Crônica Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Crônica

Virou rotina

Por Wanfil em Crônica

27 de Março de 2018

A rotina da insegurança e a lição de Santo Tomás: “o hábito aperfeiçoa a malícia”

Em resposta à recente onda de ataques criminosos no Ceará, o governador Camilo Santana voltou ao Facebook para defender as iniciativas de sua gestão. Uma rápida pesquisa no Google mostra que essa dinâmica de agressões ao Estado seguidas de explicações oficiais nas redes sociais virou uma espécie de rotina. Vez por outra se repete, não obstante os esforços e investimentos anunciados.

Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica IV, explica que “o hábito mau é pior do que os atos viciosos que logo passam”, porquanto “o hábito aperfeiçoa o ato em sua bondade ou em sua malícia”.

É claro que o governo não tem intenções maldosas no que diz respeito à crise na segurança, mas isso não muda o fato de que estamos diante de um mau hábito involuntário, no sentido de rotina. Assim, ser fizermos um paralelo com o tomismo, mais preocupante do que os atos criminosos em si, coordenados a partir de grupos organizados, é a sua repetição sistemática. Ônibus e prédios públicos como alvos para criar medo e constrangimento político.

Dito de outra forma, o problema é a falta de solução eficaz ou de ações que pelo menos o amenizem. Ainda de acordo com São Tomás de Aquino, “o hábito está no meio entre a potência e o ato”. Existe, portanto, o mal em potencial. Na comparação com os problemas de segurança pública no Ceará e no Brasil, essa potência se apresenta nas articulações do crime organizado, especialmente dentro dos presídios. Para que o mal não degenere em hábito, é preciso pois separar a potência do ato.

Amém.

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É possível falar de política com amor?

Por Wanfil em Crônica

12 de Janeiro de 2018

Nesses tempos de radicalismos de internet tomei, por acaso, conhecimento de um episódio envolvendo a comediante americana Sarah Silverman. Alvo de pesado xingamento no Twitter, Sarah respondeu ao insulto demonstrando preocupação com a condição emocional de seu agressor virtual: “Li seus tweets e vi o que você está fazendo. Seu ódio claramente quer esconder sua dor. Eu conheço estes sentimentos”. Realmente o sujeito tinha problemas, pediu desculpas e aceitou a sugestão de procurar ajuda profissional. Ao contar o caso para minha esposa, psicóloga, ela imediatamente o associou ao conceito de “comunicação não-violenta”, que a empolga e contagia quem a ouve.

Pois bem, essas considerações me fizeram lembrar das ofensas diárias trocadas nas redes sociais por causa de política. Muitas vezes gente bacana que levada pelo impulso, extravasa e exagera na hora de se posicionar diante de opiniões alheias e de algumas notícias. Ora, se foi possível para a comediante responder a um insulto com amor, no sentido de preocupação com o bem estar do outro, talvez também seja possível as pessoas falarem de política com respeito pelo interlocutor, ainda que se discorde do que ele diz e pensa.

Quando falo em política neste texto, não penso apenas em partidos, candidatos ou eleição, mas na legítima preocupação que indivíduos podem manifestar sobre o conjunto de regras e meios para construir uma vida em sociedade. Nesse sentido, é possível sim falar de política com amor, ou pelo menos, sem ódio.

O primeiro passo é não esperar que os outros tomem a iniciativa. Não acuse más intenções neles, não atribua-lhes crimes nem xingue ninguém. Respeite a divergência. Cada um tem suas razões quando pensa a realidade, que podem muito bem ser diferentes das suas, sem que isso signifique desejo de impor um mal aos demais.

O segundo passo é não entrar na vibração desequilibrada. Se você for alvo de um hater (apelido para internautas que sentem necessidade de provocar e brigar o tempo inteiro), lembre que tudo o que ele deseja é uma reação destemperada. Caso seja alguém conhecido, que por algum motivo o surpreenda agindo assim, diga que volta a conversar depois, com os ânimos serenados. Levar adiante um debate em termos violentos não constrói nada e ainda te deixa chateado, perturbando seu estado de espírito a troco de nada.

O terceiro é o comedimento. Se não por possível ter o mínimo de empatia pelo outro, ignore-o. Não torça para que o pior aconteça com essa pessoa, não deixe que instintos ruins floresçam. É só bloquear e pronto. Se for o caso de postar uma crítica, não custa lembrar que é possível fazer isso com educação e elegância, ainda que se trate de algo espinhoso.

E o quarto é ter responsabilidade na escolha das palavras, sobretudo dos adjetivos. Tenho amigos que nutrem admiração por políticos que particularmente eu desprezo. Certamente, o mesmo acontece com sinal invertido: eles podem não apreciar políticos que admiro. Mas em respeito à amizade que temos, evito usar expressões que possam dar a entender que todos os que gostam desse ou daquele político são cúmplices de seus erros ou crimes, ou dos seus supostos erros e crimes.

Claro que política também envolve paixão e disputa, e que o sentimento de indignação é compreensível quando as coisas não estão bem. Principalmente onde escândalos em série potencializam essas propensões. Mas quando isso se mistura com outros problemas, ressentimentos e frustrações, a pessoa indignada pode acabar extrapolando limites, confundir a própria sensibilidade e até desnortear a consciência, descontando tudo em quem pensa ou vota diferente dela.

Quando Sarah Silverman percebeu que a agressividade de seu detrator era reflexo de outros males, conseguiu não entrar na espiral de sensações negativas da troca de insultos gratuita. É por aí.

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Páscoa de escândalos

Por Wanfil em Crônica

14 de Abril de 2017

A Última Ceia, de Leonardo Da Vinci: Jesus e o escândalo como instrumento de depuração

A Semana Santa, período em que os cristãos recordam a crucificação e a ressurreição de Jesus, foi marcada também neste ano pela divulgação dos estarrecedores depoimentos de Emílio e Marcelo Odebrecht, no maior escândalo de corrupção de que se tem notícia no Brasil.

Símbolos, alegorias e personagens religiosos, com sua lições e exemplos, são importantes instrumentos de reflexão que servem às mais diversas circunstâncias, da vida privada ao convívio social, das questões familiares à política.

Nada mais apropriado, portanto, do que buscar na figura de Jesus um alento para as turbulências do presente. Em uma de suas passagens mais famosas e polêmicas, Cristo disse : “Ai do mundo por causa dos escândalos; porque é necessário que venham escândalos; mas ai do homem por quem o escândalo venha”. Faz sentido. Sendo o erro ou o crime inevitáveis, porque somos falíveis, ele pode e deve servir de aprendizado pela dor.

A corrupção é a maior chaga na política brasileira e a revelação de sua extensão causa justa indignação. É preciso, pois, punir quem traz o escândalo; é necessário punir os corruptos na Justiça com condenações e na política, não mais os elegendo. Mas também precisamos refletir em como chegamos até aqui, com todos – indivíduos e instituições – revendo com sinceridade nossos papéis e condutas, de modo que possamos ressuscitar a política como atividade voltada para o bem comum, para o debate saudável, para o crescimento do Ceará e do Brasil.

Feliz Páscoa a todos.

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Zé Mayer, assédios e culpas

Por Wanfil em Crônica

06 de Abril de 2017

O ator José Mayer assediou uma colega de trabalho e caiu em merecida desgraça. Assédio moral e sexual. Em nota, tentou amenizar o ocorrido, mas no fim admitiu a culpa sem contestar o duro relato feito pela vítima. Talvez por isso, a confissão, Mayer tenha sido apenas suspenso em vez de sumariamente demitido. Não sei.

De todo modo, fazendo um paralelo nesse Brasil de tantos escândalos, é muito raro ver figuras públicas assumindo seus erros ou crimes. Na política então, a regra é morrer negando ou fingindo que nada aconteceu.

No Ceará basta lembrar do golpe da refinaria, do hospital no Sertão Central que nunca funcionou, dos tatuzões que enferrujam a céu aberto, exemplos de assédios eleitorais impunes, sem que ninguém seja devidamente responsabilizado por atrasos e prejuízos. Não há pedidos de perdão, sinais de arrependimento ou vergonha.

Em Brasília, mesmo diante do maior escândalo de corrupção e da maior recessão da história nacional, os protagonistas do desastre continuam a fingir que nada fizeram demais.

No caso do ator, a opinião pública o condenou, com toda a razão, sem precisar esperar o “trânsito em julgado” dos tribunais. A confiança foi quebrada e isso não tem perdão. Ano que vem será a chance para  o eleitor mostrar que é tão exigente quanto o telespectador.

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Carnes e políticos, instituições e indivíduos: vivemos uma crise de desconfiança sem igual

Por Wanfil em Crônica

23 de Março de 2017

Dá pra confiar?

Em palestra proferida ano passado na Fiec, o professor Clóvis de Barros Filho apresentou de modo muito espirituoso a evolução histórica e filosófica dos conceitos de ética e moral, para incensar logo em seguida uma palavra-chave: confiança. Para Barros, o Brasil vive na atual conjuntura – e não sem motivos – um momento de desconfiança generalizada.

Não que todos devam sair por aí confiando em tudo e todos, mas é que uma sociedade que tem a desconfiança como princípio universal e regra primeira de convivência não consegue construir nada de positivo.

Pois é. De certo modo, a Operação Carne Fraca toca nesse ponto. Grandes empresas do setor de alimentação, que gastam fortunas com propagandas e marketing para convencer o público de que são confiáveis, estão envolvidas, no mínimo, com suspeitas de suborno a fiscais. Ora, quem evita fiscalização, por óbvio, tem o que esconder. A quebra de confiança levará tempo para ser superada. 

Na Lava-Jato, a dimensão do maior esquema de corrupção já descoberto acabou por sepultar de vez a pouca credibilidade de partidos, políticos, legisladores e governantes. Com o Judiciário não é muito diferente. A venda de decisões favoráveis a traficantes descoberta no Tribunal de Justiça do Ceará, por exemplo, é mancha difícil de apagar. Quem pode realmente garantir a lisura de outras decisões? Generalizações são injustas com os honestos, é verdade, mas já ensina o ditado popular que o justo paga pelo pecador.

É claro que a descoberta de tantos problemas significa que existem canais de fiscalização. Entretanto, até esses são acusados de agirem direcionados por interesses diversos. Fica a dúvida, sempre. Não confiamos em quase ninguém. Desconfiamos até mesmo de quem apenas pensa diferente de nós. E a desconfiança impera como uma segunda identidade justamente onde falham a ética e a moral de modo retumbante.

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Dandara e a intolerância que há em nós

Por Wanfil em Crônica

07 de Março de 2017

O brutal assassinato da travesti Dandara, em Fortaleza, chocou pela violência gratuita e covarde expressa em imagens compartilhadas nas redes sociais: um grupo de cinco homens atacando uma pessoa indefesa. O motivo foi ódio à condição homossexual da vítima; a oportunidade se deu com a circunstancial diferença numérica entre agressores e agredido: eram muitos contra um.

A reação de autoridades e entidades civis, bem como a repercussão na imprensa e a rápida resposta com a prisão de suspeitos condiz com a gravidade dos fatos. Que sejam todos devidamente punidos como exemplo pedagógico de que a dignidade humana não tem sexo.

Embora a questão de gênero seja naturalmente colocada no caso em questão, existe outro aspecto, um pouco mais de fundo, a ser observado nesse caso: a cultura de exaltação à intolerância, que tem nas redes sociais seus veículos mais eficientes, e que pode atingir os mais diversos grupos e indivíduos. Negros, mulheres e nordestinos, por exemplo, costumam ser alvos de manifestações racistas, misóginas e xenofóbicas nesses ambientes. Isso é fato. Mas não para por aí. Esportes, política, religião e ideologia, tudo pode ser motivos para a intolerância, para o desprezo à pluralidade, à diferença.

Especialistas dizem que as sensações de anonimato, de distância e de grupo estimulam a agressividade em certas pessoas. Há nisso ressentimentos, frustrações, covardia e medo. Parece algo distante, exclusivamente virtual, até que uma pessoa como Dandara ou algum torcedor de time de futebol acabem assassinados por nada.

Qual a solução para a cultura da intolerância? É fácil ver o mal nos outros, em nós mesmos é que é difícil. Uma cultura, porém, é algo que se enraíza por todo o corpo social, por mais que lavemos as mãos. Correntes de difamações, compartilhamento de informações falsas, disseminação de rótulos degradantes e apelidos pueris fazem parte das nossas timelines, como se diz na internet.

Até que ponto consentimos com isso? Até que ponto somos veículos, voluntários ou involuntários, desses conteúdos carregados de desprezo pelo que nos é diferente? Isso vale especialmente para nós, formadores de opinião. Não significa deixar de discordar com sobriedade, de abdicar da divergência de ideias ou de aceitar tudo, mas de compreender que até entre as pessoas que gostamos, amigos e parentes, existem opiniões diferentes e que isso nãos as torna inimigas nossas. Quanto mais, quem não conhecemos.

É claro que a culpa e a responsabilidade pela morte de Dandara recai sobre os seus assassinos, indivíduos que decidiram agir, em última instância, de acordo com o livre arbítrio que todos possuímos. Que sejam, repito, punidos. No entanto, o homem é produto do seu tempo. E como mostrou Hannah Arendt, sem um exame de consciência de cada um sobre seus atos, indivíduos podem, ainda que por omissão, ajudar a construir uma sociedade em que o mal passa a ser uma banalidade. Que sejamos vigilantes com o que fazemos em relação à tolerância e o respeitos aos outros.

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A tragédia da Chapecoense e a condição humana

Por Wanfil em Crônica

04 de dezembro de 2016

A Varanda, de Manet (1868)

A Varanda, de Manet (1868)

Em 1868 Édouard Manet apresentou “A Varanda”, pintura em óleo que retrata o frescor de duas jovens a contemplar a vista. Anos depois, em 1950, René Magritte usou o mesmo cenário para pintar “O Balcão de Manet”, substituindo as pessoas do original por mórbidos caixões.

O Balcão de Manet, de Margritte (1950)

O Balcão de Manet, de Magritte (1950)

Em 2016, a tragédia do acidente aéreo com a equipe da Chapecoense, jornalistas e tripulação de um voo fretado comoveu o mundo. As imagens do avião despedaçado contrastam com outras feitas nos dias anteriores, de jogadores repletos de alegria por suas conquistas, de jovens que contemplavam a vida que teriam e os planos que faziam. Tudo encerrado de uma hora para a outra.

O mesmo contraste entre os quadros de Manet e Magritte: a vida é frágil, um sopro. É a condição humana que nos aproxima do episódio. É doloroso constatar assim a efemeridade da vida.

Tudo indica, preliminarmente, que a possível causa do acidente tenha sido a irresponsabilidade do piloto, que arriscou tudo apostando em voar no limite do combustível que, ao final, se mostraria insuficiente para levar a aeronave até o destino planejado. E agora aqueles jovens atletas, com saúde e cheios de vida, já não estão entre nós. Por muitos instantes, ao acompanhar a intensa cobertura sobre o caso, imaginei, como Magritte, um paralelo da realidade: não confiamos demais na ideia de tempo que cultivamos, confiantes de que amanhã será mais um dia, como se a matéria não fosse frágil, deixando para depois o que poderia ser dito hoje?

Que Deus conforte parentes e amigos das vítimas, que seguem agora, sendo o que são, na maior das viagens.

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Amigos petistas vejam o lado bom do impeachment

Por Wanfil em Crônica

12 de Maio de 2016

Faça como Pangloss, mentor de Cândido na sátira O Otimismo, de Voltaire (1759)

Faça como Pangloss, mentor de Cândido na sátira O Otimismo, de Voltaire (1759)

Os eventos, mesmo os mais difíceis, sempre podem ser vistos com otimismo, ensinava Pangloss a Cândido, personagens de Voltaire. “Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”, repetia diante dos reveses da vida.

Noto que amigos, conhecidos e até desconhecidos que avisto em minhas redes sociais, estão inconsoláveis com o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Alguns por afinidade ideológica, outros por lealdade partidária, uns tantos por necessidade (em geral comissionados e assessores) e vários por simpatia gratuita mesmo. Os motivos variam de acordo com o senso de justiça, ou de urgência, de cada um. Esses também estão, naturalmente, revoltados com Michel Temer, que assume interinamente a Presidência da República.

Comovido com esse sofrimento, aqui estou, solidário, a dizer-lhes: há algo de bom para vocês em tudo isso. Se antes estava difícil pregar contra a corrupção, especialmente após o mensalão e o petrolão, agora já se pode apontar ministros enrolados com a Lava Jato. Se antes o constrangimento de ver uma gestão autoproclamada progressista cortando benefícios como o seguro-desemprego era uma humilhação, agora já é possível acusar de neoliberais (quanta saudade desse xingamento, hein?) os que adotam medidas de restrição para fazer o ajuste que pode colocar a economia de volta nos trilhos. Sem contar o alívio que será cobrar aumento salarial, elevação de gastos sociais e nos investimentos em infraestrutura, tudo isso e muito mais, sem precisar se preocupar em fechar a conta. É o paraíso! É o melhor dos mundos possíveis.

Sem os erros nas últimas eleições, sem a maquiagem nas contas públicas, sem os esquemas turbinados nas estatais e nos fundos de pensão, sem os acordos com as empreiteiras, sem o impeachment, sem Eduardo Cunha e Michel Temer, nada disso seria possível. É bem verdade que, após muito sofrer, Cândido conclui, um tanto cético e pessimista, que “devemos cultivar o nosso jardim”. Mas essa parte, convenhamos, não cabe na narrativa do golpismo.

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Dilma repete Odorico Paraguaçu e mostra o Brasil para a ONU

Por Wanfil em Crônica

22 de Abril de 2016

Odorico na ONU: "I am here to kill the snake and show the stick. Because, with me, is bread bread, cheese cheese"

Odorico na ONU: “I am here to kill the snake and show the stick. Because, with me, is bread bread, cheese cheese”

Causou enorme alvoroço no Brasil a viagem da presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos para evento da Nações Unidas, realizado em Nova Iorque. De início, aventou-se a possibilidade de a presidente usar o espaço para “denunciar” o que ela e seus aliados chamam de golpe.

Ministros do STF deram duras declarações de repúdio a tese, a oposição protestou, um punhado de manifestantes favoráveis e contrários ao impeachment foram às ruas para disputar, vejam só, a opinião pública americana e internacional.

Ao final, Dilma focou sua fala em questões climáticas, objeto do encontro, para falar indiretamente e sem usar a expressão “golpe”, sobre a crise política no Brasil. Foi, portanto, muito barulho por nada.

O caso me fez lembrar um famoso episódio do seriado “O Bem Amado”, escrito por Dias Gomes e produzido pela Rede Globo, quando o prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) foi a Nova Iorque oferecer um terreno para sediar a ONU. Enquanto isso, em Sucupira, a oposição acusava-o de inventar pretextos para viajar e governistas comemoravam o espírito visionário de Paraguaçu. Naturalmente, ninguém o ouviu.

Uma comparação direta entre Dilma e Odorico pode até ser feita, mas a associação de ideias que me levou de volta ao antigo seriado foi mesmo a semelhança com a celeuma interna gerada em torno de algo que, para o estrangeiro, fora de alguns círculos comerciais e diplomáticos, é totalmente irrelevante. Ninguém por lá se importa com o Brasil. Por acaso alguém se lembra de alguma comoção internacional diante do impeachment de Collor? Pois é.

Confira abaixo trecho do discurso proferido por Odorico Paraguaçu na calçada da ONU:

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André Esteves e a máxima de Gordon Gekko

Por Wanfil em Crônica

01 de dezembro de 2015

Gordon Gekko: "Ganância é bom".

Gordon Gekko: “Ganância é bom”

Se Chatô foi o nosso Cidadão Kane, o banqueiro André Esteves, preso na Operação Lava Jato, é o nosso Gordon Gekko, personagem de Michael Douglas em Wall Street – Poder e Cobiça, de 1987. A ascensão precoce e vertiginosa, a áurea de sucesso, a fama de especulador agressivo, a imagem de vencedor implacável, tudo isso aproxima Gekko e Esteves. E também agora a prisão.

Ainda na adolescência, ao ver Gekko ir em cana por crimes fiscais, conclui: “se fosse no Brasil não aconteceria nada, mas nos Estados Unidos é diferente”. Para a época o raciocínio estava correto. Hoje, essa certeza já não é inquebrantável.

Ao que parece, nossa democracia, aos poucos, com avanços e retrocessos, vai amadurecendo. Ainda somos tolerantes com muita coisa, mas a margem de manobra para todo o tipo de ilicitude ficou menor com as prisões do banqueiro do BTG Pactual e também a do senador petista Delcídio do Amaral, e antes, a do empresário Marcelo Odebrecht. Há no caso brasileiro uma singularidade em relação ao filme que merece destaque: todos esses figurões presos têm em comum o fato de atuarem próximos ao governo federal, mais especificamente, em negócios ligados à Petrobras, o que acrescenta um elemento de promiscuidade nas relações entre o Estado e setores privados, um vício antigo no Brasil.

Voltando a Wall Street, inebriado pelo poder e pelo excesso de confiança, Gordon Gekko ensinava: “O que vale a pena ser feito, vale a pena ser feito por dinheiro”. Era a confissão, via ficção, de um pensamento hegemônico em certos círculos. Michael Douglas ganhou um Oscar. André Esteves está em Bangu 8 cumprindo prisão preventiva. Valeu a pena?

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André Esteves e a máxima de Gordon Gekko

Por Wanfil em Crônica

01 de dezembro de 2015

Gordon Gekko: "Ganância é bom".

Gordon Gekko: “Ganância é bom”

Se Chatô foi o nosso Cidadão Kane, o banqueiro André Esteves, preso na Operação Lava Jato, é o nosso Gordon Gekko, personagem de Michael Douglas em Wall Street – Poder e Cobiça, de 1987. A ascensão precoce e vertiginosa, a áurea de sucesso, a fama de especulador agressivo, a imagem de vencedor implacável, tudo isso aproxima Gekko e Esteves. E também agora a prisão.

Ainda na adolescência, ao ver Gekko ir em cana por crimes fiscais, conclui: “se fosse no Brasil não aconteceria nada, mas nos Estados Unidos é diferente”. Para a época o raciocínio estava correto. Hoje, essa certeza já não é inquebrantável.

Ao que parece, nossa democracia, aos poucos, com avanços e retrocessos, vai amadurecendo. Ainda somos tolerantes com muita coisa, mas a margem de manobra para todo o tipo de ilicitude ficou menor com as prisões do banqueiro do BTG Pactual e também a do senador petista Delcídio do Amaral, e antes, a do empresário Marcelo Odebrecht. Há no caso brasileiro uma singularidade em relação ao filme que merece destaque: todos esses figurões presos têm em comum o fato de atuarem próximos ao governo federal, mais especificamente, em negócios ligados à Petrobras, o que acrescenta um elemento de promiscuidade nas relações entre o Estado e setores privados, um vício antigo no Brasil.

Voltando a Wall Street, inebriado pelo poder e pelo excesso de confiança, Gordon Gekko ensinava: “O que vale a pena ser feito, vale a pena ser feito por dinheiro”. Era a confissão, via ficção, de um pensamento hegemônico em certos círculos. Michael Douglas ganhou um Oscar. André Esteves está em Bangu 8 cumprindo prisão preventiva. Valeu a pena?