Crônica Archives - Página 3 de 5 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Crônica

Planos de saúde servem pra quê?

Por Wanfil em Crônica

23 de junho de 2015

Com o caos instalado na saúde pública, milhões de brasileiros são obrigados a contratar planos privados de saúde. Não que as operadoras sejam lá grande coisa: nesse cálculo, o que vale é fugir do pior serviço. Assim, para não correr o risco de depender do SUS, as pessoas aceitam pagar, além dos impostos para os governos, mensalidades que variam de acordo com os planos, mas que invariavelmente comprometem uma parcela considerável do orçamento das famílias.

No Ceará faltam antibióticos nos hospitais públicos. Nos privados antibiótico não falta, mas a ilusão de que planos caríssimos podem ser a salvação contra o pior não resiste, por exemplo, à falta leitos infantis. Não é por acaso que as empresas de home care (atendimento domiciliar) crescem transformando residências em pequenos hospitais, com aluguel de equipamentos e venda de remédios e serviços.

Tenho uma filha “internada” em casa para tratamento contra uma pneumonia, utilizando a estrutura de um home care. Em quatro dias, o gasto será parecido com um mês do plano que pago há muitos anos, mas que me deixou na mão, sem leito. A alternativa, segundo a operadora, seria esperar indefinidamente na enfermaria improvisada de uma emergência. No final do mês, a única certeza relacionada ao plano contratado se confirmará: a mensalidade por um plano com direito a apartamento.

Planos de saúde servem para isso: para trocar o muito ruim pelo menos ruim. A crise na saúde é generalizada e sua metástase já chegou aos planos. Excesso de burocracia, impostos, falta de fiscalização, crise econômica e má gestão em alguns casos, comprometem a qualidade desses serviços. E de tão comum, essa situação virou parte do panorama nacional. Na emergência em que minha filha foi atendida, pais e mães consolavam-se: “Se está assim aqui, imagine no SUS”.

Quando a satisfação de um serviço é medida nestes termos, é a decadência total. Não tem mais cura.

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A ciclovia do atraso: pedalando sem ver o outro

Por Wanfil em Crônica

03 de Maio de 2015

outroManhã ensolarada de um domingo em Fortaleza. Decido fazer uma caminhada perto de casa. Mente sã, corpo são, é o que dizem. Acontece que por três vezes quase fui atropelado na calçada da Avenida Sebastião de Abreu, nas proximidades do Parque do Cocó, por alguns ciclistas que trafegavam pelo espaço destinado aos pedestres. Por algum motivo, rejeitavam a pista que aos domingos é destinada exclusivamente ao ciclistas. Por duas vezes precisei ir para o asfalto para que duplas de ciclistas pedalando lado a lado, expulsando os pedestres dali. Noutra, me protegi atrás de um poste. E experimente reclamar! Em vez de pedirem desculpas, ficavam enfezados. Eram minoria, mas ainda assim eram muitos.

Nesse ponto comecei a pensar por qual motivo essa turma dispensava a via exclusiva para desfilar na calçada. Não viam as pessoas caminhando? Não percebiam os demais ciclistas na pista correta?

Então me lembrei de uma vez, ainda estudante de História, que assisti a uma aula de Psicologia da Educação na Faculdade de Pedagogia da Universidade Federal do Ceará. Uma bela aula ministrada pelo professor Sílvio Gadelha. A certa altura, ele narrou à turma um episódio, quando levara um professor que viera de Portugal a uma praia nos arredores de Fortaleza. Entretanto, uma vez no local, um abarraca badalada, não conseguiram conversar, pois um jovem colocara o som de seu luxuoso carro a toda altura.

Ao sair de lá, Gadelha naturalmente pediu desculpas ao colega pela falta de educação do rapaz e explicou que isso era comum por aqui. E aí o português, cujo nome não me recordo, fez uma análise muito interessante. Para ele, o  jovem mal educado não agira daquela forma por maldade, no intuito de agredir os demais, muito pelo contrário. Sua motivação foi tão somente a satisfação pessoal, indiferente à presença dos demais clientes do estabelecimento. O sujeito simplesmente não reconhecia a existência do outro. Em certa medida, era possível que tivesse sido criado desde pequeno para pensar assim.

Os ciclistas que trafegavam cheios de si na calçada da Sebastião de Abreu, o faziam na urgência de satisfazerem seus propósitos imediatos, sem perceberem a existência do outro, que é a regra básica, a premissa fundamental, para o conceito de civilidade. Falta-lhes a educação para enxergarem os outros. A pretexto de celebrar uma vida saudável, reproduzem o que há de pior no trânsito: desrespeito aos demais e às regras de convivência. Não é a maioria, repito, mas são muitos. E sendo muitos, e por se acharem donos da razão e não sentirem vergonha do que fazem, perturbam. No próximo domingo, vou caminhar na esteira.

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Cid, o breve

Por Wanfil em Crônica

19 de Março de 2015

À esquerda, o rei Pepino, o Breve, original franco. À direita, o ministro pepino, o breve - versão brasileira

À esquerda, o rei Pepino, o Breve, original franco. À direita, o ministro pepino, o breve – versão Brasil, pátria educadora

A demissão de Cid Gomes do Ministério da Educação após três meses no cargo me trouxe à memória a figura de Pepino, o Breve, rei dos francos de 751 a 768. Na verdade, existem mais diferenças do que semelhanças entre ambos, mas explico a comparação.

Com 17 anos de reinado, o “Breve” do monarca Pepino, ao contrário de Cid, não diz respeito ao tempo no cargo, mas à sua baixa estatura física. Já a estatura histórica do ex-governador do Ceará como ministro da Educação é nula: foram três meses perdidos para estudantes e professores. Mesmo com carta branca para montar sua equipe, a grande marca do cortesão Gomes nesse período foi ser um pepino ambulante para a presidente Dilma, rainha acuada por protestos populares e que limitou o orçamento da pasta. Pepino, como nome próprio, era comum no século XVIII; pepino, como sinônimo de problema, é comum no governo brasileiro.

O ministro pepino saiu do governo três dias após milhões de brasileiros irem às ruas protestar contra a gestão Dilma e no mesmo dia em que uma pesquisa do instituto Datafolha mostrou que a popularidade da presidente é a menor para um governante em início de mandato. Pepino, o rei, lutou uma vida inteira para unificar os francos, enfrentando rebeliões internas e guerras externas. Cid, o breve, cortou o Fies e foi substituído por um tecnocrata, deixando como legado uma crise política com parlamentares da Câmara dos Deputados, usada como pretexto para abandonar a administração impopular. Pepino, o Breve, deu início ao Império Carolíngio e deixou como herdeiro Carlos Magno, que ampliou consolidou o domínio franco e deixou como legado nada menos que a França e a Alemanha.

Cada povo tem o pepino que merece.

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Máscaras de um eterno carnaval

Por Wanfil em Crônica

17 de Fevereiro de 2015

Máscaras de Dilma e Lula para o Carnaval 2015.   (Efeito sobre foto/Fernando Maia/UOL).

Máscaras de Dilma e Lula para o Carnaval 2015: “Diz: não me conheces?”
(Efeito sobre foto/Fernando Maia/UOL).

Em 1919, Manuel Bandeira publicou “Carnaval”. Um dos poemas de que mais gosto nele é “Mascarada”. A fina ironia do texto mostra que as máscaras transcendem o próprio carnaval, mas que, às vezes, elas podem não servir para ludibriar desavisados.

Em 2015 os brasileiros comemoram o carnaval enquanto cai a máscara do marketing eleitoral de governistas que anunciaram folias consumistas e apoteóticos desfiles de ufanismo, mas que entregaram recessão, déficits, vexames e cinzas.

O velho Bandeira continua atual e eterno como o carnaval com suas máscaras de Graça Foster e Nestor Cerveró, retratos de uma promiscuidade que desafia até o mais despudorado folião. Por isso, reproduzo aqui o poema “Mascarada”, do grande Manuel Bandeira. Vale sobretudo para exames de consciência individual, mas também serve para refletirmos sobre a conjuntura atual na política brasileira. Em especial para os mascarados das últimas eleições.

Mascarada

Você me conhece?
(Frase dos mascarados de antigamente)

Manuel Bandeira alertava: não se deixe enganar pelas máscaras, que carnaval é ilusão.

Manuel Bandeira: Cuidado com as máscaras!

– Você me conhece?
– Não conheço não.
– Ah, como fui bela!
Tive grandes olhos,
que a paixão dos homens
(estranha paixão!)
Fazia maiores…
Fazia infinitos.
Diz: não me conheces?
– Não conheço não.

– Se eu falava, um mundo
Irreal se abria
à tua visão!
Tu não me escutavas:
Perdido ficavas
Na noite sem fundo

Do que eu te dizia…
Era a minha fala
Canto e persuasão…
Pois não me conheces?
– Não conheço não.
– Choraste em meus braços
– Não me lembro não.

– Por mim quantas vezes
O sono perdeste
E ciúmes atrozes
Te despedaçaram!

Por mim quantas vezes
Quase tu mataste,
Quase te mataste,
Quase te mataram!
Agora me fitas
E não me conheces?

– Não conheço não.
Conheço que a vida
É sonho, ilusão.
Conheço que a vida,
A vida é traição.

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Feliz 2015!

Por Wanfil em Crônica

31 de dezembro de 2014

Adeus Ano-Velho, feliz Ano-Novo, que tudo se realize, no ano que vai nascer. É o que diz a canção. Esse dualismo antagônico do “novo” contra o “velho” pode ser visto como uma boa oportunidade para examinarmos o caminho percorrido até o presente e orientar passos rumo ao futuro. Mas pode ser também um daqueles clichês que parecem solução, mas que não passam de fuga: o “velho” e seu conteúdo descartados para dar vez ao “novo” sem mácula, num passe de mágica. Vai depender como o encaramos.

É bom que a esperança esteja entre os sentimentos que recepcionam o ano novo, pois indica vontade de melhorar. No entanto, a esperança não produzirá efeitos se estiver dissociada das lembranças boas e más que se fundem no caráter de cada um. O novo precisa do velho. Não que devamos ficar presos ao que não pode ser mudado. Pelo contrário, que a vontade de mudar nos estimule sempre mais.

A pedagoga italiana Maria Montessori entende que “a primeira ideia que uma criança precisa ter é a da diferença entre o bem e o mal. E a principal função do educador é cuidar para que ela não confunda o bem com a passividade e o mal com a atividade”. É isso: 2015 é a a criança trazida pelo calendário e que crescerá em velocidade alucinante, mas que já pode contar com a soma das experiências acumuladas nos anos que o precederam. Pode ser melhor, estagnar ou até recair. Nossa função, pois, é educá-lo com ações e trabalho, com coragem para mudar o que for preciso, com disposição para nos reinventarmos, sempre no sentido de progredirmos como seres humanos.

Que as lições do ano que passou nos ajudem a ser melhores no ano que se inicia, e que o tempo, na condição de símbolo da vida em movimento, possa ser nosso aliado nesse desafio.

Obrigado aos que acompanham o blog. É uma grande satisfação poder compartilhar esse espaço com cada um de vocês. Em 2014, aqui no portal Tribuna do Ceará, na rádio Tribuna Band News e na TV Jangadeiro, o ano foi de crescimento. O desafio foi grande, mas demos conta do recado. Que em 2015 possamos ir além, sempre com responsabilidade, mantendo o compromisso firmado com o público. Feliz Ano-Novo!

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Uma singela lembrança para o Natal

Por Wanfil em Crônica

25 de dezembro de 2014

Reproduzo aqui poema do jornalista Wanderley Pereira, meu pai, que partiu do mundo material neste 2014. Em suas linhas, uma lembrança: o Natal pode estar presente em tudo, do noticiário às decorações públicas, mas se não contempla e não faz renascer em nós, como inspiração, o exemplo de amor, doação, desprendimento e de solidariedade incondicional deixado ao mundo por Jesus, não é um verdadeiro Natal. Que todos possamos dar um passo adiante, embalados pelos homenagens natalinas, na caminhada pela evolução moral. Feliz Natal!

NATAL EM TUDO 

Natal em casa ou no mar,
No retiro ou no lazer,
Também Natal pode ser
Momento de trabalhar.
Pode-se comemorar
Natal com cores, com luz,
Natal dos ricos, dos nus,
Natal no templo ou na arte,
Natal tem em toda parte;
Não tem Natal sem Jesus. Leia mais

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Não perca uma amizade por causa de eleições

Por Wanfil em Crônica

04 de setembro de 2014

Vivemos um momento de extremos: de um lado, a desconfiança generalizada com o sistema político brasileiro alimenta a indiferença do público com o dia a dia das administrações; de outro, a emotividade das campanhas eleitorais faz aflorar intensas manifestações de apoio ou repulsa a candidatos e partidos, especialmente nas redes sociais. Em tempos normais, o primeiro grupo tende a prevalecer, mas em contextos eleitorais, o segundo ganha espaço. Acontece que essa transição do “não estou nem aí” para o “eu tenho uma opinião” anda contaminada por demonstrações de imaturidade e intolerância em níveis preocupantes. Vejo nas minhas time lines – para usar um estrangeirismo em voga – crescente exacerbação desses, digamos, militantes digitais.

Todos dizem conviver bem com opiniões diferentes, mas o exercício da tolerância é bem mais difícil do que parece. Um truque comum de manifestar o desconforto com a pluralidade de ideias, nesse período de eleições, é repassar tudo o que pareça desabonador contra o adversário. Vale qualquer conteúdo: rotulações degradantes, ofensas, mentiras, distorções da realidade, informações de origem duvidosa, boatos e montagens. O problema não está na divergência em si, mas na forma que ela toma. “O estilo é o homem”, já dizia o Conde de Buffon. Assim, essa postura combativa, passional, porém descuidada, diz mais sobre a raiva de quem propaga material dessa natureza do que algo de relevante sobre o candidato tomado como alvo.

Outro recurso comum de intolerância disfarçada é o uso de indiretas. Por exemplo: o sujeito diz, com ar de superioridade, que votar em determinado candidato é prova de burrice, ingratidão, má fé, radicalismo ou irresponsabilidade, sem atentar para o fato de que isso – divergir – é algo absolutamente legítimo.

Li recentemente algo assim de um conhecido: “não sei como alguém escolarizado pode deixar de reconhecer as virtudes deste candidato e ignorar a natureza ruim daquele outro”. É um jeito de tentar desqualificar as escolhas de quem, como eu, pensa diferente dele. Esse meu conhecido talvez nem perceba que sua afirmação no fundo expressa o seguinte: “não sei como alguém do meu nível pode fazer opções diferentes da minha”. Isso é de uma arrogância impressionante. Decidi não responder para evitar que a antipatia momentânea se agravasse até o grau da repulsa. Tirando essas questões eleitorais, se trata de pessoa bacana e divertida. Outra pessoa, conhecida na área cultural do Ceará, disse que determinada candidatura presidencial “aprofundou o fundamentalismo religioso”. Seus partidários, deduz-se, seriam pois fundamentalistas. Parece um alerta, mas não passa de uma contradição desrespeitosa, afinal, o uso político da religião como arma de campanha é obra de concorrentes dessa candidatura. O ridículo anda de mãos dadas com a insensatez. Casos assim se repetem e nós mesmos podemos cair nessas armadilhas se não estivermos atentos. Por isso, e esse é o ponto central deste texto, é preciso cuidado.

Não estou pregando aqui a apatia, a falta de compromisso ou de empenho com nossas convicções. É claro que podemos criticar candidatos, ideias e projetos, compartilhar denúncias verossímeis e fatos históricos, pois isso faz parte dos embates eleitorais. Apenas lembro não devemos esquecer que existem amigos nossos, parentes, que de boa fé acreditam em outros caminhos. Muitas pessoas acabam aborrecidas e chegam a cortar relações sociais por causa de eleição. Sentem-se ofendidas como se fossem elas mesmas candidatas a algo. Mais adiante, não é raro isso acontecer, os adversários que hoje se enfrentam nas urnas podem ser os aliados de amanhã. Definitivamente, não vale a pena perder uma amizade ou guardar mágoa de quem quer que seja por causa de eleições.

Sei que a emoção e o conflito fazem parte desses momentos, quando interesses e ideologias entram em choque aberto. Administrar isso começa A qualidade desse processo depende muito mais de nós, cidadãos, do que deles, políticos. Os debates podem ser construtivos quando estamos dispostos a respeitar os outros. Do contrário, impera a baixaria, que se estabelece como método de campanha e depois, de governo.

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Quem ganha mais com a saída de Neymar da Copa?

Por Wanfil em Crônica

06 de julho de 2014

Não especialista em futebol, embora aprecie bons jogos. A paixão pelo esporte nacional é comedida, desde que a seleção de 82 foi eliminada pela Itália. Criança vi ruir todo um conceito dividido em duas convicções: 1) não basta fazer gol, é preciso jogar bonito;  2) não vale ganhar a qualquer custo, mas com ética (sem apelar à violência e uma vez vítima dela, não devolver na mesma moeda, pois o craque responde é com futebol). Assim, como o escritor uruguaio Eduardo Galeano, tornei-me um “mendigo do futebol”, procurando bons jogos para torcer sem grande compromisso emocional.

Pois bem, conversando com o jornalista Rafael Luis Azevedo, colega na Tribuna do Ceará, eu disse que Neymar tinha sorte, pois sai como ídolo e livre da obrigação de fazer a diferença no momento decisivo. Rafael discordou. “O jogador quer jogar. Quem ganha é o Felipão. Se o Brasil ganhar, o mérito de superar a perda do craque é dele, se perder, a culpa terá sido do Zuñiga”, o colombiano que atingiu Neymar. Faz sentido.

A partir daí é lícito concluir que o maior lucro com a saída de Neymar foi mesmo da torcida.  Na Copa de 1950, o culpado (injustamente) pela perda do título foi o goleiro Barbosa. Como o brasileiro, quando o assunto é futebol, tem notória dificuldade de reconhecer méritos nos adversários da seleção, dessa vez pelo menos já temos uma boa desculpa caso o Brasil não conquiste o título: o culpado será um rival (alívio para os demais jogadores). Melhor do que isso, pelo que vejo da crônica esportiva, só se Zuñiga fosse argentino, o que poderia dar ares de complô internacional à agressão, mas aí seria querer demais. Como não sou especialista e não passo de um torcedor amargurado com o fracasso de 1982, fico por aqui.

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Por que o jornalista dinamarquês virou notícia?

Por Wanfil em Crônica

17 de Abril de 2014

Laurence Olivier como o dinamarquês Hammlet: Ser ou não Ser?

Laurence Olivier como o príncipe dinamarquês Hammlet: Ser ou não Ser?

Muitos amigos e leitores me perguntam sobre o que achei da imensa repercussão no caso da matéria com o jornalista dinamarquês Mikkel Keldorf Jensen, publicada em primeira mão pela Tribuna do Ceará, que afirma ter desistido de cobrir a Copa do Mundo no Brasil por estar horrorizado com a violência e a corrupção no país e, em especial, em Fortaleza, a mais perigosa das sedes dos jogos, segundo a ONU.

Puxando pela memória, os poucos dinamarqueses de quem consigo lembrar são o diretor de cinema Lars Von Trier (Dogville), e o escritor Hans Christian Andersen (O Patinho Feio). Mas o único cuja história realmente me interessa é o príncipe Hamlet – o maravilhoso personagem da peça homônima escrita por Shakespeare -, famoso, entre outras, por essas duas falas: “Há algo de podre no reino da Dinamarca” (Ato I, Cena IV); e “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia” (Ato I, Cena V, sem o adjetivo ‘vã’ inserido em algumas traduções: There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are dreamt of in your philosophy).

Já o dinamarquês que denuncia a violência e corrupção no Brasil (alguma novidade?) é (ou era) um desconhecido e não atua em veículos de grande importância. Como então conseguiu mobilizar tanta atenção? Pelo que vi, Mikkel Jensen não escreveu para os brasileiros, mas para seus compatriotas. Ocorre que, de algum modo, foram os brasileiros que se deixaram tocar pelo “gringo”. Uns concordam, outros o criticam, mas poucos ficam indiferentes ao caso. Histórias de faxinas improvisadas para causar boa impressão a turistas também foram publicadas por ocasião das Olimpíadas de Pequim e da Copa na África do Sul. A novidade agora é que, segundo Jansen, no Brasil, crianças de rua estariam sendo mortas para esconder a miséria dos visitantes. Não há provas. Nem fotos, nem depoimentos. O que existe é um relato pessoal, em primeira pessoa, e a promessa de um documentário.

Como algo assim ganha a proporção que ganhou, virando notícia em todo o país, ensejando debates e polêmicas? Simples: por associação de verossimilhança. O dinamarquês diz: “Há algo de podre no Brasil”. E nós, brasileiros, cientes disso, endossamos: “Sim!”, sem buscar mais detalhes, porque o cotidiano nos basta para concluir o mesmo. E isso diz muito sobre quem somos, ou melhor, sobre o que vivemos. Quantos de nós, em diálogos despretensiosos, não ouvimos ou dizemos: “Se eu pudesse, iria embora”? Quantos não vimos na conversa de Jansen, nesse “saí por causa da violência”, a expressão de um desejo, ainda que seja um desejo meramente retórico?

Na ficção, Hamlet era passional e confrontava a racionalidade de Horácio, o estudante de filosofia. No Brasil contemporâneo, vivemos, com boa dose de razão, um estado de exacerbação que alimenta sentimentos negativos, tal e qual o dinamarquês de Shakespeare.

Particularmente, não acredito que crianças estejam sendo assassinadas por grupos de extermínio só para não ferir a suscetibilidade de turistas. Faço, entretanto, uma ressalva: se não acredito nessa motivação, infelizmente desconfio que tais crimes aconteçam por outras razões, que vão desde a disputa por territórios do tráfico até o justiçamento financiado por vítimas de gangues juvenis. Quem duvida? Basta ver as estatísticas.

Enquanto isso, a Secretaria de Segurança do Ceará prefere fingir que a história, ainda que estranha, prospera por acaso, sem conexão com o mundo real, e não por estar imersa no contexto de medo e criminalidade recordes em Fortaleza e no Brasil. Não percebe que existem mais coisas entre a violência e a sensação de violência no Ceará, do que supõe o discurso oficial.

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Um adjetivo para Wanderley Pereira

Por Wanfil em Crônica

10 de Março de 2014

Coluna Política desta segunda-feira, na Tribuna Bandnews 101,7

[haiku url=”http://tribunadoceara.uol.com.br/blogs/wanderley-filho/files/2014/03/POLITICA-WANDERLEY-FILHO_-1003_-UM-ADJETIVO-PARA-WANDERLEY-PEREIRA_209¨.mp3“]

Peço licença a você que me ouve para tratar de outro assunto neste espaço dedicado – como o próprio nome diz – à política.

É que no último sábado o Sistema Jangadeiro perdeu um de seus idealizadores e seu grande entusiasta, o jornalista Wanderley Pereira, que após 71 anos, deixou o mundo material para voltar à sua forma espiritual.

De Wanderley Pereira herdei o nome, o sangue e a paixão pelas palavras. E tive, pela graça de Deus, a satisfação de poder trabalhar com ele aqui, no Sistema Jangadeiro, por cinco anos. Esse é um privilégio que poucas pessoas podem desfrutar: ter na pessoa do pai um amigo e um colega de trabalho que, na verdade, sempre foi uma luz a me guiar. E uma luz rara, preocupada em não ofuscar ninguém, só em clarear caminhos.

Em minhas lembranças de menino, recordo-me das redações do Jornal do Brasil e da revista Veja, onde Wanderley Pereira – que nasceu na pacata Uruburetama, um legítimo pau de arara, como ele se definia – brilhou como um dos grandes jornalistas do Brasil. Dos tempos de Brasília, lembro-me de suas conversas animadas com colegas como Alexandre Garcia, Dora Kramer, Paulo Henrique Amorim, Antônio Brito, José Nêumane Pinto, Elio Gaspari, entre outros.

Trabalhou também com os melhores do Ceará, que de tantos, não arrisco citar nomes para não cometer injustiças, caso esqueça algum.

E apesar desse currículo, Wanderley Pereira era simples. Muito simples. Hoje uso o computador que foi dele aqui na Jangadeiro, a sua segunda casa. Sei que é impossível superá-lo ou mesmo igualá-lo, mas levarei para sempre comigo o seu conselho fraternal: “Meu filho, seja ponderado e tenha cuidado com os adjetivos, muito cuidado com os adjetivos”.

Assim, me despeço de Wanderley Pereira ponderando bem para escolher um adjetivo que lhe faça justiça e ainda expresse minha gratidão por tudo: pai, você foi, simplesmente… extraordinário!

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Um adjetivo para Wanderley Pereira

Por Wanfil em Crônica

10 de Março de 2014

Coluna Política desta segunda-feira, na Tribuna Bandnews 101,7

[haiku url=”http://tribunadoceara.uol.com.br/blogs/wanderley-filho/files/2014/03/POLITICA-WANDERLEY-FILHO_-1003_-UM-ADJETIVO-PARA-WANDERLEY-PEREIRA_209¨.mp3“]

Peço licença a você que me ouve para tratar de outro assunto neste espaço dedicado – como o próprio nome diz – à política.

É que no último sábado o Sistema Jangadeiro perdeu um de seus idealizadores e seu grande entusiasta, o jornalista Wanderley Pereira, que após 71 anos, deixou o mundo material para voltar à sua forma espiritual.

De Wanderley Pereira herdei o nome, o sangue e a paixão pelas palavras. E tive, pela graça de Deus, a satisfação de poder trabalhar com ele aqui, no Sistema Jangadeiro, por cinco anos. Esse é um privilégio que poucas pessoas podem desfrutar: ter na pessoa do pai um amigo e um colega de trabalho que, na verdade, sempre foi uma luz a me guiar. E uma luz rara, preocupada em não ofuscar ninguém, só em clarear caminhos.

Em minhas lembranças de menino, recordo-me das redações do Jornal do Brasil e da revista Veja, onde Wanderley Pereira – que nasceu na pacata Uruburetama, um legítimo pau de arara, como ele se definia – brilhou como um dos grandes jornalistas do Brasil. Dos tempos de Brasília, lembro-me de suas conversas animadas com colegas como Alexandre Garcia, Dora Kramer, Paulo Henrique Amorim, Antônio Brito, José Nêumane Pinto, Elio Gaspari, entre outros.

Trabalhou também com os melhores do Ceará, que de tantos, não arrisco citar nomes para não cometer injustiças, caso esqueça algum.

E apesar desse currículo, Wanderley Pereira era simples. Muito simples. Hoje uso o computador que foi dele aqui na Jangadeiro, a sua segunda casa. Sei que é impossível superá-lo ou mesmo igualá-lo, mas levarei para sempre comigo o seu conselho fraternal: “Meu filho, seja ponderado e tenha cuidado com os adjetivos, muito cuidado com os adjetivos”.

Assim, me despeço de Wanderley Pereira ponderando bem para escolher um adjetivo que lhe faça justiça e ainda expresse minha gratidão por tudo: pai, você foi, simplesmente… extraordinário!