Eleições 2014 Archives - Blog do Wanfil
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Eleições 2014

E você que brigou por causa de candidato, com que cara fica agora?

Por Wanfil em Eleições 2014

07 de novembro de 2014

Durante a campanha eleitoral – e vou me ater aqui apenas à disputa presidencial, muita gente encarnou o clima de vale tudo dos programas eleitorais e mandou ver nas redes sociais. Ofensas e melindres estremeceram muitas amizades. A justificativa, de modo geral, era de que acima de tudo estava em jogo o futuro do Brasil, nessa guerra entre bons (os que votariam no mesmo candidato) e maus (os que votariam nos adversários).

Vi, por exemplo, muitos amigos meus brigando com outros amigos em comum na defesa da candidata Dilma Rousseff (PT) contra o retrocesso que representariam as candidaturas de Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB). E vice-versa. O fim da história, todos sabemos: Dilma ganhou com pequena margem.

Mas na campanha, abatida ainda no primeiro turno, Marina foi acusada de estar a serviço de banqueiros, pois uma de suas coordenadoras de campanha, a educadora Neca Setúbal, é uma das herdeiras do banco Itaú. É antológica a propaganda em que a comida desaparecia do prato da família pobre, enquanto o narrador acusava a candidata adversária de estar a serviço dos bancos. Foi uma forma engenhosa (muitos consideram desonesta) de dizer que política econômica que se vale de aumento de juros só beneficia os mais ricos. O vídeo foi compartilhado sem reservas como prova de que Marina era um embuste. Já Aécio, derrotado no segundo turno, representava o (ai, meu Deus!) neoliberalismo que teria “quebrado o Brasil três vezes”! Seria, portanto, a reedição de uma política econômica que não saber fazer outra coisa senão aumentar juros para combater a inflação, sacrificando o consumo dos mais pobres no altar do mercado financeiro. A solução? Dilma.

Pois bem, passadas as eleições, ver agora a presidente fazer o inverso do que anunciou a candidata me constrange na medida em que me desses amigos queridos, que agora pouco se manifestam.

Vamos a alguns exemplos: após a eleição, o governo Dilma (garantia de que a pobreza continuaria diminuindo, diziam seus entusiastas) liberou o anúncio de dados oficiais que foram proibidos de serem divulgados para não atrapalhar a campanha. A saber: o déficit nas contas públicas é recorde, a presidente não conseguirá cumprir a meta fiscal de 2014, a pobreza voltou a crescer, segundo informações do IPEA e do IBGE. Reeleita, só então Dilma confessou que realmente a inflação é um problema urgente e que por isso apoia o… aumento de juros decidido pelo Banco Central! Lembram da discussão sobre a independência do BC? Pois é. E ainda tem o aumento de preços represados dos combustíveis e da energia elétrica. Esse conjunto de ações basta para comprovar que estamos diante de um dos maiores estelionatos eleitorais da história do Brasil. Só perde, a meu juízo, para o Plano Cruzado, do governo Sarney.

Já pelo lado da oposição, é mais difícil cobrar coerência, pois, afinal, perderam e não podem por à prova o que prometeram fazer (ou não fazer). De todo modo, ser oposição não significa ausência de responsabilidade. O noticiário dá conta de um suposto acordo entre PT e PSDB para preservar alguns de seus membros na CPI da Petrobras, no Congresso Nacional. Os tucanos negam, os petistas alardeiam, como a mostrar: viram, são iguais a nós! O fato é que políticos deixaram de ser convocados para prestar depoimentos. Aécio já disse que acordos assim são inaceitáveis e tal. Seus eleitores aguardam cenas dos próximos capítulos, temerosos de que a mudança prometida acabe em piza. Dilma não se pronunciou a respeito, mas na campanha, Dilma disse que sobre a corrupção na Petrobras, seu governo iria “até o fundo, doa a quem doer”. Não foi o que se viu na CPI.

É isso. Como é que a gente fica? Como é que ficam os que desfizeram laços de amizade por acreditar em discurso de político em campanha eleitoral? O calor dos debates acalorados deu lugar agora, especialmente por parte de quem votou em Dilma, a um silêncio desconfiado. Hora de cada um perguntar a si mesmo: E aí, valeu a pena?

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Um conselho de Margaret Thatcher para Camilo Santana

Por Wanfil em Eleições 2014

28 de outubro de 2014

Margaret Thatcher (Foto: Peter Marlow / Magun / Latin Stock)

Margaret Thatcher: líder inconteste. (Foto: Peter Marlow / Magun / Latin Stock)

Margaret Thatcher, Primeira-Ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990:

“Being powerful is like being a lady. If you have to tell people you are, you aren’t”. Em português: “Ser poderoso é como ser uma dama. Se você tem que dizer às pessoas que você é , você não é”.

Camilo Santana, eleito governador do Ceará nas eleições de 2014:

“Eu sou muito grato e tenho um carinho muito grande pelo governador Cid. Para mim foi o maior governador desse estado, mas nós faremos um governo novo. Eu e a Izolda faremos um governo novo nos próximos quatro anos”.

Moral da história
A deixa da ex-Primeira-Ministra, se bem lida, pode ser compreendida como um conselho fraternal de grande valia para Camilo Santana. Basta trocarmos o “poderoso” da frase original de Thatcher por “independente”, qualidade que o novo governador buscou destacar em sua fala. Quando um líder realmente tem independência e autonomia, não precisa dizer isso para convencer as pessoas. Se precisa anunciar a condição, é porque não a tem. Em casos assim, resumindo a lição da inglesa, o que vale mesmo são as ações, muito mais do que as palavras.

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Dilma reeleita, Camilo governador: depois da festa, os desafios

Por Wanfil em Eleições 2014

26 de outubro de 2014

Nas eleições mais acirradas desde 1989, a presidente Dilma Rousseff, do PT, foi reeleita para mais quatro anos de mandato, com 51% dos votos, contra 48% de Aécio Neves, do PSDB, em números arredondados. No Ceará o petista Camilo Santana foi eleito para o governo do estado com 53%, contra 46% de Eunício oliveira, do PMDB.

Parabéns, claro, aos eleitores, que apesar do clima acirrado, sabem sempre aceitar com tranquilidade o resultado das urnas. Parabéns também aos eleitos, que conseguiram vitórias apertadas, mas ainda assim, vitórias. Entretanto, sem desmerecer os escolhidos, o fato de as eleições terem sido decididas somente no segundo turno e por uma diferença tão pequena de votos precisa ser levado em consideração, pois os cenários políticos no Brasil e no Ceará saem bastante alterados. A oposição cresceu nas casas legislativas e a divisão manifestada nas urnas projeta um ambiente de cobranças intensas sobre as gestões que iniciam em 2015.

O momento, para os vencedores, é de comemoração, mas na política não existem vácuo ou pausa. Por isso os partidos governistas certamente já iniciam movimentações em busca de espaços nos novos arranjos de poder. Mesmo no caso de Dilma, que já tem uma estrutura formada, uma vez que a presidente prometeu mudanças na equipe, notadamente na área econômica.

Como as eleições mostraram o eleitorado dividido, esses aliados, que se unem a qualquer governo por conveniência e não por convicção, sabem que gestões eleitas com dificuldade e com oposição maior ficam mais dependentes da boa vontade deles, na medida em que não possuem apoio massivo da população, ao mesmo tempo em que precisam dar respostas para questões levantadas na eleição, especialmente, de novo, na economia (crescer e manter os empregos preservando ganhos reais para o salário mínimo, sem inflação e sem aumentar os juros). Em outras palavras, Dilma deverá manter boa parte de sua base de apoio, mas essa exigirá novos cargos e verbas (“mais participação nas políticas públicas”, dizem seus líderes) para dar maioria à presidente no Congresso.

Camilo Santana precisa acomodar o PT e o Pros no governo do Estado. Parece simples, mas não é. Existem secretarias estratégicas, com maior volume de recursos e potencial eleitoral. Evidentemente, haverá disputa por essas pastas.

A formação das equipes e a distribuição dos cargos serão os primeiros sinais que os eleitos darão à população sobre os rumos dos seus governos. Mas isso fica para as próximas semanas.

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O oráculo das pesquisas e o frenesi eleitoral

Por Wanfil em Eleições 2014

24 de outubro de 2014

Quanto mais próximo fica o dia da decisão nas urnas, maior é a ansiedade geral pelas revelações das pesquisas eleitorais, esses oráculos da cultura empirista. Entre militantes partidários e ocupantes de cargos comissionados a expectativa pode degenerar até em manifestações de histeria nas redes sociais. Para os demais torcedores, fica o frenesi típico das competições. Para a satisfação desse público ávido por indícios de vitória para os seus preferidos ou de derrota para os adversários, uma saraivada de levantamentos realizada nesta semana.

Para a Presidência da República, Ibope e Datafolha mostram que Dilma Rousseff (PT) abriu uma vantagem sobre Aécio Neves (PSDB) que supera as margens de erro de cada instituto. Margens de erro, vale lembrar, bastante questionadas por todos, uma vez que os erros têm avançado para muito além dessas margens em eleições recentes.

Contando apenas os votos válidos, o Ibope mostra a petista com 54%, contra 46% de Aécio. No Datafolha, o placar é de 53% a 47%. Pesquisas não revelam o futuro, claro, mas captam tendências do presente, a partir das quais é possível fazer projeções que são, no fundo, apostas. Nesse sentido, servem para ajustar propagandas e a comunicação de candidaturas. É como tirar uma fotografia na ventania: tudo está em movimento o tempo todo e o que parece ir para um lado, de repente, pode ir para outro. Dilma, por exemplo, ganhou no primeiro turno, depois Aécio a ultrapassou no início do segundo turno e agora a presidente volta à liderança. Haverá tempo para uma nova troca de posições? Só as urnas dirão. Essas essas amostragens já foram traídas pelos eleitores nesta mesma eleição.

Até certo ponto, essa imprevisibilidade tem alimentado também uma disposição para o vale-tudo eleitoral. O governo federal impediu, nesta semana, a divulgação de números sobre a pobreza e a educação, levantando suspeitas de que não seriam bons para a candidata oficial.

No Ceará, uma pesquisa Datafolha encomendada pelos jornais Folha de São Paulo e O Povo mostra Camilo Santana (PT) com 57% e Eunício Oliveira (PMDB) com 38%. Aí já se trata de uma distância considerável, mas que não serve de antecipação de resultado, uma vez que destoa do equilíbrio que caracterizou a disputa na últimas quatro semanas.

Todo cuidado é recomendado para não confundir pesquisa com eleição. Não estou aqui desconfiando de nada. Acredito que os institutos busquem fazer o melhor que podem, pois vivem da credibilidade que conquistam. O problema é que as últimas eleições mostraram que boa parte dos eleitores deixa para consolidar suas escolhas no dia de votar. Além dessa variável, digamos, cultural, é preciso considerar as abstenções, que podem atingir as candidaturas de forma diferente, com maior ou menor intensidade.

É isso. Os institutos de pesquisa captam tendências, mas estas, pelo que temos visto, podem mudar bastante em curto espaço de tempo. Foi assim no primeiro turno. Pesquisas eleitorais são como previsões meteorológicas: tem ciência, mas são demasiadamente imprecisas por conta do imponderável. Por isso a tensão continuará grande até o próximo domingo.

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Governo do Ceará processa policiais que declaram voto na oposição: perseguição que apequena a gestão

Por Wanfil em Eleições 2014

23 de outubro de 2014

O TSE pediu reforço de tropas do Exército para o segundo turno no Ceará, por entender que as autoridades locais não possuem as condições de garantir a normalidade do processo eleitoral. Numa atitude sensata, o governo estadual concordou com a medida, reconhecendo, ainda que indiretamente, que as coisas realmente fogem ao seu controle. De certo modo, deu a entender que deseja a restauração de um ambiente de relativa tranquilidade, contribuindo para acalmar os ânimos mais exaltados.

O surto de sensatez, porém, durou pouco, pois logo em seguida a Secretaria de Segurança abriu processo administrativo contra 18 policiais militares que apoiaram publicamente o ​Capitão Wagner, eleito deputado estadual com votação recorde, e Flávio Sabino, eleito deputado federal. Ambos são do PR e apoiam Eunício Oliveira para o Governo do Estado. Segundo a SSPDS, PMs não podem fazer manifestações político-partidárias. É estranho, uma vez que podem ser candidatos. Mas o problema mesmo é que o rigor da medida recai apenas sobre policiais ligados à oposição, pois os que declararam publicamente apoio ao candidato governista Camilo Santana, do PT, não foram incluídos na lista de processados. São dois pesos e duas medidas. É inegável, portanto, que se trata de perseguição política.

É mais um capítulo na crise de comando entre governo e setores das polícias no Ceará. Ainda que acredite estar com a razão, o momento escolhido para processar os policiais, na véspera de uma votação e com todas as suspeitas que existem de parcialidade, foi inadequado. Além disso é inadmissível permitir que a estrutura administrativa responsável pela área seja contaminada pelo calor das emoções da disputa eleitoral, agindo como agente político, colocando gasolina na fogueira e deixando de lado qualquer pudor sobre a isenção que se espera dos órgãos de estado.

Desse modo, denúncias de que o governo estadual e a prefeitura de Fortaleza estariam pressionando seus funcionários a apoiarem Camilo Santana ganham força, afinal, se até policiais são perseguidos, imagine o resto. E as denúncias existem. Se não correspondem aos fatos, pelo menos agora possuem verossimilhança. O governo assim dá um tiro no próprio pé e perde a credibilidade quando se apequena no papel de instituição a serviço de uma militância partidária. Para complicar a situação e desacreditar de vez qualquer ideia de neutralidade institucional, o governador Cid Gomes, que deveria zelar pela ordem e pela imagem da gestão, deixou o cargo justamente para fazer… campanha eleitoral! Os liderados refletem as ações da liderança.

E por fim, essa confusão atrapalha mesmo o próprio candidato oficial, pois ao fazer da eleição um componente de acirramento na crise de comando na segurança, ao apostar na divisão entre governistas e oposicionistas dentro das corporações policiais, o governo acaba inviabilizando o diálogo de Camilo com a categoria, sua principal promessa para a área.

Depois alguns governistas mais afoitos saem acusando os outros de armação, sem perceber que os fatos têm consequências que ultrapassam a passionalidade das campanhas eleitorais.

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Esqueça o “se bater, perde”, a moda agora é “desconstruir” o adversário

Por Wanfil em Eleições 2014

21 de outubro de 2014

Os brasileiros acostumaram-se com a regra de ouro do publicitário Duda Mendonça para campanhas eleitorais: quem bate, perde. Foi assim que ele criou o personagem “Lulinha Paz e Amor”, para eleger até então candidato petista derrotado três vezes para a Presidência da República. O resto da história todos conhecem e Duda lucrou bastante com recursos não contabilizados pagos a sua  empresa offshore Dusseldorf, com sede nas Bahamas.

Ocorre que esse modelo só funciona em condições específicas de temperatura e pressão. Se o candidato estiver com vantagem relativamente segura, acima da margem de erro, a crítica mais incisiva não rende, pois antipatiza o emissor e vitimiza o oponente. Trocando em miúdos, fica a impressão de quem está atrás apelou para o jogo sujo. No entanto, como estamos vendo neste exato instante, se a disputa está acirrada, com candidatos tecnicamente empatados dependendo dos eleitores indecisos, a coisa muda de figura e surge então o recurso da “desconstrução do adversário”.

Por desconstruir o adversário entenda-se anular a imagem esculpida pela comunicação dele junto ao eleitorado. Se o opositor é visto como mudança pelos eleitores que desejam mudança, a saída é apresentá-lo como ameaça de instabilidade; se a candidata oficial diz que a inflação está sob controle, é preciso mostrar os índices verdadeiros para desmascarar o truque. Acontece que, na prática, o artifício da “desconstrução” virou eufemismo para as mentiras e para o vale-tudo que embalam o festival de baixaria nestas eleições.

Foi o que aconteceu com a candidata Marina Silva, do PSB, no primeiro turno, vítima da propaganda agressiva da candidata Dilma Rousseff, do PT, candidata à reeleição, que não pensou em duas vezes antes de bater com força e sem limites éticos na concorrente. Alguém realmente acredita que Marina estava mancomunada com um grupo de banqueiros para tirar a comida da mesa dos pobres? Marina seria a perversa criatura que iria prejudicar os investimentos em educação acabando com a exploração do pré-sal? Claro que não, mas para boa parte do eleitorado, notadamente os com menos instrução e menor renda, a mistificação grosseira assustou. A decisão de não responder na mesma moeda custou a Marina a chance de seguir adiante na eleição.

Agora no segundo turno não é diferente. Esqueça o “quem bate, perde” de Duda Mendonça. Agora, com a surpresa do empate entre Dilma e Aécio Neves, do PSDB, o que vale é a “desconstrução” de João Santana, marqueteiro do PT. Como a onda de ascensão do oposicionista foi contida, segundo as pesquisas, a ordem é manter a artilharia contra o inimigo, misturando críticas aceitáveis com ataques pessoais, como os que foram vistos nos debates. Já Aécio decidiu adotar a tática do “bateu, levou”, para evitar o mesmo destino de Marina.

O problema é que isso rebaixa o próprio confronto de ideias que deveria prevalecer nas eleições. O confronto, o ataque, as contestações e as denúncias fazem parte do jogo eleitoral, mas devem, ou deveriam, atinar para os problemas reais do país. Não é o que estamos vendo. Dizer que Aécio não gosta dos pobres ou que o Bolsa Família não tem parentesco algum com os programas de compensação instituídos por FHC no passado, para insinuar que essas iniciativas serão cortadas, é apelação. É claro que os governistas não assumem a responsabilidade por essa situação e sua candidata, que antes acusou Marina de ser despreparada para o exercício da Presidência por ser excessivamente sensível, agora posa de vítima.

Com isso, todos acabam igualados na baixaria e ninguém discute a sério a estagnação da economia, os efeitos da pressão inflacionária, a corrupção nas estatais e os índices obscenos da violência no país. Para o indeciso saber quem tem razão nessa troca de acusações, basta fazer a seguinte perguntar: a quem interessa desviar desses assuntos? A resposta não é difícil. Embarcar no bate-boca eleitoral só beneficia quem não quer falar sobre os problemas urgentes do Brasil.

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Debate Jangadeiro – Eunício e Camilo buscam o confronto como ele deve ser: intenso, mas com respeito ao público

Por Wanfil em Eleições 2014

21 de outubro de 2014

De olho nos votos dos eleitores indecisos, os candidatos Eunício Oliveira (PMDB) e Camilo Santana (PT), que disputam o governo do Ceará, protagonizaram ataques e trocas de acusações durante o debate promovido pelo Sistema Jangadeiro de Comunicação, realizado nos estúdios da Tribuna Bandnews nesta segunda (20). Descontadas as diferenças de estilo e postura, a estratégia de ambos foi a mesma: buscar aumentar a rejeição ao adversário, que os especialistas chamam de “desconstrução”.

A lógica é simples. Empatados tecnicamente, com as pesquisas registrando uma diferença entre os dois menor do que a quantidade de indecisos, a prioridade é convencer esse eleitor a não votar no concorrente. Isso pode aumentar o número de votos nulos e brancos, mas a intenção mesmo é evitar o crescimento do oponente nessa reta final e, de quebra, conquistar votos na condição de opção menos ruim para esse grupo. Qualquer um por cento a mais ou a menos pode ser a diferença entre a vitória e a derrota.

Assim, durante o debate, Eunício Oliveira, que já foi ministro das Comunicações no governo Lula, fez questão de ressaltar que Camilo Santana nunca ocupou cargos de relevância nacional, para destacar a inexperiência do petista, que acusou o golpe ao responder em outro bloco: “Posso não ter audiência com o Lula, mas tenho com o povo”. Por sua vez, Camilo afirmou que Eunício nunca teria ido a uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em Fortaleza, na tentativa de mostrar um candidato distante das pessoas, especialmente dos mais pobres.

Em outro momento, Eunício disse que não tem patrão e que Camilo seria controlado pelo governador Cid Gomes (PROS). De outra feita, Camilo afirmou o peemedebista desconhece as ações do governo estadual por não passar muito tempo no Ceará.

No geral, como está numericamente atrás do petista, ainda que em situação de empate técnico, e sabendo da força da máquina no dia da eleição, Eunício assumiu uma postura mais contundente, mas foi habilidoso para não deixar espaço para pedidos de direito de resposta. Ao ser indagado por um ouvinte sobre corrupção, Eunício disse que trabalharia para aprovar uma lei que impedisse pessoas com bens bloqueados na justiça de serem candidatos. Foi uma indireta clara para o adversário que, no entanto, manteve, dentro dos limites possíveis, a cabeça fria e não passou recibo.

O mais difícil nesse jogo de desconstrução do adversário é controlar as emoções e os impulsos. Uma resposta errada, mais agressiva, pode render efeito contrário. No entanto, mesmo nos momentos mais tensos, tanto Eunício como Camilo evitam as adjetivações grosseiras. Em vez de “mentiroso”, preferem acusar um ao outro de “faltar com a verdade”. Esse é um detalhe de grande relevância. O confronto faz parte do embate eleitoral, mas não devemos confundir o ataque legítimo que pode ser necessário em determinado momento de uma campanha, com baixaria, que é coisa diferente.

Os debates locais têm se mostrado mais elegantes do que os nacionais, para presidente. Provavelmente isso reflete a natureza dos dois candidatos ao governo estadual, políticos de características conciliatórias e experiência no parlamento, ao contrário da disputa presidencial, onde a campanha candidata à reeleição adota uma postura de beligerância que só tem paralelo com a campanha de Collor contra Lula, em 1989, que hoje, inclusive, são aliados. Prova de que o exagero não passa mesmo de teatro eleitoral.

Eunício e Camilo estavam ali lutando o voto dos indecisos, imersos em ambiente de disputa acirrada e cercados de aliados que atiçam os nervos, mas conseguiram mostrar equilíbrio e respeito pelo público. Caberá aos indecisos dizerem nas urnas quem se saiu melhor.

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Datafolha: Camilo 45%, Eunício 40% – empate técnico e o fator abstenção

Por Wanfil em Eleições 2014

16 de outubro de 2014

A primeira pesquisa Datafolha/O Povo para o segundo turno no Ceará mostra o seguinte quadro: Camilo Santana (PT) lidera com 45% das intenções de voto, seguido de Eunício Oliveira (PMDB), que marca 40%, em situação de empate técnico, uma vez que a margem de erro do levantamento é de 3% para mais ou para menos. Considerando apenas os votos válidos, o placar é de 53% a 47%.

Disputa continua acirrada
Fica confirmada então a tendência das últimas pesquisas, reforçada nas urnas, que apontavam uma lenta ascensão do petista e uma estabilização do peemedebista. Tudo decidido? Nada disso. Os 9% de indecisos formam um considerável número que pode alterar esse quadro.

Há também as taxas de rejeição, de 37% para Camilo e 35% para Eunício, que mostram uma situação de equilíbrio, com potencial de crescimento um pouco maior para o peemedebista. A eleição continua apertada.

Fator abstenção
No entanto, mais do que o contingente formado pelos que não sabem ainda em quem votar, o elemento crucial de indefinição e imponderabilidade não pode ser registrado por pesquisa alguma: a abstenção. Ainda que estes estejam contemplados nas margens de erro, estas tem se apresentado muito incertas nas últimas eleições, quando as urnas mostram variações acima dessas margens de cálculo. Existe, no entanto, um histórico, mas esse mostra uma flutuação nas abstenções que dificultam projeções. Vejamos.

No primeiro turno deste ano a abstenção foi de 20,12%, que corresponde a pouco mais de um milhão e duzentos mil eleitores, num universo de 6,2 milhões. Em 2010 foi de 20,05%, já em 2006 de 17,38%. Em 2002, quando também houve segundo turno, o índice nessa etapa foi de 23%.

Tradicionalmente, a abstenção tende a ser maior nas regiões de menor densidade populacional, ou seja, nas áreas rurais e cidades pequenas, e menor nos grandes centros, o que aumenta o peso da região metropolitana na eleição. Assim, cabe aos candidatos, prevendo uma alta quantidade de eleitores que não devem comparecer às urnas.

Avaliação da gestão
A pesquisa mostra que 47% da população aprovam o governo Cid Gomes. É justamente o eleitoral de Camilo. Avaliam a gestão como regular 34% e como ruim 15%, que somados chegam a 49%. Falta a Eunício conquistar uma pequena parte desse grupo, que oferece um bom espaço para avançar. Sua campanha deve falar a essa parcela nessa reta final.

Talvez um tom mais crítico em relação aos pontos fracos da administração, associando o adversário a áreas mal avaliadas, possa surtir efeito, mas isso é lá com os estrategistas. Camilo, naturalmente, tem se dirigido aos que aprovam o governo, e busca acenar para os que o consideram regular, mostrando um perfil de conciliador, já que o papel de ataque contra o concorrente fica reservado aos seus padrinhos, e evitando ao máximo falar a fundo de segurança pública.

A nota atribuída ao governador Cid Gomes é de 6,6%. Bastante modesta para quem o imagina como o maior governador da história, mas suficiente para deixar seu candidato numericamente à frente no empate técnico do Datafolha.

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Denúncia sobre milícia é blefe para desviar atenção do eleitor

Por Wanfil em Eleições 2014

15 de outubro de 2014

Existe mesmo uma milícia atuando no Ceará com objetivos eleitorais? De acordo com Cid e Ciro Gomes, governador e do secretário da Saúde do Ceará, a resposta é sim. E de acordo com os irmãos Ferreira Gomes, o líder do grupo seria o vereador Capitão Wagner, eleito deputado estadual com a maior votação da história no Estado.

Como nenhuma prova da existência dessa tal milícia é apresentada, a acusação sobrevive apenas como retórica política, sem sustentação material. Tanto é assim que Ciro Gomes pediu ajuda a um grupo militantes partidários, divulgando o próprio telefone para receber denúnciasÉ o disque-me-ajude-a-provar-o-que-eu-digo. Eis um factoide em busca de indícios que lhe sirvam de justificativa. Assim, a imagem de um policial prendendo um aliado do governo por crime eleitoral será utilizada como prova de que, num caso inédito no mundo, a oposição no Ceará persegue a situação com instrumentos do Estado.

Cortina de fumaça

Como a suposta milícia existe somente nas palavras de autoridades envolvidas no processo eleitoral, é preciso verificar os efeitos práticos dessas acusações feitas sem o mínimo rigor investigativo.

De imediato, podemos constatar que: 1) a polêmica desvia o foco do debate sobre políticas de segurança no Ceará, tema evitado na campanha governista por motivos óbvios; 2) a questão acaba reduzida a uma briga entre Ciro Gomes e o Capitão Wagner, evitando uma discussão racional sobre o problema; 3) a baixaria encobre o fato escandaloso de que a grande maioria dos crimes eleitorais ocorridos no primeiro turno envolveu aliados do governo, conforme atesta o próprio Ministério Público Eleitoral. Em resumo, a presepada é tática diversionista para proteger o candidato do governo. O que parece desequilíbrio é, na verdade, método.

Oposição tímida

A denúncia sem prova que toma conta do noticiário durante as eleições também prospera à medida que a oposição não denuncia a armação, única reação eficiente nesses casos, como ensina  Arthur Schopenhauer em suas considerações sobre a dialética erística. Diante de um sofisma, o debatedor deve alertar o público para a manipulação das premissas, de modo a criar nele a desconfiança sobre as conclusões do adversário.

O candidato ao governo Eunício Oliveira (PMDB) poderia dizer, por exemplo, algo assim: “Meu adversário se esconde atrás das agressões feitas por Cid e Ciro, posando de pacífico, mas sem nunca contestar o que dizem, para fugir do debate responsável e profundo sobre segurança pública”.

Já o Capitão Wagner, atendendo ao chamado à passionalidade feito por Ciro, apenas morde a isca do diversionismo. O melhor seria cobrar ao secretário Servilho Paiva, por via judicial, informações sobre a existência ou não de investigação formal sobre as supostas milícias e se o seu nome consta nelas, para depois trazer a discussão de volta ao que interessa: por que os investimentos em segurança não deram os resultados esperados? E como fazer para corrigir o desastre dos últimos anos? Isso é tudo o que o governo quer evitar, o que tem sido feito com sucesso até agora.

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MP pede tropas federais para garantir eleições limpas no Ceará: a que ponto chegamos!

Por Wanfil em Eleições 2014

14 de outubro de 2014

Diante do risco de não haver uma eleição institucionalmente isenta e íntegra no Ceará, a Procuradoria Regional Eleitoral encaminhou ao TRE “requisição de força federal necessária ao cumprimento da lei e das decisões da Justiça Eleitoral”. É um vexame para o Executivo estadual. Aliás, mais um para sua coleção de constrangimentos.

A solicitação ainda será examinada pelo tribunal. Razões não faltam para justificar o pedido e o procurador Rômulo Conrado os elenca de forma clara e objetiva, a começar pelo fato de que o secretário de Segurança Pública do Ceará, que no início do ano chegou a participar de encontro partidário do Pros e do PT, é investigado por “possível prática de abuso de poder político”, em razão de “fatos relacionados à atuação da Polícia Militar durante o 1° Turno das Eleições de 2014”. Existe a suspeita de que viaturas tenham recebido ordens de não fazer patrulhamento ostensivo em determinados locais de votação. Nas palavras do Ministério Público o caso configura “omissão institucionalizada”, deixando de coibir ou impedir crimes eleitorais típicos desses processos.

No ofício da Procuradoria estão relacionadas as identificações de diversas viaturas que ficaram paradas por horas, sem circular, no dia da eleição, contrariando diretrizes da própria Polícia Militar do Estado do Ceará, que “preveem horário de ponto base de 15 (quinze) minutos, em condição expectante, conforme cartão-programa, alternadamente com 45 (quarenta e cinco) minutos de patrulhamento ostensivo e visitas operacionais”.

No pedido, há ainda menções a um possível “cerceamento das atividades funcionais” de policiais que tenham realizado “detenções de cabos eleitorais ligados ao candidato apoiado” pelo governo estadual, citando a exoneração do ex-Controlador-Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública do Estado Santiago Amaral Fernandes, que afirma ter sido afastado por não ter instaurado processos administrativos contra policiais que declaravam apoio ao candidato de oposição.

Para o MP outro fato agravante é o clima de acirramento entre o “grupo político liderado pelo governador Cid Gomes” e o deputado estadual eleito Capitão Wagner, que apoia o candidato de oposição Eunício Oliveira (PMDB), e é acusado por autoridades do governo de comandar atos de perseguição contra aliados da coligação governista. Como eu venho dizendo, se o próprio governador assume publicamente que não tem o controle da polícia, admitindo que ela estaria sob a influência de Wagner, é preciso então que as autoridades eleitorais se manifestem, pois o segundo turno está bem aí. É o que cobra o Ministério Público ao TRE, com razão.

Por fim, o procurador Rômulo Conrado encerra com um conclusão óbvia que, por si só, e como eu mesmo assinalei em outros textos, bastaria para comprovar que as eleições no primeiro turno não foram limpas: “Destaca-se, nesse sentido, a informação de que a maioria das prisões por crimes verificada no dia das eleições incidiu sobre candidatos ou simpatizantes ligados ao atual Governador do Estado do Ceará, tornando imprescindível a atuação de força policial isenta e eficiente”.

Notas breves

1 – Ao decidir agir como cabo eleitoral, deixando de lado a compostura que se espera de um governante e dando declarações contra o adversário incompatíveis com suas funções, Cid Gomes perdeu a autoridade moral para ser o fiador de um processo eleitoral isento. Toda suspeita sobre a parcialidade do governo ganha verossimilhança, por força de sua atuação. O MP nem sequer lembrou que Cid foi pessoalmente a uma delegacia em Sobral pressionar pela soltura de um vereador preso acusado de crime eleitoral. Não foi preciso. Todos viram;

2 – Ao justificar a quantidade de prisões de aliados acusando setores da polícia sem apresentar provas, o governo acaba transferindo para o processo eleitoral e para seu candidato, Camilo Santana, seu maior problema: a crise de segurança que vive o Ceará;

3 – Eunício Oliveira apoia o pedido de reforço federal para garantir eleições isentas. Camilo Santana não descarta a necessidade da medida. Só Cid Gomes diz que a ideia atenta contra o bom senso. A insensatez, nesse caso, é deixar o eleitor ir às urnas sem a garantia de que sua vontade seja respeitada nos termos da lei eleitoral.

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E você que brigou por causa de candidato, com que cara fica agora?

Por Wanfil em Eleições 2014

07 de novembro de 2014

Durante a campanha eleitoral – e vou me ater aqui apenas à disputa presidencial, muita gente encarnou o clima de vale tudo dos programas eleitorais e mandou ver nas redes sociais. Ofensas e melindres estremeceram muitas amizades. A justificativa, de modo geral, era de que acima de tudo estava em jogo o futuro do Brasil, nessa guerra entre bons (os que votariam no mesmo candidato) e maus (os que votariam nos adversários).

Vi, por exemplo, muitos amigos meus brigando com outros amigos em comum na defesa da candidata Dilma Rousseff (PT) contra o retrocesso que representariam as candidaturas de Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB). E vice-versa. O fim da história, todos sabemos: Dilma ganhou com pequena margem.

Mas na campanha, abatida ainda no primeiro turno, Marina foi acusada de estar a serviço de banqueiros, pois uma de suas coordenadoras de campanha, a educadora Neca Setúbal, é uma das herdeiras do banco Itaú. É antológica a propaganda em que a comida desaparecia do prato da família pobre, enquanto o narrador acusava a candidata adversária de estar a serviço dos bancos. Foi uma forma engenhosa (muitos consideram desonesta) de dizer que política econômica que se vale de aumento de juros só beneficia os mais ricos. O vídeo foi compartilhado sem reservas como prova de que Marina era um embuste. Já Aécio, derrotado no segundo turno, representava o (ai, meu Deus!) neoliberalismo que teria “quebrado o Brasil três vezes”! Seria, portanto, a reedição de uma política econômica que não saber fazer outra coisa senão aumentar juros para combater a inflação, sacrificando o consumo dos mais pobres no altar do mercado financeiro. A solução? Dilma.

Pois bem, passadas as eleições, ver agora a presidente fazer o inverso do que anunciou a candidata me constrange na medida em que me desses amigos queridos, que agora pouco se manifestam.

Vamos a alguns exemplos: após a eleição, o governo Dilma (garantia de que a pobreza continuaria diminuindo, diziam seus entusiastas) liberou o anúncio de dados oficiais que foram proibidos de serem divulgados para não atrapalhar a campanha. A saber: o déficit nas contas públicas é recorde, a presidente não conseguirá cumprir a meta fiscal de 2014, a pobreza voltou a crescer, segundo informações do IPEA e do IBGE. Reeleita, só então Dilma confessou que realmente a inflação é um problema urgente e que por isso apoia o… aumento de juros decidido pelo Banco Central! Lembram da discussão sobre a independência do BC? Pois é. E ainda tem o aumento de preços represados dos combustíveis e da energia elétrica. Esse conjunto de ações basta para comprovar que estamos diante de um dos maiores estelionatos eleitorais da história do Brasil. Só perde, a meu juízo, para o Plano Cruzado, do governo Sarney.

Já pelo lado da oposição, é mais difícil cobrar coerência, pois, afinal, perderam e não podem por à prova o que prometeram fazer (ou não fazer). De todo modo, ser oposição não significa ausência de responsabilidade. O noticiário dá conta de um suposto acordo entre PT e PSDB para preservar alguns de seus membros na CPI da Petrobras, no Congresso Nacional. Os tucanos negam, os petistas alardeiam, como a mostrar: viram, são iguais a nós! O fato é que políticos deixaram de ser convocados para prestar depoimentos. Aécio já disse que acordos assim são inaceitáveis e tal. Seus eleitores aguardam cenas dos próximos capítulos, temerosos de que a mudança prometida acabe em piza. Dilma não se pronunciou a respeito, mas na campanha, Dilma disse que sobre a corrupção na Petrobras, seu governo iria “até o fundo, doa a quem doer”. Não foi o que se viu na CPI.

É isso. Como é que a gente fica? Como é que ficam os que desfizeram laços de amizade por acreditar em discurso de político em campanha eleitoral? O calor dos debates acalorados deu lugar agora, especialmente por parte de quem votou em Dilma, a um silêncio desconfiado. Hora de cada um perguntar a si mesmo: E aí, valeu a pena?