Vice serve pra quê? - Blog do Wanfil 
Publicidade

Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Vice serve pra quê?

Por Wanfil em Política

21 de Abril de 2014

Sou de uma geração que cresceu, em termos políticos, marcada pela figura do vice. Logo de cara, a volta ao regime democrático foi festejada com a eleição de Tancredo Neves (ainda que de forma indireta), seguida do drama de sua doença e morte. Em seu lugar, assumiu o vice… José Sarney. E a esperança acabou com a decepção do Plano Cruzado. Um trauma. Depois disso, fiquei desconfiado.

Assim, quando Collor sofreu o impeachment, Itamar Franco surgiu e deu início ao Plano Real, junto com Fernando Henrique Cardoso, cujas bases macroeconômicas são mantidas até hoje. Vinte anos depois, o remédio para o repique inflacionário de Dilma será aumento de juros. Se Itamar acertou aí, no resto não tinha liderança própria.

No Ceará, nessa época, quando Ciro Gomes foi assumir o ministério da Fazenda, durante o governo Itamar, Juraci Magalhães assumiu a Prefeitura de Fortaleza, mandando no pedaço enquanto teve saúde.

Isso foi na época em que vice tinha alguma utilidade. Agora… É diferente. O sujeito pode sair do país e permanecer conectado. Tem o celular… Videoconferências… O vice ficou obsoleto e agora, definitivamente, virou mera peça figurativa em chapas eleitorais.

Casos recentes

No Ceará, o vice-governador Domingos Filho, diante do misterioso afastamento do titular Cid Gomes, não aceitou assumir o cargo, dizem, para não ficar inelegível. Antes, um adendo: Oficialmente, o paradeiro e as condições de Cid são desconhecidos. O anúncio que fez pelo Facebook, dizendo que está internado em alguma clínica no Brasil, consternou a muitos, mas não serve como documento. Na prática, tudo é suposição. Voltemos aos vices.

O substituto na Prefeitura de Fortaleza, Gaudêncio Lucena, acabou impedido de assumir porque o titular Roberto Cláudio, mesmo internado para uma cirurgia bariátrica, preferiu não sair. Disse que despacharia de casa. E assim, a cidade ficou uma semana sem prefeito. Na verdade, todos sabem o motivo para esse constrangimento: é que Gaudêncio é sócio do senador Eunício Oliveira (PMDB), que está em vias de romper com Cid, padrinho político do prefeito, por motivos eleitorais.

Agora, tanto o vice-governador do Estado como o vice-prefeito da capital possuem estruturas administrativas caríssimas à disposição de cada um. Ambos recebem, mensalmente, um belo salário pago pelos contribuintes, para caso de eventual necessidade. Se essa necessidade surge e ninguém pode, por um motivo ou outro, exercer o papel que lhes caberia, de que serve então essa figura?

Desconfiança mútua

Esses episódios revelam como funcionam as alianças políticas vigentes no Ceará. Não existe essa história de sintonia programática ou de compartilhamento de valores: existe somente o cálculo eleitoreiro em busca de tempo de televisão e controle de currais eleitorais, onde os interesses particulares pairam acima do interesse público. Por isso não confiam um no outro.

E nas eleições de outubro eles estarão aí de volta, titulares e vices, juntinhos em cartazes e santinhos, sorridentes sobre as letras de algum slogan bacana, para pedir, mais uma vez, o seu voto de confiança.

Publicidade aqui

Vice serve pra quê?

Por Wanfil em Política

21 de Abril de 2014

Sou de uma geração que cresceu, em termos políticos, marcada pela figura do vice. Logo de cara, a volta ao regime democrático foi festejada com a eleição de Tancredo Neves (ainda que de forma indireta), seguida do drama de sua doença e morte. Em seu lugar, assumiu o vice… José Sarney. E a esperança acabou com a decepção do Plano Cruzado. Um trauma. Depois disso, fiquei desconfiado.

Assim, quando Collor sofreu o impeachment, Itamar Franco surgiu e deu início ao Plano Real, junto com Fernando Henrique Cardoso, cujas bases macroeconômicas são mantidas até hoje. Vinte anos depois, o remédio para o repique inflacionário de Dilma será aumento de juros. Se Itamar acertou aí, no resto não tinha liderança própria.

No Ceará, nessa época, quando Ciro Gomes foi assumir o ministério da Fazenda, durante o governo Itamar, Juraci Magalhães assumiu a Prefeitura de Fortaleza, mandando no pedaço enquanto teve saúde.

Isso foi na época em que vice tinha alguma utilidade. Agora… É diferente. O sujeito pode sair do país e permanecer conectado. Tem o celular… Videoconferências… O vice ficou obsoleto e agora, definitivamente, virou mera peça figurativa em chapas eleitorais.

Casos recentes

No Ceará, o vice-governador Domingos Filho, diante do misterioso afastamento do titular Cid Gomes, não aceitou assumir o cargo, dizem, para não ficar inelegível. Antes, um adendo: Oficialmente, o paradeiro e as condições de Cid são desconhecidos. O anúncio que fez pelo Facebook, dizendo que está internado em alguma clínica no Brasil, consternou a muitos, mas não serve como documento. Na prática, tudo é suposição. Voltemos aos vices.

O substituto na Prefeitura de Fortaleza, Gaudêncio Lucena, acabou impedido de assumir porque o titular Roberto Cláudio, mesmo internado para uma cirurgia bariátrica, preferiu não sair. Disse que despacharia de casa. E assim, a cidade ficou uma semana sem prefeito. Na verdade, todos sabem o motivo para esse constrangimento: é que Gaudêncio é sócio do senador Eunício Oliveira (PMDB), que está em vias de romper com Cid, padrinho político do prefeito, por motivos eleitorais.

Agora, tanto o vice-governador do Estado como o vice-prefeito da capital possuem estruturas administrativas caríssimas à disposição de cada um. Ambos recebem, mensalmente, um belo salário pago pelos contribuintes, para caso de eventual necessidade. Se essa necessidade surge e ninguém pode, por um motivo ou outro, exercer o papel que lhes caberia, de que serve então essa figura?

Desconfiança mútua

Esses episódios revelam como funcionam as alianças políticas vigentes no Ceará. Não existe essa história de sintonia programática ou de compartilhamento de valores: existe somente o cálculo eleitoreiro em busca de tempo de televisão e controle de currais eleitorais, onde os interesses particulares pairam acima do interesse público. Por isso não confiam um no outro.

E nas eleições de outubro eles estarão aí de volta, titulares e vices, juntinhos em cartazes e santinhos, sorridentes sobre as letras de algum slogan bacana, para pedir, mais uma vez, o seu voto de confiança.