A verdadeira lição do mensalão 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

A verdadeira lição do mensalão

Por Wanfil em Brasil, História, Ideologia

20 de agosto de 2012

José Dirceu liderando o PT em votação no Congresso (2000), quando a sigla gozava de uma espécie de monopólio da ética na política brasileira: tudo não passou de propaganda ideológica.

Se há uma lição em todo esse episódio do mensalão – independente do resultado do julgamento no STF – é a de que a virtude não tem ideologia ou partido político. Sei que isso parece uma tautologia, algo óbvio, mas a ilusão de que certas doutrinas detêm o monopólio da ética e da moral é muito mais presente no imaginário nacional do que podemos suspeitar de relance.

Fé cega 

O Partido dos Trabalhadores, por exemplo, construiu considerável reputação de partido de qualidades telúricas ao longo de duas décadas. Por que ele seria diferente dos demais? Pela origem de classe e pelo pedigree esquerdista. Bastaram-lhe essas credenciais para que seus filiados e prosélitos se apresentassem como antítese de “tudo isso que está aí”, uma variante burguesa e comportada, porém ambiciosa, da revolução proletária. Não eram necessários feitos ou fatos para sustentar a fé dos que ansiavam por uma nova era repleta de criaturas angelicais: o Brasil seria passado a limpo por gente de inspiração socialista. Uma vez no poder, o partido manteve a política econômica que outrora repudiou e assumiu com destemor as parcerias com os corrompidos de sempre, revelando que a insuspeita autoridade moral do passado era a mesma que instituiu o mensalão.

A reação para os que acreditaram e apostaram de boa vontade nesse teatro político foram três: 1) reconhecer que foi tapeado, como fez Chico de Oliveira; 2) negar os fatos e afundar ainda mais no mundo dos sonhos, como Marilena Chauí; 3) sair e começar tudo de novo, apostando no mesmo discurso, como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Simbologia e desconstrução

Agora, em período eleitoral, algumas siglas e candidatos buscam resgatar esse discurso de “venha conosco fazer uma política diferente”. Não interessa saber as intenções dos que professam esse tipo de mensagem. O problema é que ela nasce de um pensamento torto, feito para o consumo dos carentes de utopias ou dos que desacreditaram da política.

A virtude é atributo individual, para o bem e para o mal. Imaginar que determinado partido, ou de forma mais abrangente, que uma ideologia, possa servir de garantia de honestidade, como se fosse um tipo de carimbo de caráter, é presunção que bebe na fonte do voluntarismo totalitarista, que não aceita o contraditório. Filosoficamente, é a tentativa de projetar as culpas interiores do sujeito no anonimato da coletividade .

A importância do mensalão está justamente no que ele representa simbolicamente: a desconstrução de uma mentira histórica. Um desses momentos raros e breves que descortinam temporariamente uma realidade. Um intervalo que logo passa, para que o roteiro anterior volte a ser encenado.

Décadas de doutrinação 

Alunos do ensino básico, fundamental e superior, no Brasil, sofrem há pelo menos quatro décadas com deturpações de fundo ideológico, que procuram ligar a posse da virtude com determinadas ideologias e grupos. É fácil constatar o efeito disso. Não há ninguém que se proclame de direita que não seja visto pelo senso comum do estudante brasileiro como um bandido egoísta, defensor das injustiças mais vis; porquanto a denominação de esquerdista e até mesmo de comunista (a mais sangrenta das ideologias), confere aos seus titulares a aura de pessoas maravilhosas e solidárias que só pensam no bem.

A assimetria ideológica no Brasil decorre desse processo lento, mas eficaz, de doutrinação. Como resultado, temos uma nação refém de um projeto ideológico em pleno andamento, que apesar de tudo o que faz, sem maiores adversários, mantém a imagem positiva, se consolidando como única instância efetiva de poder político no país, não obstante o mensalão, apontado por seus idealizadores como calúnia ou, diante das provas apresentadas, como mero desvio acidental que em nada compromete a natureza pura da doutrina que professam.

Reconhecer é aprender

Em determinados períodos históricos uma ideologia pode se transformar, a despeito de seus bons adeptos, em polo atrativo para elementos que manipulam as frustrações do período em benefício próprio. A questão é saber identificar esses movimentos na hora certa. O mensalão é a maior lição política deste começo de século para os brasileiros. Mas um homem, assim como uma nação, só pode amadurecer se estiver disposto a reconhecer os próprios erros, para então aprender com eles.

Propaganda

George Orwell: Desconfiança de palavras terminadas em “ismo”.

O espírito de grupo que exorta a paixão por exclusividades foge da autocrítica como o diabo da cruz. É que seu objeto não é a verdade – ou a busca pela verdade -, mas a adesão pura e incondicional aos seus propósitos.

Sobre isso, o escritor inglês George Orwell, autor da distopia 1984, pontuou magistralmente em um artigo publicado em 1948, com o título Escritores e Leviatã: “Na verdade, o mero som de palavras que terminam em ‘ismo’ parece trazer em si o cheiro de propaganda”.

É isso. Compra gato por lebre quem quiser.

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A verdadeira lição do mensalão

Por Wanfil em Brasil, História, Ideologia

20 de agosto de 2012

José Dirceu liderando o PT em votação no Congresso (2000), quando a sigla gozava de uma espécie de monopólio da ética na política brasileira: tudo não passou de propaganda ideológica.

Se há uma lição em todo esse episódio do mensalão – independente do resultado do julgamento no STF – é a de que a virtude não tem ideologia ou partido político. Sei que isso parece uma tautologia, algo óbvio, mas a ilusão de que certas doutrinas detêm o monopólio da ética e da moral é muito mais presente no imaginário nacional do que podemos suspeitar de relance.

Fé cega 

O Partido dos Trabalhadores, por exemplo, construiu considerável reputação de partido de qualidades telúricas ao longo de duas décadas. Por que ele seria diferente dos demais? Pela origem de classe e pelo pedigree esquerdista. Bastaram-lhe essas credenciais para que seus filiados e prosélitos se apresentassem como antítese de “tudo isso que está aí”, uma variante burguesa e comportada, porém ambiciosa, da revolução proletária. Não eram necessários feitos ou fatos para sustentar a fé dos que ansiavam por uma nova era repleta de criaturas angelicais: o Brasil seria passado a limpo por gente de inspiração socialista. Uma vez no poder, o partido manteve a política econômica que outrora repudiou e assumiu com destemor as parcerias com os corrompidos de sempre, revelando que a insuspeita autoridade moral do passado era a mesma que instituiu o mensalão.

A reação para os que acreditaram e apostaram de boa vontade nesse teatro político foram três: 1) reconhecer que foi tapeado, como fez Chico de Oliveira; 2) negar os fatos e afundar ainda mais no mundo dos sonhos, como Marilena Chauí; 3) sair e começar tudo de novo, apostando no mesmo discurso, como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Simbologia e desconstrução

Agora, em período eleitoral, algumas siglas e candidatos buscam resgatar esse discurso de “venha conosco fazer uma política diferente”. Não interessa saber as intenções dos que professam esse tipo de mensagem. O problema é que ela nasce de um pensamento torto, feito para o consumo dos carentes de utopias ou dos que desacreditaram da política.

A virtude é atributo individual, para o bem e para o mal. Imaginar que determinado partido, ou de forma mais abrangente, que uma ideologia, possa servir de garantia de honestidade, como se fosse um tipo de carimbo de caráter, é presunção que bebe na fonte do voluntarismo totalitarista, que não aceita o contraditório. Filosoficamente, é a tentativa de projetar as culpas interiores do sujeito no anonimato da coletividade .

A importância do mensalão está justamente no que ele representa simbolicamente: a desconstrução de uma mentira histórica. Um desses momentos raros e breves que descortinam temporariamente uma realidade. Um intervalo que logo passa, para que o roteiro anterior volte a ser encenado.

Décadas de doutrinação 

Alunos do ensino básico, fundamental e superior, no Brasil, sofrem há pelo menos quatro décadas com deturpações de fundo ideológico, que procuram ligar a posse da virtude com determinadas ideologias e grupos. É fácil constatar o efeito disso. Não há ninguém que se proclame de direita que não seja visto pelo senso comum do estudante brasileiro como um bandido egoísta, defensor das injustiças mais vis; porquanto a denominação de esquerdista e até mesmo de comunista (a mais sangrenta das ideologias), confere aos seus titulares a aura de pessoas maravilhosas e solidárias que só pensam no bem.

A assimetria ideológica no Brasil decorre desse processo lento, mas eficaz, de doutrinação. Como resultado, temos uma nação refém de um projeto ideológico em pleno andamento, que apesar de tudo o que faz, sem maiores adversários, mantém a imagem positiva, se consolidando como única instância efetiva de poder político no país, não obstante o mensalão, apontado por seus idealizadores como calúnia ou, diante das provas apresentadas, como mero desvio acidental que em nada compromete a natureza pura da doutrina que professam.

Reconhecer é aprender

Em determinados períodos históricos uma ideologia pode se transformar, a despeito de seus bons adeptos, em polo atrativo para elementos que manipulam as frustrações do período em benefício próprio. A questão é saber identificar esses movimentos na hora certa. O mensalão é a maior lição política deste começo de século para os brasileiros. Mas um homem, assim como uma nação, só pode amadurecer se estiver disposto a reconhecer os próprios erros, para então aprender com eles.

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George Orwell: Desconfiança de palavras terminadas em “ismo”.

O espírito de grupo que exorta a paixão por exclusividades foge da autocrítica como o diabo da cruz. É que seu objeto não é a verdade – ou a busca pela verdade -, mas a adesão pura e incondicional aos seus propósitos.

Sobre isso, o escritor inglês George Orwell, autor da distopia 1984, pontuou magistralmente em um artigo publicado em 1948, com o título Escritores e Leviatã: “Na verdade, o mero som de palavras que terminam em ‘ismo’ parece trazer em si o cheiro de propaganda”.

É isso. Compra gato por lebre quem quiser.