Cardápio literário: esqueça um pouco o Facebook e experimente Oblómov - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Cardápio literário: esqueça um pouco o Facebook e experimente Oblómov

Por Wanfil em Livros

02 de setembro de 2017

Oblómov: o que é essencial resiste ao teste do tempo

As atenções do público cearense que gosta de opinar nas redes virtuais se concentraram, na última semana, sobre divagações a respeito de um cardápio de restaurante e a indignação com a prisão de um estudante induzido por agente público a oferecer suborno. Na verdade, essas atenções, ao contrário da aparência de unidade, se dispersaram na esterilidade das discussões efêmeras, substituídas na próxima semana por outras polêmicas igualmente passageiras. E assim andamos em círculos sem sair do lugar.

Por isso mesmo é cada vez mais importante destacar conteúdos vacinados contra essa espécie de consumismo, capazes de assinalar reflexões mais pertinentes sobre valores permanentes. A literatura é campo fértil nesse sentido. Sim, existem os livros descartáveis e os modismos, mas a literatura que resiste ao passar teste do tempo é valiosa justamente por não centrarem foco no efêmero.

É o caso, por exemplo, do excepcional Oblómov, de Ivan Gontcharóv (1812-1891), que li recentemente, em que o personagem que dá nome a obra é caracterizado por inabalável preguiça que o leva a um gradual decadência financeira, física e psicológica, vivendo somente do que ainda é produzido pelos camponeses na propriedade rural herdada da família, mas roubado por oportunistas que se aproveitam de seu desinteresse pelos negócios.

Seu único e verdadeiro amigo é Stolz, criado numa fazenda vizinha, ensinado desde cedo pelo pai alemão a trabalhar para ter autonomia, tipo de educação criticada pela cuidadosa mãe de Oblómov como fruto de uma falta de classe, coisa típicas de burgueses grosseiros que se rebaixavam ao agirem como camponeses, conferindo pessoalmente a produção, e capazes até de criar universidades onde gente sem pedigree pudessem, vejam só, estudar. Vez por outra Oblómov, sujeito de inteligência privilegiada, parecia animado em reagir, fosse por causa de uma paixão ou impelido pela aflição das contas que venciam, mas depois voltava ao seu estado normal.

Bem vista a trama, trata-se de uma ácida comparação entre Rússia e Alemanha, que mira o espírito mesmo dessas nações. A indolência de uma elite russa que aspirava reproduzir a corte francesa e o pragmatismo alemão; o desejo russo de parar no tempo e o ímpeto alemão de seguir em frente. Países, podemos concluir, não vivem seus problemas ou prosperam por causa deste ou daquele político, desta ou daquela indústria, mas pelo conjunto de sua formação espiritual, moral e cultural.

Dia dessas a economista Mônica de Bolle, no artigo “A Cama de Oblómov”, comparou o Brasil com o desalentado anti-heroi de Gontcharóv, deitado eternamente a esperar por dias melhores, sem cuidar dos problemas reais que vive, sem querer entender que não é possível gastar mais do que se tem.

É claro que redes sociais são espaços pouco afeitos a esse tipo de discussão. Mas o que vale aqui é a lembrança de que existem outras opções para quem não deseja passar as semanas confundindo o trivial com o essencial.

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Cardápio literário: esqueça um pouco o Facebook e experimente Oblómov

Por Wanfil em Livros

02 de setembro de 2017

Oblómov: o que é essencial resiste ao teste do tempo

As atenções do público cearense que gosta de opinar nas redes virtuais se concentraram, na última semana, sobre divagações a respeito de um cardápio de restaurante e a indignação com a prisão de um estudante induzido por agente público a oferecer suborno. Na verdade, essas atenções, ao contrário da aparência de unidade, se dispersaram na esterilidade das discussões efêmeras, substituídas na próxima semana por outras polêmicas igualmente passageiras. E assim andamos em círculos sem sair do lugar.

Por isso mesmo é cada vez mais importante destacar conteúdos vacinados contra essa espécie de consumismo, capazes de assinalar reflexões mais pertinentes sobre valores permanentes. A literatura é campo fértil nesse sentido. Sim, existem os livros descartáveis e os modismos, mas a literatura que resiste ao passar teste do tempo é valiosa justamente por não centrarem foco no efêmero.

É o caso, por exemplo, do excepcional Oblómov, de Ivan Gontcharóv (1812-1891), que li recentemente, em que o personagem que dá nome a obra é caracterizado por inabalável preguiça que o leva a um gradual decadência financeira, física e psicológica, vivendo somente do que ainda é produzido pelos camponeses na propriedade rural herdada da família, mas roubado por oportunistas que se aproveitam de seu desinteresse pelos negócios.

Seu único e verdadeiro amigo é Stolz, criado numa fazenda vizinha, ensinado desde cedo pelo pai alemão a trabalhar para ter autonomia, tipo de educação criticada pela cuidadosa mãe de Oblómov como fruto de uma falta de classe, coisa típicas de burgueses grosseiros que se rebaixavam ao agirem como camponeses, conferindo pessoalmente a produção, e capazes até de criar universidades onde gente sem pedigree pudessem, vejam só, estudar. Vez por outra Oblómov, sujeito de inteligência privilegiada, parecia animado em reagir, fosse por causa de uma paixão ou impelido pela aflição das contas que venciam, mas depois voltava ao seu estado normal.

Bem vista a trama, trata-se de uma ácida comparação entre Rússia e Alemanha, que mira o espírito mesmo dessas nações. A indolência de uma elite russa que aspirava reproduzir a corte francesa e o pragmatismo alemão; o desejo russo de parar no tempo e o ímpeto alemão de seguir em frente. Países, podemos concluir, não vivem seus problemas ou prosperam por causa deste ou daquele político, desta ou daquela indústria, mas pelo conjunto de sua formação espiritual, moral e cultural.

Dia dessas a economista Mônica de Bolle, no artigo “A Cama de Oblómov”, comparou o Brasil com o desalentado anti-heroi de Gontcharóv, deitado eternamente a esperar por dias melhores, sem cuidar dos problemas reais que vive, sem querer entender que não é possível gastar mais do que se tem.

É claro que redes sociais são espaços pouco afeitos a esse tipo de discussão. Mas o que vale aqui é a lembrança de que existem outras opções para quem não deseja passar as semanas confundindo o trivial com o essencial.