no Brasil 50 mil homicídios por ano. Mas o problema, para as autoridades, são os manifestantes (não confundir com os black blocs do PSOL) que protestam contra o desperdício e a corrupção.

Ficamos assim: segurança na Copa e insegurança em nossa própria cozinha, onde a violência, o crime e a impunidade crescem ano após ano. É esse desastre que os líderes governistas no Ceará chamam de aliança vitoriosa.

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‘Coletivo Seguro’ chega com sete anos e sete ônibus incendiados de atraso

Por Wanfil em Segurança

19 de Fevereiro de 2014

Um dos sete ônibus recentemente incendiados em Fortaleza, onde bandidos atacam secretaria e serviço público de transporte. Imagem: Tribuna do Ceará

Um dos ônibus incendiados em Fortaleza, onde bandidos atacam secretaria estadual e o serviço público de transporte. Imagem: Tribuna do Ceará

Entre o último domingo (16) e a terça-feira (18) criminosos promoveram um ataque a balas contra a sede da Secretaria de Justiça e atearam fogo em sete ônibus na capital do Ceará. Ninguém sabe ao certo ainda o motivo para os atentados. Em resposta, foram presos cinco suspeitos e a Secretaria de Segurança deu início a operação Coletivo Seguro.

Desmoralização

De acordo com o secretário Servilho Paiva, nomeado no final do ano passado, os crimes podem estar relacionados a disputas entre traficantes. O que eles ganhariam com isso é impossível dizer. Fica a impressão de que os bandidos estão enviando recados às autoridades ou a outros grupos criminosos. Ou aos dois. Hipótese tanto mais plausível pelo estado de desmoralização do poder público nessa área.

Um dos ônibus foi incendiado nas proximidades do Fórum Clóvis Beviláqua, símbolo do Judiciário. No ano passado, uma testemunha que acabara de prestar depoimento no Fórum foi executada a tiros, no que parece ter sido um acerto de contas. E os disparos contra a Secretaria de Justiça lembram os constantes ataques a delegacias no interior, feitos por quadrilhas de assaltantes de bancos. Ou seja, o crime não teme a Justiça ou o Executivo. Pelo contrário, afronta-os descaradamente.

Atentado é coisa bem diferente de assalto

Servilho Paiva agiu bem ao mostrar que os atentados contra coletivos serão investigados e combatidos, buscando assim impedir que a moda pegue. Mas é bom deixar claro que esses crimes possuem uma natureza distinta dos tradicionais assaltos a ônibus e vans, que segundo números oficiais apresentados pelo secretário, reduziram 39% em Fortaleza, somente em janeiro, repetindo o milagre da redução dos crimes violentos contra o patrimônio, que teriam caído 45%. Nesse ritmo incrível, faço aqui um breve parêntese, daqui a dois meses os assaltos registrados em coletivos terão acabado, por coincidência, bem no ano eleitoral.

Enquanto isso não acontece, volto ao tema central, é bom diferenciar atentados de crimes comuns. Se até o momento não é certo a motivação desses primeiros, o certo é que eles só acontecem em ambientes em que a segurança pública vive avançado estado corrosão. Antes de causar insegurança, são efeitos dela.

Sete anos depois…

Se traficantes pintam e bordam no Ceará, isso é consequência da falta de uma política de segurança eficiente. A ousadia dos criminosos, pois, aumenta à medida que o poder público não consegue contê-los. E assim, o crime agora tenta acuar instituições e serviços públicos, como já fez no Rio de Janeiro.

Por fim, uma observação. Não deixa de ser autoexplicativa a necessidade de se uma operação batizada com o nome Coletivo Seguro, após setes anos de uma gestão eleita justamente com o discurso de promover mais segurança. Mas, como dizem os otimistas, antes tarde do que nunca.

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‘Coletivo Seguro’ chega com sete anos e sete ônibus incendiados de atraso

Por Wanfil em Segurança

19 de Fevereiro de 2014

Um dos sete ônibus recentemente incendiados em Fortaleza, onde bandidos atacam secretaria e serviço público de transporte. Imagem: Tribuna do Ceará

Um dos ônibus incendiados em Fortaleza, onde bandidos atacam secretaria estadual e o serviço público de transporte. Imagem: Tribuna do Ceará

Entre o último domingo (16) e a terça-feira (18) criminosos promoveram um ataque a balas contra a sede da Secretaria de Justiça e atearam fogo em sete ônibus na capital do Ceará. Ninguém sabe ao certo ainda o motivo para os atentados. Em resposta, foram presos cinco suspeitos e a Secretaria de Segurança deu início a operação Coletivo Seguro.

Desmoralização

De acordo com o secretário Servilho Paiva, nomeado no final do ano passado, os crimes podem estar relacionados a disputas entre traficantes. O que eles ganhariam com isso é impossível dizer. Fica a impressão de que os bandidos estão enviando recados às autoridades ou a outros grupos criminosos. Ou aos dois. Hipótese tanto mais plausível pelo estado de desmoralização do poder público nessa área.

Um dos ônibus foi incendiado nas proximidades do Fórum Clóvis Beviláqua, símbolo do Judiciário. No ano passado, uma testemunha que acabara de prestar depoimento no Fórum foi executada a tiros, no que parece ter sido um acerto de contas. E os disparos contra a Secretaria de Justiça lembram os constantes ataques a delegacias no interior, feitos por quadrilhas de assaltantes de bancos. Ou seja, o crime não teme a Justiça ou o Executivo. Pelo contrário, afronta-os descaradamente.

Atentado é coisa bem diferente de assalto

Servilho Paiva agiu bem ao mostrar que os atentados contra coletivos serão investigados e combatidos, buscando assim impedir que a moda pegue. Mas é bom deixar claro que esses crimes possuem uma natureza distinta dos tradicionais assaltos a ônibus e vans, que segundo números oficiais apresentados pelo secretário, reduziram 39% em Fortaleza, somente em janeiro, repetindo o milagre da redução dos crimes violentos contra o patrimônio, que teriam caído 45%. Nesse ritmo incrível, faço aqui um breve parêntese, daqui a dois meses os assaltos registrados em coletivos terão acabado, por coincidência, bem no ano eleitoral.

Enquanto isso não acontece, volto ao tema central, é bom diferenciar atentados de crimes comuns. Se até o momento não é certo a motivação desses primeiros, o certo é que eles só acontecem em ambientes em que a segurança pública vive avançado estado corrosão. Antes de causar insegurança, são efeitos dela.

Sete anos depois…

Se traficantes pintam e bordam no Ceará, isso é consequência da falta de uma política de segurança eficiente. A ousadia dos criminosos, pois, aumenta à medida que o poder público não consegue contê-los. E assim, o crime agora tenta acuar instituições e serviços públicos, como já fez no Rio de Janeiro.

Por fim, uma observação. Não deixa de ser autoexplicativa a necessidade de se uma operação batizada com o nome Coletivo Seguro, após setes anos de uma gestão eleita justamente com o discurso de promover mais segurança. Mas, como dizem os otimistas, antes tarde do que nunca.