A saúde como doença 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

A Saúde como doença

Por Wanfil em Ceará, Eleições 2012

26 de julho de 2012

Durante 7 anos Luizianne e Cid endossaram as políticas de Saúde um do outro. Agora, em lados opostos e por conveniência eleitoral, seus grupos agem como se tivessem sido opositores no passado. Foto: Reprodução – TV Jangadeiro

O Jornal Jangadeiro exibiu reportagem sobre a superlotação no Hospital Geral de Fortaleza. Não foi a primeira vez neste ano. Em maio passado, o programa Barra Pesada, também da TV Jangadeiro, já havia flagrado imagens do caos na unidade, no mesmo dia em que o  próprio governador Cid Gomes havia sido internado lá por causa de um súbito mal-estar. Nas duas ocasiões, uma só realidade para quem necessita de atendimento emergencial: profissionais aflitos, cansados, correndo entre filas de espera; pacientes espalhados pelos corredores ou mesmo no chão, próximos a banheiros e latas de lixo.

Não por acaso a pesquisa Ibope encomendada pelo jornal O Povo, publicada nesta semana, mostra que a principal preocupação do cidadão fortalezense é a saúde.

A direção do HGF confirma a superlotação e admite que existe um excedente diário de 80 pacientes. No entanto, de acordo com o hospital, metade desse contingente deveria ser atendido nos postos de saúde e nas unidades secundárias de Fortaleza. Por outro lado, as autoridades municipais apontam o grande número de pacientes transferidos do interior como origem da superlotação de outro hospital, o IJF.

E a parceria administrativa de 7 anos?

Muito provavelmente os dois lados têm razão. De qualquer forma, a questão, já dramática pela própria natureza, passa a ter contornos de cinismo político, uma vez que os governos estadual e municipal foram aliados durante mais de sete anos. Nas diversas campanhas eleitorais que se sucederam nesse período, governador e prefeita nunca deixaram de endossar mutuamente as ações um do outro na área da saúde. Pelo contrário! Foram desde o primeiro instante fiadores dessas políticas, garantindo ao eleitor que a harmonia entre as duas esferas de governo era o melhor caminho para oferecer serviços adequados.

O mesmo vale para a segurança e a educação. Ver defeitos e responsabilizar ex-aliados somente agora é prova de que a tal sintonia administrativa só funcionou em eleições. Com efeito, o eleitor foi enganado.

Convicções de ocasião

É claro que aliados podem romper e discordar um do outro. Podem até se arrepender. O problema é quando e como isso é feito. Criticar o passado de acordo com as conveniências do presente demonstra que o oportunismo se sobrepõe à convicção. O fato é que, no presente caso, tanto para o governo estadual como para prefeitura, apontar erros do parceiro que apoiou sem assumir sua cota de responsabilidade, é atitude moralmente repreensível que basta para qualificar seus autores.

No fim, o paciente sem atendimento que agoniza nos corredores do HGF e também do IJF, que nada tem a ver com as querelas burocráticas e políticas de estado e prefeitura, é quem sofre na pele o resultado final desse jogo de empurra.

Notas

1 – O secretário da Fazenda estadual, Mauro Filho, comemora mais um recorde de arrecadação. Anos após anos ela cresce, aumentando, segundo afirma o secretário, a capacidade do governo de executar políticas públicas. A notícia é boa. Talvez com esse dinheiro seja possível oferecer os 80 leitos que faltam no HGF.

2 – Por falar em eleição e emergências hospitalares, não há área em que a discrepância entre a realidade e as promessas eleitoreiras seja tão gritante quanto na saúde. Basta uma rápida busca no Google ou no Youtube para encontrarmos imagens computadorizadas e ambientes cenográficos que mostram hospitais maravilhosos, onde tudo é muito asseado e iluminado, sem fila de espera, com gente feliz e equipamentos estalando de novos. Trabalho de primeira que rende votos e mais votos, e que certamente poderá ser visto mais uma vez neste ano. É a estética da aspiração virtual (o desejo de perfeição) prevalecendo sobre a decepção da experiência vivida (a frustração da imperfeição).

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A Saúde como doença

Por Wanfil em Ceará, Eleições 2012

26 de julho de 2012

Durante 7 anos Luizianne e Cid endossaram as políticas de Saúde um do outro. Agora, em lados opostos e por conveniência eleitoral, seus grupos agem como se tivessem sido opositores no passado. Foto: Reprodução – TV Jangadeiro

O Jornal Jangadeiro exibiu reportagem sobre a superlotação no Hospital Geral de Fortaleza. Não foi a primeira vez neste ano. Em maio passado, o programa Barra Pesada, também da TV Jangadeiro, já havia flagrado imagens do caos na unidade, no mesmo dia em que o  próprio governador Cid Gomes havia sido internado lá por causa de um súbito mal-estar. Nas duas ocasiões, uma só realidade para quem necessita de atendimento emergencial: profissionais aflitos, cansados, correndo entre filas de espera; pacientes espalhados pelos corredores ou mesmo no chão, próximos a banheiros e latas de lixo.

Não por acaso a pesquisa Ibope encomendada pelo jornal O Povo, publicada nesta semana, mostra que a principal preocupação do cidadão fortalezense é a saúde.

A direção do HGF confirma a superlotação e admite que existe um excedente diário de 80 pacientes. No entanto, de acordo com o hospital, metade desse contingente deveria ser atendido nos postos de saúde e nas unidades secundárias de Fortaleza. Por outro lado, as autoridades municipais apontam o grande número de pacientes transferidos do interior como origem da superlotação de outro hospital, o IJF.

E a parceria administrativa de 7 anos?

Muito provavelmente os dois lados têm razão. De qualquer forma, a questão, já dramática pela própria natureza, passa a ter contornos de cinismo político, uma vez que os governos estadual e municipal foram aliados durante mais de sete anos. Nas diversas campanhas eleitorais que se sucederam nesse período, governador e prefeita nunca deixaram de endossar mutuamente as ações um do outro na área da saúde. Pelo contrário! Foram desde o primeiro instante fiadores dessas políticas, garantindo ao eleitor que a harmonia entre as duas esferas de governo era o melhor caminho para oferecer serviços adequados.

O mesmo vale para a segurança e a educação. Ver defeitos e responsabilizar ex-aliados somente agora é prova de que a tal sintonia administrativa só funcionou em eleições. Com efeito, o eleitor foi enganado.

Convicções de ocasião

É claro que aliados podem romper e discordar um do outro. Podem até se arrepender. O problema é quando e como isso é feito. Criticar o passado de acordo com as conveniências do presente demonstra que o oportunismo se sobrepõe à convicção. O fato é que, no presente caso, tanto para o governo estadual como para prefeitura, apontar erros do parceiro que apoiou sem assumir sua cota de responsabilidade, é atitude moralmente repreensível que basta para qualificar seus autores.

No fim, o paciente sem atendimento que agoniza nos corredores do HGF e também do IJF, que nada tem a ver com as querelas burocráticas e políticas de estado e prefeitura, é quem sofre na pele o resultado final desse jogo de empurra.

Notas

1 – O secretário da Fazenda estadual, Mauro Filho, comemora mais um recorde de arrecadação. Anos após anos ela cresce, aumentando, segundo afirma o secretário, a capacidade do governo de executar políticas públicas. A notícia é boa. Talvez com esse dinheiro seja possível oferecer os 80 leitos que faltam no HGF.

2 – Por falar em eleição e emergências hospitalares, não há área em que a discrepância entre a realidade e as promessas eleitoreiras seja tão gritante quanto na saúde. Basta uma rápida busca no Google ou no Youtube para encontrarmos imagens computadorizadas e ambientes cenográficos que mostram hospitais maravilhosos, onde tudo é muito asseado e iluminado, sem fila de espera, com gente feliz e equipamentos estalando de novos. Trabalho de primeira que rende votos e mais votos, e que certamente poderá ser visto mais uma vez neste ano. É a estética da aspiração virtual (o desejo de perfeição) prevalecendo sobre a decepção da experiência vivida (a frustração da imperfeição).