Crônica Archives - Página 2 de 5 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Crônica

Páscoa de escândalos

Por Wanfil em Crônica

14 de Abril de 2017

A Última Ceia, de Leonardo Da Vinci: Jesus e o escândalo como instrumento de depuração

A Semana Santa, período em que os cristãos recordam a crucificação e a ressurreição de Jesus, foi marcada também neste ano pela divulgação dos estarrecedores depoimentos de Emílio e Marcelo Odebrecht, no maior escândalo de corrupção de que se tem notícia no Brasil.

Símbolos, alegorias e personagens religiosos, com sua lições e exemplos, são importantes instrumentos de reflexão que servem às mais diversas circunstâncias, da vida privada ao convívio social, das questões familiares à política.

Nada mais apropriado, portanto, do que buscar na figura de Jesus um alento para as turbulências do presente. Em uma de suas passagens mais famosas e polêmicas, Cristo disse : “Ai do mundo por causa dos escândalos; porque é necessário que venham escândalos; mas ai do homem por quem o escândalo venha”. Faz sentido. Sendo o erro ou o crime inevitáveis, porque somos falíveis, ele pode e deve servir de aprendizado pela dor.

A corrupção é a maior chaga na política brasileira e a revelação de sua extensão causa justa indignação. É preciso, pois, punir quem traz o escândalo; é necessário punir os corruptos na Justiça com condenações e na política, não mais os elegendo. Mas também precisamos refletir em como chegamos até aqui, com todos – indivíduos e instituições – revendo com sinceridade nossos papéis e condutas, de modo que possamos ressuscitar a política como atividade voltada para o bem comum, para o debate saudável, para o crescimento do Ceará e do Brasil.

Feliz Páscoa a todos.

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Zé Mayer, assédios e culpas

Por Wanfil em Crônica

06 de Abril de 2017

O ator José Mayer assediou uma colega de trabalho e caiu em merecida desgraça. Assédio moral e sexual. Em nota, tentou amenizar o ocorrido, mas no fim admitiu a culpa sem contestar o duro relato feito pela vítima. Talvez por isso, a confissão, Mayer tenha sido apenas suspenso em vez de sumariamente demitido. Não sei.

De todo modo, fazendo um paralelo nesse Brasil de tantos escândalos, é muito raro ver figuras públicas assumindo seus erros ou crimes. Na política então, a regra é morrer negando ou fingindo que nada aconteceu.

No Ceará basta lembrar do golpe da refinaria, do hospital no Sertão Central que nunca funcionou, dos tatuzões que enferrujam a céu aberto, exemplos de assédios eleitorais impunes, sem que ninguém seja devidamente responsabilizado por atrasos e prejuízos. Não há pedidos de perdão, sinais de arrependimento ou vergonha.

Em Brasília, mesmo diante do maior escândalo de corrupção e da maior recessão da história nacional, os protagonistas do desastre continuam a fingir que nada fizeram demais.

No caso do ator, a opinião pública o condenou, com toda a razão, sem precisar esperar o “trânsito em julgado” dos tribunais. A confiança foi quebrada e isso não tem perdão. Ano que vem será a chance para  o eleitor mostrar que é tão exigente quanto o telespectador.

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Carnes e políticos, instituições e indivíduos: vivemos uma crise de desconfiança sem igual

Por Wanfil em Crônica

23 de Março de 2017

Dá pra confiar?

Em palestra proferida ano passado na Fiec, o professor Clóvis de Barros Filho apresentou de modo muito espirituoso a evolução histórica e filosófica dos conceitos de ética e moral, para incensar logo em seguida uma palavra-chave: confiança. Para Barros, o Brasil vive na atual conjuntura – e não sem motivos – um momento de desconfiança generalizada.

Não que todos devam sair por aí confiando em tudo e todos, mas é que uma sociedade que tem a desconfiança como princípio universal e regra primeira de convivência não consegue construir nada de positivo.

Pois é. De certo modo, a Operação Carne Fraca toca nesse ponto. Grandes empresas do setor de alimentação, que gastam fortunas com propagandas e marketing para convencer o público de que são confiáveis, estão envolvidas, no mínimo, com suspeitas de suborno a fiscais. Ora, quem evita fiscalização, por óbvio, tem o que esconder. A quebra de confiança levará tempo para ser superada. 

Na Lava-Jato, a dimensão do maior esquema de corrupção já descoberto acabou por sepultar de vez a pouca credibilidade de partidos, políticos, legisladores e governantes. Com o Judiciário não é muito diferente. A venda de decisões favoráveis a traficantes descoberta no Tribunal de Justiça do Ceará, por exemplo, é mancha difícil de apagar. Quem pode realmente garantir a lisura de outras decisões? Generalizações são injustas com os honestos, é verdade, mas já ensina o ditado popular que o justo paga pelo pecador.

É claro que a descoberta de tantos problemas significa que existem canais de fiscalização. Entretanto, até esses são acusados de agirem direcionados por interesses diversos. Fica a dúvida, sempre. Não confiamos em quase ninguém. Desconfiamos até mesmo de quem apenas pensa diferente de nós. E a desconfiança impera como uma segunda identidade justamente onde falham a ética e a moral de modo retumbante.

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Dandara e a intolerância que há em nós

Por Wanfil em Crônica

07 de Março de 2017

O brutal assassinato da travesti Dandara, em Fortaleza, chocou pela violência gratuita e covarde expressa em imagens compartilhadas nas redes sociais: um grupo de cinco homens atacando uma pessoa indefesa. O motivo foi ódio à condição homossexual da vítima; a oportunidade se deu com a circunstancial diferença numérica entre agressores e agredido: eram muitos contra um.

A reação de autoridades e entidades civis, bem como a repercussão na imprensa e a rápida resposta com a prisão de suspeitos condiz com a gravidade dos fatos. Que sejam todos devidamente punidos como exemplo pedagógico de que a dignidade humana não tem sexo.

Embora a questão de gênero seja naturalmente colocada no caso em questão, existe outro aspecto, um pouco mais de fundo, a ser observado nesse caso: a cultura de exaltação à intolerância, que tem nas redes sociais seus veículos mais eficientes, e que pode atingir os mais diversos grupos e indivíduos. Negros, mulheres e nordestinos, por exemplo, costumam ser alvos de manifestações racistas, misóginas e xenofóbicas nesses ambientes. Isso é fato. Mas não para por aí. Esportes, política, religião e ideologia, tudo pode ser motivos para a intolerância, para o desprezo à pluralidade, à diferença.

Especialistas dizem que as sensações de anonimato, de distância e de grupo estimulam a agressividade em certas pessoas. Há nisso ressentimentos, frustrações, covardia e medo. Parece algo distante, exclusivamente virtual, até que uma pessoa como Dandara ou algum torcedor de time de futebol acabem assassinados por nada.

Qual a solução para a cultura da intolerância? É fácil ver o mal nos outros, em nós mesmos é que é difícil. Uma cultura, porém, é algo que se enraíza por todo o corpo social, por mais que lavemos as mãos. Correntes de difamações, compartilhamento de informações falsas, disseminação de rótulos degradantes e apelidos pueris fazem parte das nossas timelines, como se diz na internet.

Até que ponto consentimos com isso? Até que ponto somos veículos, voluntários ou involuntários, desses conteúdos carregados de desprezo pelo que nos é diferente? Isso vale especialmente para nós, formadores de opinião. Não significa deixar de discordar com sobriedade, de abdicar da divergência de ideias ou de aceitar tudo, mas de compreender que até entre as pessoas que gostamos, amigos e parentes, existem opiniões diferentes e que isso nãos as torna inimigas nossas. Quanto mais, quem não conhecemos.

É claro que a culpa e a responsabilidade pela morte de Dandara recai sobre os seus assassinos, indivíduos que decidiram agir, em última instância, de acordo com o livre arbítrio que todos possuímos. Que sejam, repito, punidos. No entanto, o homem é produto do seu tempo. E como mostrou Hannah Arendt, sem um exame de consciência de cada um sobre seus atos, indivíduos podem, ainda que por omissão, ajudar a construir uma sociedade em que o mal passa a ser uma banalidade. Que sejamos vigilantes com o que fazemos em relação à tolerância e o respeitos aos outros.

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A tragédia da Chapecoense e a condição humana

Por Wanfil em Crônica

04 de dezembro de 2016

A Varanda, de Manet (1868)

A Varanda, de Manet (1868)

Em 1868 Édouard Manet apresentou “A Varanda”, pintura em óleo que retrata o frescor de duas jovens a contemplar a vista. Anos depois, em 1950, René Magritte usou o mesmo cenário para pintar “O Balcão de Manet”, substituindo as pessoas do original por mórbidos caixões.

O Balcão de Manet, de Margritte (1950)

O Balcão de Manet, de Magritte (1950)

Em 2016, a tragédia do acidente aéreo com a equipe da Chapecoense, jornalistas e tripulação de um voo fretado comoveu o mundo. As imagens do avião despedaçado contrastam com outras feitas nos dias anteriores, de jogadores repletos de alegria por suas conquistas, de jovens que contemplavam a vida que teriam e os planos que faziam. Tudo encerrado de uma hora para a outra.

O mesmo contraste entre os quadros de Manet e Magritte: a vida é frágil, um sopro. É a condição humana que nos aproxima do episódio. É doloroso constatar assim a efemeridade da vida.

Tudo indica, preliminarmente, que a possível causa do acidente tenha sido a irresponsabilidade do piloto, que arriscou tudo apostando em voar no limite do combustível que, ao final, se mostraria insuficiente para levar a aeronave até o destino planejado. E agora aqueles jovens atletas, com saúde e cheios de vida, já não estão entre nós. Por muitos instantes, ao acompanhar a intensa cobertura sobre o caso, imaginei, como Magritte, um paralelo da realidade: não confiamos demais na ideia de tempo que cultivamos, confiantes de que amanhã será mais um dia, como se a matéria não fosse frágil, deixando para depois o que poderia ser dito hoje?

Que Deus conforte parentes e amigos das vítimas, que seguem agora, sendo o que são, na maior das viagens.

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Amigos petistas vejam o lado bom do impeachment

Por Wanfil em Crônica

12 de Maio de 2016

Faça como Pangloss, mentor de Cândido na sátira O Otimismo, de Voltaire (1759)

Faça como Pangloss, mentor de Cândido na sátira O Otimismo, de Voltaire (1759)

Os eventos, mesmo os mais difíceis, sempre podem ser vistos com otimismo, ensinava Pangloss a Cândido, personagens de Voltaire. “Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”, repetia diante dos reveses da vida.

Noto que amigos, conhecidos e até desconhecidos que avisto em minhas redes sociais, estão inconsoláveis com o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Alguns por afinidade ideológica, outros por lealdade partidária, uns tantos por necessidade (em geral comissionados e assessores) e vários por simpatia gratuita mesmo. Os motivos variam de acordo com o senso de justiça, ou de urgência, de cada um. Esses também estão, naturalmente, revoltados com Michel Temer, que assume interinamente a Presidência da República.

Comovido com esse sofrimento, aqui estou, solidário, a dizer-lhes: há algo de bom para vocês em tudo isso. Se antes estava difícil pregar contra a corrupção, especialmente após o mensalão e o petrolão, agora já se pode apontar ministros enrolados com a Lava Jato. Se antes o constrangimento de ver uma gestão autoproclamada progressista cortando benefícios como o seguro-desemprego era uma humilhação, agora já é possível acusar de neoliberais (quanta saudade desse xingamento, hein?) os que adotam medidas de restrição para fazer o ajuste que pode colocar a economia de volta nos trilhos. Sem contar o alívio que será cobrar aumento salarial, elevação de gastos sociais e nos investimentos em infraestrutura, tudo isso e muito mais, sem precisar se preocupar em fechar a conta. É o paraíso! É o melhor dos mundos possíveis.

Sem os erros nas últimas eleições, sem a maquiagem nas contas públicas, sem os esquemas turbinados nas estatais e nos fundos de pensão, sem os acordos com as empreiteiras, sem o impeachment, sem Eduardo Cunha e Michel Temer, nada disso seria possível. É bem verdade que, após muito sofrer, Cândido conclui, um tanto cético e pessimista, que “devemos cultivar o nosso jardim”. Mas essa parte, convenhamos, não cabe na narrativa do golpismo.

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Dilma repete Odorico Paraguaçu e mostra o Brasil para a ONU

Por Wanfil em Crônica

22 de Abril de 2016

Odorico na ONU: "I am here to kill the snake and show the stick. Because, with me, is bread bread, cheese cheese"

Odorico na ONU: “I am here to kill the snake and show the stick. Because, with me, is bread bread, cheese cheese”

Causou enorme alvoroço no Brasil a viagem da presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos para evento da Nações Unidas, realizado em Nova Iorque. De início, aventou-se a possibilidade de a presidente usar o espaço para “denunciar” o que ela e seus aliados chamam de golpe.

Ministros do STF deram duras declarações de repúdio a tese, a oposição protestou, um punhado de manifestantes favoráveis e contrários ao impeachment foram às ruas para disputar, vejam só, a opinião pública americana e internacional.

Ao final, Dilma focou sua fala em questões climáticas, objeto do encontro, para falar indiretamente e sem usar a expressão “golpe”, sobre a crise política no Brasil. Foi, portanto, muito barulho por nada.

O caso me fez lembrar um famoso episódio do seriado “O Bem Amado”, escrito por Dias Gomes e produzido pela Rede Globo, quando o prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) foi a Nova Iorque oferecer um terreno para sediar a ONU. Enquanto isso, em Sucupira, a oposição acusava-o de inventar pretextos para viajar e governistas comemoravam o espírito visionário de Paraguaçu. Naturalmente, ninguém o ouviu.

Uma comparação direta entre Dilma e Odorico pode até ser feita, mas a associação de ideias que me levou de volta ao antigo seriado foi mesmo a semelhança com a celeuma interna gerada em torno de algo que, para o estrangeiro, fora de alguns círculos comerciais e diplomáticos, é totalmente irrelevante. Ninguém por lá se importa com o Brasil. Por acaso alguém se lembra de alguma comoção internacional diante do impeachment de Collor? Pois é.

Confira abaixo trecho do discurso proferido por Odorico Paraguaçu na calçada da ONU:

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André Esteves e a máxima de Gordon Gekko

Por Wanfil em Crônica

01 de dezembro de 2015

Gordon Gekko: "Ganância é bom".

Gordon Gekko: “Ganância é bom”

Se Chatô foi o nosso Cidadão Kane, o banqueiro André Esteves, preso na Operação Lava Jato, é o nosso Gordon Gekko, personagem de Michael Douglas em Wall Street – Poder e Cobiça, de 1987. A ascensão precoce e vertiginosa, a áurea de sucesso, a fama de especulador agressivo, a imagem de vencedor implacável, tudo isso aproxima Gekko e Esteves. E também agora a prisão.

Ainda na adolescência, ao ver Gekko ir em cana por crimes fiscais, conclui: “se fosse no Brasil não aconteceria nada, mas nos Estados Unidos é diferente”. Para a época o raciocínio estava correto. Hoje, essa certeza já não é inquebrantável.

Ao que parece, nossa democracia, aos poucos, com avanços e retrocessos, vai amadurecendo. Ainda somos tolerantes com muita coisa, mas a margem de manobra para todo o tipo de ilicitude ficou menor com as prisões do banqueiro do BTG Pactual e também a do senador petista Delcídio do Amaral, e antes, a do empresário Marcelo Odebrecht. Há no caso brasileiro uma singularidade em relação ao filme que merece destaque: todos esses figurões presos têm em comum o fato de atuarem próximos ao governo federal, mais especificamente, em negócios ligados à Petrobras, o que acrescenta um elemento de promiscuidade nas relações entre o Estado e setores privados, um vício antigo no Brasil.

Voltando a Wall Street, inebriado pelo poder e pelo excesso de confiança, Gordon Gekko ensinava: “O que vale a pena ser feito, vale a pena ser feito por dinheiro”. Era a confissão, via ficção, de um pensamento hegemônico em certos círculos. Michael Douglas ganhou um Oscar. André Esteves está em Bangu 8 cumprindo prisão preventiva. Valeu a pena?

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E agora, Camilo?

Por Wanfil em Crônica

15 de setembro de 2015

Durante a campanha eleitoral, o governador do Ceará dizia assim: “Sou Camilo Santana, candidato a governador com apoio do governador Cid, da presidente Dilma e do Lula, para fazer o Ceará seguir avançando com novos projetos e melhores serviços”.

Ao assumir no início do ano e ver que as contas estaduais necessitavam de reforço, Camilo pressionou, na medida de suas limitações, o governo federal por mais verbas. Conseguiu pouco dinheiro e muitas promessas.

Agora, com o anúncio do pacote de maldades do governo federal para cobrir o rombo nas contas públicas, não apenas novos projetos foram cortados e os serviços piorados, como mais impostos foram propostos. A recessão e o colapso nas contas públicas acabaram com qualquer ilusão de ajuda federal.

Aliás, a recessão se mostrou mais aguda no Ceará, com uma queda de 5,3% do PIB estadual no 2º trimestre. Em busca de algum alívio, o governador cearense foi a Brasília juntar forças com a presidente Dilma na tentativa de recriar a CPMF, ou seja, de cobrar do distinto público, a conta da incompetência dos companheiros. A refinaria não veio, mas isso foi só o começo. Resta torcer para a transposição não atrasar novamente, mas a essa altura, é difícil acreditar.

Diante disso tudo, lembrei do José, aquele da poesia de Drummond, aquele da festa que acaba e fica sem saber o que fazer.

E agora, Camilo?

A eleição passou,
O recessão chegou,
Tudo subiu,
O dinheiro acabou,
e agora Ceará,
e agora você?
você que votou,
que confiou nos outros,
você que persiste,
que luta calado,
e agora, Ceará?

Está sem nada,
esperando o discurso,
procurando o caminho,
já não pode investir,
e não pode reclamar,
não pode viver a esperar
por quem não veio ajudar,
ficar em paz já não pode.

A violência cresceu,
o imposto aumentou,
a obra atrasou,
metrô e transposição,
sobrou conversa,
faltou ação.
Água tem pouca,
refinaria não vem,
e por isso fica
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, Camilo?

Se você protestasse,
se você se indignasse,
se você cansasse…
Mas você não cansa
de acreditar e esquecer

Onde estão os pródigos
anunciantes da redenção?
Onde estão os Ferreiras,
os Arrudas,
os Santanas,
os Oliveiras e Pimenteis?
Cadê os Silvas elitizados
e os Rousseffs improvisados?
Onde estão os aliados?
Estão eleitos e nomeados,
mas em profundo silêncio.

Sem a parte que lhe cabe,
qual sócio enganado,
sem as promessas devidas,
sem oposição decidida,
você bate palmas,
aguardando o porvir que não chega.
Você aplaude, Ceará!
Ceará, palmas pra quem?

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Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

Por Wanfil em Crônica

10 de setembro de 2015

Ao maquiar as contas públicas para conseguir sua reeleição, a presidente Dilma Rousseff destruiu o frágil equilíbrio entre gastos e despesas da União. Agora estamos em recessão, com previsão de mais recessão para o próximo ano, situação devidamente registrada pelo humilhante rebaixamento do Brasil no rating da Standard & Poor´s. Junto com a credibilidade da presidente, foi-se a economia nacional.

Ainda que fosse excepcionalmente preparada, Dilma, sozinha, não conseguiria criar e manter uma farsa dessa magnitude. Foi preciso o empenho de muitos agentes para levar adiante o engodo do “desenvolvimentismo” brasileiro. De partidos a intelectuais, de inocentes úteis e a militantes profissionais.

Digo isso porque vejo aqui e ali parceiros, aliados e simpatizantes da presidente arriscando críticas ao desgoverno, à frouxidão fiscal da gestão, à inabilidade política da cúpula palaciana, ao tamanho da máquina, ao loteamento de cargos e à corrupção, como se tudo isso fosse novidade e como se não tivessem eles, os entusiastas do governismo, nada a ver com o desastre em curso. Gente que até poucos meses atrás garantia que a petista representava a continuidade de um modelo econômico sólido, amparado em convicções técnicas modernas, justas e inovadoras.

Profissionais diversos, como jornalistas e professores, além de políticos e autoridades, aderem agora ao coro dos descontentes ou se fazem de meros expectadores, sem assumirem, convenientemente, a parcela de responsabilidade que lhes cabe. Não é só Dilma que deve desculpas aos brasileiros. Falta de aviso não foi e nada do que acontece agora era segredo em 2014. Basta lembrar o caso da economista demitida pelo Santander após descrever com franqueza o cenário econômico. Mesmo assim, os passageiros do trem da alegria preferiram fechar os olhos, em nome de um mal menor, que de menor não tem nada, pelo contrário.

No Ceará, até ontem, aplaudiam obras inacabadas, fazendo pouco caso de seus atrasos inexplicáveis; publicavam e depois publicavam de novo releases discorrendo sobre as maravilhas da refinaria que não veio, como se fosse fato consumado; diziam-se admiradores sapientes da competência administrativa da “presidenta”. E agora, onde estão? Por que não pedem, junto com Dilma, desculpas?

Vejo-os por aí, em artigos de jornal e depoimentos nas redes sociais, dissimulados, disfarçando para melhor passarem, fugindo de si mesmos. Me fazem lembrar de um trecho famoso da prece católica – Confiteor (“Eu confesso”, em latim):

Pequei muitas vezes, por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa (peccavi nimis cogitatione verbo, et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa).

Me parece um tanto dramática, mas no presente, serve à perfeição, pois lembra que as decisões individuais possuem consequências (notem que a culpa não é do demônio, que na versão da teologia marxista, também pode ser chamado de mercado). A culpa não é só da presidente Dilma, mas isso, ninguém confessa.

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Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa

Por Wanfil em Crônica

10 de setembro de 2015

Ao maquiar as contas públicas para conseguir sua reeleição, a presidente Dilma Rousseff destruiu o frágil equilíbrio entre gastos e despesas da União. Agora estamos em recessão, com previsão de mais recessão para o próximo ano, situação devidamente registrada pelo humilhante rebaixamento do Brasil no rating da Standard & Poor´s. Junto com a credibilidade da presidente, foi-se a economia nacional.

Ainda que fosse excepcionalmente preparada, Dilma, sozinha, não conseguiria criar e manter uma farsa dessa magnitude. Foi preciso o empenho de muitos agentes para levar adiante o engodo do “desenvolvimentismo” brasileiro. De partidos a intelectuais, de inocentes úteis e a militantes profissionais.

Digo isso porque vejo aqui e ali parceiros, aliados e simpatizantes da presidente arriscando críticas ao desgoverno, à frouxidão fiscal da gestão, à inabilidade política da cúpula palaciana, ao tamanho da máquina, ao loteamento de cargos e à corrupção, como se tudo isso fosse novidade e como se não tivessem eles, os entusiastas do governismo, nada a ver com o desastre em curso. Gente que até poucos meses atrás garantia que a petista representava a continuidade de um modelo econômico sólido, amparado em convicções técnicas modernas, justas e inovadoras.

Profissionais diversos, como jornalistas e professores, além de políticos e autoridades, aderem agora ao coro dos descontentes ou se fazem de meros expectadores, sem assumirem, convenientemente, a parcela de responsabilidade que lhes cabe. Não é só Dilma que deve desculpas aos brasileiros. Falta de aviso não foi e nada do que acontece agora era segredo em 2014. Basta lembrar o caso da economista demitida pelo Santander após descrever com franqueza o cenário econômico. Mesmo assim, os passageiros do trem da alegria preferiram fechar os olhos, em nome de um mal menor, que de menor não tem nada, pelo contrário.

No Ceará, até ontem, aplaudiam obras inacabadas, fazendo pouco caso de seus atrasos inexplicáveis; publicavam e depois publicavam de novo releases discorrendo sobre as maravilhas da refinaria que não veio, como se fosse fato consumado; diziam-se admiradores sapientes da competência administrativa da “presidenta”. E agora, onde estão? Por que não pedem, junto com Dilma, desculpas?

Vejo-os por aí, em artigos de jornal e depoimentos nas redes sociais, dissimulados, disfarçando para melhor passarem, fugindo de si mesmos. Me fazem lembrar de um trecho famoso da prece católica – Confiteor (“Eu confesso”, em latim):

Pequei muitas vezes, por pensamentos, palavras e obras, por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa (peccavi nimis cogitatione verbo, et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa).

Me parece um tanto dramática, mas no presente, serve à perfeição, pois lembra que as decisões individuais possuem consequências (notem que a culpa não é do demônio, que na versão da teologia marxista, também pode ser chamado de mercado). A culpa não é só da presidente Dilma, mas isso, ninguém confessa.