Blog do Wanfil - Sem meias palavras 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Muito boato e pouco fato

Por Wanfil em Política

09 de outubro de 2017

É um disse me disse sem fim, um boato atrás do outro. Boatos que podem ser confirmar… ou não

Todo dia uma novidade alimenta o festival de boatos e fofocas eleitorais no Ceará. É um disse me disse sem fim. O problema é a carência de fatos – e de declarações – que possam sustentar ou desmentir categoricamente o cipoal de suposições que acabam ocupando o espaço vazio da incerteza. E como os nomes implicados nessas especulações evitam sustentar ou negar o falatório, muitas vezes caprichando nas evasivas, a ansiedade geral na política se intensifica. Assim tudo pode acontecer, inclusive nada.

A rigor, quem manda mesmo ainda não como posicionar seus grupos. Qualquer definição de alianças agora poderá em breve revelar-se uma precipitação, nesse cenário sujeito a alterações por causa de sentenças judiciais, operações da PF ou do MPF, delações premiadas e pesquisas eleitorais.

Na dúvida, o melhor é esperar e observar as reações diante de tanto “ouvi de dizer”, “dizem que” e “pode ser”. Situação que aumenta a pressão de candidatos menores sobre suas lideranças, todos à espera de uma definição para saber em qual galho deverão se pendurar. Pressão que alimenta boatos, boatos que atendem a interesses, interesses que refletem expectativas, expectativas que intencionam tanger decisões.

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Cheirinho de acordão

Por Wanfil em Política

07 de outubro de 2017

Clima de acordão tem como fim a autopreservação de grupos que precisam, como nunca, do foro privilegiado

As incertezas no cenário político nacional dificultam a costura de articulações para as eleições estaduais, perfazendo um ambiente propício à propagação de boatos e hipóteses. Faz parte. No Ceará, porém, o conjunto dessa boataria trafega em sentido único, dando a impressão de que as coisas caminham para uma espécie de pacto de sobrevivência e autopreservação geral, popularmente conhecido como “acordão”.

Indícios não faltam: adversários que passaram a trocar elogios, partidos em litígio que falam agora em estudar alianças com o inimigo, além dos ensaios sobre chapas inusitadas que surgem a todo instante. Sem contar ainda as declarações dúbias, cheias as reticências, do tipo “o momento agora é de unir forças pelo Ceará, eleição a gente pensa depois”. Não se percebe na maior parte disposição pra rupturas ou confrontações.

Pode ser que nada disso aconteça (mais pela dificuldade de encaixar egos do que por incompatibilidade de convicções ou de divergências morais), pessoalmente acho que não irá acontecer, mas que existe um cheiro de jeitinho esperto no ar, isso existe. E ninguém nega a ocorrência, digamos assim, de tratativas iniciais sobre eventuais pactos que até pouco tempo eram inimagináveis. Naturalmente, esse tipo de oportunismo em busca pelo foro privilegiado é apresentado ao distinto público como sinal da mais alta responsabilidade, de desapego altruísta e prudente sabedoria. Tudo isso não muda a natureza dessas conciliações de ocasião.

Um acordão que anula diferenças pessoais, ideológicas e partidárias em nome de conveniências particulares seria um desastre para um eleitor que anseia por mudanças, mas que corre o risco de acabar traído por gente ocupada demais em manter tudo como está.

Acordão é conluio.

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Confira como votaram os cearenses na criação do fundo eleitoral – e veja também quem deixou de votar

Por Wanfil em Política

05 de outubro de 2017

Foi aprovado na noite de ontem (quarta-feira) o projeto de lei que criou um fundo público eleitoral para financiar campanhas, estimado em R$ 1,7 bilhão. Daqui pra frente você caro leitor irá oficialmente bancar as eleições. Digo oficialmente porque a conta já era paga na maior parte dos casos, com dinheiro público desviado de contratos com entes públicos e de empresas estatais.

Dos 22 deputados federais do Ceará, oito votaram a favor do fundão, seis contra, um se absteve e sete simplesmente não votaram. Antes de prosseguir, uma observação: a votação não foi nominal. Os votos somente foram revelados por causa de um erro regimental do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na votação de um destaque.

Confira o posicionamento da bancada cearense:

FAVORÁVEIS AO FUNDÃO

André Figueiredo – PDT

Aníbal Gomes – PMDB

Chico Lopes – PCdoB

Danilo Forte – PSB

Domingos Neto – PSD

José Guimarães – PT

Odorico Monteiro – PSB

Vicente Arruda – PDT

CONTRÁRIOS AO FUNDÃO

Ariosto Holanda – PDT

Gorete Pereira – PR

Raimundo Gomes de Matos – PSDB

Ronaldo Martins – PRB

Vaidon Oliveira – PROS

Vitor Valim – PMDB

ABSTENÇÃO

Leônidas Cristino – PDT

DEIXARAM DE VOTAR

Moses Rodrigues – PMDB

Adail Carneiro – PP

Macedo – PP

Cabo Sabino – PR

José Airton Cirilo – PT

Luizianne Lins – PT

Genecias Noronha – SD

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A impopularidade de Temer como salvação dos que acabam esquecidos

Por Wanfil em Política

29 de setembro de 2017

Michel Temer voltou a bater recorde de impopularidade: 77% dos brasileiros o reprovam, segundo o Ibope. Nem sua companheira de chapa Dilma Rousseff, no auge da recessão, com índices de desemprego, juros e inflação maiores que os atuais, conseguiu ser assim rejeitada.

Evolução que desafia a clássica associação entre desempenho econômico e popularidade. Um efeito colateral desse cenário é a percepção de que os escândalos no entorno presidencial, revelados em proporção endêmica, acabam por ofuscar os casos locais, com a exceção talvez do Rio de Janeiro. Não há pesquisas, mas parece que lideranças políticas regionais não se desgastaram na mesma proporção.

Basta ver como no Ceará casos de considerável potencial para abalar qualquer popularidade não passaram de incômodos sem grandes consequências para seus beneficiários. Compra de votos nas eleições passadas, fichas sujas ocupando cargos importantes na administração estadual, políticos graduados citados em delações com riqueza de detalhes, autoridades investigadas ou até condenadas, nada disso perturba o doce exercício de poder no Estado. Aliás, todos esses andam por aí a desfilar tranquilamente, sem a menor preocupação com vaias, quando não dão lições de moral em nome da ética e da honestidade.

Ninguém os perturba, muito pelo contrário: são tratados com toda a deferência que seus cargos exigem. É que é mais fácil ficar indignado com quem está longe, distante, do que com quem está aqui ao alcance do nosso repúdio.

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Negócios da China

Por Wanfil em Ceará

20 de setembro de 2017

Os chineses estudam construir uma refinaria no Ceará; os chineses avaliam financiar a saúde pública estadual (o que ganharão com isso?); os chineses estão de olho na geração de energia por essas bandas; os chineses podem concluir o aquário que já consumiu R$ 130 milhões dos contribuintes cearenses; os chineses descobriram o Ceará. É o que anuncia, dia sim, dia não, o governo do Estado.

Tomara que tudo dê tudo certo, é claro. Ser otimista nunca é demais, embora a experiência recente recomende prudência. As promessas de saltos desenvolvimentistas já tiveram como protagonistas a parceria entre os governos estadual e federal na era petista, a inigualável competência gerencial da mãe do PAC e a Petrobras pré-Lava-Jato. Como a realidade não correspondeu às expectativas geradas de quatro em quatro anos, a solução é fugir reciclar as esperanças acenando com novas possibilidades e novos protagonistas. Agora, no Ceará, a solução vem da China.

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Mistério: o governo só acerta e a segurança só piora

Por Wanfil em Segurança

18 de setembro de 2017

A segurança entre o discurso e a realidade: tapando o sol com a peneira

A ampliação dos Batalhões Raio e a criação das Unidades Integradas de Segurança (Uniseg) no Ceará são apresentadas como medidas eficazes para a melhoria da segurança pública no Ceará. É natural, uma vez que todo e qualquer governo tende a enaltecer as próprias iniciativas. No entanto, soa artificial quando discurso e realidade andam em descompasso. Pior ainda se colidem frontalmente.

Vamos aos fatos. A escalada de violência continua no Ceará. Os homicídios em agosto deste ano cresceram 58% em relação ao mesmo período do ano passado. Os roubos aumentaram 27%. E entre janeiro e agosto 3.235 pessoas foram assassinadas no Ceará. Três mil, duzentas e trinta e cinco! Números de guerra, divulgados na última sexta-feira.

Acuados pelos números, governantes e governistas apontam sistematicamente causas de fora para explicar o problema, como a lentidão do Judiciário, a frouxidão das leis, supostas milícias, hipotéticas sabotagens da oposição, o crime organizado e, mais recentemente, a falta de repasses federais. Só quem nunca erra é o governo estadual. Nunca! E ainda assim, vejam só, ignorando a competência da gestão e desde antes da crise econômica, quando os repasses aconteciam a contento, os índices só pioraram. 

“O problema é nacional”, desculpam-se sem atentar que isso depõe contra eles mesmos, governistas, já que nesse quadro geral de violência a maioria dos outros estados, mesmo no Nordeste, está em situação menos pior do que a do Ceará. E assim continuam entoando a cantiga esquizofrênica, na esperança de mais quatro anos no poder: quando mais o governo acerta, mais a segurança piora.

 

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Uma pausa no blog para a campanha “Ajude a Larinha a vencer esta batalha”

Por Wanfil em Ao leitor

13 de setembro de 2017

Li no jornal Diário do Nordeste que a família da jovem Lara Virgínia Torquato (foto), que por causa de uma leucemia precisou transplantar a medula óssea, iniciou uma campanha para custear outro tratamento, agora contra uma síndrome que ataca pacientes transplantados. O valor total do tratamento é de aproximadamente R$ 180 mil (R$ 15 mil por cada caixa do medicamento Ruxolitinib). É uma corrida contra o tempo. Doações podem ser feitas na página Ajude a Larinha a vencer esta batalha.

Meu pai, o jornalista Wanderley Pereira, fez um transplante de coração em 2014. Infelizmente, ele não resistiu a uma série de infecções hospitalares após a operação. Mas adurante a espera pela doação, um ano, algumas das lembranças que mais marcaram minha família dizem respeito à solidariedade de amigos, colegas de trabalho, parentes e até de pessoas que nunca vimos (como a família que doou o coração de um ente querido para nos presentear com esperança), além daquelas que conhecemos nesse processo, as enfermeiras, os médicos e outros pacientes e seus acompanhantes. Precisar de ajuda e encontrá-la sem dar nada em troca é algo tão sublime que é difícil até mesmo de explicar.

Ao ver o esforço da família de Lara lembrei-me do conforto que aquela solidariedade deu a nós, familiares, e a ele, paciente. A maioria dos que ajudaram certamente deve achar que fez pouco, sem saber o imenso valor de cada visita, telefonema, ajuda material ou emocional. Nada foi em vão. Dessa experiência meu pai ainda escreveu um livro intitulado “Cura Teu Coração”, para mostrar como enfermidades do corpo podem servir de remédio para a alma de todos que vivem ou viveram situação semelhante. Todos: os que doam e os que recebem.

E por isso resolvi dar um tempo nos assuntos habituais aqui do blog para falar de Lara e da oportunidade de sermos realmente solidários. Quem puder ajudá-la, com qualquer valor, pode ir na página que mencionei ou transferir diretamente para uma das seguintes contas apontadas na matéria do Diário. Quem não puder, ajude a espalhar esse pedido. Estamos na torcida.

Banco Itaú
Agência: 3827
Conta: 38922-6
Nome: Maria das Vitórias Torquato

Banco Santander
Agência: 4458
Conta: 01013680-0
Nome: Francisco Fábio de Oliveira Sousa

Banco do Brasil
Agência: 4376-1
Conta: 12044-8
Nome: Antônia C Torquato

 

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Prisão de Joesley deveria acabar com silêncio sobre delações no Ceará

Por Wanfil em Ceará

11 de setembro de 2017

Wesley, irmão de Joesley, em delação da JBS: lembram?

O Brasil acompanhou a prisão de Joesley Batista e Ricardo Saud após a descoberta de que a dupla não contou tudo o que sabia na Lava Jato. Nada a ver, portanto, com eventuais dúvidas sobre o que já revelaram, mas apenas sobre o que esconderam por conveniência.

Para quem não se lembra, consta na delação de Wesley Batista, sócio e irmão de Joesley (beneficiários do mesmo acordo de imunidade com a PGR), que uma doação de R$ 20 milhões para campanhas eleitorais no Ceará em 2014, supostamente a pedido do então governador Cid Gomes, teria sido propina em troca de 100 milhões em créditos fiscais. Dois secretários estaduais da atual gestão foram implicados na trama. Tudo devidamente corroborado por datas e movimentações de dinheiro com os valores citados. Há também uma citação ao senador Eunício Oliveira, que teria cobrado R$ 5 milhões para ajudar na tramitação de um projeto, no que teria sido enganado, pois o texto não foi aprovado.

É claro que o ônus da prova cabe ao acusador, porém, o peso da suspeita aflige e prejudica o acusado, se esse não tiver culpa no cartório. Por isso mesmo, e também pelo fato de que teremos eleições no ano que vem, com os mesmos personagens políticos atuando desde agora na formação de candidaturas, deveria ser de interesse geral e urgente a investigação dessas graves denúncias, sem que se precisasse esperar por Curitiba. Acontece que ninguém fala sobre o caso. E já nem digo que algumas instituições parecem hesitar diante de suas obrigações. O que impressiona mesmo nesses tempos de tanta indignação nas redes sociais é o silêncio generalizado de lideranças de classe, imprensa, políticos de oposição, artistas e intelectuais, como se o maior processo contra a corrupção no Brasil, quando diz respeito ao Ceará, se transformasse em algo sem importância.

O medo de perder contatos (e influência) ou de possíveis perseguições poderia explicar essa postura, digamos assim, passiva. Mas nesse caso, seria inevitável o constrangimento nas cerimônias públicas onde os citados (não apenas na delação da J&F, mas em muitos outros casos) são festejados como exemplos mesmo de retidão e compromisso com o avanço e tal. Porém, não é o que acontece. Pelo contrário, os festejos e elogios são intensos. O que fica evidente nessas relações é a existência de uma comodidade calculada, de uma cultura política onde impera a regra de não incomodar para não ser incomodado, uma espécie de pacto tácito.

E assim todos seguem contentes como se fossem ou estivessem cercados apenas de pessoas acima de quaisquer suspeitas, enquanto a credibilidade dos envolvidos, ainda que sejam, quem sabe?, inocentes, derreta diante de denúncias sem respostas convincentes. Quem se importa?

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Camilo e Eunício unidos novamente? Tudo é possível no país das conveniências

Por Wanfil em Política

04 de setembro de 2017

Corre a notícia de que emissários de Camilo Santana e Eunício Oliveira estudam uma reaproximação entre PT e PMDB no Ceará, com vistas à reeleição de ambos. Seria isso possível depois das eleições de 2014, quando os dois trocaram insultos e acusações? E após o impeachment que pôs PT e PMDB em litígio no plano nacional? Como nenhuma das partes veio a público rejeitar os rumores e dizer que dessa água não beberá fica claro que a hipótese está, quando menos, sujeita a estudo, afinal, feio é perder eleição, diz a anedota.

Segundo o deputado estadual Audic Mota, do PMDB, em declaração ao jornal O Povo, “política é feita de conversa, de consenso, desde que não envolva nada ilícito”. Verdade. Poderia acrescentar ainda que também é feita ainda convicções e valores inegociáveis, mas é bem aí que as coisas sempre se complicam, e não é de hoje.

O historiador Paulo Mercadante, no clássico “A Consciência Conservadora no Brasil”, observa que desde a época do Império tudo se resolve entre a elite política com uma boa conversa, mesmo entre adversários aparentemente inconciliáveis. As lideranças liberais e conservadoras, reacionárias e revolucionárias, republicanas e monarquistas, escravistas e abolicionistas, por mais que se engalfinhassem em disputas políticas, conseguiam invariavelmente construir um denominador comum que pudesse resguardar posições na divisão do poder, sendo capazes até de absorver parte do ideário oposto para modular o entendimento.

É que na tradição política nacional valores e convicções sempre podem ser negociados. Como observou Vasconcellos de Drummond, diplomata e político amigo de José Bonifácio e de Dom Pedro II, ainda no século 18, com “governo de transações, convém ceder para conciliar”. O mesmo espírito pragmático com que, séculos depois, deputados, prefeitos e vereadores no Ceará pulam de partido em partido para apoiar o governo da hora, sem a menor cerimônia ou vergonha.

Se por um lado a propensão ao entendimento afasta o risco de extremismos, no Brasil a virtude do equilíbrio foi corrompida pelos jeitinhos, de modo que “a consciência conservadora” tornou-se eufemismo para o oportunismo que permite conservar o poder pelo poder. Por tudo isso, uma nova aliança local entre PT e PMDB no Ceará para 2018 não seria surpresa alguma e apenas confirmaria o princípio pelo qual, historicamente, quase sempre na política brasileira as conveniências pairam acima de qualquer convicção.

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Cardápio literário: esqueça um pouco o Facebook e experimente Oblómov

Por Wanfil em Livros

02 de setembro de 2017

Oblómov: o que é essencial resiste ao teste do tempo

As atenções do público cearense que gosta de opinar nas redes virtuais se concentraram, na última semana, sobre divagações a respeito de um cardápio de restaurante e a indignação com a prisão de um estudante induzido por agente público a oferecer suborno. Na verdade, essas atenções, ao contrário da aparência de unidade, se dispersaram na esterilidade das discussões efêmeras, substituídas na próxima semana por outras polêmicas igualmente passageiras. E assim andamos em círculos sem sair do lugar.

Por isso mesmo é cada vez mais importante destacar conteúdos vacinados contra essa espécie de consumismo, capazes de assinalar reflexões mais pertinentes sobre valores permanentes. A literatura é campo fértil nesse sentido. Sim, existem os livros descartáveis e os modismos, mas a literatura que resiste ao passar teste do tempo é valiosa justamente por não centrarem foco no efêmero.

É o caso, por exemplo, do excepcional Oblómov, de Ivan Gontcharóv (1812-1891), que li recentemente, em que o personagem que dá nome a obra é caracterizado por inabalável preguiça que o leva a um gradual decadência financeira, física e psicológica, vivendo somente do que ainda é produzido pelos camponeses na propriedade rural herdada da família, mas roubado por oportunistas que se aproveitam de seu desinteresse pelos negócios.

Seu único e verdadeiro amigo é Stolz, criado numa fazenda vizinha, ensinado desde cedo pelo pai alemão a trabalhar para ter autonomia, tipo de educação criticada pela cuidadosa mãe de Oblómov como fruto de uma falta de classe, coisa típicas de burgueses grosseiros que se rebaixavam ao agirem como camponeses, conferindo pessoalmente a produção, e capazes até de criar universidades onde gente sem pedigree pudessem, vejam só, estudar. Vez por outra Oblómov, sujeito de inteligência privilegiada, parecia animado em reagir, fosse por causa de uma paixão ou impelido pela aflição das contas que venciam, mas depois voltava ao seu estado normal.

Bem vista a trama, trata-se de uma ácida comparação entre Rússia e Alemanha, que mira o espírito mesmo dessas nações. A indolência de uma elite russa que aspirava reproduzir a corte francesa e o pragmatismo alemão; o desejo russo de parar no tempo e o ímpeto alemão de seguir em frente. Países, podemos concluir, não vivem seus problemas ou prosperam por causa deste ou daquele político, desta ou daquela indústria, mas pelo conjunto de sua formação espiritual, moral e cultural.

Dia dessas a economista Mônica de Bolle, no artigo “A Cama de Oblómov”, comparou o Brasil com o desalentado anti-heroi de Gontcharóv, deitado eternamente a esperar por dias melhores, sem cuidar dos problemas reais que vive, sem querer entender que não é possível gastar mais do que se tem.

É claro que redes sociais são espaços pouco afeitos a esse tipo de discussão. Mas o que vale aqui é a lembrança de que existem outras opções para quem não deseja passar as semanas confundindo o trivial com o essencial.

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Cardápio literário: esqueça um pouco o Facebook e experimente Oblómov

Por Wanfil em Livros

02 de setembro de 2017

Oblómov: o que é essencial resiste ao teste do tempo

As atenções do público cearense que gosta de opinar nas redes virtuais se concentraram, na última semana, sobre divagações a respeito de um cardápio de restaurante e a indignação com a prisão de um estudante induzido por agente público a oferecer suborno. Na verdade, essas atenções, ao contrário da aparência de unidade, se dispersaram na esterilidade das discussões efêmeras, substituídas na próxima semana por outras polêmicas igualmente passageiras. E assim andamos em círculos sem sair do lugar.

Por isso mesmo é cada vez mais importante destacar conteúdos vacinados contra essa espécie de consumismo, capazes de assinalar reflexões mais pertinentes sobre valores permanentes. A literatura é campo fértil nesse sentido. Sim, existem os livros descartáveis e os modismos, mas a literatura que resiste ao passar teste do tempo é valiosa justamente por não centrarem foco no efêmero.

É o caso, por exemplo, do excepcional Oblómov, de Ivan Gontcharóv (1812-1891), que li recentemente, em que o personagem que dá nome a obra é caracterizado por inabalável preguiça que o leva a um gradual decadência financeira, física e psicológica, vivendo somente do que ainda é produzido pelos camponeses na propriedade rural herdada da família, mas roubado por oportunistas que se aproveitam de seu desinteresse pelos negócios.

Seu único e verdadeiro amigo é Stolz, criado numa fazenda vizinha, ensinado desde cedo pelo pai alemão a trabalhar para ter autonomia, tipo de educação criticada pela cuidadosa mãe de Oblómov como fruto de uma falta de classe, coisa típicas de burgueses grosseiros que se rebaixavam ao agirem como camponeses, conferindo pessoalmente a produção, e capazes até de criar universidades onde gente sem pedigree pudessem, vejam só, estudar. Vez por outra Oblómov, sujeito de inteligência privilegiada, parecia animado em reagir, fosse por causa de uma paixão ou impelido pela aflição das contas que venciam, mas depois voltava ao seu estado normal.

Bem vista a trama, trata-se de uma ácida comparação entre Rússia e Alemanha, que mira o espírito mesmo dessas nações. A indolência de uma elite russa que aspirava reproduzir a corte francesa e o pragmatismo alemão; o desejo russo de parar no tempo e o ímpeto alemão de seguir em frente. Países, podemos concluir, não vivem seus problemas ou prosperam por causa deste ou daquele político, desta ou daquela indústria, mas pelo conjunto de sua formação espiritual, moral e cultural.

Dia dessas a economista Mônica de Bolle, no artigo “A Cama de Oblómov”, comparou o Brasil com o desalentado anti-heroi de Gontcharóv, deitado eternamente a esperar por dias melhores, sem cuidar dos problemas reais que vive, sem querer entender que não é possível gastar mais do que se tem.

É claro que redes sociais são espaços pouco afeitos a esse tipo de discussão. Mas o que vale aqui é a lembrança de que existem outras opções para quem não deseja passar as semanas confundindo o trivial com o essencial.