Por que o jornalista dinamarquês virou notícia? - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Por que o jornalista dinamarquês virou notícia?

Por Wanfil em Crônica

17 de Abril de 2014

Laurence Olivier como o dinamarquês Hammlet: Ser ou não Ser?

Laurence Olivier como o príncipe dinamarquês Hammlet: Ser ou não Ser?

Muitos amigos e leitores me perguntam sobre o que achei da imensa repercussão no caso da matéria com o jornalista dinamarquês Mikkel Keldorf Jensen, publicada em primeira mão pela Tribuna do Ceará, que afirma ter desistido de cobrir a Copa do Mundo no Brasil por estar horrorizado com a violência e a corrupção no país e, em especial, em Fortaleza, a mais perigosa das sedes dos jogos, segundo a ONU.

Puxando pela memória, os poucos dinamarqueses de quem consigo lembrar são o diretor de cinema Lars Von Trier (Dogville), e o escritor Hans Christian Andersen (O Patinho Feio). Mas o único cuja história realmente me interessa é o príncipe Hamlet – o maravilhoso personagem da peça homônima escrita por Shakespeare -, famoso, entre outras, por essas duas falas: “Há algo de podre no reino da Dinamarca” (Ato I, Cena IV); e “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia” (Ato I, Cena V, sem o adjetivo ‘vã’ inserido em algumas traduções: There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are dreamt of in your philosophy).

Já o dinamarquês que denuncia a violência e corrupção no Brasil (alguma novidade?) é (ou era) um desconhecido e não atua em veículos de grande importância. Como então conseguiu mobilizar tanta atenção? Pelo que vi, Mikkel Jensen não escreveu para os brasileiros, mas para seus compatriotas. Ocorre que, de algum modo, foram os brasileiros que se deixaram tocar pelo “gringo”. Uns concordam, outros o criticam, mas poucos ficam indiferentes ao caso. Histórias de faxinas improvisadas para causar boa impressão a turistas também foram publicadas por ocasião das Olimpíadas de Pequim e da Copa na África do Sul. A novidade agora é que, segundo Jansen, no Brasil, crianças de rua estariam sendo mortas para esconder a miséria dos visitantes. Não há provas. Nem fotos, nem depoimentos. O que existe é um relato pessoal, em primeira pessoa, e a promessa de um documentário.

Como algo assim ganha a proporção que ganhou, virando notícia em todo o país, ensejando debates e polêmicas? Simples: por associação de verossimilhança. O dinamarquês diz: “Há algo de podre no Brasil”. E nós, brasileiros, cientes disso, endossamos: “Sim!”, sem buscar mais detalhes, porque o cotidiano nos basta para concluir o mesmo. E isso diz muito sobre quem somos, ou melhor, sobre o que vivemos. Quantos de nós, em diálogos despretensiosos, não ouvimos ou dizemos: “Se eu pudesse, iria embora”? Quantos não vimos na conversa de Jansen, nesse “saí por causa da violência”, a expressão de um desejo, ainda que seja um desejo meramente retórico?

Na ficção, Hamlet era passional e confrontava a racionalidade de Horácio, o estudante de filosofia. No Brasil contemporâneo, vivemos, com boa dose de razão, um estado de exacerbação que alimenta sentimentos negativos, tal e qual o dinamarquês de Shakespeare.

Particularmente, não acredito que crianças estejam sendo assassinadas por grupos de extermínio só para não ferir a suscetibilidade de turistas. Faço, entretanto, uma ressalva: se não acredito nessa motivação, infelizmente desconfio que tais crimes aconteçam por outras razões, que vão desde a disputa por territórios do tráfico até o justiçamento financiado por vítimas de gangues juvenis. Quem duvida? Basta ver as estatísticas.

Enquanto isso, a Secretaria de Segurança do Ceará prefere fingir que a história, ainda que estranha, prospera por acaso, sem conexão com o mundo real, e não por estar imersa no contexto de medo e criminalidade recordes em Fortaleza e no Brasil. Não percebe que existem mais coisas entre a violência e a sensação de violência no Ceará, do que supõe o discurso oficial.

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Por que o jornalista dinamarquês virou notícia?

Por Wanfil em Crônica

17 de Abril de 2014

Laurence Olivier como o dinamarquês Hammlet: Ser ou não Ser?

Laurence Olivier como o príncipe dinamarquês Hammlet: Ser ou não Ser?

Muitos amigos e leitores me perguntam sobre o que achei da imensa repercussão no caso da matéria com o jornalista dinamarquês Mikkel Keldorf Jensen, publicada em primeira mão pela Tribuna do Ceará, que afirma ter desistido de cobrir a Copa do Mundo no Brasil por estar horrorizado com a violência e a corrupção no país e, em especial, em Fortaleza, a mais perigosa das sedes dos jogos, segundo a ONU.

Puxando pela memória, os poucos dinamarqueses de quem consigo lembrar são o diretor de cinema Lars Von Trier (Dogville), e o escritor Hans Christian Andersen (O Patinho Feio). Mas o único cuja história realmente me interessa é o príncipe Hamlet – o maravilhoso personagem da peça homônima escrita por Shakespeare -, famoso, entre outras, por essas duas falas: “Há algo de podre no reino da Dinamarca” (Ato I, Cena IV); e “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia” (Ato I, Cena V, sem o adjetivo ‘vã’ inserido em algumas traduções: There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are dreamt of in your philosophy).

Já o dinamarquês que denuncia a violência e corrupção no Brasil (alguma novidade?) é (ou era) um desconhecido e não atua em veículos de grande importância. Como então conseguiu mobilizar tanta atenção? Pelo que vi, Mikkel Jensen não escreveu para os brasileiros, mas para seus compatriotas. Ocorre que, de algum modo, foram os brasileiros que se deixaram tocar pelo “gringo”. Uns concordam, outros o criticam, mas poucos ficam indiferentes ao caso. Histórias de faxinas improvisadas para causar boa impressão a turistas também foram publicadas por ocasião das Olimpíadas de Pequim e da Copa na África do Sul. A novidade agora é que, segundo Jansen, no Brasil, crianças de rua estariam sendo mortas para esconder a miséria dos visitantes. Não há provas. Nem fotos, nem depoimentos. O que existe é um relato pessoal, em primeira pessoa, e a promessa de um documentário.

Como algo assim ganha a proporção que ganhou, virando notícia em todo o país, ensejando debates e polêmicas? Simples: por associação de verossimilhança. O dinamarquês diz: “Há algo de podre no Brasil”. E nós, brasileiros, cientes disso, endossamos: “Sim!”, sem buscar mais detalhes, porque o cotidiano nos basta para concluir o mesmo. E isso diz muito sobre quem somos, ou melhor, sobre o que vivemos. Quantos de nós, em diálogos despretensiosos, não ouvimos ou dizemos: “Se eu pudesse, iria embora”? Quantos não vimos na conversa de Jansen, nesse “saí por causa da violência”, a expressão de um desejo, ainda que seja um desejo meramente retórico?

Na ficção, Hamlet era passional e confrontava a racionalidade de Horácio, o estudante de filosofia. No Brasil contemporâneo, vivemos, com boa dose de razão, um estado de exacerbação que alimenta sentimentos negativos, tal e qual o dinamarquês de Shakespeare.

Particularmente, não acredito que crianças estejam sendo assassinadas por grupos de extermínio só para não ferir a suscetibilidade de turistas. Faço, entretanto, uma ressalva: se não acredito nessa motivação, infelizmente desconfio que tais crimes aconteçam por outras razões, que vão desde a disputa por territórios do tráfico até o justiçamento financiado por vítimas de gangues juvenis. Quem duvida? Basta ver as estatísticas.

Enquanto isso, a Secretaria de Segurança do Ceará prefere fingir que a história, ainda que estranha, prospera por acaso, sem conexão com o mundo real, e não por estar imersa no contexto de medo e criminalidade recordes em Fortaleza e no Brasil. Não percebe que existem mais coisas entre a violência e a sensação de violência no Ceará, do que supõe o discurso oficial.