Súplica cearense - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Súplica cearense

Por Wanfil em Ceará

02 de Abril de 2014

Três dias de chuva em Fortaleza bastaram para expor a fragilidade de ações preventivas no Ceará diante de seu clima semiárido. De um lado, a seca em todo o Estado, com a população cada vez mais dependente do Bolsa-Família. De outro, uma precipitação de 170 milímetros na capital (considerável, mas nenhum dilúvio, diga-se) fez desmancharem hospitais e alagar túneis.

No Ceará, no ano de 2014, um coro silencioso que vai do mais simples sertanejo até as mais graduadas e imponentes autoridades, remete à sina dos antigos retirantes nordestinos que na fé religiosa depositavam a esperança de uma graça ou o perdão dos pecados, como na famosa canção Súplica Cearense, gravada em 1960:

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Questão de fé

Passados 54 anos, os cearenses voltaram à mesma condição, obrigados a olhar para o céu e rezar, esperando por Deus. Não estou aqui desmerecendo o valor da fé, de jeito nenhum! Na verdade, recorro a uma passagem de Jesus para colocar as coisas em seus devidos lugares: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Com o conhecimento adquirido pelo homem, no uso da inteligência e do livre arbítrio com os quais Deus o presenteou, os fenômenos da chuva e da estiagem não podem mais ser vistos como bênção ou castigo, meros caprichos ou acidentes que fogem à divina perfeição das leis naturais. Cabe a César, ou aos homens, especialmente aos governantes, conduzir o esforço necessário para convivermos bem com as condições e especificidades da natureza em nossa região.

Isso já é possível. O Ceará possui boas reservas hídricas, mas ainda não conseguiu concluir a interligação desses pontos. A transposição do Rio São Francisco, que deveria ter ficado pronta em 2010, se arrasta aos trancos e barrancos, com apenas metade pronta, pelo dobro do preço previsto inicialmente. Existe tecnologia e recursos, falta competência.

Parece agilidade, mas não é

Recentemente o governador Cid Gomes anunciou que adutoras emergenciais serão feitas para evitar o colapso no abastecimento d’água de alguns municípios. E agora, por causa das chuvas em Fortaleza, a secretaria estadual da Saúde providenciou, em menos de 36 horas, o reparo do teto do HGF, que desabou sobre leitos de pacientes em estado grave. Já o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, criou um comitê para especial para acompanhar tudo.

São iniciativas importantes, sem dúvida, que até dão a impressão de agilidade, mas que devem ser vistas pelo que são: paliativos, remédios que aliviam os sintomas, mas que não curam a doença.

Nova súplica

Esses casos são apenas mais algumas amostras de uma concepção administrativa que está na moda no Brasil e no Ceará: as gestões esperam os desastres acontecerem e os problemas se agravarem, para só depois e às pressas (o que implica maiores custos), fazerem o que deveria ter sido feito antes, com calma e mais critério. Atrasadas, agem de uma hora para a outra, sem que nada as impeça. Na bonança, reclamam da burocracia, dos órgãos de fiscalização, do orçamento ou da Lei de Licitações. Na desgraça, sabem agir rápido para conter danos de imagem, especialmente em ano eleitoral.

No fim, a súplica cearense do Século 21 não pode ser a mesma dos anos 60 do século passado. Agora, o que falta mesmo é política pública de qualidade.

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Súplica cearense

Por Wanfil em Ceará

02 de Abril de 2014

Três dias de chuva em Fortaleza bastaram para expor a fragilidade de ações preventivas no Ceará diante de seu clima semiárido. De um lado, a seca em todo o Estado, com a população cada vez mais dependente do Bolsa-Família. De outro, uma precipitação de 170 milímetros na capital (considerável, mas nenhum dilúvio, diga-se) fez desmancharem hospitais e alagar túneis.

No Ceará, no ano de 2014, um coro silencioso que vai do mais simples sertanejo até as mais graduadas e imponentes autoridades, remete à sina dos antigos retirantes nordestinos que na fé religiosa depositavam a esperança de uma graça ou o perdão dos pecados, como na famosa canção Súplica Cearense, gravada em 1960:

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Questão de fé

Passados 54 anos, os cearenses voltaram à mesma condição, obrigados a olhar para o céu e rezar, esperando por Deus. Não estou aqui desmerecendo o valor da fé, de jeito nenhum! Na verdade, recorro a uma passagem de Jesus para colocar as coisas em seus devidos lugares: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Com o conhecimento adquirido pelo homem, no uso da inteligência e do livre arbítrio com os quais Deus o presenteou, os fenômenos da chuva e da estiagem não podem mais ser vistos como bênção ou castigo, meros caprichos ou acidentes que fogem à divina perfeição das leis naturais. Cabe a César, ou aos homens, especialmente aos governantes, conduzir o esforço necessário para convivermos bem com as condições e especificidades da natureza em nossa região.

Isso já é possível. O Ceará possui boas reservas hídricas, mas ainda não conseguiu concluir a interligação desses pontos. A transposição do Rio São Francisco, que deveria ter ficado pronta em 2010, se arrasta aos trancos e barrancos, com apenas metade pronta, pelo dobro do preço previsto inicialmente. Existe tecnologia e recursos, falta competência.

Parece agilidade, mas não é

Recentemente o governador Cid Gomes anunciou que adutoras emergenciais serão feitas para evitar o colapso no abastecimento d’água de alguns municípios. E agora, por causa das chuvas em Fortaleza, a secretaria estadual da Saúde providenciou, em menos de 36 horas, o reparo do teto do HGF, que desabou sobre leitos de pacientes em estado grave. Já o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, criou um comitê para especial para acompanhar tudo.

São iniciativas importantes, sem dúvida, que até dão a impressão de agilidade, mas que devem ser vistas pelo que são: paliativos, remédios que aliviam os sintomas, mas que não curam a doença.

Nova súplica

Esses casos são apenas mais algumas amostras de uma concepção administrativa que está na moda no Brasil e no Ceará: as gestões esperam os desastres acontecerem e os problemas se agravarem, para só depois e às pressas (o que implica maiores custos), fazerem o que deveria ter sido feito antes, com calma e mais critério. Atrasadas, agem de uma hora para a outra, sem que nada as impeça. Na bonança, reclamam da burocracia, dos órgãos de fiscalização, do orçamento ou da Lei de Licitações. Na desgraça, sabem agir rápido para conter danos de imagem, especialmente em ano eleitoral.

No fim, a súplica cearense do Século 21 não pode ser a mesma dos anos 60 do século passado. Agora, o que falta mesmo é política pública de qualidade.