Morre cobrador queimado em ataque ordenado por facções e nada muda nos presídios. E ninguém responde por nada. É a banalidade da insegurança - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Morre cobrador queimado em ataque ordenado por facções e nada muda nos presídios. E ninguém responde por nada. É a banalidade da insegurança

Por Wanfil em Segurança

09 de Maio de 2017

Hannah Arendt falava da banalidade do mal para estudar o Holocausto; hoje, no Ceará, vivemos a banalidade da insegurança

Morreu ontem o cobrador José Nunes de Sousa Neto, queimado num ataque a ônibus em Fortaleza, na tarde do dia 19 de abril passado. Em nota, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Ceará mostrou indignação e disse que “José Nunes de Sousa Neto, vítima da prática criminosa e recorrente de incêndios a ônibus e que tem colocado em risco a vida de trabalhadores do transporte e cidadãos”. Não adianta. O poder público é incapaz de impedir esse tipo de ação, planejado por fações criminosas que atuam nos presídios. Essa é a verdade e a palavra “recorrente” da nota diz tudo.

O secretário de Segurança, André Costa, afirmou que ninguém merece morrer assim. Ninguém discorda, por certo. Lembrou que 16 pessoas foram presas por causa dos ataques. Como e de quem os bandidos receberam as ordens? São os mesmo que atearam fogo ao ônibus de José Nunes. Ninguém parece saber.

Aqui no Ceará é assim, o que é ruim é tratado sempre como mera fatalidade, pois não há autoridade ou gestor que assuma a responsabilidade pela soma de erros que fizeram dos presídios o centro de coordenação do crime organizado. Dá-se por barato que as coisas sejam como são, que dezenas de cearenses morram assassinados todos os finais de semana, que tenhamos cercas elétricas nos muros das nossas casas, que o Ceará seja o terceiro mercado brasileiro para carros blindados.

“Ah, Wanderley, esse é um problema que acontece em todo o Brasil”. Verdade. Mas não é o que dizem nas campanhas eleitorais, não é mesmo? Além do mais, a morte de José Nunes não resultou de um assalto comum, mas de um atentado organizado por presos. E então? Ninguém responde por essas falhas? Fica tudo por isso mesmo? A resposta é sim. José Nunes virou, como tantos outros, estatística. Hannah Arendt falava da banalidade do mal para estudar o Holocausto; hoje, vivemos nestes trópicos a banalidade da insegurança.

O Ceará, assim como o Rio de Janeiro, está a mercê de ataques contra o transporte público e até contra delegacias. Nos dois casos, a presente situação é mais grave por causa de políticas de segurança ruins e equivocadas. Por aqui, centenas de milhões de reais foram gastos na reforma do Castelão para uns poucos jogos e no projeto de um aquário parado, tudo sob o entusiasmado aplauso da maioria dos eleitores, enquanto presos tomavam conta do sistema penitenciário e transformavam o estado no mais violento do País.

Escolhas têm consequências.

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Morre cobrador queimado em ataque ordenado por facções e nada muda nos presídios. E ninguém responde por nada. É a banalidade da insegurança

Por Wanfil em Segurança

09 de Maio de 2017

Hannah Arendt falava da banalidade do mal para estudar o Holocausto; hoje, no Ceará, vivemos a banalidade da insegurança

Morreu ontem o cobrador José Nunes de Sousa Neto, queimado num ataque a ônibus em Fortaleza, na tarde do dia 19 de abril passado. Em nota, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Ceará mostrou indignação e disse que “José Nunes de Sousa Neto, vítima da prática criminosa e recorrente de incêndios a ônibus e que tem colocado em risco a vida de trabalhadores do transporte e cidadãos”. Não adianta. O poder público é incapaz de impedir esse tipo de ação, planejado por fações criminosas que atuam nos presídios. Essa é a verdade e a palavra “recorrente” da nota diz tudo.

O secretário de Segurança, André Costa, afirmou que ninguém merece morrer assim. Ninguém discorda, por certo. Lembrou que 16 pessoas foram presas por causa dos ataques. Como e de quem os bandidos receberam as ordens? São os mesmo que atearam fogo ao ônibus de José Nunes. Ninguém parece saber.

Aqui no Ceará é assim, o que é ruim é tratado sempre como mera fatalidade, pois não há autoridade ou gestor que assuma a responsabilidade pela soma de erros que fizeram dos presídios o centro de coordenação do crime organizado. Dá-se por barato que as coisas sejam como são, que dezenas de cearenses morram assassinados todos os finais de semana, que tenhamos cercas elétricas nos muros das nossas casas, que o Ceará seja o terceiro mercado brasileiro para carros blindados.

“Ah, Wanderley, esse é um problema que acontece em todo o Brasil”. Verdade. Mas não é o que dizem nas campanhas eleitorais, não é mesmo? Além do mais, a morte de José Nunes não resultou de um assalto comum, mas de um atentado organizado por presos. E então? Ninguém responde por essas falhas? Fica tudo por isso mesmo? A resposta é sim. José Nunes virou, como tantos outros, estatística. Hannah Arendt falava da banalidade do mal para estudar o Holocausto; hoje, vivemos nestes trópicos a banalidade da insegurança.

O Ceará, assim como o Rio de Janeiro, está a mercê de ataques contra o transporte público e até contra delegacias. Nos dois casos, a presente situação é mais grave por causa de políticas de segurança ruins e equivocadas. Por aqui, centenas de milhões de reais foram gastos na reforma do Castelão para uns poucos jogos e no projeto de um aquário parado, tudo sob o entusiasmado aplauso da maioria dos eleitores, enquanto presos tomavam conta do sistema penitenciário e transformavam o estado no mais violento do País.

Escolhas têm consequências.