As revelações da seca que castiga o Ceará 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

As revelações da seca que castiga o Ceará. Ou: Sem água, não adianta ter aquário

Por Wanfil em Ceará

25 de Maio de 2012

Retirantes (1944), de Cândido Portinari. Sina nordestina?

O Nordeste sofre mais uma vez com a seca. Mais precisamente, a gente humilde do sertão sofre com a estiagem. Para socorrê-las, o governo do Ceará lançou uma campanha de arrecadação de água potável e de alimentos não perecíveis para distribuir entre as famílias atingidas, batizada de Força Solidária. Ninguém em sã consciência é contra uma iniciativa dessas. Nessa hora de necessidade, qualquer ajuda é preciosa. No entanto, é preciso estar atento para não se deixar enganar pelas aparências. O que parece agilidade governamental na verdade é disfarce para a própria imprevidência da gestão pública. Vejamos.

Fenômeno cíclico

Primeiro, não estamos diante de uma catástrofe inesperada. Secas são fenômenos perfeitamente esperados no semi-árido por uma série de razões, como pode atestar qualquer climatologista. Não constituem, portanto, nenhuma novidade ambiental resultante de eventuais desequilíbrios. Via de regra, é algo com que temos que conviver.

Segundo, quando governos lançam campanhas de solidariedade, é justamente a condição de emergência – o inesperado – que as justificam. Dificuldades de acesso ao locais a serem atendidos, destruição dos estoques ou grande número de desabrigados em função de alguma tragédia, demandam esforços adicionais que não estavam previstos. Agora, se o caso é crônico – “histórico”, como bem lembrou o secretário Nelson Martins, do Desenvolvimento Agrário – ou cíclico, políticas públicas de prevenção ou de convivência deveriam ter sido ser estipuladas pelo governo. Se ao longo dos anos as ações de vários governos contribuíram para reduzir os impactos de secas menores, fica claro que ainda não conseguimos conviver com uma seca maior.

Choque de realidade

Por último, resta evidente que os discursos de um novo tempo para o Ceará e para o Nordeste, alardeados na última década, não correspondem à realidade. Bolsa-família não garante geração de riqueza – é transferência de salário da classe média para os pobres, vendida como caridade oficial. Ameniza a penúria dos miseráveis em tempos de normalidade, mas quando a coisa fica difícil, o jeito é apelar à caridade dos cidadãos. A promessa de Transposição do São Francisco continua uma promessa que guarda um bocado de mistificação.

As cenas da nova seca remetem a uma memória não tão distante para os mais velhos. Animais mortos, terra esturricada, gente bebendo água barrenta, tudo compondo um lamentável choque de realidade. Se melhoramos em alguns aspectos nas últimas décadas, preocupa muito, choca mesmo, termos a mais básica das prioridades sem solução. Situação ironicamente expressa por uma metáfora casual, muito apropriada aos dias correntes:  A construção um aquário milionário num estado onde falta água.

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As revelações da seca que castiga o Ceará. Ou: Sem água, não adianta ter aquário

Por Wanfil em Ceará

25 de Maio de 2012

Retirantes (1944), de Cândido Portinari. Sina nordestina?

O Nordeste sofre mais uma vez com a seca. Mais precisamente, a gente humilde do sertão sofre com a estiagem. Para socorrê-las, o governo do Ceará lançou uma campanha de arrecadação de água potável e de alimentos não perecíveis para distribuir entre as famílias atingidas, batizada de Força Solidária. Ninguém em sã consciência é contra uma iniciativa dessas. Nessa hora de necessidade, qualquer ajuda é preciosa. No entanto, é preciso estar atento para não se deixar enganar pelas aparências. O que parece agilidade governamental na verdade é disfarce para a própria imprevidência da gestão pública. Vejamos.

Fenômeno cíclico

Primeiro, não estamos diante de uma catástrofe inesperada. Secas são fenômenos perfeitamente esperados no semi-árido por uma série de razões, como pode atestar qualquer climatologista. Não constituem, portanto, nenhuma novidade ambiental resultante de eventuais desequilíbrios. Via de regra, é algo com que temos que conviver.

Segundo, quando governos lançam campanhas de solidariedade, é justamente a condição de emergência – o inesperado – que as justificam. Dificuldades de acesso ao locais a serem atendidos, destruição dos estoques ou grande número de desabrigados em função de alguma tragédia, demandam esforços adicionais que não estavam previstos. Agora, se o caso é crônico – “histórico”, como bem lembrou o secretário Nelson Martins, do Desenvolvimento Agrário – ou cíclico, políticas públicas de prevenção ou de convivência deveriam ter sido ser estipuladas pelo governo. Se ao longo dos anos as ações de vários governos contribuíram para reduzir os impactos de secas menores, fica claro que ainda não conseguimos conviver com uma seca maior.

Choque de realidade

Por último, resta evidente que os discursos de um novo tempo para o Ceará e para o Nordeste, alardeados na última década, não correspondem à realidade. Bolsa-família não garante geração de riqueza – é transferência de salário da classe média para os pobres, vendida como caridade oficial. Ameniza a penúria dos miseráveis em tempos de normalidade, mas quando a coisa fica difícil, o jeito é apelar à caridade dos cidadãos. A promessa de Transposição do São Francisco continua uma promessa que guarda um bocado de mistificação.

As cenas da nova seca remetem a uma memória não tão distante para os mais velhos. Animais mortos, terra esturricada, gente bebendo água barrenta, tudo compondo um lamentável choque de realidade. Se melhoramos em alguns aspectos nas últimas décadas, preocupa muito, choca mesmo, termos a mais básica das prioridades sem solução. Situação ironicamente expressa por uma metáfora casual, muito apropriada aos dias correntes:  A construção um aquário milionário num estado onde falta água.