Cultura Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Cultura

Queremos ser maus, mas não queremos ser ridículos

Por Wanfil em Cultura

21 de junho de 2018

O STF invalidou nesta quinta-feira o trecho da Lei Eleitoral que visava impedir veículos de comunicação de utilizarem sátiras e montagens com candidatos. Opiniões também estariam proibidas.

A regra contra o humor foi aprovada em 2009 e suspensa pelo próprio STF em 2010, até o presente julgamento da ação presentada pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert).

Ao ler essa notícia pitoresca, me lembrei de uma carta escrita por ninguém menos que Molière, no Século 17, para defender a encenação da comédia teatral O Tartufo, que havia sido proibida a pedido da Igreja Católica, e de alguns nobres e burgueses que se sentiram ofendidos com seus personagens.

A peça, que leio agora, faz uma crítica à hipocrisia que se vale da religião para alimentar vaidades. Na carta, Moliére denuncia a motivação daqueles que o censuram:
“É atingir o vício em cheio o expô-lo à zombaria de todos. Não nos causa abalo o sermos criticados; mas não se tolera o escárnio. Queremos ser maus, mas não queremos ser ridículos”.

A comédia, como gênero, foi julgada na França em 1667; no Brasil, em 2018.

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O Brasil entre “a chupeta das utopias e a bigorna do realismo”

Por Wanfil em Cultura

18 de Abril de 2017

Roberto Campos faria 100 anos e sua pregação pela modernidade do Estado continua atual

Nesses dias em que a qualidade do debate político pode ser resumida aos adjetivos “petralha” e “coxinha”, que questões sobre a Previdência continuam embotadas por velhos chavões que ignoram os limites físicos para o seu financiamento, nesse contexto de muita emoção e pouca razão, a lembrança de que ontem, 17 de abril, o economista, político e diplomata Roberto Campos completaria 100 anos, serve de advertência para a falta de maturidade com que temas vitais continuam a ser tratados no Brasil.

Vale resgatar uma de suas tiradas: “O que os governos latino-americanos desejam é um capitalismo sem lucros, um socialismo sem disciplina e investimento sem investidores estrangeiros”.

Pois é. Passados 16 anos de seu falecimento, as coisas pouco mudaram. Esses países querem estimular o consumo tributando pesadamente o consumo, combater o desemprego encarecendo brutalmente a criação de empregos, combater a desigualdade de renda preservando privilégios corporativos e reservas de mercados. Não dá.

Campos foi o maior defensor do liberalismo econômico no Brasil, lutando contra uma cultura patrimonialista e clientelista que vê no Estado uma entidade salvadora fonte de recursos inesgotáveis, que substitui a livre concorrência por conchavos, que persegue quem investe e pune a ousadia de empreender com burocracia e taxas. Foi lendo seus artigos que comecei a me interessar pelo assunto.

Outro aforismo do autor de A Lanterna na Popa: “A primeira coisa a fazer no Brasil é abandonar a chupeta das utopias em favor da bigorna do realismo”.

Nada mais atual.

 

PS. O Estadão fez boa matéria sobre Roberto Campos, por ocasião do seu aniversário, que recomendo: Um pregador incansável do liberalismo.

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80 anos do poeta Affonso Romano de Sant’Anna: mais atual, impossível

Por Wanfil em Cultura

27 de Março de 2017

O poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna completou 80 anos neste dia 27. Tenho grande admiração pelo texto dele, preciso na construção, audacioso, harmônico e certeiro. Elegante. Dos vivos, é meu preferido e por isso registro a data. Cito aqui passagens de um de seus poemas inúmeras que brilham na sua obra, por serem atuais, feita no ocaso da ditadura, mas demasiadamente atuais em plena democracia:

A Implosão da Mentira (1980)

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
(…)
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
(…)
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.
E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

Pois é. Mentiras implodiram ontem e hoje, mas os mentirosos buscam insistente/mente negar o inegável, na esperança de escapar à justiça impune/mente.

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Em ato final Dilma cita Maiakósvik, o poeta que se matou decepcionado com a revolução

Por Wanfil em Cultura

01 de setembro de 2016

Vladimir Maiakóvski: o poeta que acreditou nas promessas do "Partido" e depois se decepcionou

Vladimir Maiakóvski: o “Poeta da Revolução” que acreditou nas promessas do “Partido” e seus líderes, para depois morrer de decepção

No pronunciamento que fez logo após a aprovação do impeachment pelo Senado Federal, a ex-presidente Dilma Rousseff encerrou declamando uma poesia:

“Neste momento, não direi adeus a vocês. Tenho certeza de que posso dizer “até daqui a pouco”. Encerro compartilhando com vocês um belíssimo alento do poeta russo Maiakóvski:

Não estamos alegres, é certo,
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,
Rompê-las ao meio,
Cortando-as como uma quilha corta.”

Vladimir Maiakóvski suicidou-se com um tiro, aos 36 anos, em 14 de Abril de 1930, decepcionado com a ditadura do proletariado, da qual foi entusiasta na juventude, especialmente quan­do Stá­lin passa a perseguir os que não se enquadrassem na or­to­do­xia do Partido Comunista.

Poeta de grande envergadura, Maiakóvski até que tentou, mas não conseguiu fugir da depressão por ter que submeter sua arte à degradação da propaganda engajada (foi obrigado a escrever poemas sobre políticas sanitárias). Matou-se, por fim, ao reconhecer que os sonhos anunciados pela Revolução e o anúncio do paraíso igualitarista não se encaixavam com liberdade.

Depois do suicídio, Stálin faz de Maiakóvski o “Poeta da Revolução”. Não há poeta mais apropriado para ilustrar a incompatibilidade entre as promessas de mudanças do petismo e suas práticas em 13 anos no poder.

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Mais safadão sou eu!

Por Wanfil em Cultura

03 de Março de 2016

Wesley Safadão. Não sei a razão do adjetivo usado no nome artístico, mas o fato é que amigos e colegas só falam nele. Nas redes sociais e nos noticiários, sua presença é garantida. Não há como escapar. Cercado, decidi me render ao sucesso do artista e fui pesquisar um pouco a seu respeito.

Comecei pelo aspecto que sempre considero mais revelador: as letras. No Google fui em busca da, digamos assim, mensagem que o cantor propaga, ciente, desde sempre, que se trata de produto musical para consumo de massa, provavelmente de celebração pela vida ou pelos prazeres da vida, essas coisas.  Eis o que encontrei, aleatoriamente:

Camarote
Agora assista aí de camarote
Eu bebendo gela, tomando Ciroc
Curtindo na balada, só dando virote
E você de bobeira sem ninguém na geladeira
Pra aprender que amor não é brincadeira!

Não entendi bem. Nunca bebi Ciroc, mas parece que isso confere status aos “baladeiros”. Outra coisa: quem não tem alguém na geladeira, fica de bobeira? Então, tá. Segui adiante:

Novinha Vai no Chão
Novinha vai no chão
Novinha vai no chão
Novinha vai no chão
Chão, chão, chão, chão

É… Posso parecer um tanto ultrapassado, mas essa conversa me pareceu chula. Se o conteúdo de Wesley é moderno, isso eu não sei, mas a sintaxe com certeza é conservadora e não arrisca: chão rima com chão.

Parei por aí. É mais do mesmo. Não me surpreendo com mais nada na cena cultural brasileira desde o sucesso de “Minha Eguinha Pocotó”; na verdade, a única conclusão que consigo elaborar nesse instante é que mais safadão sou eu, que perdi meu tempo.

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Quebraram o Castelão de novo. Qual a surpresa? (Ou: Que moral têm nossos cartolas e autoridades para criticar vândalos?)

Por Wanfil em Cultura

18 de outubro de 2015

Leio que torcedores do Fortaleza quebraram cadeiras do estádio Castelão por causa de mais uma frustração em campo. Não sou especialista em futebol, mas qualquer pessoa que acompanhe o noticiário percebe que o esporte, cada vez mais, degenera em brigas de torcida e escândalos financeiros, eventos mais comuns de serem notados nas páginas policiais ou políticas. De modo que isso não surpreende mais.

Sempre que depredações como a do Castelão acontecem, invariavelmente seguem-se os lamentos pela a selvageria e pela falta de respeito ao bem comum e aos espaços públicos. Estão certos, claro, mas em certa medida, tudo isso é previsível. Basta ver o ambiente que cerca o mundo do futebol.

Não existem mais jogadores que assumam a postura de referência para os torcedores, especialmente para as crianças. Aliás, a maioria dos principais craques acabam confundindo sucesso com ostentação, deslumbrados com seus contratos. Mas são, de todo modo, a matéria prima do espetáculo. São eles que se doam pra valer, que perdem a privacidade, que são vaiados e cobrados e por aí vai. Dos males, o menor.

Pior são os cartolas. Dirigentes da FIFA e da CBF estão presos. Isso basta para qualificar o negócio. São esses os que fazem as regras do jogo. Como confiar nisso? Eu, sinceramente, não dou um centavo a esse pessoal. Vamos adiante. No juiz, coitado, ninguém confia mesmo. NO Brasil, os estádios feitos para a “maior Copa de todos os tempos” são quase todos objeto de suspeitas de órgãos como o Ministério Público. Custaram aos cofres públicos muito mais do que similares na Europa. No Ceará, o governo fez o diabo (para usar uma expressão da moda) para engavetar uma CPI. São monumentos à prática do superfaturamento. Mas, vá lá, é a paixão nacional e a roubalheira sempre existiu, conformam-se os apaixonados pelo esporte. Isso, no entanto, contamina outras esferas.

Não justifica, mas…
A grande vítima, claro, é o bom torcedor. Sei que s maus torcedores são minoria, mas são muitos, em número suficiente para atrapalhar os demais. Deveriam ser banidos, mas além de sentirem-se à vontade para ignorar as regras por conta dos exemplos dos chefões do futebol, também apostam na impunidade. Isso não justifica a ação desses vândalos, porém, convenhamos, acaba por estimulá-los, infelizmente. E ninguém faz nada, por que ninguém quer fazer nada.

No final das contas, as cadeiras quebradas são o menor dos prejuízos nesse universo de negociatas. De fato, somos o país do futebol.

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“Cafajeste Music”: mais do que forró ruim, um estilo de vida

Por Wanfil em Cultura

10 de Janeiro de 2014

Forró Real - Reprodução: Facebook. Homens e mulheres reduzidos a estereótipos desprezíveis.

Forró Real – Reprodução: Facebook. Homens e mulheres reduzidos a estereótipos desprezíveis.

O cantor e compositor David Duarte cunhou a expressão “Cafajeste Music” para definir o forró pasteurizado da atualidade, carregado de exaltações ao consumo de álcool, à misoginia, ao sexo irresponsável e à egolatria. Segundo Duarte, não se trata de uma questão restrita ao campo musical, mas de um fenômeno de amplitude muito maior, que permeia as relações sociais do cotidiano.

Essas considerações foram feitas em dois vídeos onde o cantor, autor de músicas como a belíssima Bússola (uma das minhas preferidas, com participação de Manassés), aborda o tema: “Idiotas Orgânicos” (Hegemonia do Mau Gosto) e “Cafajeste Music” (Muito mais que uma mera disfunção estética). Com efeito, é uma das melhores leituras que já vi sobre a nossa realidade cultural.

A partir dela, cheguei à seguinte pergunta: Como chegamos a tal estado de indigência? Afinal, do Ceará brotaram talentos como Fagner, Belchior, Ednardo, Amelinha, Fausto Nilo e Humberto Teixeira (parceiro de Luiz Gonzaga), autores e intérpretes de canções belíssimas.

Desde o final dos anos 70 e início dos 80 do século passado, portanto, desde a redemocratização do país, os grandes talentos sumiram. Talvez só o sanfoneiro Waldonys, na condição de instrumentista. Depois quase tudo se dissipou na padronização de um modelo que promove a exaltação de uma falsa alegria que tem um quê de histeria. Com o tempo, essa música descartável feita para consumo imediato tornou-se o padrão.

Mesmo os grupos mais famosos desse meio, repaginados com roupas de grife, não escapam da pobreza estética, técnica e moral da “Cafajeste Music”. Exagero? Não, nada disso. Que dizer de uma sociedade que tem referência de sucesso artístico e comercial, e ainda com ares de celebridade fina, algo assim:

Dá um arrepio quando ela sai pedalando
Mas tem uma mão na frente que tá sempre atrapalhando
Acho que ela tem medo do periquito voar
Por isso que ela não para de tampar
(Bicicletinha – Aviões do Forró )

E de mulheres – muitas com formação de nível superior – que vibram de emoção ao ouvir o ídolo dizer isso:

Hoje eu pego uma fulera
Em cima da mesa faço ela dançar
Eu tiro tiro a calcinha da boneca
Faço como peteca jogo pra lá e pra cá
(Levante o dedo quem gosta de rapariga- Garota Safada )

Ou de rapazes que têm por modelo de masculinidade quem fala assim:

Sou cabra raparigueiro, gosto de raparigar,
Raparigar é minha sina, nasci pra raparigar.
A festa só fica boa quando chega a rapariga,
E no forró da rapariga todo mundo vai dançar!
(Trenzinho da sacanagem – Forró Real)

Vítimas

Esses foram exemplos colhidos aleatoriamente. Evito o quanto posso essas produções, porque sou atento ao que ouço. Mas não vai aqui nenhum recalque moralista. Pelo contrário. A rebeldia, a sensualidade e o erotismo são estímulos que podem ser encontrados em criações de grande valor na arte, sem vulgaridade ou depreciação de gênero.

Como disse David Duarte em seu vídeo, a questão é que a má qualidade dessas produções (gosto se discute, defende o cantor, no que concordo plenamente) reflete um ambiente social degradado, focado na satisfação pessoal superficial, na arrogância e no desprezo às mulheres. Seu conteúdo não tem nada que sugira alguma elevação espiritual. Nelas, a dor não ensina e o amor não constrói, ficando tudo resumido a álcool e sexo vazio.

Acima, pergunto o que esperar de pessoas que consomem esse material sem filtros. A resposta é simples: não espero nada. Nem cobro. São, em boa medida, vítimas de um cartel de produção musical que aposta nos baixos instintos para ganhar dinheiro. De artistas e intelectuais que se omitem, que evitam debater cultura, em dizer que isso ou aquilo é ruim, por receio de não parecer relativista. E de pais que evitam (ou não querem, ou não sabem) conhecer e conversar sobre o que seus filhos andam vendo, ouvindo e assimilando. A deseducação acaba em noções como as ideias de que a “fuleira” trai por vingança e o “cachaceiro” não perdoa as “raparigas”.

Não é o caso de pregar a censura, que isso é mascarar o problema em vez de enfrentá-lo. Nem de ser contra o forró, ritmo que nos toca por fazer parte da nossa história. Aliás, é uma defesa do forró. Esse modelo que critico aqui me parece algo importado do RAP americano e do Funk carioca, com seus ressentimentos, ostentação e misoginia. Mas isso fica para outro texto.

Também não é nada contra a diversão despretensiosa. Nem tudo pode ser arte de alto nível.  Mas essa condição não pode servir de justificativa para que o culto ao chulo e a hegemonia da mediocridade ocupem todos os espaços da produção cultural, a ponto de matar, por inanição, as manifestações de valor construtivo.

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Cem anos de Vinicius de Moraes. Poetinha?

Por Wanfil em Cultura

19 de outubro de 2013

Vinicius de Moraes completaria cem anos, se estivesse vivo, neste 19 de outubro sem música nem poesia.

Vinicius de Moraes completaria cem anos, se estivesse vivo, neste 19 de outubro sem música nem poesia.

Sempre que ouço falar de Vinicius de Moraes lembro do boêmio a bebericar uísque rodeado de mulheres (casou-se nove vezes) e tenho calafrios depressivos ao lembrar da chatíssima bossa nova, estilo musical enfadonho ao extremo que adornou algumas de suas letras. Completaria hoje 100 anos se estivesse vivo (morreu aos 66 anos em 1980). Foi mais poeta do que letrista, mas o letrista foi sua persona pública de maior sucesso, o que acabou relegando a um segundo plano sua produção mais visceral. Ficou conhecido pelo carinhoso apelido de “poetinha”, o que, diante de algumas de suas poesias, é uma injustiça.

O Vinicius pop star ofuscou o Vinicius mais profundo, embora alguma de suas letras sejam magníficas, como O Filho que Eu quero Ter (belíssima canção de Toquinho, uma exceção ao tédio da bossa nova). Sua poesia, pelo que li, me parece irregular. Alterna grandes momentos com outros de menor impacto, mas suspeito que isso aconteça ao lermos qualquer poeta de maior estatura. O que nos toca é também um pouco de nós, e o que não comove a gente é aquilo o que nos é alheio ao sentimento pessoal. Ler poesia é buscar um espelho para a alma.

De todo modo, nesses dias de aridez incomparável, seja na poesia ou nas letras das músicas, é possível dizer que a ausência de Vinicius nos remete a um estado melancólico, diante da constatação de que não temos mais a quem recorrer, só aos que já se foram. Dos vivos, arrisco ainda a poesia de um Affonso Romano de Sant’Anna, embora o melhor da sua produção seja do século passado.

Conversava dia desses com um amigo sobre o ocaso da poesia como forma literária no Brasil e talvez no mundo. Onde estão os grandes poetas da atualidade? A superficialidade dos debates, a emergência de um modo de viver acelerado demais, as preocupações com as boas condutas (o que comer, quantas horas dormir, quantos quilômetros correr, quantos check ups fazer, essas coisas), a performance profissional cada vez mais automatizada, tudo isso pode concorrer para o fim da poesia. Não sei. Pode ser apenas o que Gasset chamava de azar, viver um tempo sem talentos, mal que vez por outra atinge algumas gerações.

Arte

Para encerrar, do Vinicius poeta, muito cedo (na adolescência ainda) impressionou-me este poema:

DIALÉTICA

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

E do Vinicius letrista, a canção que citei acima, aqui interpretada por Paulinho da Viola, é memorável:

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A fugaz alegria do Carnaval

Por Wanfil em Cultura

09 de Fevereiro de 2013

Carnaval, 1970, óleo sobre tela, de Di Cavacanti.

Carnaval, 1970, óleo sobre tela –  Di Cavacanti

Qual o significado do Carnaval? A resposta, evidentemente, pode assumir formas distintas, dependendo dos aspectos histórico-culturais do lugar, da religião, idade e personalidade das pessoas, e infinitas outras variáveis individuais ou de grupo.

O certo é que, diferenças à parte, o Carnaval é a maior festa popular do país, capaz de mobilizar atenções e recursos, fazendo que tudo o mais se torne secundário nesse período.

Existem ainda as explicações didáticas, que remetem às origens europeias ou pagãs da festa, posteriormente adaptadas a preceitos religiosos diversos. Mas o Carnaval, na prática, possui características bem mais imediatas, que ignoram toda essa teorização. É algo facilmente observável nas imagens e entrevistas feitas com famosos e anônimos: a manifestação de uma alegria histriônica, por vezes histérica, advinda da busca obsessiva por diversão e da obrigação de externar felicidade, como se o contentamento e a alegria fossem bens de consumo fast food e não estados de espírito resultantes de ações e crenças duradouras.

Via de regra (as exceções confirmam a regra), nas entrevistas as pessoas recorrem a lugares-comuns como “tudo é festa!”, “momento de extravasar”, “esquecer os problemas”, “beijar muito!”, “beber até cair”, “vale tudo”, enfim, um conjunto de frases feitas que denotam uma ansiedade de aproveitar aquele momento limitado em detrimento das obrigações cotidianas. É a celebração do fugaz. Leia mais

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Consciência não tem cor

Por Wanfil em Brasil, Cultura, Livros

20 de novembro de 2012

A maior qualidade da democracia brasileira não está na separação de seus cidadãos pelo critério da cor, mas justamente na miscigenação, como evidenciam Freyre, em Casa Grande e Senzala; e Kamel, em Não Somos Racistas.

Hoje é o dia da consciência negra. Pela lógica, o fato de seres humanos  possuírem cores diferentes basta para invalidar qualquer tipo de discriminação, uma vez que todos possuem a mesma constituição física. No entanto, como sabemos, o racismo existe em variadas formas, a depender do período histórico e da sociedade analisados.

O problema de haver um dia para comemorar a “consciência negra” reside no fato de que se está promovendo uma distinção que separa as pessoas pelo critério da cor. Por esse princípio, seria natural haver o dia da “consciência branca”, ou da “consciência cabocla”, ou “quase-negra”, ou “amarela” etc, etc. A consciência, enquanto faculdade de discernimento sobre os próprios atos, é atributo individual e intransferível, independente do sexo ou da cor. Do ponto de vista coletivo, podemos ter o patriotismo, que é o sentimento de pertencimento e de unidade experimentado por pessoas que dividem uma formação histórica. É, portanto, uma soma. Não pode haver, nesse grupo, uma categoria especial, pois todos se igualam na condição de brasileiros.

Dessa forma, grosso modo, a primeira medida para corrigir discriminações de natureza racial é o estabelecimento da igualdade jurídica entre os cidadãos. Qualquer exceção ao estabelecimento dessa noção igualitária, ainda que supostamente criada com as melhores intenções, resulta em… racismo!

Não estou afirmando que inexiste discriminação racial no Brasil. Digo apenas que o racismo brasileiro é um fenômeno cultural de difícil identificação, que na maioria das vezes se manifesta em forma tácita. Não existem, pelo menos não existiam até a criação das cotas raciais nas universidades federais, leis de discriminação. Não há impedimentos legal para que um negro ou um amarelo tenham acesso a qualquer bem ou direito, ou que privilegiem um branco, garantindo-lhe regalias. Portanto, em nossa sociedade, a melhor forma de combater o preconceito de cor é a promoção da boa educação para o exercício da democracia. Não se trata definitivamente, de um problema de legislação.

Dica de leitura sobre o tema

Casa-grande e Senzala, escrito pelo sociólogo Gilberto Freyre, em 1933. Trata-se de um imenso painel que, entre outras coisas, traz o registro detalhado do processo de miscigenação que fez do Brasil um país multi-racial. Para Freyre, essa mistura seria a maior qualidade do nosso povo, a matriz da identidade nacional.

Não Somos Racistas, do jornalista e sociólogo Ali Kamel, de 2007. É um alerta para o perigo de perdermos a noção positiva da miscigenação, devido ao pensamento bicolor que busca dividir o Brasil apenas entre brancos opressores e negros oprimidos. “Num país em que no pós-Abolição jamais existiram barreiras institucionais contra a ascensão social do negro, num país em que os acessos a empregos públicos e a vagas em instituições de ensino público são assegurados apenas pelo mérito, num país em que 19 milhões de brancos são pobres e enfrentam as mesmas agruras dos negros pobres, instituir políticas de preferência racial, em vez de garantir educação de qualidade para todos os pobres e dar a eles a oportunidade para que superem a pobreza de acordo com os seus méritos, é se arriscar a pôr o Brasil na rota de um pesadelo: a eclosão entre nós do ódio racial, coisa que, até aqui, não conhecíamos”, afirma Kamel.

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Consciência não tem cor

Por Wanfil em Brasil, Cultura, Livros

20 de novembro de 2012

A maior qualidade da democracia brasileira não está na separação de seus cidadãos pelo critério da cor, mas justamente na miscigenação, como evidenciam Freyre, em Casa Grande e Senzala; e Kamel, em Não Somos Racistas.

Hoje é o dia da consciência negra. Pela lógica, o fato de seres humanos  possuírem cores diferentes basta para invalidar qualquer tipo de discriminação, uma vez que todos possuem a mesma constituição física. No entanto, como sabemos, o racismo existe em variadas formas, a depender do período histórico e da sociedade analisados.

O problema de haver um dia para comemorar a “consciência negra” reside no fato de que se está promovendo uma distinção que separa as pessoas pelo critério da cor. Por esse princípio, seria natural haver o dia da “consciência branca”, ou da “consciência cabocla”, ou “quase-negra”, ou “amarela” etc, etc. A consciência, enquanto faculdade de discernimento sobre os próprios atos, é atributo individual e intransferível, independente do sexo ou da cor. Do ponto de vista coletivo, podemos ter o patriotismo, que é o sentimento de pertencimento e de unidade experimentado por pessoas que dividem uma formação histórica. É, portanto, uma soma. Não pode haver, nesse grupo, uma categoria especial, pois todos se igualam na condição de brasileiros.

Dessa forma, grosso modo, a primeira medida para corrigir discriminações de natureza racial é o estabelecimento da igualdade jurídica entre os cidadãos. Qualquer exceção ao estabelecimento dessa noção igualitária, ainda que supostamente criada com as melhores intenções, resulta em… racismo!

Não estou afirmando que inexiste discriminação racial no Brasil. Digo apenas que o racismo brasileiro é um fenômeno cultural de difícil identificação, que na maioria das vezes se manifesta em forma tácita. Não existem, pelo menos não existiam até a criação das cotas raciais nas universidades federais, leis de discriminação. Não há impedimentos legal para que um negro ou um amarelo tenham acesso a qualquer bem ou direito, ou que privilegiem um branco, garantindo-lhe regalias. Portanto, em nossa sociedade, a melhor forma de combater o preconceito de cor é a promoção da boa educação para o exercício da democracia. Não se trata definitivamente, de um problema de legislação.

Dica de leitura sobre o tema

Casa-grande e Senzala, escrito pelo sociólogo Gilberto Freyre, em 1933. Trata-se de um imenso painel que, entre outras coisas, traz o registro detalhado do processo de miscigenação que fez do Brasil um país multi-racial. Para Freyre, essa mistura seria a maior qualidade do nosso povo, a matriz da identidade nacional.

Não Somos Racistas, do jornalista e sociólogo Ali Kamel, de 2007. É um alerta para o perigo de perdermos a noção positiva da miscigenação, devido ao pensamento bicolor que busca dividir o Brasil apenas entre brancos opressores e negros oprimidos. “Num país em que no pós-Abolição jamais existiram barreiras institucionais contra a ascensão social do negro, num país em que os acessos a empregos públicos e a vagas em instituições de ensino público são assegurados apenas pelo mérito, num país em que 19 milhões de brancos são pobres e enfrentam as mesmas agruras dos negros pobres, instituir políticas de preferência racial, em vez de garantir educação de qualidade para todos os pobres e dar a eles a oportunidade para que superem a pobreza de acordo com os seus méritos, é se arriscar a pôr o Brasil na rota de um pesadelo: a eclosão entre nós do ódio racial, coisa que, até aqui, não conhecíamos”, afirma Kamel.