A fugaz alegria do Carnaval 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

A fugaz alegria do Carnaval

Por Wanfil em Cultura

09 de Fevereiro de 2013

Carnaval, 1970, óleo sobre tela, de Di Cavacanti.

Carnaval, 1970, óleo sobre tela –  Di Cavacanti

Qual o significado do Carnaval? A resposta, evidentemente, pode assumir formas distintas, dependendo dos aspectos histórico-culturais do lugar, da religião, idade e personalidade das pessoas, e infinitas outras variáveis individuais ou de grupo.

O certo é que, diferenças à parte, o Carnaval é a maior festa popular do país, capaz de mobilizar atenções e recursos, fazendo que tudo o mais se torne secundário nesse período.

Existem ainda as explicações didáticas, que remetem às origens europeias ou pagãs da festa, posteriormente adaptadas a preceitos religiosos diversos. Mas o Carnaval, na prática, possui características bem mais imediatas, que ignoram toda essa teorização. É algo facilmente observável nas imagens e entrevistas feitas com famosos e anônimos: a manifestação de uma alegria histriônica, por vezes histérica, advinda da busca obsessiva por diversão e da obrigação de externar felicidade, como se o contentamento e a alegria fossem bens de consumo fast food e não estados de espírito resultantes de ações e crenças duradouras.

Via de regra (as exceções confirmam a regra), nas entrevistas as pessoas recorrem a lugares-comuns como “tudo é festa!”, “momento de extravasar”, “esquecer os problemas”, “beijar muito!”, “beber até cair”, “vale tudo”, enfim, um conjunto de frases feitas que denotam uma ansiedade de aproveitar aquele momento limitado em detrimento das obrigações cotidianas. É a celebração do fugaz.

De certa forma, o Carnaval, do modo como é vendido e vivido pela multidão, não passa de uma fuga das responsabilidades. A pretensa alegria que esconde frustrações íntimas, frequentemente relacionadas ao trabalho e à família, instâncias da vida que representam os valores mais desprezados durante a festa.

Evidentemente, esses fenômenos se manifestam de forma inconsciente e são protegidos pela generalização da festa popular, uma homogeneização comercial que, ironicamente, ao poucos elimina a própria diversidade cultural, marca registrada do país, por modelos padronizados inspirados nos trios elétricos baianos e nos desfiles de escolas de samba cariocas. É claro que muita gente aproveita o Carnaval para se divertir de formas diferentes, mas esses não aparecem na cobertura do noticiário, não são percebidos como representantes, ou ícones, do momento.

Sem referências culturais fortes e sem valores morais sólidos, resta ao povo a opção de se esbaldar freneticamente embalado por um vazio sentimento de urgência. O Carnaval deixou de ser a festa da espontaneidade para se tornar uma obrigação dissoluta e desprovida de sentido.

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A fugaz alegria do Carnaval

Por Wanfil em Cultura

09 de Fevereiro de 2013

Carnaval, 1970, óleo sobre tela, de Di Cavacanti.

Carnaval, 1970, óleo sobre tela –  Di Cavacanti

Qual o significado do Carnaval? A resposta, evidentemente, pode assumir formas distintas, dependendo dos aspectos histórico-culturais do lugar, da religião, idade e personalidade das pessoas, e infinitas outras variáveis individuais ou de grupo.

O certo é que, diferenças à parte, o Carnaval é a maior festa popular do país, capaz de mobilizar atenções e recursos, fazendo que tudo o mais se torne secundário nesse período.

Existem ainda as explicações didáticas, que remetem às origens europeias ou pagãs da festa, posteriormente adaptadas a preceitos religiosos diversos. Mas o Carnaval, na prática, possui características bem mais imediatas, que ignoram toda essa teorização. É algo facilmente observável nas imagens e entrevistas feitas com famosos e anônimos: a manifestação de uma alegria histriônica, por vezes histérica, advinda da busca obsessiva por diversão e da obrigação de externar felicidade, como se o contentamento e a alegria fossem bens de consumo fast food e não estados de espírito resultantes de ações e crenças duradouras.

Via de regra (as exceções confirmam a regra), nas entrevistas as pessoas recorrem a lugares-comuns como “tudo é festa!”, “momento de extravasar”, “esquecer os problemas”, “beijar muito!”, “beber até cair”, “vale tudo”, enfim, um conjunto de frases feitas que denotam uma ansiedade de aproveitar aquele momento limitado em detrimento das obrigações cotidianas. É a celebração do fugaz.

De certa forma, o Carnaval, do modo como é vendido e vivido pela multidão, não passa de uma fuga das responsabilidades. A pretensa alegria que esconde frustrações íntimas, frequentemente relacionadas ao trabalho e à família, instâncias da vida que representam os valores mais desprezados durante a festa.

Evidentemente, esses fenômenos se manifestam de forma inconsciente e são protegidos pela generalização da festa popular, uma homogeneização comercial que, ironicamente, ao poucos elimina a própria diversidade cultural, marca registrada do país, por modelos padronizados inspirados nos trios elétricos baianos e nos desfiles de escolas de samba cariocas. É claro que muita gente aproveita o Carnaval para se divertir de formas diferentes, mas esses não aparecem na cobertura do noticiário, não são percebidos como representantes, ou ícones, do momento.

Sem referências culturais fortes e sem valores morais sólidos, resta ao povo a opção de se esbaldar freneticamente embalado por um vazio sentimento de urgência. O Carnaval deixou de ser a festa da espontaneidade para se tornar uma obrigação dissoluta e desprovida de sentido.