Crônica Archives - Página 4 de 5 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Crônica

Para ver 2014

Por Wanfil em Crônica

31 de dezembro de 2013

Primeiro de janeiro de 2014. Ano Novo. Se no calendário os anos são todos iguais, matematicamente repartidos em porções previsíveis, onde está a novidade? Muitos acreditam que o novo é o renascimento de esperanças que se desgastaram durante o ano que termina. Outros, que há um destino escrito e que desta vez pode ser a hora de a profecia se realizar.

Eu gosto de pensar que o novo está contido no velho, embutido. Explico. As novidades e as mudanças que se revelarão neste ano já estavam entre nós desde o ano passado, mas ninguém foi capaz de vê-las, seja por não ter prestado atenção ou por ter a “vista cansada”. A questão é saber quem as enxergará primeiro. E quando.

Por falar nisso, transcrevo um texto de Otto Lara Resende, escrito no mais ou menos distante 1992, mas que soa como uma novidade sempre. É que o novo surpreende não pelo inusitado, mas pelo óbvio que estava ao alcance de todos e que passou despercebido.

Segue Otto:

Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

(Extraído da crônica Vista Cansada, publicada no jornal Folha de São Paulo, em 23 de fevereiro de 1992).

Em 2014, meu desejo mais profundo é o de não deixar que as vendas da indiferença e do hábito me impeçam de ver o novo que se refaz todo dia diante de nós. Que eu possa ver com o coração o que sou e o que faço, porque ninguém é estático e mudamos sempre. Que possamos nos ver mais e melhor, sempre.

Feliz 2014 a todos!

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A queda (o suicídio de Evelyn McHale)

Por Wanfil em Crônica

08 de outubro de 2013

Vez por outra uma imagem chama a nossa atenção nesse mosaico ensandecido que é a Internet. Pesquisando sobre fotos em preto e branco, deparei-me com uma que me hipnotizou. É a fotografia da jovem Evelyn McHale, morta aos 23 anos, no dia 1º de maio de 1947, após saltar do 86º andar do famoso Empire State Building, em Nova York e cair sobre o teto de uma limusine estacionada e vazia.

 

O suicídio de Evelyn Mchale. Foto de Robert Wiles, 1947.

O suicídio de Evelyn McHale. Foto de Robert Wiles, 1947

 

O estudante de fotografia Robert Wiles registrou a cena instantes depois do impacto. No dia 12 de maio, a imagem foi publicada na revista Life. Nessa época, imagens de suicídio em jornais e revistas não eram tabu. Atualmente, no Brasil, convencionou-se que isso pode induzir pessoas ao suicídio.

No bolso do casaco (cinza) de Evelyn, um bilhete dizia, entre outras coisas: “Eu não seria uma boa esposa para ninguém”. Barry Rhodes, o noivo abandonado, disse em entrevista que um dia antes, quando eles se despediram com um beijo, “ela estava feliz e tão normal como qualquer garota prestes a se casar.”

Contraste 

A imagem choca, ou melhor, enternece, pelo contraste. A forma elegante da jovem, sua mão enluvada segurando o colar de pérolas, os pés cruzados como numa crucificação, e o resto belo e sereno que parece dormir, em nada remetem ao desespero, loucura, dor, tomento e perturbação anunciados pelo ferro retorcido e os estilhaços de vidro ao seu redor.

Há quem veja beleza nessa composição (a foto é conhecida como “o mais belo suicídio”). Eu vejo uma tristeza que me faz desconfiar das formas. A ideia de que a estética guarda um parentesco com a ética é desafiada. Me faz lembrar um pouco da moral de O Retrato de Dorian Gray, obra de Oscar Wilde. Às vezes, o que vemos por fora é o oposto do que há por dentro.

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Carta contra eu mesmo

Por Wanfil em Crônica

27 de setembro de 2013

Ser gentil com quem concorda conosco é fácil. Fica a dica.

Ser gentil com quem concorda conosco é fácil. Fica a dica.

Fiquei surpreso com a repercussão do post Enquanto impasse no Cocó não é resolvido, manifestantes fazem a festa nas redes sociais do Sistema Jangadeiro. O que impressiona nos comentários é a emoção exacerbada, tanto por parte de quem condena a ocupação, como de quem a defende. No entanto, o primeiros são dispersos, agem de modo desordenado; enquanto os outros são mais organizados, atuam com método e em parceria com grupos políticos já constituídos.

Com o fanatismo ferido, alguns “militantes” tentaram me intimidar com xingamentos e rotulações. O problema é que, aos poucos, estamos criando uma cultura de intolerância travestida de humanismo progressista. Por acreditar que lutam por algo justo e belo, esses jovens, boa parte estudantes universitários, imaginam que todos os que não comungam da mesma visão de mundo são essencialmente maus.

Diante dessa reação improdutiva, resolvi mostrar aos meus detratores que é possível discordar de modo decente e civilizado, escrevendo uma carta contra o que eu mesmo escrevi. A primeira regra – atenção galerinha super bacana – é ser educado. Palavrões e clichês ultrapassados podem massagear os egos de quem já é convertido à militância dos manifestantes, porém, assusta e afasta o leitor neutro, como ensina qualquer manual básico de marketing político. É que o radical é mal visto, moçada. Mas vamos ao que interessa. Se eu fosse escrever contra o que eu escrevi, diria algo mais ou menos assim:

“Caro Wanderley, li seu post sobre a festa no acampamento do Cocó e fiquei incomodado com o tom, ora sarcástico, ora irônico, com que os ativistas foram pintados. Escrever em um veículo de grande audiência implica em responsabilidade com os fatos e também com os sentimentos das pessoas. O que para você parece uma brincadeira, para nós acampados e apoiadores da causa, é coisa séria. Seu espaço poderia ser bem mais útil se mostrasse como anda a questão ambiental na cidade. Não custa lembrar que, graças aos protestos, a Prefeitura precisou rever sua forma de atuação, obrigando-se a cumprir a lei e a buscar os devidos licenciamentos ambientais. Você tem o direito de discordar e de ser a favor dos viadutos ou até do desmatamento, mas a contrapartida para isso é justamente respeitar o nosso direito que lutar pelo que acreditamos. Venha até o acampamento e conheça-nos um pouco mais. Aqui a imprensa é sempre bem-vinda”.

Viram, caros críticos? É fácil para quem sabe. Podem copiar, se quiserem. Eu responderia, claro, e poderia até fazer um mea-culpa, quem sabe. Mas poderia ser realmente duro com vocês, mas com toda a educação. Só não venham me xingar, que aí não tem conversa. O destempero interdita o debate. Sei que isso pode parecer-lhes pouco revolucionário, mas é assim que funciona. Boas maneiras para com supostos adversários ainda é sinal de espírito civilizatório. Sejam mais gentis doravante.

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A falta que um Cícero faz ao Brasil: Oh tempos oh costumes

Por Wanfil em Crônica

14 de julho de 2013

Cícero denuncia Catilina no Senado romano. Óleo de Cesare Maccari.

Cícero denuncia Catilina no Senado romano. Óleo de Cesare Maccari.

O advogado e professor Jorge Hélio disse em seu artigo desta semana que “o futuro é o passado andando de costas“. Pois bem, nesses dias reli os discursos de Marco Túlio Cícero, político, orador e filósofo romano que viveu entre os longínquos anos de 106 a.C. a 43 a.C, feitos no Senado após uma tentativa de golpe contra a República.

Cícero, que era Cônsul, expôs publicamente a dissimulação do líder da conspiração frustrada, Lúcio Sérgio Catilina, que insistia em frequentar o próprio Senado, apesar dos crimes que cometera.

“Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?”, indagou-lhe Cícero logo no primeiro dos quatro discursos – conhecidos como Catilinárias –, com tamanha força moral e talento retórico na defesa da ordem republicana, que Catilina acabou obrigado a deixar Roma.

O futuro é o passado andando de costas

No presente, o que vemos no Brasil? Diante das manifestações populares, figuras como o presidente do Senado, Renan Calheiros; da Câmara, Eduardo Alves; e do líder do governo Dilma Rousseff no Congresso, deputado José Nobre Guimarães, entre outros mais, falam em voz das ruas, em novos tempos, em reforma política! Será que não sabem, como disse Cícero a Catilina, que “quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?“.

Roma tinha poder econômico e militar, mas sucumbiu diante de uma crise de valores, de uma decadência moral disfarçada pelo sucesso material. Seu passado volta no momento em que percebemos que o Brasil é impedido de crescer justamente por uma cultura política imoral, questiona nas ruas. E seus beneficiários, o que dela se locupletam, buscam parecer inocentes criaturas, tal como Catilina. Não querem ver que todos sabem quem são e o que fizeram e fazem?

Falta um Cícero no Brasil

Nas Catilinárias, ficou famosa a expressão que Cícero proferiu para destacar a ação dos que agiam para desestabilizar a república: “O tempora o mores” (Oh tempos, oh costumes). Mais que um lamento, a constatação era uma exortação aos seus colegas para que providências fossem tomadas.

Mais adiante, de forma didática, Cícero faz um alerta que caberia perfeitamente para explicar as manifestações no Brasil de hoje: “Pois agora é a Pátria, mãe comum de todos nós, que te odeia e teme, e sabe que desde há muito não pensas noutra coisa que não seja o seu parricídio; e tu, nem respeitarás a sua autoridade, nem acatarás as suas decisões, nem te assustarás com o seu poder?“.

Eis a questão.

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Que é plebiscito?, perguntou Manduca ao senhor Rodrigues

Por Wanfil em Crônica

01 de julho de 2013

O conto Plebiscito, de Arthur Azevedo, vai no cerne da questão: a fusão de inépcia e política.

O conto Plebiscito, de Arthur Azevedo, vai no cerne da questão: a fusão de inépcia e política.

O escritor Artur Azevedo é o autor de um pequeno conto, publicado no final do século 19, que  ilustra perfeitamente o espírito com o qual o governo brasileiro propõe, nesta segunda década do século 21, um plebiscito para saber da população (não existe definição a respeito) algo sobre a necessidade de uma reforma política no país.

A ideia é uma forma de tentar mostrar que as autoridades, depois de inúmeros protestos, agora querem ouvir as massas. Mas, como sempre, onde deveria haver rigor, tem-se o improviso; no lugar do senso de responsabilidade, surge o oportunismo; e fazendo o papel de estadista, a irresponsabilidade.

O título do texto — Plebiscito — é mais do que uma coincidência semântica entre ficção e realidade. Se o leitor comparar os personagens da obra com figuras do presente, verá o retrato de um modo de ver as formalidades institucionais no Brasil, que perdura no tempo.

No lugar do menino Manduca, o povo brasileiro; no do Sr. Rodrigues, a presidente Dilma Rousseff; no de Dona Bernadina, a imprensa. Pronto, teremos atualizada, uma bela alegoria sobre a pantomima do plebiscito nos dias que correm.

— ∫ —

PLEBISCITO / Arthur Azevedo

A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio

De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

— Papai, que é plebiscito?

O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

— Papai?

Pausa:

— Papai?

Dona Bernardina intervém:

— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

— Que é? que desejam vocês?

— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito? Leia mais

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MMA é sadomasoquismo disfarçado de esporte

Por Wanfil em Crônica

09 de junho de 2013

Fico impressionado com o sucesso das competições de “vale-tudo”, ou MMA, que são degradantes espetáculos de violência em que o repúdio ao grotesco é anestesiado sob o disfarce da palavra esporte. E isso é feito de tal forma que sujeitos dispostos a arriscar a própria integridade física para divertir o público sedento de sangue se transformam, numa espantosa inversão de valores, em heróis da paz, em atletas que cultuam a saúde, e até em sábios e filósofos, portadores de um autoconhecimento que somente o sopapo no pé do ouvido é capaz de forjar. É o valor negativo tomado por sinal positivo.

O ardil para legitimar as rinhas humanas como prática esportiva saudável consiste em transformar a humilhação a que se submetem os brutamontes brigando de cuecas, em momento de elevação espiritual (desafiando limites, diz o locutor); em atribuir ares de inocência infantil ao que não passa de apologia à violência; em chamar de esporte sua mais descarada negação. Tudo com muita alegria, claro, para que todos possam apreciar o evento sem os escrúpulos da consciência para atrapalhar.

Por isso é comum ver que muitos dos que acusam, cheios de indignação, programas policiais de exploração da violência, assumirem eles próprios a condição de entusiastas incondicionais do “vale-tudo”. Batem palmas, comentam com adoração como fulano chutou a cara de sicrano e como este caiu desacordado. Consideram-se humanistas por condenarem a denúncia da violência nas ruas (pode até ser apelativa, mas é sempre denúncia) e não atinam para a celebração que fazem da violência remunerada dos ringues. Não percebem que o princípio que valorizam é o mesmo do criminoso: a violência explícita e sem sentido como meio de vida.

Artes marciais deveriam ser propostas de dominação do natural pendor que temos para a agressividade, elemento intrínseco à condição humana. Mas falta a essa noção o apelo das arenas dos gladiadores romanos no Coliseu. Nos Olimpíadas, as competições de judô ou caratê não causam o frisson histérico das lutas de MMA. É que nelas não jorra sangue. E isso diz muito mais sobre o público do que sobre os protagonistas desse “esporte” radical.

PS. Quem quiser ver o quão edificante é esse “esporte”, procure no Google  Imagens pelas expressões “MMA” e “sangue”.

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1º de Abril: escolha as mentiras mais influentes do momento

Por Wanfil em Crônica

01 de Abril de 2013

Todos conhecem a história de Pinóquio. Na vida real, porém, a distinção entre o falso e o real é bem mais complexa. No entanto, existem mentiras que enganam apenas quem se deixa enganar.

O 1º de Abril, como todos sabemos, é o Dia da Mentira. Para alguns filósofos e sociólogos, a mentira tem gradações que impedem sua condenação moral imediata. Às vezes, podemos mentir por medo, para proteger um segredo, para evitar uma intriga, salvar uma vida e por aí vai. No entanto, na maioria das vezes, é consenso geral que a mentira prospera por motivos negativos, para enganar os desavisados e tirar-lhes proveito indevido.

Quando o assunto é política, aí a aplicação da mentira ganha ares de elaboração profissional, com fartos recursos para a sua disseminação.

A lista

Condenar a mentira é sempre um risco, pois que não mente? A questão, talvez, é que existem mentiras que atingem apenas a vida privada, e existem aquelas cujas consequências alcançam milhares de vidas. É sobre essas últimas, as mentiras públicas, digamos assim, que escrevo agora.

Então, para marcar o Dia da Mentira, elaborei uma pequena lista com algumas das lorotas mais influentes do momento. Não são todas, claro, pois o texto ficaria longo demais. Muito provavelmente, uma ou outra mentira pode ter ficado de fora, por esquecimento (são tantas…). A ordem de classificação não corresponde aos malefícios feitos à sociedade. Qualquer coisa, aceito sugestões para não cometer injustiças.

1 – O maior problema do Brasil é o deputado Feliciano presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal;
2 – os índices negativos na Segurança Pública do Ceará só crescem porque bandidos estão acertando contas entre si;
3 – a refinaria da Petrobras agora sai, graças ao governador Cid e à parceria com empresas privadas que não estão nem aí para os problemas de caixa e de ingerência política na estatal;
4 – o futebol cearense é bom;
5 – o mensalão não existiu e seu julgamento foi uma farsa (pobre Genuíno);
6 – nunca se fez tanto para combater a seca no Nordeste;
7 – a miséria está em vias de acabar;
8 – Cuba e Venezuela são exemplos de democracia;
9 – o crescimento da economia brasileira será fenomenal no ano que vem (tudo foi feito, agora os resultados aparecerão);
10 – cada bairro de Fortaleza terá um posto de saúde. 

PS. Pensando bem, vendo a lista acima, um dia é pouco.

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Sobre Judas e o preço da traição nos dias de hoje

Por Wanfil em Crônica

30 de Março de 2013

A captura de Cristo - por Caravaggio (1602). O Beijo de Judas durante a Prisão de Jesus. No passado, a traição como crime imperdoável, no presente da política nacional, é garantia de sucesso.

A captura de Cristo – pintura de Caravaggio (1602). O beijo de Judas durante a prisão de Jesus. No passado, a traição vista como crime imperdoável, no presente da política nacional, é garantia de sucesso.

A Semana Santa é uma celebração que, a exemplo do Natal, tem Jesus Cristo por figura principal. No entanto, nesse feriado, o protagonismo do enredo religioso é dividido, por contraste, com o vilão Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Cristo por 30 dinheiros e que por isso há dois mil anos é queimado pelos cristãos.

Desvio rápido

Faço aqui um breve desvio. Na perspectiva formal da técnica narrativa da história de Jesus, Judas cumpre uma missão singular e fundamental, que é a de conferir uma carga dramática adicional e um sentido aos eventos finais da vida do Salvador.  Sem a fraqueza de Judas não haveria o a paixão e o sacrifício de Cristo, peças fundamentais para a estruturação da liturgia e teologia católica. Sem o episódio da traição, Jesus não teria como oferecer a Deus o seu martírio pela salvação dos homens.

Judas poderia ter escolhido a lealdade e o caminho da fé? Pelo princípio do livre arbítrio, sim. Mas se o fizesse, como ficaria a previsão de Jesus, pela qual um dos seus que ali estavam o entregaria aos romanos? De qualquer forma, coube a Judas realizar a profecia, para depois então, atormentado, cometer o suicídio. No fim, não deixa de ser paradoxal: sem Judas não haveria Semana Santa.

A simbologia da traição

Deixando essas ponderações de lado e voltando ao roteiro inicial do raciocínio que me fez escrever este post, fico a pensar no valor simbólico de Judas em nossa cultura atual, especialmente no campo da política, onde a traição é quase uma regra.

Se no plano religioso Judas encarna o repúdio ao que é vil e desonesto, no plano material da vida secular essa aversão não se incorporou, pelo menos entre nós brasileiros, como um valor moral de amplo espectro, capaz de atuar ativamente sobre outras esferas da vida comum. Na verdade, costumamos a ser bem tolerantes com certos vícios, alguns dos quais apelidamos carinhosamente de “jeitinho”.

Quantos traidores não estão por aí alegres e faceiros, muito bem colocados nos mais altos postos da República e do Estado, vendendo diariamente a confiança que lhes fora depositada pelos eleitores? Na Assembleia Legislativa do Ceará, por exemplo, deputados diretamente envolvidos em escândalos de fraudes e desvios de verbas destinadas à população mais pobre não apenas continuam a ser eleitos e reeleitos, mas gozam de prestígio incomum. Em Brasília, uma figura basta para personalizar, como síntese, a apoteose de crimes que prospera na vida pública nacional: Renan Calheiros. Não é o único, mas é o mais bem sucedido.

Existem ainda as traições de valor intelectual e ideológico, perfeitamente representadas na pessoa do ex-presidente Lula da Silva, o socialista (construção forçada) que, uma vez eleito, aderiu a tudo quanto criticava, de questões econômicas a condutas éticas. Ao contrário da saga cristã, a traição faz bem aos políticos brasileiros

Judas e os traidores do presente

Não podemos generalizar, claro, mas são muitos os que agem assim sem que nada façamos para queimá-los na fogueira do repúdio ao que é imoral. Pelo contrário, não é incomum a crucificação dos mais honestos, nessa terra de traidores, romanos e os fariseus.

Comentei na rádio Tribuna BandNews sobre os muitos Judas que atuam no presente. Mas agora, ao traçar estas linhas, mudei de ideia. A comparação entre o apóstolo caído e os farsantes de hoje é uma injustiça com o primeiro. É que com seu ato deplorável, Judas Iscariotes acabou por contribuir, ainda que por caminhos tortos, com a consolidação da doutrina cristã, e uma vez arrependido do mal que praticou, penitenciou a si mesmo com a mais dura das penas. Já da roubalheira de verbas públicas que se fez cultura nacional, nada de positivo se aproveita ou se levanta, nem mesmo a indignação de quem é roubado. Não há arrependimentos e muito menos punições exemplares. Entre nós, não há redentores.

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O lado bom das coisas

Por Wanfil em Crônica

18 de Janeiro de 2013

Polly e Candido

Pollyanna, de Eleanor Porter; e Cândido, de Voltaire: Qual a medida certa para o otimismo?

Uma amiga me faz o gentil alerta:

– Wanfil, escreva sobre algo dignificante. Você só vê o lado negativo das coisas. Procure o que é bom.
– Você acha? Já fiz resenhas elogiosas sobre filmes e livros.
– Não li. Só vejo críticas.
– O que você sugere?.
– Não sei. Pesquise. Tem coisas boas acontecendo. Basta ver com boa vontade.

Preocupado com uma possível perda de sensibilidade para observar o lado bom da vida, resolvi desarmar o espírito e fui ler o noticiário em busca de eventos edificantes. Comentarei a seguir, embuído de insuspeita boa vontade, algumas notícias.

1 – TCE sugere arquivamento de processo que questionava cachê de Ivete Sangalo

Normalmente eu reprovaria o gasto de R$ 650 mil com o show de inauguração de um hospital. Não só por motivos financeiros, mas por entender que hospitais sejam lugares onde a dor e a esperança convivem de forma angustiante, em respeito aos pacientes, seus familiares e aos profissionais de saúde, eu diria que uma festa dessa magnitude é um despropósito e que melhor seria comprar macas e remédios. Mas vendo o lado bom da coisa, fico feliz por ver Ivete Sangalo mais rica. Respiro aliviado por saber que ajudei a custear a festança que trará alguns instantes de felicidade a quem for ao local, mesmo que não esteja doente.

Se ainda fosse o ranzinza de antigamente, eu diria que o Brasil é  país de cultura política personalista, inserido num continente afeito a caudilhos, onde obra pública ganha “dono”, que pode inclusive batizá-las homenageando os próprios parentes. Agora, não. O governo tem mais é que festejar, pois nem só de seca, sede e violência vive o Ceará. Temos as maravilhosas onomatopeias da música baiana para nos alegrar o coração.

2 – Vigilante de escola é assassinado na frente de alunos no Conjunto Ceará

O novo Wanfil, assim como uma Pollyana (de Eleanor H. Porter) ou um Cândido (de Voltaire) do século 21, consegue extrair o bem que vive escondido sobre a sombra do mal, contradizendo assim a filosofia de Santo Agostinho. Vamos em frente.

A educação, muitas vezes, aliena os jovens, que imaginam um mundo idealizado, perdendo contato com a verdade das ruas, conforme aprendi com as letras dos mais notórios rappers da atualidade. O caso da morte do vigilante, antes de mais nada, é um choque de realidadede. Como todos sabem, intelectuais como MV Bill e Marcelo D2 se formaram na escola da vida.

Por causa do violento crime, as aulas na escola foram suspensas. Sugiro que o governo faça um show com Ivete Sangalo na reabertura do colégio. Apesar de tudo, ficaria a lição de que o importante é o pensamento positivo.

3 – Ajudando quem precisa: IJF captou 946 órgãos e tecidos para doação em 2012

Ironias à parte, o alerta de minha amiga foi sincero e me fez refletir sobre muita coisa. A notícia sobre a doação de órgãos é edificante e dignifica seus personagens. Mais do que isso, inspira a solidariedade.

A crítica feita com sinceridade e embasamento é válida como atividade de reflexão em busca do aprimoramento. É depuração, ou como diz o advogado Djalma Pinto, é consultoria gratuita. Mas, às vezes, precisamos mesmo prestar um pouco mais de atenção no que é bom. É difícil, pois o medo nos faz propensos a um constante estado de preservação da vida. Queremos saber onde estão os riscos para evitá-los. Ver, ou procurar, coisas boas, é uma forma de reação que começa com uma avaliação sobre a nossa postura diante do mundo.

Citei acima as personagens Pollyanna e Cândido, caracterizados pelo otimismo. A primeira fazia da boa vontade um ingrediente de determinação. Nada a desanimava. O segundo, de tanto otimismo, perdeu a capacidade de ler a realidade e de indignar-se contra qualquer coisa. Esse é o desafio do cronista: saber quando fechar os olhos e quando abrir o verbo. Não é fácil.

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Tempo de refletir

Por Wanfil em Crônica

01 de Janeiro de 2013

“A ironia do tempo é ele se fazer de substantivo abstrato”

Ano Novo, tempo de recomeço. “A ironia do Tempo é ele fingir de substantivo abstrato”, dizia o escritor José Geraldo Vieira. Faz sentido. Atribuímos ao tempo sentimentos e qualidades que são mesmo projeções de nossas esperanças ou decepções. Por isso, é comum ouvirmos que o ano passou depressa ou devagar, quando sabemos que hoje, assim como ontem e amanhã, as horas possuem a mesma duração de sempre. Dizemos que o tempo confere sabedoria, que cura enfermidades da alma, ou até que podemos matá-lo ou perdê-lo. O tempo, no entanto, é concreto, passa. Cabe a nós darmos qualidades reais ao tempo que temos.

Os finais de ano são momentos mágicos em que experimentamos a interseção entre o velho que se vai e o novo que chega; quando podemos confrontar, para balanço, passado, presente e futuro.

Em suma, por tudo o que representa, a passagem de Ano Novo configura natural oportunidade para a reflexão. Assistimos as famosas retrospectivas dos principais fatos e personagens que marcaram a sociedade e mexeram com o todo. Mas não há conjunto que se transforme se antes não mudamos as partem que o compõem. Portanto, é preciso também que façamos uma avaliação intrínseca, individual, de como agimos no ano que terminou.

Confissões

Na obra Confissões, Santo Agostinho ensina que refletir sobre nós mesmos não é tarefa fácil como sugerem os manuais de autoajuda. É que o verdadeiro exame da consciência não pode valer-se de subterfúgios, das pequenas mentiras e dos relativismos, pois Deus é onisciente e onipresente. Não há como enganar a Justiça Divina. E mesmo que sejamos céticos ou ateus, a regra do filósofo religioso também vale, pois, no fundo, sabemos que não conseguimos enganar a nossa consciência.

Que em 2013 as lições do ano que passou nos ajudem a progredir com o sentimento de solidariedade em nossos corações, e que o tempo, na condição de símbolo da vida em movimento, possa ser nosso aliado nesse desafio.

Feliz Ano Novo a todos.

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Tempo de refletir

Por Wanfil em Crônica

01 de Janeiro de 2013

“A ironia do tempo é ele se fazer de substantivo abstrato”

Ano Novo, tempo de recomeço. “A ironia do Tempo é ele fingir de substantivo abstrato”, dizia o escritor José Geraldo Vieira. Faz sentido. Atribuímos ao tempo sentimentos e qualidades que são mesmo projeções de nossas esperanças ou decepções. Por isso, é comum ouvirmos que o ano passou depressa ou devagar, quando sabemos que hoje, assim como ontem e amanhã, as horas possuem a mesma duração de sempre. Dizemos que o tempo confere sabedoria, que cura enfermidades da alma, ou até que podemos matá-lo ou perdê-lo. O tempo, no entanto, é concreto, passa. Cabe a nós darmos qualidades reais ao tempo que temos.

Os finais de ano são momentos mágicos em que experimentamos a interseção entre o velho que se vai e o novo que chega; quando podemos confrontar, para balanço, passado, presente e futuro.

Em suma, por tudo o que representa, a passagem de Ano Novo configura natural oportunidade para a reflexão. Assistimos as famosas retrospectivas dos principais fatos e personagens que marcaram a sociedade e mexeram com o todo. Mas não há conjunto que se transforme se antes não mudamos as partem que o compõem. Portanto, é preciso também que façamos uma avaliação intrínseca, individual, de como agimos no ano que terminou.

Confissões

Na obra Confissões, Santo Agostinho ensina que refletir sobre nós mesmos não é tarefa fácil como sugerem os manuais de autoajuda. É que o verdadeiro exame da consciência não pode valer-se de subterfúgios, das pequenas mentiras e dos relativismos, pois Deus é onisciente e onipresente. Não há como enganar a Justiça Divina. E mesmo que sejamos céticos ou ateus, a regra do filósofo religioso também vale, pois, no fundo, sabemos que não conseguimos enganar a nossa consciência.

Que em 2013 as lições do ano que passou nos ajudem a progredir com o sentimento de solidariedade em nossos corações, e que o tempo, na condição de símbolo da vida em movimento, possa ser nosso aliado nesse desafio.

Feliz Ano Novo a todos.