Eleições, demônios e precipícios - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Eleições, demônios e precipícios

Por Wanfil em Crônica

26 de outubro de 2018

Em 1872, Fiódor Dostoiévski publicou Os Demônios, romance de características premonitórias escrito a partir de um caso real, o assassinato do estudante Ivan Ivanov por seguidores de Serguei Nietcháiev, um dos autores de O Catecismo Revolucionário (1869), que defende, em nome de um novo mundo, o terror e o assassinato como métodos políticos.

O enredo narra os delírios de um grupo de jovens niilistas. A distância entre o deslumbre dos salões nobres e a miséria dos camponeses na Rússia, entre governantes e governados, faz surgir um ressentimento social pronto para ser usado por fanatismos religiosos e políticos. Os personagens representam conflitos morais que no futuro, mais precisamente em 1917, daria vida ao fascismo bolchevista, com sua Revolução Russa e seus 30 milhões de cadáveres no Século XX.

Li Os Demônios em 2014 (confira aqui a resenha) e desde logo fui obrigado a concordar com Albert Camus, para quem Dostoiévski – e não Karl Marx – é o grande profeta do Século XIX. De fato, 45 anos antes do totalitarismo Russo, seguido depois pelo Alemão, o escritor captou a essência de suas primeiras manifestações.

Em 2018, no Brasil, forças sociais movimentadas por tensões políticas não conseguem promover diálogos. A corrupção sistêmica, a violência em patamares de guerra civil, os cacoetes de autoritarismo, a produção acadêmica subjugada pelo ativismo político, o corporativismo, a economia chantageada pelo estamento burocrático estatal (denunciado por Raimundo Faoro no século passado), constituem os fenômenos que alimentam uma espécie de revolta sem rumo, sem alvo certo, difusa.

Logo no início de Os Demônios há uma passagem bíblica, no Evangelho de Lucas (8, 32-36), com a qual Dostoiévski explica o título e proposta do livro: “Uma grande manada de porcos estava pastando naquela colina. Os demônios imploraram a Jesus que lhes permitisse entrar neles, e Jesus lhes deu permissão. Saindo do homem, os demônios entraram nos porcos, e toda a manada atirou-se precipício abaixo em direção ao lago e se afogou. Vendo o que acontecera, os que cuidavam dos porcos fugiram e contaram esses fatos, na cidade e nos campos, e o povo foi ver o que havia acontecido. Quando se aproximaram de Jesus, viram que o homem de quem haviam saído os demônios estava assentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo, e ficaram com medo. Os que o tinham visto contaram ao povo como o endemoninhado fora curado”.

Na atual eleição brasileira, nada indica, a rigor, o encaminhamento de uma ruptura revolucionária ou de um golpe militar. Há mais histeria que fatos e os verdadeiros problemas continuam os mesmos de outras eleições. A jovem democracia nacional tenta se curar, mas talvez os nossos demônios, que andam agitados nos porcos da cegueira política e da intolerância, como disse Mano Brown, não estejam a procura de um abismo para se atirarem, mas prefiram ficar por aqui e a continuar na lama da violência, da corrupção e do atraso.

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Eleições, demônios e precipícios

Por Wanfil em Crônica

26 de outubro de 2018

Em 1872, Fiódor Dostoiévski publicou Os Demônios, romance de características premonitórias escrito a partir de um caso real, o assassinato do estudante Ivan Ivanov por seguidores de Serguei Nietcháiev, um dos autores de O Catecismo Revolucionário (1869), que defende, em nome de um novo mundo, o terror e o assassinato como métodos políticos.

O enredo narra os delírios de um grupo de jovens niilistas. A distância entre o deslumbre dos salões nobres e a miséria dos camponeses na Rússia, entre governantes e governados, faz surgir um ressentimento social pronto para ser usado por fanatismos religiosos e políticos. Os personagens representam conflitos morais que no futuro, mais precisamente em 1917, daria vida ao fascismo bolchevista, com sua Revolução Russa e seus 30 milhões de cadáveres no Século XX.

Li Os Demônios em 2014 (confira aqui a resenha) e desde logo fui obrigado a concordar com Albert Camus, para quem Dostoiévski – e não Karl Marx – é o grande profeta do Século XIX. De fato, 45 anos antes do totalitarismo Russo, seguido depois pelo Alemão, o escritor captou a essência de suas primeiras manifestações.

Em 2018, no Brasil, forças sociais movimentadas por tensões políticas não conseguem promover diálogos. A corrupção sistêmica, a violência em patamares de guerra civil, os cacoetes de autoritarismo, a produção acadêmica subjugada pelo ativismo político, o corporativismo, a economia chantageada pelo estamento burocrático estatal (denunciado por Raimundo Faoro no século passado), constituem os fenômenos que alimentam uma espécie de revolta sem rumo, sem alvo certo, difusa.

Logo no início de Os Demônios há uma passagem bíblica, no Evangelho de Lucas (8, 32-36), com a qual Dostoiévski explica o título e proposta do livro: “Uma grande manada de porcos estava pastando naquela colina. Os demônios imploraram a Jesus que lhes permitisse entrar neles, e Jesus lhes deu permissão. Saindo do homem, os demônios entraram nos porcos, e toda a manada atirou-se precipício abaixo em direção ao lago e se afogou. Vendo o que acontecera, os que cuidavam dos porcos fugiram e contaram esses fatos, na cidade e nos campos, e o povo foi ver o que havia acontecido. Quando se aproximaram de Jesus, viram que o homem de quem haviam saído os demônios estava assentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo, e ficaram com medo. Os que o tinham visto contaram ao povo como o endemoninhado fora curado”.

Na atual eleição brasileira, nada indica, a rigor, o encaminhamento de uma ruptura revolucionária ou de um golpe militar. Há mais histeria que fatos e os verdadeiros problemas continuam os mesmos de outras eleições. A jovem democracia nacional tenta se curar, mas talvez os nossos demônios, que andam agitados nos porcos da cegueira política e da intolerância, como disse Mano Brown, não estejam a procura de um abismo para se atirarem, mas prefiram ficar por aqui e a continuar na lama da violência, da corrupção e do atraso.