Afinal, o que você quer da vida? - resenha de Vozes da Rua, de Philip K. Dick - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Afinal, o que você quer da vida? – resenha de Vozes da Rua, de Philip K. Dick

Por Wanfil em Livros

07 de junho de 2014

Philip K. Dick: Em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

Philip K. Dick: em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

O escritor norte-americano Philip K. Dick (1928 – 1982) é referência mundial em ficção científica. Seus livros deram origem a grandes sucessos do cinema como Blade Runner, Minority Report, Total Recall (que no Brasil é ficou conhecido com o tosco nome de O Vingador do Futuro), O Homem Duplo, Os Agentes do Destino, entre outros.

O que poucos sabem é que os primeiros livros de Dick não eram sobre ficção científica, gênero que, assim como o policial, não tem grande reconhecimento na crítica literária, salvo algumas exceções, claro. Estudante de filosofia, Philip aspirava a algo mais, digamos, clássico.

Dizem seus biógrafos que seu início de carreira é marcado por um pendor autobiográfico, mas nunca procurei saber mais. Assim como a maioria, o que me interessava mais eram seus escritos famosos. Até que um dia, não faz muito tempo, esbarrei numa livraria com Vozes da Rua, oferecido numa promoção por R$10,00, dessa fase pré-ficção científica de Dick. Não resisti, arrisquei e consegui uma bela surpresa ao conhecer a história de Stuart Hadley, um jovem bonito, bem casado e com um filho recém nascido, com carreira promissora no comércio, morador de um bairro típico de classe média dos EUA nos anos 1950. Mas algo o angustiava e nada preenchia sua busca por um sentido para a vida. Stuart encarna à perfeição o lamento de Vinícius de Morais: “É claro que te amo/E tenho tudo para ser feliz/Mas acontece que eu sou triste…”.

Em busca de uma razão maior, aspirando a grandes feitos, o personagem procura dar vazão às suas frustrações na bebida, em outra mulher, na religião e no trabalho. Nada o satisfaz como deveria. Fica claro que a doença da moda no século XXI, a depressão, cercava o Stuart de meados do século XX.

Vozes-da-Rua-Philip-K-DickA narrativa alterna momentos intensos com outros mais arrastados. Provavelmente a intenção do autor foi contrastar o tédio de uma existência programada com o desejo por novidades. A linguagem é direta e os personagens são poucos. O final, adianto sem prejuízo a leitura, não é feliz, mas também não é trágico. Não há grandes lições de moral, muito menos a pretensão arrogante de deixar ao leitor um ensinamento edificante, no estilo autoajuda. Nada. A mensagem é seca, dura, e nos faz pensar sobre nossa relação com o cotidiano, com o que somos e o que queremos. Convida o leitor a um exercício de autopercepção, o que não é nada fácil para quem deseja ouvir apenas elogios ou conselhos baratos.

A meu ver – e isso é uma impressão particular, depreendida da leitura e adaptada às minhas vicissitudes -, Vozes da Rua fala sobre o desencontro entre vocação e trabalho, entre a realidade e os devaneios que podemos alimentar. Principalmente, um desequilíbrio profundo entre altruísmo e egoísmo. Você faz o gosta ou apenas busca a segurança de um trabalho sem sentido para você? Sabe pelo menos o que deseja fazer? Vive com quem lhe faz bem ou procura companhias que podem levá-lo a um espiral de autodestruição? Se conforma com tudo por vontade própria ou por sugestão/imposição das “vozes da rua”? Pensar nos outros lhe parece um fardo ou um alívio? As respostas para essas indagações podem ser fáceis de dizer em público, quando todos procuram se mostrar felizes e adaptados. Mas no íntimo de cada um, são questões que se colocam diariamente e sobre as quais podemos mudar de opinião, dependendo do período.

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Afinal, o que você quer da vida? – resenha de Vozes da Rua, de Philip K. Dick

Por Wanfil em Livros

07 de junho de 2014

Philip K. Dick: Em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

Philip K. Dick: em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

O escritor norte-americano Philip K. Dick (1928 – 1982) é referência mundial em ficção científica. Seus livros deram origem a grandes sucessos do cinema como Blade Runner, Minority Report, Total Recall (que no Brasil é ficou conhecido com o tosco nome de O Vingador do Futuro), O Homem Duplo, Os Agentes do Destino, entre outros.

O que poucos sabem é que os primeiros livros de Dick não eram sobre ficção científica, gênero que, assim como o policial, não tem grande reconhecimento na crítica literária, salvo algumas exceções, claro. Estudante de filosofia, Philip aspirava a algo mais, digamos, clássico.

Dizem seus biógrafos que seu início de carreira é marcado por um pendor autobiográfico, mas nunca procurei saber mais. Assim como a maioria, o que me interessava mais eram seus escritos famosos. Até que um dia, não faz muito tempo, esbarrei numa livraria com Vozes da Rua, oferecido numa promoção por R$10,00, dessa fase pré-ficção científica de Dick. Não resisti, arrisquei e consegui uma bela surpresa ao conhecer a história de Stuart Hadley, um jovem bonito, bem casado e com um filho recém nascido, com carreira promissora no comércio, morador de um bairro típico de classe média dos EUA nos anos 1950. Mas algo o angustiava e nada preenchia sua busca por um sentido para a vida. Stuart encarna à perfeição o lamento de Vinícius de Morais: “É claro que te amo/E tenho tudo para ser feliz/Mas acontece que eu sou triste…”.

Em busca de uma razão maior, aspirando a grandes feitos, o personagem procura dar vazão às suas frustrações na bebida, em outra mulher, na religião e no trabalho. Nada o satisfaz como deveria. Fica claro que a doença da moda no século XXI, a depressão, cercava o Stuart de meados do século XX.

Vozes-da-Rua-Philip-K-DickA narrativa alterna momentos intensos com outros mais arrastados. Provavelmente a intenção do autor foi contrastar o tédio de uma existência programada com o desejo por novidades. A linguagem é direta e os personagens são poucos. O final, adianto sem prejuízo a leitura, não é feliz, mas também não é trágico. Não há grandes lições de moral, muito menos a pretensão arrogante de deixar ao leitor um ensinamento edificante, no estilo autoajuda. Nada. A mensagem é seca, dura, e nos faz pensar sobre nossa relação com o cotidiano, com o que somos e o que queremos. Convida o leitor a um exercício de autopercepção, o que não é nada fácil para quem deseja ouvir apenas elogios ou conselhos baratos.

A meu ver – e isso é uma impressão particular, depreendida da leitura e adaptada às minhas vicissitudes -, Vozes da Rua fala sobre o desencontro entre vocação e trabalho, entre a realidade e os devaneios que podemos alimentar. Principalmente, um desequilíbrio profundo entre altruísmo e egoísmo. Você faz o gosta ou apenas busca a segurança de um trabalho sem sentido para você? Sabe pelo menos o que deseja fazer? Vive com quem lhe faz bem ou procura companhias que podem levá-lo a um espiral de autodestruição? Se conforma com tudo por vontade própria ou por sugestão/imposição das “vozes da rua”? Pensar nos outros lhe parece um fardo ou um alívio? As respostas para essas indagações podem ser fáceis de dizer em público, quando todos procuram se mostrar felizes e adaptados. Mas no íntimo de cada um, são questões que se colocam diariamente e sobre as quais podemos mudar de opinião, dependendo do período.