Crônica Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Crônica

O mundo dos fatos e o mundo das crenças nas redes sociais

Por Wanfil em Crônica

12 de Março de 2019

Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust: as crenças que se antecipam aos fatos

Um conhecido meu, jornalista gente boa, disparou à queima roupa nas redes sociais: “Não é normal que alguém diga que o Brasil está melhor!”. Tomei um café e arrisquei: “Ah, meu caro, existe uma multidão de pessoas que se consideram normais e que publicariam a mesma sentença mudando apenas o adjetivo: “Não é possível que alguém diga que o Brasil está pior!”. O resto da conversa perdeu a graça e acabamos trocando gentilezas.

De todo modo, quando o assunto é política, e desde que não viva numa bolha, o sujeito disposto a ouvir sempre encontrará quem ache que a situação geral melhorou ou que piorou – cada qual com suas razões ou interesses, não importa. Tem argumento para todos os gostos. Aliás, hoje em dia é preciso muito pouco para alguém formar opinião definitiva e inabalável sobre um ou todos os assuntos possíveis e impossíveis.

Eventualmente maiorias e minorias se formam para depois inverterem os papéis. Geralmente todos têm razão e se sobressai mesmo os que gritam mais alto. O alarde é a essência da democracia nesses tempos e… Deixa pra lá que já estou desviando o rumo da prosa.

Retomando o caminho, acabei concluindo que tendem a sentir melhoria nas coisas aqueles já achavam que as coisas iriam melhorar por causa dessa ou daquela gestão, da mesma forma que percebem piora os que apostavam desde antes que tudo iria piorar. Isso é na média. Claro que existem os que preferem duvidar das próprias certezas e os que preferem esperar para ver, mas esses não chamam a atenção. Ora, que graça tem a ponderação nesse mundo de “lacrações” e “mitagens”?

Terminei o café e voltei encher o copo. Queria fumar um cigarro para me imaginar numa esfumaçada redação dos anos 70, com o barulho das máquinas de escrever que lembram meu pai. A legislação atual e a asma me proíbem. Desolado, surpreendido por essas reminiscências, lembrei de uma frase de Proust que li uma noite dessas nas páginas iniciais de Em Busca do Tempo Perdido: “Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças”.

Pois é. Imagine isso no mundo em que nossas crenças vivem na fervura histérica das redes sociais. Coitado dos fatos.

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Pornografia política explícita

Por Wanfil em Crônica

07 de Março de 2019

Muito debate, pouca serventia

A polêmica sobre o vídeo compartilhado pelo presidente Jair Bolsonaro, com três pessoas expondo nudez e mau gosto estético em via pública, com direito a um escatológico e grotesco banho de urina, mostra que até a pornografia na política brasileira também está a degenerar. O governo soltou nota com explicações, lideranças da oposição afetaram indignação.

Antes, desde tempos imemoriais, a variante política da pornografia na política era produzida como segredo como instrumento de chantagem, sedução, intriga, aliança ou manipulação. Agora é objeto de debates abertos. O que digo aqui é que pelo menos o distinto público era, no passado, poupado do conteúdo explícito desses espetáculos. A pornografia na política se limitava, para os de fora, ao seu caráter metafórico, aquela licenciosidade grupal de políticos e apaniguados com as indecências do poder.

Pois bem, obsessões que deveriam estar confinadas a espaços reservados, secretos, íntimos, agora estão nas ruas e nas redes sociais. “Tanto melhor”, dirão alguns, “que sejam desmascaradas”. Não sei, não. Algo me diz que tanta exposição pode atiçar os piores instintos da política nacional. Receio ter pesadelos com o Brasil inundado por uma ininterrupta e degradante golden shower.

Nada contra criticar ou defender certas práticas. O que impressiona é a dimensão que o assunto – convenhamos, sem importância real – tomou. E mais: no vídeo que agora centraliza o debate público no Brasil, curiosamente, há uma sintomática inversão de papéis. A direita cuidou de divulgar a imoralidade abjeta que condena e a esquerda se pôs a criticar algo que fere os bons costumes. Os reacionários não resistem a um vídeo pornográfico e nossos progressistas, que adoram cantar as glórias das liberdades sexuais e denunciam a suposta hipocrisia dos padrões normativos celebrados pelo conservadorismo, pedem o impeachment do presidente por quebra de decoro. Decoro!

Antes que me apedrejem, não generalizo direita e esquerda, mas é impossível particularizar, uma vez que os mais engajados na discussão formam verdadeiras legiões cuja ansiedade de expor o adversário é capaz de agredir até mesmo a lógica dos princípios que juram, cada uma, defender.

Há nisso boa dose de alucinação de parte a parte, afinal, se pensarmos bem, quem é que ainda se escandaliza com o uso da pornografia ou da nudez com a intenção de chocar o espírito conservador do brasileiro? De tão comuns de serem expostos, o escândalo, o sexo, a corrupção (variante pornográfica muito praticada ainda) e a sujeira política perderam o impacto no Brasil.

Por isso tudo é que o obsceno esforço de governistas e opositores, na falta de ideias melhores e de intimidade com soluções para os problemas reais e urgentes da nação, não passa de uma espécie de orgia acusatória onde os participantes se esbaldam com a voracidade típica das taras mais arraigadas.

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Depois do Carnaval

Por Wanfil em Crônica

01 de Março de 2019

Pierrot – (FOTO: Flickr/Creative Commons/Robert Couse-Baker)

É Carnaval e todo o resto fica para depois. Nada contra. Na verdade, para quase todos, é um fugaz alívio.

Para os políticos em geral (já que sou articulista de política) o Carnaval é o fim do hiato que anuncia a próxima corrida eleitoral. Passada a de 2018, as atenções se voltam para a de 2020, nos municípios. É que o ano – como dizem – só começa mesmo, para quem pode, depois do Carnaval.

Depois do Carnaval os problemas de sempre permanecem. As desculpas também são sempre as mesmas. E as caras igualmente. Sobretudo no Ceará, onde quase todos são governistas, qualquer que seja o governo. São os “Unidos da Governança” desfilando na lúdica avenida do poder. Mais atrás, varrendo o asfalto, cronistas políticos e colunistas sociais, foliões, entidades sociais e eleitores seguem conformados, no ritmo da batucada, tão iguais quanto no Carnaval passado.

Não sei se é impressão minha, mas sinto um quê de depressão rondando o samba dessas linhas. Lembrei do Pierrô e sua lágrima ridícula, solitária. Sai daqui! Agora não é hora de pensar em nada disso. O Carnaval, como outras datas comemorativas, é também uma pausa na rotina. Alívio para os constrangimentos e humilhações do cotidiano. Alegria!

O cidadão comum – que não tem, a exemplo de parlamentares, recessos remuneradíssimos nem Carnaval de 12 dias; que não andam em carros blindados e seguranças para a família feito governantes – arrisca deixar algumas chateações de lado para relaxar um pouco.

O cidadão comum, esfolado pelos impostos do início do ano, pede um tempo para respirar fundo e conseguir, mais adiante, suportar novas apneias.

Pelo menos até a próxima eleição e o próximo Carnaval.

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Pesquisa CNT/MDA mostra que apenas 3,7% confiam na imprensa. Será?

Por Wanfil em Crônica

28 de Fevereiro de 2019

O desafio na leitura das pesquisas de opinião não está bem nas respostas ou nas metodologias de amostragem, mas nas perguntas. O poder das perguntas é infinitamente maior que o das respostas. A ordem de distribuição das questões, a eventual introdução ou omissão de informações, a escolha das palavras, tudo isso pode influenciar o entrevistado.

Faço esse preâmbulo para mostrar dados da mais recente pesquisa CNT/MDA, divulgada nesta semana, com a medição da popularidade do presidente Jair Bolsonaro (aprovado por 57,5%) e de outros temas que passaram quase batidos, como esse: – “Em qual destas instituições ou corporações o(a) Sr. (a) mais confia?” Nove opções foram apresentadas e o resultado foi o seguinte:

Igreja: 34,3% – Bombeiros: 19,7% -Forças Armadas: 16,0% – Justiça: 9,8% – Polícia: 4,1% – Imprensa: 3,7% -Governo: 2,4% – Congresso Nacional: 1,0% – Partidos políticos: 0,2%.

“Pobre imprensa!”, diriam os mais apressados. “Bem-feito!”, comemorariam fiscais de plantão nas redes sociais. “Perde até para a Justiça e só ganha dos políticos”, ironizariam os próprios políticos. No mérito, nada contra. Nelson Rodrigues dizia que só é possível confiar mesmo nas cabras, pela capacidade de guardar segredos. Os Titãs não confiavam em ninguém com 32 dentes.

Para ser sincero, eu não confio integralmente nos jornais, menos ainda nas redações e muito menos nas faculdades de jornalismo, entulhadas de ideologia. Nem mesmo, ou sobretudo, confio na massa de leitores. Lembro da Simone Souza, professora já falecida do curso de História na UFC: “O maior desafio da educação deveria ser ensinar as pessoas a ler jornal”.

Pode parecer estranho, mas essa desconfiança generalizada é a base da confiança nos regimes democráticos. Cria uma espécie de ética da vigilância mútua. De resto, melhor com imprensa e leitores plurais do que sem imprensa ou com imprensa única. E leitores também. Mas indo ao que interessa, o que complica a pesquisa da CNT/MDA é que fica difícil comprar uma atividade com uma corporação.

Será que na hora de divulgar uma informação, o entrevistado escolheria os confiáveis bombeiros? O certo seria perguntar, numa escala de 0 a 10, qual nota o entrevistado daria para cada uma dessas instituições. Além do mais, a imprensa é feita de um sem-número de veículos. Posso confiar mais em um do que em outros.

Se repararmos bem, a CNT/MDA não quis saber como pesquisas e institutos de pesquisa seriam avaliados. Talvez desconfiem da pergunta que apresentaram. Poderiam, nesse caso, colocar um item à parte, para não se misturar, e arriscar: “O (a) Sr. (a) confia na gente?”

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Em defesa da antipolítica

Por Wanfil em Crônica

23 de Fevereiro de 2019

Li um dia desses, levado pelas marés da internet (estava no blog do jornalista Edson Silva), um artigo do professor Filomeno de Morais publicado no site Consultor Jurídico sobre crises e democracia. Resolvi mergulhar por ali pois sempre admirei o seu trabalho. Destaco a passagem abaixo, em itálico e com grifo meu:

Evidentemente, identificam-se distorções no funcionamento das instituições políticas brasileiras, cabendo muitas vezes modificá-las para que se evitem consequências negativas, como a difusão da ideia da ‘antipolítica’, que semeia o sentimento de que o exercício da política está associado, sempre, à corrupção, à farsa e à predominância dos interesses egoísticos individuais ou de oligarquias“.

Pois é. De volta à superfície, me pus a refletir sobre o assunto. Realmente vez por outra alguém alerta o público para os perigos da “antipolítica”. Desde eruditos consagrados até comentaristas anônimos nas redes sociais, a maioria ecoando políticos desacreditados e outros ainda respeitados, que compartilham do mesmo receio. É que às vezes nos deixamos levar pela conversa desse pessoal. Cuidado. Não podemos confundir a política com os políticos, ou melhor, com os maus políticos (nessa classe temos os desonestos, os incompetentes, os desonestos competentes, os honestos incompetentes e os desonestos incompetentes).

Vamos em frente. Por mais que uma categoria profissional seja mal vista, isso não significa que seu oficio seja dispensável. Tomemos por exemplo casual – casual, repito – advogados e ministros do STF. Por mais que sejam criticados e que careçam de credibilidade, ninguém é louco de dizer que a Justiça é um supérfluo, muito menos de sair por aí hasteando a bandeira da anti-justiça. Seria a volta à barbárie. Para não parecer implicância, vamos a outro exemplo: jornalistas e veículos de comunicação. Todos esculhambam algum deles – ou vários, ou todos -, mas sabem que a notícia é fundamental para compor um retrato do mundo a partir do qual cada um pode emitir seus juízos. É possível ter ojeriza a uma categoria sem perder o respeito pela atividade que a sustenta.

Políticos matreiros é que gostam de se confundir com o próprio conceito daquilo que deveriam fazer, como se fossem a quintessência das instituições e da noção mediadora da política. Fale mal de um e ele dirá: “a política não pode ser tratada assim, com desprezo e raiva. Onde vamos chegar, meu Deus?” E fará isso com impressionante pose de ofendido ou injustiçado, sendo capaz de enganar o mais desconfiado cidadão por alguns minutos. É um perigo.

Pensei agora em fazer como o meu amigo e colega na Jangadeiro Diego Lage e resumir tudo com uma frase escatológica ou mesmo pornográfica, entanto imitar o seu incrível poder de síntese, mas cá estou eu encompridando a conversa, sendo… político. Palavrões e nomes de bois voltam a rondar esse texto, mas são devidamente contidos pelos pudores do superego e a prudência jurídica (covardia, diria o velho Nelson).

Para encerrar, acho mesmo que os representados (eleitores) querem dos seus representantes (eleitos) o resgate – e não o descarte – da política. A difusão da ideia da antipolítica como negação da politicagem é a única chance da verdadeira política sobreviver.

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Boechat e o jornalismo opinativo

Por Wanfil em Crônica

11 de Fevereiro de 2019

Ricardo Boechat em ação: a opinião como diálogo com o público. Foto: divulgação

Lembro de uma palestra do jornalista Ricardo Boechat na inauguração da Tribuna BandNews (Fortaleza) sobre o jornalismo e o rádio. Isso foi em 2013. Boechat defendeu que apresentadores – ou âncoras – pudessem opinar. Seria uma forma de aproximar o veículo (e a própria atividade jornalística) do público. Obviamente, as opiniões precisariam ter o respaldo da experiência profissional e embasamento nos fatos.

Quem faz jornalismo opinativo de verdade (assumindo posicionamentos) sabe as responsabilidades que assume e os riscos que corre: por um lado, checar e checar insistentemente as informações, contribuir no aprofundamento dos temas de interesse geral, por outro, criar antipatias, desagradar grupos, errar o tom, cometer injustiças, ser processado. Riscos que valem, pois muitas vezes a opinião é o complemento da notícia.

Boechat conseguiu unir essa disposição a credibilidade do apresentador. O segredo para isso ele mesmo revelou nesse evento que mencionei: priorizar os cidadãos e não as autoridades. Saber ouvir para dar voz. Não só isso. Quem o escutava com frequência percebia que sua crítica não se confundia com ressentimentos, torcida, panfletagem, causas particulares, nem se limitava a um determinado grupo político.

Por isso tudo a partida trágica do jornalista apresentador que opinava sem se omitir jamais tocou a tantas pessoas que manifestaram na imprensa e nas redes a tristeza de perder alguém que lhes parecia, mesmo à distância, próximo como um amigo com quem conversassem regularmente.

A saudade se manifestou instantânea, prova de que Boechat estava certo quando defendia a interação honesta com o público. Seu silêncio prematuro é difícil de ser assimilado.

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Eleições, demônios e precipícios

Por Wanfil em Crônica

26 de outubro de 2018

Em 1872, Fiódor Dostoiévski publicou Os Demônios, romance de características premonitórias escrito a partir de um caso real, o assassinato do estudante Ivan Ivanov por seguidores de Serguei Nietcháiev, um dos autores de O Catecismo Revolucionário (1869), que defende, em nome de um novo mundo, o terror e o assassinato como métodos políticos.

O enredo narra os delírios de um grupo de jovens niilistas. A distância entre o deslumbre dos salões nobres e a miséria dos camponeses na Rússia, entre governantes e governados, faz surgir um ressentimento social pronto para ser usado por fanatismos religiosos e políticos. Os personagens representam conflitos morais que no futuro, mais precisamente em 1917, daria vida ao fascismo bolchevista, com sua Revolução Russa e seus 30 milhões de cadáveres no Século XX.

Li Os Demônios em 2014 (confira aqui a resenha) e desde logo fui obrigado a concordar com Albert Camus, para quem Dostoiévski – e não Karl Marx – é o grande profeta do Século XIX. De fato, 45 anos antes do totalitarismo Russo, seguido depois pelo Alemão, o escritor captou a essência de suas primeiras manifestações.

Em 2018, no Brasil, forças sociais movimentadas por tensões políticas não conseguem promover diálogos. A corrupção sistêmica, a violência em patamares de guerra civil, os cacoetes de autoritarismo, a produção acadêmica subjugada pelo ativismo político, o corporativismo, a economia chantageada pelo estamento burocrático estatal (denunciado por Raimundo Faoro no século passado), constituem os fenômenos que alimentam uma espécie de revolta sem rumo, sem alvo certo, difusa.

Logo no início de Os Demônios há uma passagem bíblica, no Evangelho de Lucas (8, 32-36), com a qual Dostoiévski explica o título e proposta do livro: “Uma grande manada de porcos estava pastando naquela colina. Os demônios imploraram a Jesus que lhes permitisse entrar neles, e Jesus lhes deu permissão. Saindo do homem, os demônios entraram nos porcos, e toda a manada atirou-se precipício abaixo em direção ao lago e se afogou. Vendo o que acontecera, os que cuidavam dos porcos fugiram e contaram esses fatos, na cidade e nos campos, e o povo foi ver o que havia acontecido. Quando se aproximaram de Jesus, viram que o homem de quem haviam saído os demônios estava assentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo, e ficaram com medo. Os que o tinham visto contaram ao povo como o endemoninhado fora curado”.

Na atual eleição brasileira, nada indica, a rigor, o encaminhamento de uma ruptura revolucionária ou de um golpe militar. Há mais histeria que fatos e os verdadeiros problemas continuam os mesmos de outras eleições. A jovem democracia nacional tenta se curar, mas talvez os nossos demônios, que andam agitados nos porcos da cegueira política e da intolerância, como disse Mano Brown, não estejam a procura de um abismo para se atirarem, mas prefiram ficar por aqui e a continuar na lama da violência, da corrupção e do atraso.

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Virou rotina

Por Wanfil em Crônica

27 de Março de 2018

A rotina da insegurança e a lição de Santo Tomás: “o hábito aperfeiçoa a malícia”

Em resposta à recente onda de ataques criminosos no Ceará, o governador Camilo Santana voltou ao Facebook para defender as iniciativas de sua gestão. Uma rápida pesquisa no Google mostra que essa dinâmica de agressões ao Estado seguidas de explicações oficiais nas redes sociais virou uma espécie de rotina. Vez por outra se repete, não obstante os esforços e investimentos anunciados.

Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica IV, explica que “o hábito mau é pior do que os atos viciosos que logo passam”, porquanto “o hábito aperfeiçoa o ato em sua bondade ou em sua malícia”.

É claro que o governo não tem intenções maldosas no que diz respeito à crise na segurança, mas isso não muda o fato de que estamos diante de um mau hábito involuntário, no sentido de rotina. Assim, ser fizermos um paralelo com o tomismo, mais preocupante do que os atos criminosos em si, coordenados a partir de grupos organizados, é a sua repetição sistemática. Ônibus e prédios públicos como alvos para criar medo e constrangimento político.

Dito de outra forma, o problema é a falta de solução eficaz ou de ações que pelo menos o amenizem. Ainda de acordo com São Tomás de Aquino, “o hábito está no meio entre a potência e o ato”. Existe, portanto, o mal em potencial. Na comparação com os problemas de segurança pública no Ceará e no Brasil, essa potência se apresenta nas articulações do crime organizado, especialmente dentro dos presídios. Para que o mal não degenere em hábito, é preciso pois separar a potência do ato.

Amém.

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É possível falar de política com amor?

Por Wanfil em Crônica

12 de Janeiro de 2018

Nesses tempos de radicalismos de internet tomei, por acaso, conhecimento de um episódio envolvendo a comediante americana Sarah Silverman. Alvo de pesado xingamento no Twitter, Sarah respondeu ao insulto demonstrando preocupação com a condição emocional de seu agressor virtual: “Li seus tweets e vi o que você está fazendo. Seu ódio claramente quer esconder sua dor. Eu conheço estes sentimentos”. Realmente o sujeito tinha problemas, pediu desculpas e aceitou a sugestão de procurar ajuda profissional. Ao contar o caso para minha esposa, psicóloga, ela imediatamente o associou ao conceito de “comunicação não-violenta”, que a empolga e contagia quem a ouve.

Pois bem, essas considerações me fizeram lembrar das ofensas diárias trocadas nas redes sociais por causa de política. Muitas vezes gente bacana que levada pelo impulso, extravasa e exagera na hora de se posicionar diante de opiniões alheias e de algumas notícias. Ora, se foi possível para a comediante responder a um insulto com amor, no sentido de preocupação com o bem estar do outro, talvez também seja possível as pessoas falarem de política com respeito pelo interlocutor, ainda que se discorde do que ele diz e pensa.

Quando falo em política neste texto, não penso apenas em partidos, candidatos ou eleição, mas na legítima preocupação que indivíduos podem manifestar sobre o conjunto de regras e meios para construir uma vida em sociedade. Nesse sentido, é possível sim falar de política com amor, ou pelo menos, sem ódio.

O primeiro passo é não esperar que os outros tomem a iniciativa. Não acuse más intenções neles, não atribua-lhes crimes nem xingue ninguém. Respeite a divergência. Cada um tem suas razões quando pensa a realidade, que podem muito bem ser diferentes das suas, sem que isso signifique desejo de impor um mal aos demais.

O segundo passo é não entrar na vibração desequilibrada. Se você for alvo de um hater (apelido para internautas que sentem necessidade de provocar e brigar o tempo inteiro), lembre que tudo o que ele deseja é uma reação destemperada. Caso seja alguém conhecido, que por algum motivo o surpreenda agindo assim, diga que volta a conversar depois, com os ânimos serenados. Levar adiante um debate em termos violentos não constrói nada e ainda te deixa chateado, perturbando seu estado de espírito a troco de nada.

O terceiro é o comedimento. Se não por possível ter o mínimo de empatia pelo outro, ignore-o. Não torça para que o pior aconteça com essa pessoa, não deixe que instintos ruins floresçam. É só bloquear e pronto. Se for o caso de postar uma crítica, não custa lembrar que é possível fazer isso com educação e elegância, ainda que se trate de algo espinhoso.

E o quarto é ter responsabilidade na escolha das palavras, sobretudo dos adjetivos. Tenho amigos que nutrem admiração por políticos que particularmente eu desprezo. Certamente, o mesmo acontece com sinal invertido: eles podem não apreciar políticos que admiro. Mas em respeito à amizade que temos, evito usar expressões que possam dar a entender que todos os que gostam desse ou daquele político são cúmplices de seus erros ou crimes, ou dos seus supostos erros e crimes.

Claro que política também envolve paixão e disputa, e que o sentimento de indignação é compreensível quando as coisas não estão bem. Principalmente onde escândalos em série potencializam essas propensões. Mas quando isso se mistura com outros problemas, ressentimentos e frustrações, a pessoa indignada pode acabar extrapolando limites, confundir a própria sensibilidade e até desnortear a consciência, descontando tudo em quem pensa ou vota diferente dela.

Quando Sarah Silverman percebeu que a agressividade de seu detrator era reflexo de outros males, conseguiu não entrar na espiral de sensações negativas da troca de insultos gratuita. É por aí.

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Páscoa de escândalos

Por Wanfil em Crônica

14 de Abril de 2017

A Última Ceia, de Leonardo Da Vinci: Jesus e o escândalo como instrumento de depuração

A Semana Santa, período em que os cristãos recordam a crucificação e a ressurreição de Jesus, foi marcada também neste ano pela divulgação dos estarrecedores depoimentos de Emílio e Marcelo Odebrecht, no maior escândalo de corrupção de que se tem notícia no Brasil.

Símbolos, alegorias e personagens religiosos, com sua lições e exemplos, são importantes instrumentos de reflexão que servem às mais diversas circunstâncias, da vida privada ao convívio social, das questões familiares à política.

Nada mais apropriado, portanto, do que buscar na figura de Jesus um alento para as turbulências do presente. Em uma de suas passagens mais famosas e polêmicas, Cristo disse : “Ai do mundo por causa dos escândalos; porque é necessário que venham escândalos; mas ai do homem por quem o escândalo venha”. Faz sentido. Sendo o erro ou o crime inevitáveis, porque somos falíveis, ele pode e deve servir de aprendizado pela dor.

A corrupção é a maior chaga na política brasileira e a revelação de sua extensão causa justa indignação. É preciso, pois, punir quem traz o escândalo; é necessário punir os corruptos na Justiça com condenações e na política, não mais os elegendo. Mas também precisamos refletir em como chegamos até aqui, com todos – indivíduos e instituições – revendo com sinceridade nossos papéis e condutas, de modo que possamos ressuscitar a política como atividade voltada para o bem comum, para o debate saudável, para o crescimento do Ceará e do Brasil.

Feliz Páscoa a todos.

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Páscoa de escândalos

Por Wanfil em Crônica

14 de Abril de 2017

A Última Ceia, de Leonardo Da Vinci: Jesus e o escândalo como instrumento de depuração

A Semana Santa, período em que os cristãos recordam a crucificação e a ressurreição de Jesus, foi marcada também neste ano pela divulgação dos estarrecedores depoimentos de Emílio e Marcelo Odebrecht, no maior escândalo de corrupção de que se tem notícia no Brasil.

Símbolos, alegorias e personagens religiosos, com sua lições e exemplos, são importantes instrumentos de reflexão que servem às mais diversas circunstâncias, da vida privada ao convívio social, das questões familiares à política.

Nada mais apropriado, portanto, do que buscar na figura de Jesus um alento para as turbulências do presente. Em uma de suas passagens mais famosas e polêmicas, Cristo disse : “Ai do mundo por causa dos escândalos; porque é necessário que venham escândalos; mas ai do homem por quem o escândalo venha”. Faz sentido. Sendo o erro ou o crime inevitáveis, porque somos falíveis, ele pode e deve servir de aprendizado pela dor.

A corrupção é a maior chaga na política brasileira e a revelação de sua extensão causa justa indignação. É preciso, pois, punir quem traz o escândalo; é necessário punir os corruptos na Justiça com condenações e na política, não mais os elegendo. Mas também precisamos refletir em como chegamos até aqui, com todos – indivíduos e instituições – revendo com sinceridade nossos papéis e condutas, de modo que possamos ressuscitar a política como atividade voltada para o bem comum, para o debate saudável, para o crescimento do Ceará e do Brasil.

Feliz Páscoa a todos.